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Logon Podcast

Logon Podcast
Author: Rosacruz Áurea
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© 2020
Description
Logon é a revista online da Escola da Rosacruz Áurea. LOGON explora uma nova perspectiva do desenvolvimento do ser humano e das mudanças na sociedade do século 21, que emergem na arte, na ciência e na religião. Visite nosso site: www.logon.media/pt-br
210 Episodes
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O Novo PensamentoOs pensamentos nascidos de consciências e realidades de existência diferentes, como os daqueles com referências ou orientação espirituais, às vezes parecem completamente ilógicos do ponto de vista da nossa consciência egocêntrica. Eles se baseiam no Amor e na Verdade que irradiam em seu ser a partir do princípio espiritual crescente dentro deles e constroem padrões inteiramente novos e imperecíveis.O Novo PensamentoPara a ciência esotérica, pensamentos são seres vivos, as chamadas formas-pensamento. Essas estruturas circulam no campo energético que envolve cada indivíduo, por meio de seus sentimentos e desejos. Ao mesmo tempo que se conectam a eles, os influenciam. Se um indivíduo deixa de pensar em uma determinada direção, ele para de alimentar a forma-pensamento correspondente. Consequentemente, esta começa a perder energia e “desmaia”. Isso faz com que ela tente influenciar seu criador e “forçá-lo” a pensar novamente naquela direção. Por outro lado, quanto mais se pensa em coisas consideradas importantes, mais fortes se tornam as formas-pensamento correspondentes. Em certo ponto, elas se tornam tão fortes que exercem uma influência irresistível sobre seu criador, os chamados “pensamentos obsessivos”, dos quais é tão difícil se libertar. A tarefa é ainda mais difícil pelo fato de que as formas-pensamento de um indivíduo estão conectadas, em um nível energético, à formas-pensamento semelhantes de todas as outras pessoas. Desse modo, elas se nutrem mutuamente e se agrupam, podendo acumular uma energia enorme. O apoio mútuo dos pensamentos torna muito difícil a tarefa do pensamento puro, pelo qual as pessoas de orientação espiritual se esforçam e que é incomum para muitos. Por isso é que se diz que, além de superar a si mesmo, é preciso também superar o mundo. É também por isso que, se os pensamentos das pessoas de orientação espiritual são puros e dedicados ao seu trabalho pelo mundo e pela humanidade, tais pensamentos têm um efeito tão curativo. Por meio deles, a nuvem de energia dos pensamentos inferiores perde gradualmente seu poder e se purifica. Além disso, o campo energético criado por esses pensamentos puros tem o poder de apoiar os indivíduos em seu caminho espiritual.Os seres humanos constroem padrões de pensamento que os ajudam a alcançar diversos objetivos e a realizar intenções e desejos. Esses padrões são baseados no que percebemos com nossos sentidos, mas a maneira como percebemos e processamos as informações é influenciada principalmente pelo nosso estado de consciência. Sabemos que em nossa consciência somos o centro da realidade do nosso ser, o aspecto mais importante. Nossa consciência é centrada em nós próprios, ou seja, é egocêntrica. Em outras palavras, a autopreservação é o padrão de comportamento lógico e natural do ego de cada um de nós e dá origem a pensamentos correspondentes. É natural que, às vezes, nos sacrifiquemos por nossos entes queridos ou por nossos ideais. No entanto, por exemplo, como nossos parentes estão ligados a nós por laços sanguíneos, se nos sacrificarmos apenas por ideais ou pessoas que selecionamos, isso não é muito diferente de uma forma oculta de autopreservação. O verdadeiro Amor não exclui ninguém.Além da consciência egocêntrica que nos é familiar, as Sagradas Escrituras de todos os povos testemunham, ainda que muitas vezes de forma velada, a existência de outra consciência ainda não manifesta, latente, nos seres humanos. Um exemplo vem de diversos trechos da Bíblia, em que é mencionado que o Reino de Deus está dentro de nós. Isso se refere precisamente ao ser espiritual (divino) que habita em nós, portador dessa consciência. Essa consciência, adormecida, é a consciência onipresente, que vem a ser o oposto exato da consciência egocêntrica, pois sua definição mais simples é que ela está presente em tudo e em todos os lugares. Para despertar essa consciência, as pessoas com orientação espiritual podem aprender a compreender e seguir a voz do silêncio interior, como a denomina Helena Petrovna Blavatsky. A voz dessa consciência que desperta gradualmente e que não se comunica por meio de sons, mas de imagens, impulsos e sentimentos pode ser chamada intuição. Guiados por essa intuição superior, aprendemos a mudar a direção de nossas vidas diárias e a nos orientar para o espiritual. Aprendemos também a compreender e aceitar todas as pessoas e a nós mesmos como somos, sem críticas ou julgamentos, removendo assim as barreiras construídas pela consciência egocêntrica. Isso cria espaço para que o princípio espiritual desperto amadureça, cresça e irradie, sem ser perturbado pela persona que cada um de nós é. Esse comportamento, contudo, só pode ser baseado no princípio espiritual ativo e não pode ser forçado com base na consciência egocêntrica, pois a imposição cria tensão, que eventualmente terá que ser liberada da maneira usual, por meio de explosões emocionais. Em última análise, o que aqueles com consciência onipresente ativa percebem é a unidade com o Todo, com tudo e todos. Essas pessoas não precisam de laços sanguíneos para sentir sua afinidade orgânica com os outros. Elas vivem conectadas ao Todo e não podem fazer nada além de trabalhar para o Todo. É por isso que, voltando à frase que abre esse texto, os pensamentos nascidos de uma consciência e realidade de existência diferentes, como dos candidatos espirituais, parecem completamente ilógicos do ponto de vista da consciência egocêntrica. Eles são baseados no Amor e na Verdade, que irradiam em seu ser a partir do princípio espiritual crescente dentro deles e constroem padrões inteiramente novos e imperecíveis. Assim, uma nova Sabedoria gradualmente surge, sabedoria que percebe o Universo de uma maneira totalmente nova e com sentidos completamente novos. É tarefa do ser humano iluminado trazer os impulsos e ideias divinas abstratas para a realidade em seu cotidiano. Em última análise, esse trabalho em Amor e Verdade conduzirá a uma transformação interior fundamental que beneficiará a todos e o Todo.Foto: sidath-vimukthi-9wiN3h6lBZ4-unsplash
ALÉM DO ARCO-ÍRISUma porta de entrada para a vidaUma criança muito pequena, em idade escolar, ainda não influenciada pelas ideias e pensamentos do mundo, estava sozinha ao ar livre, sob um céu azul, e pensava: “Para onde foram as nuvens de ontem?” “De onde virão as nuvens de amanhã?” “O que há depois do lugar onde elas flutuam, desaparecem e reaparecem com outras formas?”Uma resposta veio do interior da criança, e ela a guardou em si. Veio por meio de uma canção de ninar de que ela se lembrava desde que a ouvira. A criança perguntou a si mesma:“Existe um lugar que ouvi falar na canção de ninar…Além do arco-íris, bem lá no alto! Se os pássaros voam sobre o arco-íris, por que então, oh... por quê eu não posso?”Essa ideia a acompanhou. Muitos anos depois, na maturidade, a questão ainda ressoava. A vida tinha respondido de muitas maneiras diferentes ao longo dos anos, com muitas experiências e rumos distintos, mas somente uma resposta reverberava em seu coração, fazia sentido e parecia verdadeira. A antiga experiência da primeira infância foi a que revelou a porta de entrada para a vida:“Busque dentro de si, busque o arco-íris dentro do seu coração”.Foto: by Michal Mrozek 0n Unsplash
A LENDA DO VELHO HOMEM INABALÁVEL E UM PEQUENO GALHOA liberdade não reside na pureza, mas na aceitação completa de qualquer vento, qualquer galho e qualquer caos sem resistência interna ou preferência pessoal.Ouvi essa parábola pela primeira vez há alguns anos e, desde então, gosto de contá-la para amigos e entes queridos.Ela é frequentemente atribuída a Bodhidharma (Damo), o primeiro Patriarca da Escola Chan, que trouxe da Índia para a China o ensinamento da visão direta da essência do ser, no século VI.Quando, recentemente, ela me veio à mente mais uma vez, decidi trazê-la para o conhecimento de mais pessoas. Seu tema é a provação final e a mais difícil em nosso caminho. PARTE UMLadrões - O Primeiro TesteEm um dos vales montanhosos da China vivia um homem idoso. Dizia-se que sua mente era tão calma quanto a superfície de um lago de montanha. Nenhuma tempestade conseguia perturbar o reflexo do céu em suas profundezas.Ele não era mestre, não tinha discípulos e não buscava fama. Simplesmente vivia, como fazem aqueles que não têm pressa para chegar a lugar nenhum.Certa noite, ladrões invadiram sua casa. O homem, sentado em meditação, observou-os calmamente enquanto levavam seus parcos pertences.“Levem tudo”, disse ele em voz calma e tranquila. “Só não façam muito barulho.”Impressionados e confusos com seu distanciamento, os ladrões partiram. Traição - O Segundo TesteUm dia, ao voltar para casa, o idoso encontrou a esposa com seu vizinho. Ele apenas acenou levemente com a cabeça, sem alterar sua expressão.“Perdoe-me por perturbar sua paz”, disse e saiu, como se tivesse entrado pela porta errada. Exílio - O Terceiro TesteSeus filhos, para quem honra e status significavam tudo, declararam:“Você é fraco, envergonha nossa família. Vá embora.”