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Author: Rosacruz Áurea

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Logon é a revista online da Escola da Rosacruz Áurea. LOGON explora uma nova perspectiva do desenvolvimento do ser humano e das mudanças na sociedade do século 21, que emergem na arte, na ciência e na religião. Visite nosso site: www.logon.media/pt-br
236 Episodes
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A roda de fogo da dança de Shiva, o Vishnu adormecido e muitas outras imagens das divindades indianas são instrumentos que buscam despertar a percepção de nosso próprio Atman.BRAHMAN E AS DIVINDADES INDIANAS: FACES DO DIVINO – PARTE 2Imagens, templos e estátuas nos convidam a buscar nosso ser mais íntimo e, ao fazê-lo, percebemos que somos parte de Brahman e que podemos, de fato, nos fundir com ele.A roda de fogo da dança de Shiva, que representa a superação da Roda de Samsara e de suas ilusões, irradia uma alegria, um poder e uma esperança sobrenaturais.Vishnu, adormecido sobre a serpente do mundo no oceano do infinito, observando tudo o que acontece no universo, toca o observador de alguma maneira, buscando conectá-lo com seu próprio Atman.São mediadores que podem nos tocar, mas que frequentemente são incompreendidos. Seus poderes anseiam criar em nós ouvidos capazes de ouvir e olhos capazes de ver.Assemelham-se às muitas representações de Buda, o Iluminado.A estátua de Buda, irradiando paz e serenidade perfeitas, representa o Buda Maitreya, aquele que está por vir, em pé. Tal imagem pode nos revelar os ensinamentos de Buda e sua superação deste mundo. Não é a forma (a face externa do Divino) que é essencial, mas a presença de outro mundo que opera por meio da forma, o Nirvana de Buda. Não é isso que os hindus chamam de Brahman? No Sutra do Diamante [1] , Buda responde à pergunta a respeito de como reconhecer um Perfeito, um Iluminado, com o seguinte verso:Aquele que me busca na forma,Aquele que me busca nos sons,Ele se desviou do caminho,Pois ele não consegue reconhecer o Tathagata (o Exaltado). A dança de ShivaA dança de Shiva na roda de fogo é provavelmente uma das representações mais famosas e difundidas da divindade da destruição e da renovação. Devido ao seu dinamismo, a imagem, a partir da nossa percepção concreta, parece ser o oposto da tranquilidade e sublimidade de Buda.Por outro lado, a dança da vitória sobre o demônio, na qual Shiva se encontra, não expressa também a conexão com outro mundo e a conquista de outra consciência?Nosso mundo, governado pelo mal, é transitório e pequeno quando comparado à alegria, à liberdade e ao poder do Outro que existe dentro de nós, o Atman, que está em unidade com Brahman. É isso que a dança de Shiva pode nos mostrar. Sua dança mística e sagrada deseja nos envolver e nos conduzir pelo caminho que leva do mundo da separação e das dualidades para o mundo da liberdade divina. Shiva quer que nos ajudar a dissolver nossos laços com este mundo e alcançar uma nova vida. Por isso, é chamado de destruidor e criador. Ramakrishna, um sábio iogue de Calcutá que viveu no século XIX e era adorador de Kali (a manifestação feminina destrutiva de Shiva, a mãe divina), disse o seguinte sobre a adoração a Deus:Quando invoco o ser supremo em seu estado de repouso, chamo-o de BRAHMAN. Quando penso nele como ativo, criador, sustentador e destruidor, chamo-o de Kali (ou Prakriti), Shakti, ou Maya. [...] O Deus pessoal e o Deus impessoal são um e o mesmo, como o leite e sua cor branca... É impossível pensar em um sem o outro. A Mãe Divina e BRAHMAN são um [2] . O sono de Vishnu no vale de Budhanilkata KatmanduUma representação mítica mostra Vishnu dormindo sobre a serpente Ananta-Shesha no oceano do Infinito. Essa representação busca