Discover
RFI Convida
RFI Convida
Author: RFI Brasil
Subscribed: 18Played: 962Subscribe
Share
© France Médias Monde
Description
Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.
1212 Episodes
Reverse
O Brasil viveu uma eleição de todos os recordes: a mais acirrada, a maior abstenção no primeiro turno, seguida pela mais alta taxa de participação em 20 anos no segundo turno, os recursos judiciais ao Tribunal Superior Eleitoral durante a campanha, além da prorrogação inédita da votação por duas horas e a virada sem precedentes de Lula nas urnas. Essa montanha-russa revela o quanto a crise política no país permanece viva – uma fratura que a eleição do petista, por si só, não resolverá. Lúcia Müzell, enviada especial da RFI a São Paulo Nos quatro anos que se passaram desde a sua volta ao poder, a reconciliação nacional não foi uma prioridade de Lula. A partir de janeiro, o petista iniciará seu quarto e último mandato, e, durante os próximos quatro anos, também precisará encaminhar um herdeiro político capaz de enfrentar o bolsonarismo nas urnas. Os dois objetivos poderão caminhar juntos. Estrategicamente, o governo de "Lula 4" deveria se aproximar da direita, avalia o cientista político Carlos Alberto de Melo, professor do Insper em São Paulo. “Não sei se podemos esperar, mas devemos esperar, porque, se não for dessa forma, o presidente vai ter muita dificuldade em governar. Se o presidente se limitar a um campo ideológico, se limitar aos seus próximos, ele não vai dialogar com a sociedade e não vai dialogar com o Congresso Nacional”, afirma o doutor em Ciências Sociais. Confira abaixo os principais trechos da entrevista. Como o senhor qualifica essa dinâmica tão intensa e passional que os brasileiros viveram nos últimos meses, no contexto das eleições? O que se diz aqui é que o roteirista do Brasil é maluco e absolutamente perverso, porque ele é supercriativo, todo dia tem alguma novidade. Normalmente, uma crise é algo aflitivo, só que a gente vai passando por isso há alguns anos. Agora, o que nós temos de verdade é uma crise séria, que a eleição, por si só, não resolve. Nós temos um país dividido socialmente, politicamente, mas também culturalmente. As divergências culturais são muito profundas entre um bloco e outro. É um Brasil que não consegue se ajustar e tem faltado liderança para fazer a interpretação desses dois mundos e tentar unificar esses dois mundos. Esse é um problema sério. E aí nós temos também crises institucionais. O nosso Legislativo há muito tempo não olha mais para o Brasil como um todo. Cada deputado, cada senador, olha para seus interesses paroquiais. Ninguém mais discute o Brasil, o futuro. O Supremo Tribunal Federal, que teve um papel muito importante recentemente por conta da tentativa de golpe, também passou por um desgaste muito grande. Envolveu‑se com relações nem um pouco republicanas e também precisa ser revisto. E o Executivo tem perdido força ao longo dos anos na execução do orçamento e, portanto, força política. Então, nada disso se resolve com eleição. Mas vira-se uma página e tenta-se agora reconstruir processos. Vamos ver se o presidente reeleito terá uma outra postura nesse novo mandato e se estará disposto a fazer isso. Apesar da vitória bastante expressiva de Lula, com 51,7% dos votos, o antilulismo continua muito forte na sociedade brasileira. Os números mostraram isso ao longo da eleição, nas pesquisas. No discurso da vitória, ele sinalizou a intenção de tentar reconciliar o país, mas isso já não foi possível nesse atual mandato. Você acha que o presidente vai ser capaz de reverter esse quadro? A sua pergunta exige uma resposta objetiva: eu não sei. A primeira questão é como o presidente vai interpretar essa vitória: se ele vai interpretar como uma vitória dele ou se ele vai interpretar como uma vitória do antibolsonarismo que foi às ruas por medo em relação à família Bolsonaro, foi às ruas em defesa da democracia. Não foram só os petistas que foram às ruas. Foi muito maior do que o PT. Foi muito maior do que o lulismo. Eu estou há mais de 40 anos envolvido com essas coisas todas e eu nunca vi um movimento tão orgânico. Foi independente de partidos e de lideranças políticas. As pessoas simplesmente foram às ruas e tomaram as redes sociais. Se