“Como quiserem, meus filhos”, respondeu o senhor calmamente.Fazendo uma reverência, pegou seu cajado e sua tigela de esmolas e partiu para as montanhas. No MosteiroQuando chegou no destino ao mosteiro, o homem foi recebido, abrigado e incumbido da tarefa de varrer o pátio.Ele passava os dias varrendo o quintal, limpando folhas e poeira, com movimentos medidos e familiares. A varrição tornou-se uma meditação em ação. Ele não varria pedras, mas a própria mente, e a cada movimento ela se tornava mais vazia e luminosa. Em seu tempo livre, ele se retirava para o fundo do pátio, sentava-se sob uma árvore e meditava, observando a respiração e os movimentos da mente.E nessa calma, nesse silêncio que parecia durar para sempre, o velho homem começou a perceber leves sussurros e movimentos sutis ao seu redor. Sombras se acumulavam onde jamais houvera qualquer pensamento de ansiedade. Imagens surgiam, quase imperceptíveis na luz bruxuleante. Eram os primeiros presságios dos Maras. No budismo, assim como na mitologia europeia e eslava, Maras são demônios que se alimentam dos apegos humanos. O Ataque dos MarasOs Maras começaram a se manifestar com mais clareza, tentando distrair o velho senhor de seu trabalho e meditação. Assumiam formas aterrorizantes e sussurravam sobre o passado. O homem apenas suspirava baixinho, como de costume, a cada varrida da vassoura.Então, mudaram de aparência, surgindo em esplendor radiante e proclamando que estavam diante do maior santo de todos os tempos. Queriam despertar nele o orgulho e a sede de reconhecimento. Mas ele apenas sorriu interiormente e continuou varrendo.Certo dia, quando tinha acabado de limpar o pátio, ele sentou-se sob um antigo pinheiro. Uma brisa suave agitou um galho e um pequeno graveto seco caiu sobre uma pedra próxima a seus pés. Uma sombra cruzou o rosto do velho: uma leve irritação, uma preferência quase imperceptível por ordem e limpeza.Os Maras uivaram em triunfo: não encontraram nele paixão nem medo, mas identificaram uma preferência sutil, seu apego secreto. Naquele exato momento, desencadearam uma tempestade furiosa sobre o pátio, levantando agulhas de pinheiro, poeira e detritos em um vórtice violento, profanando em questão de segundos a obra impecável de limpeza que ele fizera.O homem, então, deu um passo à frente, erguendo as mãos em silencioso desespero.A harmonia interior se quebrou – não maior que um pequeno galho caído! O homem identificou o que estava acontecendo.Ele havia perdido. PARTE DOIS - SignificadoEsta história não trata da derrota de Bodhidharma pois, segundo a tradição, o Patriarca alcançou seu objetivo. Ela revela as armadilhas finais no caminho para a liberdade. É precisamente essa derrota que expõe as correntes mais frágeis que prendem o nosso "eu" e é por isso que ela importa. Vamos examinar isso mais de perto. 1. Filhos e esposa são o apego ao Mundo das FormasOs filhos personificam o ego social: reputação, status, família, honra, opinião pública. O velho se desapega disso facilmente pois vê esses valores como meros rótulos, não como essência. Seu exílio é um ato de completa renúncia aos contratos sociais.A esposa e o vizinho simbolizam o apego sensual, a posse e o ciúme. O idoso não se identifica com o corpo nem com os relacionamentos em seu sentido comum e mundano.2. Os demônios (Maras) são a Personificação da Mente EgoEstes não são entidades externas, mas representam forças da própria ignorância, tais como:· Medo, repulsa e raiva (demônios inferiores), que são os primeiros obstáculos que um buscador supera.· Orgulho, desejo de reconhecimento e arrogância espiritual, que são inimigos mais sutis. O velho passa nesse teste, mostrando que até mesmo a ideia da própria santidade é uma ilusão.· Hábitos da mente, que são preferências mecânicas, quase inconscientes – são o demônio final e mais esquivo.3. “O Pequeno Galho” é a âncora final do EuO último apego é quase imperceptível. É uma minúscula armadilha da consciência. Mesmo depois de abandonar família, riqueza, medo e orgulho, a mente se contrai em um ponto microscópico de identificação. Pode assumir a forma de:● Apego à limpeza e à ordem.● O prazer secreto por seu próprio desapego.● Uma leve irritação causada com um som, uma entonação ou o clima.● Uma preferência imperceptível pelo conforto, como o silêncio, sabores e rituais.Este "galho" é perigoso porque aparenta inocência ou até mesmo virtude. Nele se esconde a faísca final do dualismo: "Eu existo aqui, e isto – este galho, esta desordem – não deveria existir no meu mundo".4. Furacão — a vida como ela éA vida é imprevisível, incontrolável e constantemente causa estragos em nossos mundos interior e exterior. O teste final não é manter a paz e a calma em condições ideais, mas permanecer sereno quando a realidade interfere na ordem e, assim, ser verdadeiramente livre. ConclusãoA história termina não em vitória, mas em derrota. Contudo, essa derrota é a maior mestra, e clama:“Permaneçam vigilantes até o fim. Não olhem para as tempestades, mas escutem o sussurro quase inaudível dentro de suas próprias almas. A liberdade não reside na pureza, mas na aceitação completa de qualquer vento, qualquer galho, qualquer caos – sem resistência interna ou preferência pessoal.”Você já sabe onde está escondido o seu pequeno galho?Photo:Kamo Bagdasaryan (Rússia)
O Vaso“Quem sou eu?”, perguntou o vaso.O vaso era lindo, lindamente moldado pelo oleiro e sua decoração era deslumbrante e única.“Eu sou o barro?”, perguntou o vaso, mas logo percebeu que o barro não poderia ser toda arealidade.Afinal, qualquer outra coisa poderia ter sido feita a partir do barro.“Eu sou minha aparência?”. perguntou o vaso, mas lembrou-se que seu exterior nada sabia doseu interior.“Eu sou o conteúdo?”. perguntou o vaso, mas lembrou-se que poderia ter feito a mesmapergunta se houvesse água no vaso, mesmo que ela transbordasse.“Eu sou o espaço vazio envolvido por minha forma?”, perguntou o vaso. Mas não posso ser oespaço interno separado do externo, pois minhas superfícies tocam ao mesmo tempo o queestá dentro e o que está fora.“Eu seria minha forma?”, perguntou o vaso.Mas se eu fosse a forma, quem perguntaria isso? Quem poderia ver a forma por fora e pordentro?“Quem sou eu?”, pergunta o vaso, ao cair no chão, quebrando-se em inúmeros pedaços.“Quem sou eu?”, pergunta o vaso, enquanto a mão do oleiro pega de novo no barro que gira,moldando-o por fora e por dentro com suas mãos.“Quem sou eu?”, Eu pergunto.Foto: Lubos Houska on Pixabay CCO
Agir sem agirO Bhagavad Gita é uma escritura sagrada do hinduísmo que preconiza uma ação espontânea, até mesmo intuitiva, no presente – uma ação que nasce de si mesma e dissolve a separação entre objeto e sujeito.Isso é possível? E se é, como?Mahatma Gandhi expressou sua admiração pela Bhagavad Gita da seguinte forma:“Na Bhagavad Gita, encontro consolo […] Às vezes, o desapontamento me encara de frente e, quando, abandonado, não vejo nenhum raio de luz, recorro à Bhagavad Gita. Então, encontro um verso aqui e outro ali e imediatamente começo a sorrir em meio a todas as esmagadoras tragédias – e minha vida tem sido cheia de tragédias externas. Se todas elas não me deixaram nenhuma ferida visível, nenhuma ferida indelével, devo isso aos ensinamentos da Bhagavad Gita.” [1]A Bíblia e a Bhagavad Gita são os livros mais amplamente distribuídos e lidos no mundo, de acordo com Bede Griffiths. A Bhagavad Gita faz parte do Mahabharata, grande epopeia indiana. Documenta um diálogo entre a encarnação de Vishnu, na forma de Krishna, e o príncipe indiano Arjuna, que se prepara para travar uma guerra com seus parentes por seu trono. A seguir, reflito sobre minha própria experiência de um dos princípios da Bhagavad Gita, o ‘agir sem agir’, a respeito do qual Krishna fala a Arjuna.Como muitos buscadores nas décadas de 60 e 70, e ainda hoje, eu me apaixonei pela Bhagavad Gita na juventude. Não era apenas um interesse intelectual – que naquela época talvez fosse moda entre os hippies e os filhos das flores – mas uma experiência interior e intuitiva de que havia naquele livro mais do que apenas um sistema religioso e filosófico com pistas para a vida em tempos contraditórios e turbulentos. O princípio de ‘agir sem agir’ me fascinou e me acompanha desde então. Mas o que é, na verdade, esse ‘agir sem agir’?O Bhagavad Gita diz:“Aquele que vê a inação na ação e a ação na inação é sábio entre os homens; ele é um iogue e executor de todas as ações.” [2]O Bhagavad Gita oferece alguns princípios para resolver ou explicar esse paradoxo:Renuncie aos frutos da ação: não se apegue aos resultados de suas ações.Não tenha expectativas: não espere nada (positivo ou negativo) das ações que realiza.Seja frugal e não dependente: viva com simplicidade e não se apegue a bens materiais.Seja contente e equânime: mantenha a serenidade diante do sucesso ou do fracasso.Veja todas as ações como oferendas: considere todos os seus atos como oferendas a Krishna/Vishnu. Assim, eles se transformam em conhecimento espiritual.“Sabe que os sábios que realizaram a verdade te instruirão nesse conhecimento por meio de longa prostração, súplica e serviço. Sabendo disso, tu não serás, ó Arjuna, novamente iludido como agora; e por isso, tu verás todos os seres em ti mesmo e em mim.” [3]Se nós nos observamos com esse pano de fundo, percebemos que todo o nosso pensamento, desejos, sentimentos e ações pressupõem que queremos alcançar e esperar algo. Todas as nossas ações são, portanto, especulativamente direcionadas para o futuro. Por outro lado, a Bhagavad Gita preconiza uma ação espontânea, até mesmo intuitiva, no presente – uma ação que nasce de si mesma e dissolve a separação entre objeto e sujeito para alcançar a unidade entre objeto e sujeito.Se isso é possível, como?Krishna aponta claramente que ninguém pode ficar inativo nem por um momento, e aconselha Arjuna:“Portanto, sem apego, execute sempre as ações que devem ser feitas; pois, ao executar ações sem apego, alcança-se o Supremo.” [4]Se pudermos implementar o conselho de Krishna em nossas vidas, poderemos nos libertar do pensamento especulativo e das expectativas do futuro, estarmos livres dos sucessos ou fracassos de nossas ações. Isso dissolve toda a especulação sobre o futuro, que se expressa em ansiedade, preocupação e medo. Podemos então, de forma espontânea e alegre, cumprir o dever que nos é imposto e ter em mente o bem da humanidade.Catharose de Petri, a Grã-Mestra da Rosacruz Áurea, expressa isso da seguinte forma:“É absolutamente possível, durante sua rotina diária comum, quaisquer que sejam as atividades que precise realizar, manter perfeitamente a força central e seu princípio no fundo do seu ser, e deixá-la irradiar através de tudo, em seu coração, sua cabeça e sua alma.” [5]Nós, então, praticamente vivemos duas vidas: uma em conexão com o mundo comum e a outra que não é deste mundo, que vive na e da força de Krishna ou do Cristo. [6] Isso nos dá distância dos problemas, conflitos e adversidades deste mundo, porque:“Aqueles que me amam são queridos para mim, e eu estou neles, e eles estão em mim. Eles vêm a mim e terão paz eterna.” [7]Podemos, então, ver