retratar a infinitude de Brahman (como água, oceano) e a serpente divina Shesha, que simboliza sabedoria e poder criativo. Suas 11 cabeças circundam e protegem a cabeça de Vishnu. Shesha é o rei das serpentes de muitas cabeças e um servo fiel de Vishnu. Embora as representações e os símbolos contidos na estátua indiquem claramente uma representação de Vishnu, o nome Budhanilkanta (garganta azul) remete a uma lenda difundida no Nepal sobre Shiva. Segundo essa lenda, Shiva foi incumbido de salvar o mundo da destruição e das garras de um demônio. Ele engoliu o mal, o demônio, o veneno mundano, mas este queimava em sua garganta como fogo. Para extinguir esse fogo, Shiva golpeou o chão com seu tridente na cordilheira de Gosainkunda, ao norte de Katmandu, criando lagos no local para saciar sua sede. Esses lagos ainda são reverenciados como sagrados e peregrinações especiais são realizadas anualmente até hoje. Com a água dos lagos de Gosainkunda, ele conseguiu extinguir o fogo em sua garganta. Diz-se que as águas que transbordam dos lagos alimentam o lago onde Vishnu repousa em Budhanilkanta. Esta lenda reúne a trindade sagrada do hinduísmo (Trimúrti), ou seja, as divindades Brahma, Vishnu e Shiva em seus principais atributos: Brahma, o oceano infinito; Shiva, o destruidor e salvador do mundo; e Vishnu, o preservador em união com a serpente sagrada Shesha.As forças da Trimúrti formam uma trindade. Podemos também experimentar sua atuação em nós mesmos? Em cada ser humano, o criativo informe se manifesta. Além disso, as forças da preservação e as da destruição atuam em todos, de modo que o novo se torna possível. As representações pictóricas pretendem ser impulsos que despertem em nós os ouvidos e os olhos interiores com os quais recebemos impressões da atuação divina. Para isso, precisamos entrar em um estado de consciência silenciosa, em um estado de escuta e observação.Krishna explica no Bhagavad Gita que as verdades supremas sobre Deus e o mundo não podem ser transmitidas oralmente e tenta abrir os olhos interiores do discípulo Arjuna:Aquele que vê o ser supremo existindo imperecivelmente em todas as coisas perecíveis, vê verdadeiramente. [...] Aquele que percebe que todas as suas ações são realizadas apenas pela natureza, e que o eu mais íntimo não é o agente, vê verdadeiramente. E quando percebe que todas as coisas são abrangidas pelo Uno, atinge a mente suprema. Imagem de: Horst Matthaus
BRAHMAN E AS DIVINDADES INDIANAS: FACES DO DIVINO (Parte 1)Os mitos, contos e imagens sobre as diversas faces do divino na Índia podem e devem ser compreendidos como indícios de que por trás dessas afirmações reside e atua um poder que não é “deste mundo”, um poder que carregamos dentro de nós e ao qual podemos entregar nossa consciência mundana egóica com humildade, fé e confiança. Carregamos dentro de nós a chave, ou melhor, a participação em Brahman, no Nirvana ou no “reino que não é deste mundo”.O panteão de divindades hindus é imensurável, como está escrito em uma das escrituras sagradas: “inumeráveis como os grãos de areia do rio Ganges”. E, no entanto, por trás, acima ou dentro dessa multiplicidade, existe um ponto de partida, um princípio que abrange todas as limitações de forma, tempo, espaço e representações. Chama-se Brahman, assim como...