o presidente perceber que esse vigor social é maior do que ele, maior do que o partido dele, talvez ele comece a orientar o seu governo para um diálogo social mais amplo. Primeiro, nesse campo democrático, mas também é necessário compreender que o senador Flávio Bolsonaro teve 59 milhões de votos. Lula não pode simplesmente desqualificar esses eleitores. É necessário puxá-los, trazê-los para o campo da democracia e para o diálogo da construção de um projeto nacional, político e social. Pode-se esperar um governo Lula mais à direita, talvez o mais à direita já visto até hoje, seja pela questão da segurança, que impulsiona muito o voto no bolsonarismo, mas também na economia, que tem arrastado as elites econômicas para a direita há vários anos no Brasil? Eu acho que devemos esperar isso, mas não sei se podemos esperar. Devemos esperar porque me parece que se não for dessa forma, o presidente vai ter muita dificuldade em governar. Se o presidente se limitar a um campo ideológico, se limitar aos seus próximos, ele não vai dialogar com a sociedade e não vai dialogar com o Congresso Nacional. No Senado, me parece que a maioria está perdida, porque a oposição fez muitas cadeiras. Mas na Câmara dos Deputados é possível você construir maioria com o que se chama de "Centrão". É um grupo fisiológico. Haverá uma barganha? Sim, do ponto de vista de recursos públicos, mas talvez ela seja inevitável se ela trouxer junto um alinhamento político para ter governabilidade e pensar o futuro. Talvez seja o preço a se pagar. Em relação ao futuro do bolsonarismo, o não reconhecimento imediato da vitória de Lula por Flávio Bolsonaro, mas também por Donald Trump, antecipa tempos conturbados pela frente? Um 8 de janeiro poderia se repetir? Eu acho que o 8 de janeiro vai ser muito mais difícil, porque ele foi gerado ao longo do tempo no governo Bolsonaro. O 8 de janeiro não foi uma rebelião espontânea. Ele foi construído, porque Bolsonaro estava no governo e tinha recursos para fazer essa construção. Os acampamentos na frente dos quartéis contaram com a tolerância dos comandantes militares. Não haverá mais isso agora. Não digo que os militares vão colocar para correr quem ficar na frente dos quartéis, mas não serão receptivos, o que já é uma diferença muito grande. O clima relativamente pacífico que se verificou após o pleito é resultado da resposta das instituições democráticas do Brasil após a tentativa de golpe? Exatamente. O controle exercido pelo Estado, as instituições do Estado, a Polícia Federal, a Procuradoria-Geral da República, as Forças Armadas, o Judiciário, com todos os problemas, parecem indicar pelo menos um alinhamento em relação à democracia. Com relação ao Donald Trump, nós vamos precisar esperar uma semana para ver qual é o resultado da eleição americana. Eu tenho brincado que a eleição de meio de mandato nos Estados Unidos é o nosso terceiro turno da eleição brasileira, porque o alinhamento da extrema direita brasileira é muito grande com a extrema direita americana, que hoje está completamente sem freios, porque tem maioria na Câmara, tem maioria no Senado e influência decisiva sobre a Suprema Corte. Se Donald Trump perde a maioria no Congresso, o sistema de freios e contrapesos nos Estados Unidos volta a funcionar, e logo esse tipo de disposição em relação aos outros países, de intervenção, pode ser contido. Isso pode ser muito importante para o Brasil também. Sobre o Flávio, a gente viu o candidato chegar ao apogeu ao vencer o primeiro turno – após ter a candidatura contestada internamente, no começo da campanha – e conseguir virar o favorito para o segundo. Alguns analistas têm avaliado que a derrota dele na eleição poderá ser uma derrota pessoal sua como sucessor do bolsonarismo. Qual a sua opinião? Houve, no primeiro turno, uma certa soberba da parte do presidente Lula, que acreditava que ganharia a eleição fácil, e não foi assim. Ele poderia ter perdido no primeiro turno. Não mobilizou, não foi às ruas, e há toda uma crítica a ser feita à disposição pessoal do presidente e à política do Partido dos Trabalhadores em relação à eleição. No segundo turno, parece que isso virou, mudou de lado. O senador Bolsonaro, quando venceu o primeiro turno, ele já saiu falando como presidente da