o mundo dos opostos como observadores e, ao mesmo tempo, por meio da força da alma e do conhecimento dentro de nós, podemos nos concentrar sem dificuldades em um mundo que não é deste mundo. Mesmo nas maiores turbulências de nossas vidas, podemos permanecer calmos e serenos. Nossas ações, então, se tornam espontâneas e não calculadas, intuitivas e não guiadas por visões positivas ou negativas do futuro. Podemos verdadeiramente viver no presente. É isso que Mahatma Gandhi quer expressar na citação usada na abertura dessa reflexão.Onde estou hoje? O conceito de ‘agir sem agir’ me acompanhou ao longo de toda a minha vida. Uma das primeiras e fundamentais percepções foi e é: ‘Tudo é relativo’! Já que nada é absoluto, não vou da alegria ao desespero, mas permaneço em um estado de certa calma, uma serenidade muitas vezes tranquila. Isso não significa indiferença, especialmente em relação ao mundo e à humanidade, mas significa manter o foco no quadro geral e me perguntar repetidamente se as palavras de Krishna são uma realidade em mim: eu estou Nele e Ele está em mim?Pois Krishna diz na Bhagavad Gita: “Todas as coisas estão em Mim – essa é a base de nossa existência”. E ele continua: “mas Eu não estou nelas.” [8]Este é o objetivo de nosso caminho espiritual: despertá-Lo em nós.Krishna continua a dizer a Arjuna:“Aquele que me vê em todos os lugares e vê tudo em Mim nunca se separa de Mim, nem eu dele.” [9]“Execute seu dever imposto, pois a ação é superior à inação, e mesmo a manutenção do corpo não seria possível para ti por meio da inação.” [10]Por um lado, tenho a consciência parcialmente viva da rotina diária comum por estar em nosso mundo. Por outro lado, tenho a experiência de um estado de ser que não é deste mundo e que, ao mesmo tempo, é um alicerce que me dá uma serenidade alegre para aceitar e processar as exigências da vida comum. Quando experimento conscientemente essa serenidade alegre, sou um ator e, simultaneamente, um observador no mundo, sem ser absorvido por ele. Experimento repetidamente que essa orientação me eleva da agitação da vida cotidiana (às vezes, apenas por alguns momentos), e experimento a serenidade alegre que me preenche, a serenidade da alma. Isso pode ser ‘tornar-se uno com Krishna?’ Se formos honestos conosco, encontraremos a resposta em nós mesmos e abandonaremos considerações intelectuais, perguntas e dúvidas. [1] Mohandas Karamchand Gândhi (Mahatma Gandhi), in: Young India 1925, p. 1078)[2] Bhagavad Gita, Ved Vyas Foundation, 2024 (e-book) Bhagavad Gita.io: (Chapter IV, verse 18).[3] Idem: Chapter IV,Verse 34,35[4] Idem: Chapter III,Verse 19[5] Tradução de: Catharose de Petri, Das Lebende Wort, Haarlem 1990, S. 300[6] Tradução de: Jan van Rijckenborgh, Die große Umwälzung, 3. Auflage, Haarlem 1992, Kapitel VII: Das Mysterium des Krishna[7] Idem: Chapter IX, versos 29, 31[8] Idem: Chapter IX, verso 4[9] Idem: Chapter VI, verso 30[10] Idem: Chapter III, verso 9Foto: ai-generated-Bild von Pete Linforth auf Pixabay CCO
O que está acontecendo?Você está pronto?A fotografia de uma obra de arte inspiradora foi compartilhada comigo e alguns conhecidos idosos para avaliação.A primeira reação foi de perplexidade e leve confusão. O que é isso?Algumas sugestões surgiram. Para muitos, a imagem parecia representar a Terra, mas o quê exatamente? Após reflexões, comentou-se que talvez estivéssemos vendo a mesma coisa, mas com perspectivas diferentes. O neto de um dos participantes acrescentou o que ele percebeu como uma correlação óbvia. “É um círculo”. Sob esses diferentes pontos de vista, podia muito bem ser a Terra. No entanto, na pintura havia uma conexão, uma linha circular branca com pontos interligados.O artista estava presente e incentivou o grupo ao sugerir que todos que contemplam uma obra de arte contribuem, em última análise, com mais informações sobre o que o artista pretendia apresentar.A pintura continha um círculo, como foi notado, e tal círculo poderia estar circundando a Terra. A Terra, em si, também era um círculo. Círculos não têm começo nem fim. Cada círculo simplesmente é. Ele abrange perspectivas infinitas, movimento infinito, mudança infinita. Nosso grupo de velhos conhecidos podia ser considerado também um tipo de círculo onde cada um constituía uma fonte dessa mudança infinita, contribuindo para ela. Os componentes de um círculo são sua potencial oportunidade de mudança. Um círculo não pode mudar a menos que seus componentes mudem. A conversa passou a girar em torno das mudanças em nosso planeta. Ele está passando por uma transformação vasta e interminável e isso já acontece há muito tempo, muito mais do que podemos imaginar.Mas você já percebeu isso, realmente percebeu conscientemente? Estamos tão ocupados que, provavelmente, até agora pouquíssimos de nós reconhecemos qualquer mudança significativa. E se reconhecemos e comentamos, especulamos ou reagimos a ela, podemos ter sido ridicularizados, ignorados ou alvo de risos.Como nosso bom, estável e tranquilo planeta poderia mudar? Por que precisaria mudar? Mas olhe ao redor, ele está mudando e tem mudado desde que nos lembramos! Durante a maior parte desse tempo, considerou-se arriscado demais interferir neste processo, efetuar qualquer mudança e, de qualquer maneira, não seríamos capazes de fazê-lo. Por que considerar tais coisas? – era o que se perguntava. Apesar das transformações evidentes do planeta, as pessoas questionaram e ainda questionam a necessidade de mudança, embora essa questão tenha se tornado urgente nos tempos atuais. Não é mais uma questão para o futuro, é uma questão para o agora. As mudanças estão acontecendo muito intensamente agora. Por quê? O que está acontecendo? Houve um tempo em que começamos a fazer essa pergunta, mas não com urgência, porque ela sempre se referia ao futuro. Sim, as pessoas admitiam que uma mudança era necessária, “mas não agora, vamos deixar para depois”. Mas quando seria esse depois? Ninguém sabia ao certo.“Se você quer mudar o mundo, mude a si mesmo” é uma frase que ouvimos com cada vez mais frequência hoje em dia, quando o futuro, o “agora”, já está claramente presente. Estamos no agora, contribuímos para ele, o criamos. E somos os únicos que podem efetuar uma mudança, pois fazemos parte dele e sempre fizemos. E podemos fazer isso! Não como no passado, não por meio de tentativas intermináveis de mudar o que nos rodeia, nossa realidade externa, mas por uma abordagem completamente diferente, tomando uma direção integralmente nova. Podemos efetuar essa mudança, mas não tentando construir sobre o que já se provou ineficaz ou mesmo relativamente eficaz por um curto período. Não olhando para o exterior, onde o caos e a confusão se tornam cada vez mais desenfreados a cada dia. Agora, nossa tarefa é olhar profundamente para dentro de nós mesmos, mas também para tudo o que vemos ao nosso redor, fora de nós, em nossa comunidade, nosso mundo, nosso habitat. Não individualmente, mas como um conjunto. Como almas afins. Quando conseguirmos fazer isso, quando alcançarmos esse ponto, individual e globalmente, é que algo poderá acontecer, é que a compreensão e as perspectivas poderão mudar.Só então poderemos fazer parte do círculo que envolve a Terra, o que nos levará para uma nova direção. Podemos até indagar: “O que está acontecendo?!” Mas você está pronto?Foto: by Nadine Marfurt on Unsplash CC0
A garça refletida na águaA pessoa em quem o Tao reside conhece a unidade de todas as coisas. Ela permite que a vida a envolva, dando-lhe espaço em seu coração.Os antigos sábios taoístas faziam uma distinção clara entre a consciência cotidiana de uma pessoa e a consciência imbuída do Tao. Eles tinham uma imagem simples, mas muito marcante, para isso:Uma garça sobrevoa um lago. Por um instante, seu reflexo na água é perfeito, em toda a sua glória.A cena descreve um estado muito especial do coração. Os taoístas partiam do princípio de que a pessoa comum não está ocupada pelo seu ‘centro’, o seu coração. Isso significa que o seu coração não está livre para a atuação do Tao. O coração está repleto de desejos, objetivos, hábitos e reações.Contudo, se o coração de uma pessoa estiver livre, ou seja, se for um centro aberto e receptivo onde não há vontade própria, a situação de vida presente no momento pode ser refletida no Tao. Isso pode, em princípio, acontecer num momento de contemplação interior ou de devoção altruísta ao Tao. Os desejos e anseios pessoais ficam de lado, dando lugar a uma eficácia muito maior. Então, a garça se reflete plenamente no lago.A garça pode ser interpretada como representação da vida, sua unidade no Tao. Podemos vê-la claramente como toda a diversidade de uma situação, com seus problemas, relações e interdependências, fundindo-se em uma única percepção, em uma única impressão na quietude do coração. O incompleto foi refletido no Tao, foi tornado reconhecível pelo Tao, foi absorvido pelo Tao. Assim, o Tao foi posto em ação efetiva. Novos pensamentos e sentimentos podem ter surgido; uma solução pode ter aparecido repentinamente em uma situação aparentemente sem esperança; um livro ou uma passagem pode ter nos dado uma pista decisiva, ou um encontro inesperado pode ter ocorrido. Pode ser também que uma força ou alegria tenha surgido para encarar e aceitar uma situação fatídica como ela é.Normalmente, em qualquer situação, reage-se tentando fazer algo para moldá-la, mudá-la ou classificá-la de acordo com nossas ideias e vontade. Na maioria das vezes, queremos nos livrar de algo ou se apegar a algo.A pessoa em quem o Tao atua, por outro lado, inicialmente não faz nada. Ela pratica o não-agir. Não intervém no nível das “dez mil coisas”, como Lao Tzu as chama. Ela não quer pegar o pássaro, espantá-lo ou correr atrás dele com um espelho ou uma câmera. Em vez disso, deixa o “grou livre” e não faz nenhum julgamento sobre qualquer aspecto de seu comportamento. Ela remove completamente sua própria vontade da situação e permite que o que está acontecendo, aconteça.Uma pessoa assim não tira nada e não acrescenta nada. Ela conhece a unidade do Tao. Dentro de si, experimenta que a vida aparentemente fragmentada é, na verdade, uma unidade. Ela permite que a situação a envolva da forma mais plena e completa possível e, em seu coração, dá espaço para que ela se integre completamente ao Tao. Ao fazer isso, permite que