… o ABSOLUTO, o que tudo abrange, o UNIVERSAL. É o princípio onipresente, divino, sem nome, sem forma, eternamente absoluto, inerente a tudo. BRAHMAN é o princípio divino central do Vedanta. BRAHMAN não possui qualidade material, não é um conceito deste mundo e, portanto, não pode ser descrito em palavras ou imagens. BRAHMAN é o EU, o verdadeiro Eu de cada organismo e a mais elevada realidade não dual [1].Este [BRAHMAN] é meu Atman no coração interior, menor que um grão de arroz, um grão de cevada, um grão de mostarda ou um grão de milho. Este é meu Atman no coração interior, maior que a terra, maior que o céu, maior que os mundos. O Onipresente, Onipotente, Onisciente, Oniabarcante... esta é minha alma no coração interior, este é o BRAHMAN, no qual eu, partindo daqui, entrarei. A quem assim foi, certamente, não há dúvida [2].Desse “grão de milho” surge todo o universo visível e invisível, no qual deuses, demônios, sistemas solares, galáxias, mas também pessoas, animais, plantas e minerais se manifestam por meio de energias, vibrações e cristalizações. A criação do universo leva a uma aparente separação entre Brahman e Suas criaturas, mas essa separação é apenas uma ilusão, visto que tudo é permeado por Brahman e existe em unidade com Ele. A criação do universo, seu florescimento e sua dissolução são vistos no hinduísmo como os “dias de Brahman”, Kalpas (períodos de eras inimaginavelmente longas).A humanidade fez inúmeras tentativas de descrever o processo de criação do universo. Muitas culturas, senão todas, tentaram encontrar respostas a respeito do surgimento do absoluto, do abrangente, do ilimitado não-ser, no mundo perceptível por nossos sentidos. A partir disso surgiram inúmeros escritos, imagens, estátuas, orações, filosofias, todos tentando tornar tangível o incompreensível, tornar cognoscível o incognoscível, tornar audível o inaudível. Ao longo do caminho, surgiram deuses, divindades, anjos e santos com incontáveis formas e atributos — imagens e representações daquilo que não pode ser representado. Todos são tentativas limitadas de testemunhar o mistério inefável de Deus no mundo sensorial. Seriam essas imagens, estátuas, templos e textos “faces de Deus”?Podem indicar à humanidade o mistério de Brahman e levá-la a respostas em sua busca e questionamento interior?Com base em representações selecionadas dos três principais deuses do hinduísmo (Brahma, Vishnu e Shiva), tentaremos mostrar como as imagens desses três podem nos guiar no caminho da busca por Brahman dentro de nós. Trimurti (“as três figuras”): Brahma, Vishnu e ShivaExistem muitos mitos e contos sobre a criação e a não-criação do universo a partir do Absoluto, Brahman. Todos têm algo em comum: a manifestação dos três deuses principais, Brahma, Vishnu e Shiva, uma trindade que, por sua vez, deu origem a inúmeras outras divindades, frequentemente com uma ligação direta à vida humana, seus desejos, medos e necessidades.Para Brahma é atribuída a criação dos mundos e do universo. Vishnu é visto como o sustentador da criação. Shiva é visto como o destruidor da ignorância e o renovador. Atributos simbólicos são dados a cada uma das três divindades, assim como uma manifestação feminina, bem como "montarias", símbolos e posturas místicas das mãos (mudras).Sobre a origem de Brahma, diz-se: Brahma é o primogênito do universo. Para criar o mundo e a raça humana, ele se dividiu em duas metades: o princípio masculino Brahma e o princípio feminino, a deusa Gayatri, que por sua vez se expressa em muitas manifestações diferentes, como, por exemplo, Saraswati [3].No hinduísmo praticado hoje, porém, Brahma é quase invisível. Existem pouquíssimos templos na Índia onde ele é adorado com exclusividade. O surgimento do universo, seu florescimento e seu desaparecimento são vistos como a inspiração e a expiração de Brahma. Os períodos inimaginavelmente longos dessa inspiração e expiração são dissociados da vida e do trabalho cotidianos de humanos e deuses. Brahma é frequentemente representado como um velho sábio com quatro cabeças, o que implica que ele pode observar todas as quatro direções e, portanto, é onipresente. Subentende-se também que ele irradia os quatro textos básicos do hinduísmo, os quatro Vedas, para mantê-los sempre