República e cometeu alguns erros primários. Ele já fala da composição do governo, da sua pretensão de mudar a Constituição. Ao mesmo tempo que ele vai criando um sentimento de soberba – aqui no Brasil nós temos uma expressão que é "colocar a mão na taça” –, também vai despertando temores. Mudar a Constituição para quê? Para onde? A porta-voz econômica do candidato também desatou a falar demais, de uma forma arrogante, em que ela simplesmente falava que iria cortar gastos, de uma forma que despertou medo em setores sociais que precisam do governo. A candidatura de Flávio acabou assustando os eleitores? Assustou. O Brasil precisa de ajustes, e é evidente que precisa de um ajuste fiscal. Mas a questão é: quem vai pagar esse ajuste? Serão os mais necessitados ou nós faremos um grande acordo, uma concertação política para chegar nesse ajuste, com um diálogo mais amplo? O temor que se estabeleceu é que se impusesse de cima para baixo um grande corte de recursos que afetasse uma população pobre, que no Brasil é a maioria. Não é fácil você adotar um receituário ultraliberal num país que tem muitas necessidades, um país muito carente como o Brasil. É fácil você falar desse receituário em democracias desenvolvidas, em economias muito bem estabelecidas, modernas. Aqui é mais difícil.
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva pode representar um divisor de águas para a América Latina, avalia o cientista político Gaspard Estrada, da London School of Economics. Em entrevista à RFI, ele destaca a mobilização espontânea da sociedade em defesa da democracia, mas alerta para um Congresso conservador, pressões econômicas e desafios na relação com os Estados Unidos. Segundo ele, o resultado estimula forças progressistas no exterior, embora não permita uma tradução eleitoral automática. A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva representa, na avaliação do cientista político Gaspard Estrada, um momento de inflexão para a região, em um cenário marcado pelo avanço de forças conservadoras e de extrema direita. Especialista em América Latina e integrante da unidade Sul Global da London School of Economics, ele considera que o resultado brasileiro ultrapassa a disputa eleitoral e recoloca no centro do debate a defesa do multilateralismo, dos direitos humanos e da agenda ambiental. “Em primeiro lugar, essa vitória do presidente Lula vai ser realmente um divisor de águas para a América Latina e a América do Sul, que estava com uma tendência para a direita ou até extrema direita, dependendo dos países, e é evidente que ter um governo brasileiro que é membro do G20, que é um dos principais países, principais economias mundiais, muito vinculado à defesa do multilateralismo, dos direitos humanos, da agenda ambiental, e isso vai ter um peso muito importante no quadro internacional”, avalia. Para Estrada, a mobilização da sociedade brasileira durante o segundo turno constitui um dos principais elementos para compreender o resultado. O cientista político ressalta que a participação nas ruas e nas redes sociais não se limitou à estrutura partidária ou à atuação da campanha de Lula, mas expressou uma disposição de setores da sociedade de impedir o retorno da extrema direita ao poder. Leia tambémLula reverte tendência e vence eleições para um quarto mandato de presidente “É evidente que é difícil de poder fazer uma tradução eleitoral do que aconteceu no Brasil e em outros países, em particular da Europa. Mas é claro que isso é um incentivo e essa eleição dá um discurso para lideranças políticas progressistas de apelar aos cidadãos e, sobretudo, para que a sociedade civil se organize", analisa. "Eu acho que a lição fundamental desse segundo turno é que muitas das mobilizações nas ruas e nas redes em favor do presidente Lula foram movimentos espontâneos, orgânicos, que não dependiam da própria campanha, mas sim de uma vontade genuína da sociedade de evitar a volta da extrema-direita ao poder", reitera Estrada. A mobilização digital também teve papel importante na reta final da campanha. Estrada destaca a atuação do deputado André Janones, responsável por uma iniciativa de comunicação que ampliou a circulação de informações favoráveis à candidatura petista. Para o entrevistado, a experiência evidenciou