o profundo anseio pela conexão curativa com o Tao flua para a sua realidade vivenciada.Essa atitude de deixar as coisas acontecerem, baseada na disposição de não resistir ao curso natural das coisas, é expressa na literatura chinesa por outra imagem: o pinheiro e o salgueiro na neve.O galho de pinheiro é rígido e quebra sob o peso, enquanto o galho de salgueiro cede, permitindo que a neve deslize. O pinheiro representa a consciência egoísta e inflexível, que age com resistência e luta.O salgueiro, por outro lado, cede e se adapta com flexibilidade. Ele representa a pessoa taoísta, que observa a si mesma e à sua vida da forma mais neutra e objetiva possível. É alguém que permite que as coisas se desenrolem e se revelem a partir de sua essência interior. Aceita as aparentes derrotas tanto quanto os sucessos, pois sabe que os dois polos pertencem um ao outro. Yin e yang são interdependentes. Por saber que está conectado à unidade do Tao, ele vive a alegria da liberdade interior, independentemente do que aconteça em sua vida exterior.Contudo, essa ação interior por meio da ‘não intervenção’ não necessariamente parece sublime. Muitas vezes, é precisamente nessa situação que os medos, a tristeza, a raiva e a própria inadequação se tornam tangíveis. Mas ao sentir-se impotente e ao reconhecer a própria insignificância é que a entrega à sabedoria e ao poder do Tao pode ocorrer. Agora, os poderes do Tao podem fluir. Ocorre uma mudança do centro interior da ação, do ego para o Tao.A vontade e a inteligência do Tao permitem que a possível solução brilhe. E não só isso. No coração da pessoa em quem o Tao atua, as coisas se reconectam com sua própria fonte interior. O impulso para uma profunda transformação interior pode se tornar efetivo. É por isso que os taoístas na China antiga eram conhecidos por serem particularmente alegres e serenos. Eles não se levavam muito a sério, desapegavam-se até de si mesmos.Wu-Wei não significa simplesmente sentar e esperar que o Tao resolva todas as situações. É claro que o ‘mundo das dez mil coisas’ também exige ação externa. No entanto, está alinhado com um significado de vida mais elevado, com os impulsos do Tao. É a arte de estar no lugar certo, no momento certo, para fazer a coisa certa. Isso não pode ser desejado ou forçado. Em vez disso, acontece naturalmente quando uma pessoa está em ‘movimento’ com o seu centro livre.O Tao, criador de toda a vida, e a situação perceptível da vida se tocam mutuamente. A profundidade insondável do ser-criador-origem, encontra a criação, a manifestação no coração humano. Ocorre uma fusão, um despertar mútuo. O significado transparece. Fortes impulsos transformadores e evolutivos são desencadeados, muito significativos tanto para o indivíduo quanto para a humanidade e a natureza como um todo.Nossa consciência cotidiana é como um lago cheio de águas inquietas e turbulentas. Ela só consegue refletir a garça de forma fragmentada, como “dez mil coisas”. Aqui não encontramos paz, nenhuma compreensão mais profunda das inter-relações, nenhuma unidade.O caminho para a unidade é o caminho do coração. Libertar nosso centro ocupado para trilhar esse caminho significa ser verdadeiramente humano.‘Crie em ti o vazio em seu grau máximo!Mantenha a serenidade em sua plenitude!Então, tudo pode elevar-se simultaneamente.Observe como elas se transformam.Todas as coisas, em sua diversidade,retornam à sua raiz.Retornar à raiz significa quietude.’Lao Tzu – Tao Te King, capítulo 16Foto: Selfcreated_Dreams_Ruth_Alice_Kosnick CCO
A PAZ É UMA EXPERIÊNCIA HUMANA?Há alguns anos, foi publicado um atlas diferente dos tradicionais. Ao invés de lugares, ele situa a imaginação, pensamentos e sentimentos em 23 mapas de experiências (1). É o Atlas da Experiência Humana– Cartografia do Mundo Interior. À primeira vista, parecem mapas comuns, com geografia, cidades, florestas, rios, mares, estradas, ferrovias, ruas, pontes e também construções importantes. Porém, ao explorarmos a cidade chamada Caos, por exemplo, encontramos o lago Águas Agitadas, uma Válvula de Escape situada no cume da Exasperação, Ervas Daninhas e Pânico Descontrolado na área Proliferação, a Torre de Babel, os territórios Miscelânia, Estrago, Confusão, Lixo, Cacos etc... É um retrato da experiência de caos que conhecemos bem. Eu estava muito interessado na paz por causa do cenário de tantos conflitos no mundo e, por isso, tirei o livro da estante e procurei pela paz. Não achei. Será que a paz não é uma experiência humana?A Paz no TaoA despeito de não encontrar um mapa da paz, há uma referência a ela no capítulo do Atlas que trata do Vácuo. A compreensão da paz como uma experiência que ultrapassa o comum está em um poema do Tao Te Ching. Eis o que diz:Leve o vazio ao seu limite extremo, Mantenha a paz no caminho. As dez mil coisas lado a lado aparecem E por meio disso eu as vejo retornar. Cada qual retorna às suas origens. A isso se chama paz. Paz: isto significa retomar o seu destino. Retomar o seu destino é ser eterno. Conhecer a eternidade é ter sabedoria. Não conhecer a eternidade é ser selvagem e imprudente. Quando você é selvagem e imprudente, seus atos o levarão à ruína.Ele orienta a levarmos “o vazio ao seu limite extremo” e a “manter a paz no caminho”. O vazio, aqui, é espaço aberto, receptividade total. É onde não há nada mais a tirar. É o estado interior em que cessam as distrações, os apegos e as turbulências. Nele é possível permanecer em paz sem esforço, como modo de estar em sintonia com o fluxo da vida. É diferente de quando eu sou eu, você é você, e há um vácuo, um vazio entre nós. Aqui o espaço separa.Na receptividade total somos ligados a tudo, não há conflito. Cada um existe no vazio de si mesmo e como relacionamento com os outros, com o planeta, com o todo.Há multiplicidade na existência. Todos os seres, movimentos e transformações do mundo - as “dez mil coisas” que aparecem lado a lado - tudo faz parte de mim. Tudo faz parte de todos. E tudo retorna ao seu ponto de origem, apesar das diferenças. O retorno – retomarmos nosso próprio destino, nos conectarmos com a eternidade – é o que se chama paz. Ao conhecer essa eternidade, o ser humano age em harmonia, não contra o fluxo. Alinha-se ao Tao e encontra a sabedoria que preserva a vida.Nesse sentido, paz é reconciliação com a vida. É a consciência de que cada coisa segue o seu curso e, ao final, retorna ao mesmo mistério do qual brotou. Paz, portanto, é aceitar esse ciclo, compreender que o destino de tudo é voltar ao Todo.Nesse ensinamento, a paz é tanto experiência interior quanto lei universal. É serenidade pessoal e, ao mesmo tempo, princípio que sustenta todas as coisasMas, será que isso ainda está no limite de uma experiência humana?Palavras da PazEm teste nada científico, um grupo de trabalho foi provocado a pensar quais são as palavras e termos que se relacionam com a paz. A proposta tocou profundamente os participantes. A resposta foi uma chuva torrencial de palavras que descrevem um lugar que ninguém experimentou, mas mora na intuição ou em uma memória coletiva. Criou-se um lugar em que todos queriam viver.Não parece mero acaso que a paz não conste no Atlas da Experiência Humana. Esta falta insinua que a verdadeira paz dorme em um vazio cujo acesso é uma experiência supra-humana. O caminho da paz não é um mapa externo, mas interno, onde uma essência profunda nos aponta o norte verdadeiro.Referência: [1] Swaaij, Louise Van; KLARE, Jea; [tradução Celso de Campos Júnior e Isa Mara Landol]. Atlas da Experiência Humana - Cartografia do mundo interior.. São Paulo: Publifolha, 2004.Basel, Switzerland de Luca Upper (@lucaupper) unsplash.com
SEMENTES AO SOL"Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; cada ser humano é uma parte do continente, uma parte de um todo" - John Donne (1572-1631) Às vezes acordo com ideias na cabeça. Vêm em forma de uma palavra só, de uma frase, de uma imagem. Hoje, vi um campo de trigo dourado, dançando ao vento, sob o sol.Uma centelha de pensar-sentir brotou com a palavra “semente”. Fiquei com a sensação de que, por mais frágeis que sejam, como toda semente brota buscando a luz do sol, elas centuplicam suas forças quando se expõem juntas a essa luz. Visualizando a dança tão harmoniosa das hastes de trigo, senti que aquela multidão de sementes sabia de sua força.Fico imaginando que o núcleo do nosso ser somente sobrevive quando busca sua energia transcendente de modo harmonioso, quando se conecta com o núcleo do ser das pessoas que encontramos em nosso dia a dia. “Namasté!” assim o Deus-em-mim saúda o Deus-em-você.Como disse o poeta metafísico John Donne, “nenhum homem é uma ilha!” Seu contemporâneo, William Shakespeare (1564-1616) nos coloca em xeque quando em “Hamlet” proclama: “Ser ou não ser! Eis a questão”.Então compreendi que somos de verdade quando percebemos nossa interação transcendente com outros seres. Trata-se de uma conexão essencial: um intercâmbio que faz crescer a Luz de nossa essência.Trazendo esse sentir-pensar para o aqui e agora, nestes tempos de redes sociais e contatos interpessoais leves e rápidos, imagino que o motorista do Uber, com quem tenho um contato brevíssimo, contém uma essência que conversa com a minha. Juntos, somos sementes ao Sol. E, ao Sol, nossas essências – brilhantes – crescem, felizes, trocando fagulhas que nos enriquecem a cada palavra ou silêncio. Nesses momentos, somos realmente Seres Humanos.Imagem: thophilong (Pixabay)