presentes na consciência da humanidade.A manifestação feminina mais conhecida e utilizada de Brahma é Saraswati, a deusa do conhecimento e da aprendizagem, bem como da arte e da fertilidade. Crianças em idade escolar e estudantes, artistas e estudiosos oram a Saraswati, que deseja nos mostrar o caminho para uma sabedoria que leva à superação da separação e à união do Atman individualizado com Brahman.As outras duas divindades da trindade — Vishnu, o sustentador, e Shiva, o destruidor e renovador do mundo — são mais visíveis e tangíveis para as pessoas. Elas são praticamente onipresentes. Inúmeros templos, santuários, árvores sagradas, cursos d'água, montanhas, etc., são dedicados a Vishnu ou Shiva em uma ou outra encarnação. Para todas as necessidades, desejos e expectativas, existem imagens, estátuas e templos representando uma dessas divindades. Sacrifícios são feitos e espera-se delas que realizem desejos. A maioria desses desejos está relacionada à vida cotidiana e seus problemas, embora todas as escrituras sagradas da Índia sempre apontem para o transcendente, para a superação dos laços com este mundo e a absorção em Brahman.(continua na parte 2)Photo: Wikipedia CCO
A NATUREZA DA REALIDADEA natureza da realidadeDeixe de lado a busca por Deus,pela criação e por coisas semelhantes.Busque-O a partir de si mesmo.E descubra quem é aquele que, em si mesmo, faz todas as coisas suas e diz:“Meu Deus, minha mente, meu pensamento, minha alma, meu corpo”.Compreenda de onde vêm a tristeza, a alegria, o amor e o ódio;a vigília e o sono involuntários, a ira e a afeição involuntárias.E, se examinar cuidadosamente essas coisas, encontrará o próprio Deus em si mesmo, na unidade e na multiplicidade.Monoimo (gnóstico árabe)Esta citação nos desperta para o verdadeiro autoconhecimento, que é nossa única realidade… Não para buscar um auxílio mágico externo, mas para encontrá-lo em nós mesmos.Possuir o conhecimento não nos dá a sua experiência, que acontece somente no presente... Estou aqui, neste momento, e é somente nele que algo novo pode acontecer... Aprender o suficiente com as lições do passado e viver no presente, sobre esta base, criará um futuro pleno de vida. Minha alma somente pode ser verdadeiramente nutrida, fortificada, purificada e enriquecida pela plenitude do instante. Se eu me contento em ser fiel a esta Luz, minha alma saberá muito bem como se regenerar; o desafio é observar nossos pensamentos para deixá-los desaparecer, em vez de vagar com eles em múltiplas criações inúteis.Energeticamente, criamos nossa realidade a cada instante da nossa vida. É o que torna cada segundo tão precioso: exatamente como uma dádiva. O presente é uma janela que se abre para a verdadeira vida. No entanto, com muita frequência, não sentimos o desejo de permanecer no presente, pois não o consideramos suficientemente interessante para merecer toda a nossa atenção. Temos tantas outras coisas a fazer... Se não nos abrirmos para o que o presente tem a oferecer, deixamos de receber as suas dádivas no mesmo instante.A Realidade interna anuncia, antecipa a Realidade externa e varia conforme a observamos ou não. Ela está em constante mudança, conforme nossa percepção. Nossa consciência cria a nossa realidade, e não podemos manifestar nada que já não tenha sido inteiramente formado dentro de nós.A cada instante, nos encontramos em um ponto do tempo em que o passado e o futuro se separam. Quando não é o passado que nos atrai para si, é o futuro que nos preocupa. Esse passado é quase desconhecido, e o futuro, uma projeção, uma expectativa. Cabe a nós a difícil tarefa de nos equilibrarmos entre os dois e permanecermos centrados. E isso nos torna silenciosos… Nesse silêncio, o tempo não existe.Em um momento da minha vida, parti em busca de Deus, do Conhecimento, do amor, enfim, de um ideal… Eu me projetei para fora, enquanto dentro de mim vivem a Realidade, a Verdade, o Amor.Preciso apenas escutar, observar o que É, sem julgamento, somente ver o que é para conhecê-lo. Permanecer com o que é me transforma, me torna silencioso e, nesse silêncio, a Realidade age... Tudo o mais que eu fizer a afastará, como o vento dissipa as nuvens.Se estou atento a tudo o que pode drenar minha energia; se zelo pela minha integridade; se os meus mecanismos mentais se dissolvem; se não desejo mais me tornar alguém ou algo e, assim, deixo de elaborar grandes planos para meu futuro, já que o instante, tão rico, me indica o caminho a seguir dia após dia, instante após instante; se ajo por necessidade; se permaneço em minha natureza verdadeira e simples… isso atrai naturalmente o Amor, que se manifesta pela sua irradiação, sua vibração, sua energia… Então, faço o que é certo.Assim, compreendo que, sem esse novo estado de ser, nada posso! Só me resta acolher essa vibração como meu único tesouro, a fim de viver nela, com ela e por meio dela. Dessa maneira, eu me dirijo rumo à Única Verdade por um caminho que toma forma passo a passo, no presente… cada passo surgindo de um conhecimento interior do caminho a ser percorrido. Esse caminho é para mim real, mas invisível…Imagem: Ghislaine Bousquet-Egli
#233 Pedra sobre pedra

#233 Pedra sobre pedra

2026-09-3007:32

PEDRA SOBRE PEDRA A realidade de um símboloElas não conseguiam se lembrar de quando haviam chegado ali, nem exatamente como. Sabiam apenas que, em algum lugar distante de onde estavam agora, tinham sido uma só. Lembravam-se de quando um homem trabalhou suas formas e as dispôs de um jeito planejado sobre cascalhos, ressaltando formas arredondadas e sua tonalidade esverdeada. Mais do que nunca, tinham uma certeza: pertenciam uma à outra.O tempo não significava muito para elas. Tinham séculos de existência. Mas, desde que haviam recebido aquela forma e sido colocadas naquele lugar, passaram a compreender um pouco melhor o que as pessoas queriam dizer quando falavam em “tempo”, pois agora tinham antes e depois.No entanto, uma delas não parecia estar muito satisfeita ultimamente. Andava mal-humorada, impaciente. A outra começava a se incomodar com os suspiros exasperados e os silêncios carregados.— O que há com você? Não entendo o que está acontecendo. Já lhe perguntei isso inúmeras vezes e nós nos conhecemos bem o suficiente para que você me explique.Depois de um momento de silêncio, veio a resposta:— Estou começando a me cansar de ficar aqui com você, nessa mesma posição.— O quê? Você se apoia em mim, eu sustento você! E estamos tão bem e tão protegidas... somos aquecidas quando há sol e somos lavadas pela chuva. Além disso, temos uma bela vista da baía entre as árvores. Podemos até ouvir o barulho do mar...— Sim, eu sei que você vê as coisas de outra maneira. Mas qual é o sentido de estarmos aqui? Além do mais, sinto saudade de como éramos antes de recebermos essa forma.A outra ficou em silêncio. Ela também sentia saudade e já ouvira visitantes falarem sobre isso. Por outro lado, também percebia uma sensação de algo mais, algo essencial nessa forma atual. A outra pedra não escondia sua insatisfação e continuou seu desabafo:— Inclusive, estou começando a não gostar do que as pessoas dizem sobre nós... Sobre por que temos justamente essa forma e o que ela significa. Concluem coisas tão banais...— Sim, nesse ponto eu concordo. De vez em quando é assim. Mas, fora isso, não é tão ruim… Você observa que a maioria presta muita atenção em nós e, quase sempre, começam a conversar sobre coisas que vão muito além da nossa forma e do lugar em que estamos? Frequentemente até fazem comparações com a vida delas!A outra ficou em silêncio. Um longo silêncio. Depois, falou em tom muito baixo. Era quase um sussurro:— Mas nada acontece. Pelo menos eu não percebo nenhum desenvolvimento nelas, nenhuma ação. E essas pessoas que nos visitam aqui precisam seguir em frente, não precisam?