JOÃO BATISTA: O CAMINHO NO DESERTO RUMO AO DESPERTAR DO FILHO DE DEUSJoão Batista é aquele que, apesar de obstáculos inimagináveis, não cessa em seu trabalho constante de aprimoramento pessoal.Naqueles dias apareceu João Batista, pregando no deserto da Judéia e dizendo:“Arrependam-se, pois o Reino dos Céus está próximo”. Dele é que tinha falado o profeta Isaías: Um mensageiro faz ressoar no deserto: “Preparai o caminho do Senhor, retificai suas estradas”. (Mateus 3:1-3)Quem é esse servo extraordinário chamado João? Essa nobre personalidade terrena que, por um esforço sobre-humano, empenha-se em se tornar um 'homem de humildade', a fim de preparar um lugar para o Deus-Homem? Aquele que se sacrifica, que entrega a si mesmo, para cooperar plenamente no processo de despertar o verdadeiro Filho de Deus de seu sono terreno?Eu vos declaro esta verdade: nunca surgiu entre os homens alguém maior do que João Batista. E, no entanto, o menor no Reino dos céus é maior do que ele. (Mateus 11:11)João Batista é aquele que, apesar de obstáculos inimagináveis, não cessa seu trabalho constante de aprimoramento pessoal. Ele supera todos os obstáculos um a um, passo a passo, aproximando-se do objetivo. E o objetivo não é para si mesmo, nem para o aperfeiçoamento de sua própria personalidade. João trabalha pelo Outro dentro de si, por Jesus. É necessário que ele cresça e que eu diminua. (João 3:30)João Batista trabalha só, sem olhar para trás ou para os outros, pois no deserto, onde as almas humanas estão imersas em letargia, poucos trilham esse caminho. De qualquer modo, ninguém poderia fazer esse trabalho por ele: João deve realizá-lo pessoalmente. Deve se dedicar inteiramente ao trabalho.Nem mesmo os Irmãos Sublimes que trilharam este caminho antes dele e lhe servem de apoio insubstituível podem realizar esta obra sagrada por João Batista, e ele sabe disso. Vivenciou muito no ciclo do nascimento e morte para se iludir. Segue em frente, sem esperar elogios nem recompensas.João usava uma roupa feita com pelo de camelos e um cinturão de couro. Ele se alimentava de gafanhotos e mel silvestre. (Marcos 1:6)João também sabe que não há espaço para concessões nesse caminho. A verdade não tem sombras. Não existem meias-verdades, verdades incompletas ou verdades alternativas. João é, portanto, intransigente na busca de seu objetivo. Não temerá nem mesmo Herodes, e o confrontará diretamente com a evidência de que o mesmo age contra a Lei de Deus.Pois João havia dito a Herodes: “Não te é permitido viver com a mulher de teu irmão. (Marcos 6:18)João repreende Herodes (aquele que inspirou tanto temor que ninguém ousa sequer insinuar suas perversidades), pois reconhece Herodes em si próprio. João Batista sabe o que significa tentar fazer concessões ao mundo da transitoriedade. Ele sabe que 'matar crianças' significa extinguir os raios de Luz que emergem em seu interior.João é um homem de ação libertadora. Pois é precisamente por meio da ação e da experiência que ele adquire o conhecimento de como trilhar o Caminho, e qual o próximo passo a dar. Sua consciência natural comum não consegue compreender aquilo que coroa este caminho.Ora, João Batista estando preso, ouviu falar das obras de Cristo. Mandou que seus discípulos fossem lhe perguntar: “És tu aquele que há de vir ou devemos esperar or outro? (Mateus 11:2-3)A mente humana comum não consegue compreender essa vibração sublime. Há muito tempo, João deixou de se iludir, acreditando que poderia apreendê-la com sua mente natural. Essa ação libertadora libera o conhecimento que flui da Gnose, o que o assegura e fortalece na busca de seu objetivo.Este magnífico trabalhador da vinha do Senhor já sabe que endireitar os caminhos do Senhor é um árduo trabalho de purificação e de preparação de um lugar para o Senhor. Primeiro, é preciso purificar o ser interior de todas as influências astrais e mentais impróprias, a fim de criar um espaço interior de silêncio, onde os sussurros de Deus se tornem cada vez mais audíveis e a transformação do homem seja realizada pela Luz.Eu vos batizo somente com água em vista da conversão, mas aquele que há de vir depois de mim é mais poderoso do que eu, e eu não sou digno de carregar suas sandálias. Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo. (Mateus 3:11)João sabe que o homem natural não pode se transformar – ele só pode entregar tudo o que é e, com total confiança, dizer: “Não a minha vontade, mas a tua seja feita”. E assim, gradualmente, o Outro, Jesus, se revela no momento apropriado, a quem João se entrega completamente, sem hesitar.Então Jesus veio da Galileia ao Jordão para ser batizado por João. Mas João o impediu, dizendo: Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim? Respondeu-lhe Jesus: Deixa estar assim por agora, porque assim é que convém cumprirmos toda a justiça. Diante disso, João consentiu. (Mateus 3:13-15)Então, resta apenas o passo final, quando João voluntariamente coloca sua cabeça, seu "eu", sobre o machado. Ele faz isso com plena convicção de que, após todo esse árduo trabalho, o verdadeiro Filho de Deus ressuscitará em toda a sua plenitude e unidade.Logo que foi batizado, Jesus saiu da água. Eis que os céus se abriram para ele. Viu o Espírito de Deus descer como pomba e vir sobre ele. E eis que uma voz, vinda dos céus, dizia: “Este é o meu Filho predileto, no qual encontro toda a minha satisfação. (Mateus 3:16-17)Não há recompensa maior para o esforço no deserto do que este exato momento!Você já trilhou o caminho de João?Imagem de Joanna Cesarz-Krzystanek
Carregando água para o marUma estadia à beira-mar me traz a paz que tanto desejo. Chega de correr de um compromisso para o outro. Alguns dias de espaço para contemplação e respirar fundo. O som das ondas durante um vento forte, das ondas quebrando nos dias após a tempestade de verão, do suave murmúrio quando não há vento, tudo isso leva embora os pensamentos inquietos e minha mente parece ficar mais clara.Há um século, o mar estava apenas começando a ser descoberto como um lugar de relaxamento, e somente para os ricos. Até o final do século XIX, o mar era visto como perigoso, uma massa de água que poderia se transformar em um monstro devorador a qualquer momento. Mas em algumas culturas antigas, o mar era reverenciado como a mãe primordial, da qual toda a vida na Terra foi criada. Para mim, a bela peça musical de Claude Debussy, “La mer”, une ambos os pontos de vista em uma melodia ondulante que soa ora calmante, ora estimulante, ora ameaçadora. Uma síntese de confiança, medo, cuidado e calma, tristeza e conforto. Mas o mar não é mais aquele mar de outrora.Há uma canção holandesa onírica de Boudewijn de Groot e Lennart Nijgh, de meados da década de 1960, que me impressionou na época com seu tom simples e melancólico. “De waterdrager” (O Carregador de Água) fala de um velho que carrega água para o mar todos os dias porque tem medo de que o sol evapore e seque o mar. Mesmo naquela época, era uma ideia completamente absurda, e agora, com a ameaça da elevação do nível do mar, é ainda mais. O título e a letra da música contêm uma referência à expressão “carregar água para o mar”, ou seja, fazer um trabalho desnecessário ou inútil. O velho aguadeiro está ocupado com isso o dia todo e quando chega a noite ele descansa contente, sabendo que perseverou mais um dia e “salvou o mar do sol”.Agora, porém, acho que reconheço uma camada mais profunda nisso, uma referência à divindade do mar.O grande mar primordial a que chamamos de Deus anseia por ser nutrido. Ele anseia por nosso amor, nossa atenção. Aguarda com paciência infinita o momento de nos voltarmos para ele, em nossa busca incessante por uma paz profunda e duradoura, um amor eterno, uma unidade eterna. Algo que jamais encontraremos enquanto buscarmos fora de nós mesmos. Somente quando nos voltarmos para o nosso ser interior mais profundo, quando começarmos a nutrir a rosa sedenta dentro de nós com a água do nosso amor atento diário, somente então iniciaremos a jornada rumo à unidade e à paz duradouras. Então, o carregador de água desta era, Aquário, virá nos auxiliar com a água viva, para nos refrescar de maneira muito direta.O ser humano industrializado do século XXI preocupa-se primordialmente com a busca de conforto e prazer. Além disso, soluções práticas precisam ser encontradas para os problemas e desafios cotidianos que a vida terrena nos apresenta. Sem percebermos, nós, como humanidade, nos afastamos muito do nosso destino. Temos subjugado cada vez mais a criação natural à nossa própria vontade, chegando ao ponto de recorrermos à fissão atômica e à manipulação genética. E agora, com a Inteligência Artificial, criamos uma força que não dá para parar e que pode acabar nos atrapalhando mais do que nos ajudando. A cada nova invenção, nos deparamos com o oposto da ajuda: grandes desvantagens e obstáculos, muitas vezes imprevisíveis. Para estes, por sua vez, é preciso criar uma nova solução, e assim forjamos uma enorme corrente que nos prende cada vez mais ao mundo terreno. Será que Nijgh e De Groot tiveram um momento de inspiração quando escreveram sobre o carregador de água? Percebo aqui uma hipérbole que delineia o pensamento e o comportamento do mundo industrializado — cada invenção parece ser motivo para maior arrogância. “A tecnologia não vale nada”, ouvi muitas vezes no passado. Parecia um slogan. Mas o texto também mostra o solitário que pensa poder agir contra essa forma de pensar. Nijgh e De Groot enxergaram a arrogância infantil na pessoa que pensa que deve controlar a Terra e seu maior organismo vivo. E também salvá-la do sol, quando o mar e o sol normalmente trabalham juntos de forma otimizada. Mas não somos todos, na verdade, esse ansioso carregador de água? Não temos todos a tendência de querer controlar a vida? Para qual mar carregamos nossa água todos os dias?É uma manhã tranquila à beira-mar. Caminho descalço pelas ondas suaves da maré vazante. Crianças pequenas brincam com baldes e pás perto de um castelo de areia em ruínas do dia anterior. Elas se apressam para manter o nível da água que sai do fosso, agora que a maré está baixando. Talvez a canção tenha sido escrita simplesmente para uma criança que vivenciou esse fenômeno pela primeira vez e pensou que precisava repor a água do mar que recua. Mesmo assim, resultou em uma bela canção.Foto: by Chris Thomson on Unsplash CC0