— Bem, se você quer saber o que penso... Deve ter um motivo para nós e para elas estarmos aqui agora. Também acho que muita coisa continua acontecendo na mente destas pessoas, levam suas reflexões, mesmo muito tempo depois de irem embora. Em seus pensamentos e sonhos, acho que se perguntam sobre o por quê[1]  da própria forma, da própria função... talvez de seus propósitos.— Mas o que elas ganham com isso? Isso as leva a algum lugar?— Não sabemos. Mas estamos fazendo a nossa parte. Algo me diz que estamos aqui, dessa forma, porque o artista que nos criou quis expressar alguma coisa importante. E talvez isso chegue às pessoas de uma maneira muito diferente do que podemos imaginar.Perto da escultura de granito, havia um casal que tinha atravessado um período longo e difícil devido à perda de pessoas queridas. As marcas do sofrimento podiam ser percebidas por sua maneira de caminhar e pelas linhas profundas nos  seus rostos.A mulher girava vagarosamente ao redor do conjunto de esculturas quando o homem lhe perguntou:— Você acha essas pedras especiais?— Sim. Expressam alguma coisa que não consigo nomear, mas que me atrai.Ele a [2] questinou-a, quis entender melhor, e mesmo sem ter as respostas, a mulher tentou explicar-se. Disse que a escultura de  pedras sobre pedras a tocava em algum lugar profundo, e isso a intrigava… vinha da forma arredondada e da maneira como as pedras se apoiavam umas às outras... Havia algo ali que parecia querer se expandir, irradiar… e havia uma parte que acolhia e sustentava.Ela tirou outra fotografia da escultura. A enésima.O homem respondeu:— Isso está lhe fazendo bem. É a primeira vez em muito tempo que vejo você sorrir.— Sim, é verdade, isso me alegra. Mas por quê? - perguntou a si mesma.Ela parou para refletir. Seu olhar perdeu-se na escultura por longos minutos. Em dado momento, sorriu abertamente, aliviada, feliz.— Meu querido, já podemos continuar nossa caminhada pelo parque.Ela tinha decifrado o enigma, e a solução era o alento de que ela precisava: a escultura no parque a fazia sentir a interdependência de tudo. Interdependência era apoio e o contrário também, sem qualquer espaço vazio.Foto: Winnie Geurtsen / Peter Randall
SOLIDÃO – UM RELATO PESSOALUma viagem exterior pode ser uma jornada interiorSentir-se ou estar sozinho é desagradável para muitas pessoas, mas não para mim. Sinto-me confortável sozinho. Não estar com pessoas pode parecer antinatural, mas eu me senti realmente confortável durante o período da pandemia.  Isso é estranho? Deve haver algo de errado comigo.Minha esposa diz que tenho medo de me relacionar e de me abrir.A questão de me sentir mais confortável sozinho do que com pessoas pode ser porque fui muito magoado na minha juventude e também na fase adulta. Eu era daquele tipo de pessoa que está sempre à margem, fazia parte do grupo dos perdedores, dos que não valem nada — pelo menos na opinião dos outros. Então, isolei-me e tentei a minha sorte na solidão. Sem contato, não há risco de me magoar. O cervo ferido foge para a floresta densa para morrer.Durante quase 20 anos, às vezes no verão e outras vezes no inverno, eu fazia caminhadas na Lapônia, em meio à natureza selvagem, sem trilhas, por pântanos e florestas densas, sem cabanas. Telefones celulares não funcionam lá. Para deixar minha esposa mais tranquila, eu carregava um transmissor de chamada de emergência.Em nenhum momento me senti sozinho ali. Tinha uma sensação de bem-estar, de estar em casa. Eu não era um estranho naquele ambiente. Não havia ninguém em um raio de 10 quilômetros. Se eu caísse em um riacho e batesse a cabeça numa pedra, morreria. Um dia encontrei uma ursa com seu filhote a uns 15 metros de distância. Mesmo assim, me senti em casa. Raramente tive medo.Os esotéricos diriam: “em outra encarnação você viveu e foi feliz lá, e por isso se lembra disso agora”. Honestamente, acho irrelevante entender o porquê. Estou apenas aqui, vivendo o presente. O que conta é o agora, e é assim que as coisas são. Sei que tudo o que precisa ser resolvido sempre me será mostrado enquanto for necessário.A região da Lapônia onde eu fiquei é pobre em estímulos físicos, mesmo no verão, quando o que vemos são lagos, pântanos, mosquitos, árvores, pedras, colinas, montanhas e campos de neve. Já no inverno, há neve por toda parte. No primeiro dia, internamente eu ainda não tinha chegado; no segundo, percebi que estava na Lapônia; no terceiro dia, tudo se tornou monótono e, no quarto dia, surgiram pensamentos e sentimentos que antes não tinham lugar. Percebi minha dor, meu sofrimento. Caminhei pela floresta chorando.Isso se repetiu no quinto dia. No sexto, tudo o que precisava sair, saiu. Então, fiquei calmo, relaxado e desapegado. Foi uma verdadeira catarse. Durante minhas caminhadas, a experiência foi se intensificando. Tudo era branco. Havia neve, vento, frio e uma neblina tão densa que eu só tinha visibilidade de um metro. O silêncio era absoluto, dia e noite.Só o estalar do gelo nos lagos e rios congelados quebrava o silêncio. O ar era frio e puro. Tudo era menos estimulante. Devido às longas noites, a jornada interior aprofundava-se. A temperatura chegou a menos 35°C na barraca.Noites antes, o céu estivera absolutamente deslumbrante, repleto de auroras boreais. O céu se ilumina na escuridão, assim como a consciência obscurecida pode se tornar luminosa. A luz brilha na mais profunda escuridão. Então percebi que, mesmo sozinho, nunca me sentia solitário. Nunca estive verdadeiramente só.Alguns anos mais tarde, percebi que a motivação para essas aventuras pode ter vindo da minha dificuldade de me relacionar, mas, no fim das contas, foi o anseio por paz, tranquilidade e imersão no silêncio que falou muito, muito suavemente.Na solidão, é muito mais fácil ouvir esse silêncio do que no ruído da cidade e convivendo com outras pessoas. A lição foi reconhecer que tudo está dentro de nós e que tudo o que é importante está presente em cada momento da vida. Pode, portanto, ser reconhecido. Apenas nossas imagens mentais, a confusão de sentimentos e o caos de desejos se acumulam como uma toalha grande, pesada e molhada sobre a alma, sufocando-a.Se quisermos “ouvir” o silêncio da alma, é mais fácil fazê-lo no silêncio exterior, na solidão.Quando fazemos algo exteriormente e também lhe damos um significado interior, um efeito é gerado em nós. Um exemplo disso vem de quando limpamos algo palpável e sentimos um alívio emocional, como se a limpeza externa ‘lavasse a alma'. O ato de caminhar significa percorrer uma paisagem, mas quem experimenta esse exercício sabe que é, essencialmente, um trajeto por caminhos interiores.Da mesma forma que descobrimos novos lugares no exterior, podemos descobrir os pontos cegos de nossa alma.Podemos descobrir, por exemplo, que a beleza exterior pode nos alegrar, mas a resolução de um problema interior nos alegra muito mais.Olhando para nosso interior, podemos perceber que estamos caminhando em direção a nós mesmos.Neste contexto, cada pessoa tem seu próprio caminho, e ninguém precisa vagar sozinho para se encontrar.O importante é trilhar seu próprio e único caminho, pois é para ser percorrido que o caminho se põe.Imagem: polar-aurora:Bild-von-JACQUES-BARBARY-auf-Pixabay CCO
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