O TOQUE DO AMORAo sermos tocados pela vibração do Amor, permitimo-nos ser elevados pela bela energia da Unidade.Passamos a olhar para as pessoas de uma maneira completamente diferente: livres da ideia de separação, daquela separação que divide o que é meu do que é seu, o que é nosso do que é deles, o masculino do feminino. Passamos a enxergar com visão divina, com o coração, vendo que tudo é uma emanação do Ser Único, que tudo é Unidade manifestando-se em inúmeras formas.É bonito quando percebemos as pessoas como aglomerados de faíscas que emanam de uma única chama. Fazem parte dessa chama e, ainda assim, cintilam de inúmeras maneiras, como se vivessem suas próprias vidas separadamente. É um espetáculo repleto de brilho. É belo o desígnio do Criador de revelar a Unidade na diversidade de formas.Isso poderia continuar indefinidamente se estas “faíscas” não tivessem se fixado e se embriagado por sua própria forma, esquecendo-se de que são parte de um todo magnífico… Esquecendo-se de que são meramente atores em um maravilhoso espetáculo de luz. Por esquecerem sua origem, confundem-se, acreditam na autossuficiência, na separação. Assim, o Ser Humano original, que receberia e irradiaria a Luz Divina em sua totalidade, torna-se egocêntrico e focado em si mesmo, percebendo os outros como ameaças ao seu “eu” distinto. Esse “eu”, apesar de ilusório, é reforçado até atingir o limite do sofrimento. Porém, ali reside uma oportunidade de buscar ajuda para retornar conscientemente à Unidade.Multidões de pessoas estão oscilantes. Cada uma delas, cada um de nós, passa freneticamente, absorto no frenesi de seus próprios afazeres, como em um sonho, em letargia. E assim, por gerações, séculos, milênios, giramos em círculos, aprisionados na ilusão de que somos separados uns dos outros e do Todo. Os tempos e as formas mudam, mas tal ideia permanece intacta.Se compreendemos essas coisas, em momentos como esses, poderíamos gritar, com o coração transbordando de Amor:“Minha querida irmã, meu querido irmão, libertem-se de tal ilusão! Somos uma só expressão do mesmo Ser! Não há separação entre nós!”Ao cruzarmos com outro ser humano, ao olharmos em seus olhos e percebermos a confusão de seus pensamentos, a dor que carrega em si, nós nos reconheceríamos, pois também experimentamos a mesma dor. Sob a influência da sublime vibração do Amor, poderíamos sentir o impulso de acolhê-lo em nosso coração, como se disséssemos:“Está tudo bem, pare de se preocupar. Sua dor é criação do pensamento. A única Realidade é Deus — o maravilhoso Pai-Mãe, Amor, Unidade, o Todo. A Realidade é repleta de Amor e Unidade.”Quando levados pela vibração do Amor, a sensação do “eu” desaparece. Nem por um instante nos ocorre pensar de forma dividida.Entretanto, os efeitos desse toque maravilhoso não duram para sempre e, lentamente, mergulhamos novamente no sono. Ainda não estamos suficientemente vazios, puros ou tranquilos interiormente para manter esse estado por muito tempo. Mas chegará o dia em que nossa quietude interior permitirá que a Luz habite em nós para sempre. Chegará o momento em que a Graça descerá sobre nós, e a ação por meio da não-ação nos enobrecerá, de modo que, não mais como indivíduos isolados, possamos mais uma vez nos tornar irmanados.Que esse dia não demore!Photo-by-Aaron-Lee-on-Unsplash
Você já parou para pensar se existe algo em comum entre a matemática… e a espiritualidade?De um lado, a lógica, o rigor, a experimentação científica.Do outro, a fé, a intuição e a experiência interior — aquela que ninguém mais pode medir ou repetir.Enquanto a matemática opera com linguagem clara, precisa e reprodutível…a espiritualidade vive no território do indizível, daquilo que não cabe em palavras.Mas será que esses dois mundos são mesmo tão distantes?No nosso novo artigo, exploramos como a matemática — essa ciência do finito, das provas, dos limites — às vezes aponta para algo que ultrapassa tudo isso: o infinito, o imensurável, o que não cabe no nosso espaço e no nosso tempo.E como a espiritualidade, por sua vez, nos convida a olhar para uma Verdade que não depende de experimentos, mas que insiste em se manifestar dentro de cada um de nós.Se essa conversa mexe com você, te convido a mergulhar no texto completo.Talvez você descubra que, entre o rigor da razão e o mistério da fé… existe um ponto de encontro inesperado.Foto: HeckiMG - Pixabay
É POSSÍVEL UMA PAZ PERMANENTE?Um olhar sobre a história do mundo revela uma série interminável de conflitos entre comunidades, cidades, povos e países, que resultaram em guerras, violência, sofrimento e desprezo pela vida. Externamente, muitos desses conflitos são travados em nome de interesses políticos e econômicos, nacionalismos, ideologias, religiões e preconceitos.Até mesmo em nome da paz e do desenvolvimento, vastos impérios foram construídos por meio de uma força central dominante, mas que sempre resultaram em uma paz efêmera. Inauguram-se monumentos à paz e, no entanto, os mesmos conflitos ressurgem alguns anos depois.Freud, em sua carta a Einstein, em 1932, afirmava que o principal impulso que leva o homem à guerra é o seu desejo natural de agressão. Segundo ele, a inclinação à hostilidade entre os homens — que se manifesta em todo lugar e constitui o maior obstáculo à civilização — é um fato psicológico fundamental. Mesmo que todas as dificuldades políticas e econômicas fossem resolvidas, ainda assim subsistiria essa tendência humana a se destruir e a se humilhar mutuamente. Freud dizia que esses dois instintos — o de vida (Eros) e o de morte ou destruição (Thanatos) — estão em perpétuo conflito e entrelaçamento.Nesse contexto, Krishnamurti afirmava que era fundamental não apenas promover uma mudança no mundo exterior, mas também realizar uma revolução psicológica total, interiormente. Esse conflito interior é muito mais complexo — e é a raiz dos conflitos exteriores. Tal transformação traria, de modo natural e inevitável, uma mudança na estrutura social, em nossos relacionamentos, em toda a nossa atividade.A pergunta inicial que propomos conecta duas tradições filosóficas profundas: o pensamento hermético e o pensamento de Heráclito, que tratam do conflito entre opostos, mas de maneiras diferentes.Freud se aproxima da visão de Heráclito, que dizia que o mundo é feito de conflito — e que esse conflito é necessário e eterno. Assim, não há criação sem destruição, nem saúde sem doença, nem justiça sem injustiça.Para Heráclito, os opostos não são um problema a ser superado, mas a própria realidade da vida.Krishnamurti converge para a ideia hermética, que valoriza a unidade essencial do Ser — liberto dos opostos — e que retorna à consciência divina, onde tudo é um.Enquanto, para Heráclito, sem conflito não há movimento; sem oposição, não há identidade. O conflito é, para ele, a origem da realidade. É o que move o mundo, gera transformação. As coisas se definem pelo seu oposto.O pensamento hermético, por sua vez, aponta para a possibilidade do fim de todo conflito, uma vez que vê o mundo dual (luz/sombra, bem/mal, eu/outro) como um estado caído da consciência.Para essa tradição, o mundo material — cheio de conflito, morte, limitação e oposição — é visto como uma ilusão ou prisão espiritual. E o objetivo da alma é, portanto, retornar à Unidade, transcendendo os opostos.Diante dessas visões, somos levados a reconsiderar a própria noção de paz. Seria ela a ausência de conflito — como deseja o pensamento hermético — ou a aceitação consciente de sua inevitabilidade — como propõe Heráclito?Se Freud nos alerta para a força dos instintos destrutivos, e Krishnamurti aponta para a urgência de uma transformação interior, talvez a resposta não esteja em uma utopia externa, mas em um caminho de autoconhecimento, no qual reconhecemos os opostos em nós mesmos.A paz permanente, então, pode não ser um estado definitivo, mas um processo dinâmico de integração entre os contrários — uma busca contínua por equilíbrio entre Eros e Thanatos, entre luz e sombra, entre o mundo como ele é e o mundo como poderia ser.Assim, a pergunta “É possível uma paz permanente?” permanece em aberto — não como um desafio a ser solucionado definitivamente, mas como um convite à construção de uma consciência que transcenda o conflito, sem negar sua presença no coração da existência.Imagem: sanfengshan Pixabay
DO CONFLITO AO CENTROA ausência de conflito é uma impossibilidade para a consciência egocêntrica.No convívio entre pessoas, é comum nos depararmos com o choque de vontades — seja por diferença de interesses, seja pela luta pelo mesmo objeto —, estando sempre presente uma tensão.A consciência egocêntrica quer o melhor para si e, assim, frequentemente está em disputa com os demais. Esse comportamento é inconsciente, automático.O conceito budista de vacuidade pode nos ajudar a lançar luz sobre essa questão. Vacuidade significa que as coisas são vazias de existência intrínseca — ou seja, não existem como entidades próprias e separadas de todo o resto. Mas isso não quer dizer que o vazio seja um nada. Quando se fala de vazio, queremos dizer que um objeto é vazio de algo.Tomemos o exemplo de uma árvore. Podemos dizer que a árvore é vazia de luz, se ela é banhada pelo sol? Podemos dizer que ela é vazia do ar que a envolve? Seria ela vazia do solo, dos minerais e da água da chuva? Seria a árvore vazia de tudo o que a cerca, se ela existe como uma manifestação intimamente interdependente do próprio cosmo?Do que, então, a árvore está vazia?Ela está vazia de uma existência separada de todo o resto.Da mesma forma, uma pessoa e seu mundo interior — seus pensamentos, sentimentos, desejos e ações — não existem de forma independente no mundo. No entanto, o ser humano acredita possuir uma existência própria e cria uma barreira mental em relação aos outros e a tudo o que o cerca. A consciência egocêntrica é a raiz dessa separatividade e, portanto, dos nossos preconceitos, condicionamentos e automatismos que geram incontáveis conflitos interiores e exteriores.Mas o eu não tem uma existência por si só. Por isso, Krishnamurti nos diz que não há um observador fora do que é observado, nem um pensador separado do pensamento. Quando evitamos, por exemplo, um sentimento que nos aflige, criamos uma máscara do que realmente somos — e fugimos do autoconhecimento.O que normalmente chamamos de quietude são apenas momentos ou horas de repouso. Somos dominados por uma luta diária entre forças opostas, ansiedade, preocupação e medo — movidos pela separatividade da consciência egocêntrica.Mas é possível uma paz permanente?Como colocado por Dzongsar Khyentse no livro O que não faz de você budista, ao compreender e vivenciar a vacuidade, continuamos a apreciar tudo o que aparentemente existe — mas sem nos agarrarmos às ilusões como se fossem reais. Nossa visão penetra as aparências e percebemos que elas são, antes de mais nada, criações do eu. A vida ainda pode nos emocionar: podemos sentir tristeza, ira ou paixão, mas, aos poucos, deixamos de buscar uma validação externa do nosso eu e abandonamos a busca incessante por uma felicidade que nunca chega.Por meio das experiências da vida — que nos levam à fadiga dessa luta interminável — começamos a perceber que nosso ser essencial, como a fonte no deserto de que nos fala Exupéry, nos oferece um alento de paz ao renunciarmos à luta externa.O ser real transcende as barreiras da separatividade e as ilusões do eu.Para o ser real, não há limites: tudo o que existe é Um.Podemos, assim, começar a quebrar as barreiras de separação no nosso coração e fazer escolhas impessoais, livres de luta, mesmo diante de dificuldades e conflitos — numa nova atitude de vida. E assim, cada qual no seu caminho, pode alcançar uma paz permanente — não no tempo, mas no presente vivo, neste instante, onde a eternidade toca nosso coração.Imaginemos a roda de samsara: no exterior, os conflitos são inevitáveis, pela impermanência — mas, ao nos movermos para o centro, através dos raios (como um caminho interior), essas tensões se reduzem, até que, no ponto mais profundo, o conflito cessa, pelo reconhecimento da dualidade autocriada da consciência egocêntrica.Só o centro da roda cósmica é imóvel: é o vazio do cubo que a faz girar (Tao).O centro é o motor imóvel, o eixo do movimento — dele tudo depende, embora ele mesmo não participe do giro. É silêncio em meio ao ruído, é presença em meio ao fluxo.A roda é a própria vida. Mas para onde devemos seguir?Permanecer na periferia, girando com as tensões do mundo, ou trilhar o caminho de volta ao centro — onde habita a paz, onde o Ser é pleno, livre e indiviso?Foto: João Castro - Islândia
Estamos todos trancadosPrisioneiros desde o nascimentoTodos nós nascemos em um corpo em busca de liberdade.Na maioria das vezes, não temos consciência disso, mas, se buscarmos profundamente dentro de nós mesmos, encontraremos vestígios disso ao longo de toda a nossa vida.Como nos momentos de suposta felicidade e alegria que, de repente, se transformam em desespero, tristeza e decepção se as coisas não saem como planejado.Ou quando queremos desistir ou recomeçar do zero e nos perguntamos: “Por quê?” “O que está acontecendo?”O oposto também acontece: estamos imersos em tristeza, inquietação, falta de alegria e, de repente, de algum lugar, surge uma pequena faísca de contentamento, completamente alheia às circunstâncias que estávamos vivenciando naquele momento. Novamente nos perguntamos: “Por quê?” “O que está acontecendo?”Mas a vida continua. Voltamos à chamada normalidade e seguimos em frente. Isso acontece muitas vezes, mas a própria vida é tão avassaladora — feliz ou triste — que logo nos esquecemos desses vislumbres. Mas será que os esquecemos mesmo?Será que essas experiências não retornam, mesmo que brevemente, de uma forma ou de outra, como lembretes?Lembretes de que estamos indo pelo caminho errado, na direção errada — de que talvez haja outro caminho?A doença também serve como um lembrete, quando longos ou curtos períodos de inatividade proporcionam a oportunidade (se soubermos aproveitá-los) de refletir sobre a vida — muitas vezes, sobre um fragmento importante dela.Será que, em todas essas experiências, estamos sendo lembrados de outro estado que pode penetrar nossa realidade atual e nos fazer recordar que somos prisioneiros deste mundo — dentro do nosso próprio mundo, dentro de nós mesmos?Encapsulados em uma realidade na qual nascemos, sobre a qual construímos nossa vida?Conforme a vida continua e as coisas se tornam cada vez mais sombrias ao nosso redor, talvez comecemos a nos perguntar, com mais clareza e frequência: será que existe outro caminho?Existe outra maneira?Talvez possamos começar a perceber o quão presos estamos quando somos lembrados periodicamente por esses fragmentos, vislumbres de outra realidade. Começamos a desejar não apenas os fragmentos, mas o que eles representam, o que nos convidam a buscar.Podemos começar a perceber que existe uma saída, outra oportunidade… uma maneira diferente de encarar a vida, de dentro para fora.Nossas atitudes, nossos sentimentos, nossos pensamentos. Nosso mundo e o que estamos fazendo com ele.Uma “saída de emergência”, bem aqui dentro de nós, dentro da nossa vida atual.Uma saída de emergência para uma realidade muito diferente, divina, que só pode ser aberta e acessada pelo nosso anseio.Nosso anseio por algo totalmente novo.Esse anseio está dentro de cada um de nós, profundamente escondido, apenas esperando.Olhe para dentro.Procure quando estiver pronto — e você encontrará.Foto: By Mirjam Aigner
A vida é sempre uma jornada para dentro de você mesmo. É uma aventura porque sempre nos confronta com o inesperado, o inusitado e, muitas vezes, o indesejado - com desafios que somente podemos vencer superando a nós mesmos. Se dermos uma olhada mais profunda em nossa vida, surge a questão: Quem é que vai nesta jornada?A jornada do imortalA maioria das pessoas gostaria de ter algumas experiências interessantes. No entanto, elas também anseiam por segurança. Crescimento e desenvolvimento, tudo bem – mas dentro de nossa zona de conforto, por favor. Desta maneira, estamos prontos para nos desenvolver e pôr à prova nós mesmos. Portanto, aquelas aventuras que parecem controláveis fornecem emoção. Há uma grande seleção delas, e cada um escolhe seu próprio grau de intensidade. Você prefere escalar uma montanha (o que não é muito difícil) ou prefere saltar de bungee jump? Uma viagem no deserto ou férias na praia com uma noite de música popular? Você prefere ler um suspense ou uma história de amor? Ou você gostaria de viver uma história de amor?Temos experiências, mas normalmente elas não passam de um conjunto de momentos interessantes, que são eliminados pouco tempo depois, já que não havia nada que realmente nos enriquecesse, apenas um pouco de tinta que ganhou vida e desbotou novamente. Será a nossa “normalidade” que cria essas crises?Fica mais interessante se olharmos o que está acontecendo no mundo. Podemos ver crises em todos os lugares. Há a crise climática, a crise ambiental, a crise dos refugiados, agressões crescentes entre Estados, Estados colapsando, alianças que estão se desintegrando. O que elas querem nos dizer? Será a nossa “normalidade” que cria essas crises? É possível que muitas vezes sejamos indiferentes às consequências da forma como vivemos, do que causamos devido aos nossos medos, desejos e ambições? Os problemas que não podemos perceber e resolver em nossa vida privada seriam refletidos em grande escala? Nossa vida privada muitas vezes não oscila entre interesses opostos? Nossos próprios objetivos conflitantes não nos levam a um estado de estagnação? Uma “crise” é uma situação decisiva que pode, se tomarmos a decisão certa no momento certo, ser um ponto de virada.A humanidade só pode agir de forma diferente em escala global se muitas pessoas estiverem prontas para se conhecerem e encontrarem os problemas em si próprias. Podemos chegar ao fundo de nosso ego? Precisamos perceber que, apesar da nossa inteligência, há muitas coisas que não queremos ver. Nossos corações estão muitas vezes blindados e indiferentes. Medos inconscientes causam muitos de nossos comportamentos e nos impedem de enfrentar as mudanças necessárias positivamente. Não nos conhecemos suficientemente e essa ignorância é mais profunda do que a que vemos em nossa vida exterior perceptível.O conhecimento de que algo está faltando só pode se desenvolver quando o que é temporal dentro de nós pode ser levado a um encontro com o eterno.Nossa vida em uma pequena escala pode nos ensinar muitas coisas necessárias. Muitas vezes é pelas dificuldades que superamos, ou mesmo pelas perdas que sofremos, que podemos emergir com mais força. Podemos ficar aliviados quando jogamos outra ilusão ao mar, mesmo que de início isso não tenha sido feito voluntariamente. Podemos ser fortalecidos porque experimentamos que uma perda não tirou nada de essencial de nós. Experimentamos uma liberdade inesperada, o começo de uma independência de coisas e circunstâncias, de desejos, medos e necessidades. Sobre o rio da vidaSempre que realmente nos envolvemos com pessoas e situações, isso pode ser iluminador e libertador. Aqueles que se atrevem a seguir uma situação de forma espontânea e rejeitam seus próprios planos de vida, ou mesmo deixam um caminho aparentemente bem planejado, irão descobrir novos lados dentro de si mesmos. Por meio de sua devoção, essas pessoas encontrarão em si mesmas uma profundidade da qual nada sabiam. Elas descobrirão que esculpir-se foi menos conveniente do que o que o rio da vida tornou visível. Então, alguma liberdade pode se desenvolver, por exemplo, o livrar-se da auto representação, de papéis pré-concebidos. Então, pode-se perguntar se o eu é definível e delimitável. A maior verdade não estaria no esquecimento de si mesmo, em cooperar com os outros?Nossa visão de vida é aguçada por meio de todas as nossas experiências. Estamos agora em busca de plenitude, amor, perfeição. A partir de agora fica difícil, pois a experiência de plenitude não pode ser mantida. Se tentarmos nos agarrar a ela, experimentaremos estagnação. Buscamos por amor verdadeiro e percebemos que estabelecemos condições e que cobramos de forma cruzada o dar e o receber. Queremos recuperar o primeiro grande avanço de sentimentos que transmitimos. É normal pensar que a vida (e os outros) nos deve algo. Mas será este o caso?Se buscarmos a perfeição, teremos que ser honestos conosco. Podemos fazer isso percebendo que somos um com nós mesmos em nosso pensamento, sentimento e ação. No entanto, existem muitos objetivos conflitantes dentro de nós. Gostaríamos de ter a segurança do nosso bem-estar e a liberdade de levar uma bagagem leve. Queremos ser um com todas as almas lá fora, mas permanecendo dentro de nossas quatro paredes… Gostamos de ajudar, mas baseado em quê e com quanto compromisso? Podemos ser verdadeiros, podemos ser bons? Um ser humano pode ser bom em tudo? “Ninguém é bom, nem um sequer”, disse Jesus. Essa frase soa como um alerta vermelho, que não vai, no entanto, impedir as almas de buscar.A vida sempre nos dá nossas aventuras em encontros inesperados, em relacionamentos que estabelecemos, em conflitos que aceitamos e por meio de experiências. As falhas podem, de repente, revelar um tesouro interior inesperado, que nos mostra um lugar no centro, no qual meu e seu, errado e certo se fundem em algo novo. Abre-se um caminho onde há confiança, onde se torna possível perder-se “a nós próprios” sem expectativas e onde somos transportados pelo desconhecido que nos espera no fim do caminho.O eterno em nós está viajando através do espaço e tempoComo seria a nossa jornada de vida se pudéssemos vê-la da perspectiva do eterno dentro de nós? Procuramos por “nós mesmos”; o eterno em nós quer se mostrar como o verdadeiro eu. Somos refletidos em pessoas e coisas; o eterno se reflete em nós – mas será que o entendemos? Buscamos a perfeição nas coisas efêmeras, mas elas são “apenas uma parábola” do eterno.Procuramos a unidade e nos deixamos acorrentar. Mas existe o imortal dentro de nós, que está conectado a tudo e quer se livrar de seus grilhões temporais. Temos um período de cerca de oitenta anos à nossa disposição; o eterno tem viajado pelo espaço e tempo desde tempos imemoriais. Estamos em separação. O eterno, entretanto, é uma parte integrante do universo divino; é um microcosmo, um pequeno universo, que quer chegar ao destino de sua jornada com a nossa ajuda. Isso significa que o microcosmo nos acompanha em todas as experiências que vivemos. Experimentamos uma vida de aventuras – mas a aventura do microcosmo, do eterno em nós – é o que realmente somos.Frequentemente, quando superamos perdas ou dificuldades, ou vivenciamos algo belo ou comovente, podemos ter um momento instantâneo de liberdade. Então, agimos sem medo, nos soltamos sem temer as consequências. No início é um processo de maturidade da alma. A partir daí, se desenvolve uma consciência da alma e há crescente abertura para o insondável, o eterno em nosso centro (e dentro de todos os outros!). Aprendemos a ouvir interiormente. O amor e a devoção ao eu divino podem crescer naqueles que prosseguem. Pela primeira vez, há percepção de que o eterno precisa do temporal, que passa por um desenvolvimento com a nossa ajuda. Um encontro consciente ainda não é possível, no entanto.Mas algo estranho está acontecendo. Todos os incidentes se tornaram um portão aberto. Se passarmos por ele, aproximamo-nos do eterno em nós, através de tudo o que constitui a nossa vida. Então, parece que tudo o que acontece quer se canalizar dessa forma.Ao mesmo tempo uma grande transformação começou em nossa consciência, em nosso pensamento e sentimento. Limites são abolidos. Medos, hostilidade e polaridade tornam-se mais fracos; a unidade em tudo se torna visível. Além do mais, essa unidade se torna a base de nosso pensamento e sentimento. Este é o início de uma transformação. Uma nova vontade vai crescer dentro daqueles que, consequentemente, seguem este caminho. Eles vão superar os velhos laços materiais. Essa nova vontade se torna uma fonte de forças vitais que nunca secará; será a porta para uma vida imperecível. Novas forças fluirão para todo o ser e o transformarão. Para o ego temporal, é uma forma de deixar ir, de se separar, de “perecer” e “elevar-se” no Novo que se aproxima. No final, é um renascimento do eterno em nós. Aqueles que seguem esse caminho tornam-se habitantes conscientes de dois mundos, ou seja, do eterno e do temporal. Existe aventura maior do que essa jornada?Foto: JL G via Pixabay
PazSe bebo da água frescado rio da vida —sem pressa,sem medo,em total ausência de conflito,na presença do sagrado —ali estou em paz.Mas…seria isso apenas um devaneio?Sem o silêncio,sem uma reflexão,sem um olhar atento,sem estender a mão,deixa-se escapar a vidana luta sem fim de todos os dias.É possível ir além?Existe saída?Uma voz tímidadiz: sim.É a voz da pura inquietação.E, por ela,e após longa jornada,chega-se à fonte da vida.E o seu frutoé a paz.Photo by Cristiane - Tocantins River, Amazon, Brazil
PONTO DE ATENÇÃOQual é o foco de minha atenção?Geralmente, a atenção surge como um ponto que gira em torno de si mesmo. É como se ela só pudesse se focar em um único por cada vez: em algo que eu vejo ou sinto, um pensamento, uma memória. É por isso que ela gira em círculos em torno de si mesma, caoticamente, em um turbilhão de pensamentos e sentimentos. Na verdade, meus olhos só conseguem ver claramente uma pequena parte do meu campo de visão. Como sempre examino tudo ao meu redor com os olhos, tenho a ilusão de que consigo ver tudo claramente, como se percebesse a totalidade. Mas, efetivamente, só tenho uma ideia do Todo - não estou vendo o Todo em realidade.É semelhante ao que acontece com os pensamentos. Em minha cabeça, só cabe um pensamento de cada vez - assim como quando eu leio ou escrevo. Minha atenção envolve um pensamento, algumas palavras ou conceitos. Quando falo, pronuncio palavra por palavra. Minha atenção está sempre limitada a um pensamento, uma memória, um sentimento: a uma parte muito pequena de toda a realidade.A partir disso, o cérebro tenta construir um Todo. Ele faz uma representação do Todo com a ajuda de minha memória, para que eu possa agir de forma razoavelmente significativa neste mundo do qual tenho uma representação, uma ideia. A representação se expande por meio da experiência e é assim que “aprendemos”.Com isso, meu ponto de atenção é muito caótico, não é mesmo? Ele se determina a partir de uma lasca, umafração de tudo - e até da realidade daquilo que “sou eu mesmo”. É como se eu quase nunca estivesse completamente comigo mesmo. Sim, que tagarelice é essa dentro da minha cabeça? Não seria um estreitamento da consciência, uma limitação? Esse pequeno ponto de atenção é espiral! Será que tenho controle sobre ele? Isso me faz feliz? Afinal, qual é o núcleo de meu ser? Quais são suas principais forças determinantes? Minha atenção não seria determinada pelos objetivos de todos os meus desejos e necessidades? Aspiro a alguns objetivos futuros e quero tentar alcançá-los com pensamentos e ações. Meu ponto de atenção fica sempre examinando ao redor para determinar sua posição - e também sua oposição. Nos animais, reconhecemos esse ponto que precisa estar constantemente vigilante para sentir se está seguro ou para descobrir onde há comida. Nesta vida natural, observamos um processo de desenvolvimento da consciência tanto nas plantas como em animais e seres humanos. Foi assim que a consciência se desenvolveu na consciência do eu que sou agora.Minha atenção sempre reflete um fragmento do Todo. Mas, que tal se agora eu tentar não fixar minha atenção em um pensamento, em uma palavra ou em uma outra coisa qualquer, e apenas ouvir o silêncio interior e perceber que tudo é, que eu sou? O que acham de eu fazer isso sem nada saber, sem nada entender, e permanecer imóvel, maravilhado, em plena quietude, voltando meu olhar para dentro - para a fonte de minha consciência, para todas as consciências e todas as vidas?Prestar atenção no Todo! Só assim a consciência conseguirá despertar a partir da centelha divina, una com a fonte de tudo. Os rosa-cruzes clássicos chamam essa centelha de “átomo primordial”. Em seu livro sobre a Pistis Sophia, J. van Rijckenborgh descreve uma atividade muito especial, no capítulo sobre o átomo primordial e o que acontece quando somos capazes de focar continuamente nossa atenção nesse átomo primordial. Quando nossa consciência se concentra na centelha divina que reside em nosso coração, aquela pepita de ouro que é a fonte de tudo, que é nossa conexão com o Todo e com todos, então vai crescendo em nós a compreensão de que tudo está simultaneamente em todos os lugares.É por isso que todo pensamento ou interpretação de nosso ego perturba essa compreensão. Então, somos tocados e vivenciamos algo que não pode ser expresso em palavras - algo que surge de um profundo anseio no qual nossa atenção já pode mergulhar, para que possamos crescer e nos tornar mais fortes. É aí que a centelha se transforma em puro fogo!Agora percebo que tenho de me render, deixar tudo para trás, para desaparecer nessa fonte. A fonte se apresenta como o próprio Amor! Assim, nos vemos diante do portão onde o Eu desaparece e tudo o mais se revela - sentindo o imenso anseio pelo Uno, por esse Uno que reconhecemos em um amoroso abraço. Agora, nossa consciência consegue se transformar em um lago sem ondulações, onde a Luz pode se refletir. Então, a Luz nos toca e nos tornamos unos com ela. Aspirem ao Amor, entreguem-se ao Amor - como se fosse uma inspiração e uma expiração! Lentamente, haverão de se tornar conscientes de um duplo fluir de energia. “Tudo receber, tudo ofertar”. Essa consciência florescente, que percebe que “tudo é ao mesmo tempo e está simultaneamente em todos os lugares”, é o Amor!Muitos testemunhos místicos de várias tradições falam de um “sair do tempo”. Por exemplo: Krishnamurti frequentemente fala do “fim do tempo”. Ele vê isso como um futuro para a humanidade. O Eu percebe sua limitação e sabe que precisa morrer - sair da limitação do ponto solitário e giratório de sua atenção. Agora, ele observa que está no limiar da “plenitude”, na rendição. Trata-se da reversão da consciência, o ponto de virada. No livro O Verbo Vivente, de Catharose de Petri, lemos a história dos peregrinos de Emaús, após a crucificação de Cristo e de sua ressurreição. A consciência solitária e abandonada não consegue compreender, não consegue entender que não há mais forma e que a consciência-eu já não tem qualquer controle. Mas Ele, “o ressuscitado”, é reconhecido interiormente pelo Amor, pelo partir do pão, pelo ato de dar. Portanto, a única bússola que possuímos é o reconhecimento da centelha do Espírito, que é o Amor. Deixem que ela cresça a partir de sua própria atenção, a partir da fonte do próprio Amor! Dessa forma, o sentimento do Eu se desfaz e a gota se dissolve no oceano. Deixem tudo para trás e mantenham apenas o Amor.Imagem: Rochelle-Lee-on-Unsplash CC0
SILÊNCIOMomento em que tudo vai desaparecendo aos poucos– quando até eu me desvaneço –e uma quietude pacífica vai chegando,oculta por tantas eras.É o momento em que o corpo dói– tecido por lágrimas no caos do mundo –e a alma emerge, em busca da Luz.As formas vão se desfazendo com a respiração.A mãe já não é mãe,o pai já não é pai.Seus filhos já não são seus.Os papéis sociais vão ficando transparentes como vidro.Passos ressoam no vazio.O chão de pedra debaixo de seus pés perde o significado, suaviza-se.Quando seu corpo sente como se fosse parte de todos os oceanos domundo,o conforto se manifesta a partir de dentro, como uma prece de despertar.Só então você pode fechar suavemente os olhose sentir a vida — o chamado divino dentro do Silêncio.Photo: ameera on Unsplash CC0



