uma mudança na capacidade de articulação política da esquerda brasileira. “Sem dúvida, a criação desse canal de WhatsApp, que chegou a mais de 10 milhões de seguidores, teve um papel muito importante na disseminação, no compartilhamento de informações. E isso tem a ver com o fato de que a esquerda brasileira, até há poucos meses, semanas atrás, não tinha essa capacidade de se comunicar digitalmente com a sociedade. Tanto assim que no seu discurso de vitória ontem Lula falou que no seu quarto mandato ele dará uma importância muito grande à comunicação digital”, pontua. Governabilidade A vitória eleitoral, contudo, não elimina os obstáculos que Lula terá de enfrentar para governar. Estrada avalia que a composição do Congresso será um dos principais desafios do próximo mandato, com o Partido Liberal ocupando a maior bancada e o bolsonarismo mantendo força política. O avanço da direita, segundo ele, ocorreu sobretudo sobre o centrão, enquanto a esquerda, em particular o Partido dos Trabalhadores, manteve resultados próximos aos da legislatura anterior. “Vai ser um cenário desafiador para o presidente Lula, no sentido de que na Câmara dos Deputados e no Senado o Partido Liberal terá a primeira bancada. Então, é evidente que há uma recomposição das forças políticas. No Brasil, há um bolsonarismo na extrema direita que está muito forte, será muito atuante no Congresso e, paradoxalmente, o avanço da extrema direita se deu sobre o centrão, porque, na verdade, se você acompanha os números dos resultados das eleições, à esquerda, em particular o Partido dos Trabalhadores, ficou mais ou menos no mesmo nível que na legislatura passada”, diz Estrada. O cientista político prevê uma atuação mais confrontadora dos setores bolsonaristas no Legislativo, com tentativas de revanche política e pedidos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal. A disputa institucional, afirma, deverá se intensificar a partir da próxima legislatura. “Na verdade, o que a gente verá na próxima legislatura é um Congresso onde as posições políticas serão muito mais afirmadas. Haverá, eu acho, um desejo de revanche eleitoral dos bolsonaristas, com, sem dúvida, pedidos de impeachment a ministros do STF.” Antes da posse, em janeiro, a economia deverá concentrar as preocupações do governo. Estrada aponta a expectativa de reação do mercado financeiro, que havia apostado na vitória de Flávio Bolsonaro, e prevê pressão sobre Lula para apresentar medidas de contenção de gastos. Leia tambémTrump mantém silêncio após vitória de Lula e derrota do aliado Flávio Bolsonaro “Os agentes econômicos, em particular o mercado financeiro, apostaram muito na vitória do Flávio Bolsonaro. Então é de se prever que nesses próximos dias, ocorra uma queda da bolsa, um aumento da cotação do dólar e uma pressão forte dos agentes econômicos sobre o governo para que ele apresente medidas de redução de contenção de gastos”, aponta. Na avaliação do entrevistado, a condução da economia será o principal desafio imediato, enquanto a relação com o Congresso e o Judiciário deverá dominar a agenda política a partir do início do próximo mandato. França e União Europeia A eleição brasileira também pode abrir espaço para uma relação mais estratégica com a França e os demais países europeus. Estrada considera que a parceria histórica entre Brasil e França poderia ter avançado mais, caso não houvesse resistência francesa ao acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. “Esse acordo já entrou em vigor, então é de se esperar que esta eleição do Lula contribua para que ele tenha ainda mais força, mais vigor, e que isso permita que a relação se torne realmente estratégica, não só bilateralmente com a França, mas com os outros países da União Europeia”, diz Estrada. A façanha de Lula também pode oferecer argumentos a lideranças progressistas europeias, embora Estrada ressalte que as disputas eleitorais são determinadas sobretudo por questões nacionais. No caso francês, ele não considera que a eleição brasileira tenha capacidade de influenciar diretamente os candidatos. O impacto, portanto, não estaria na reprodução direta do resultado brasileiro, mas na possibilidade de que a mobilização social observada no país inspire movimentos semelhantes em outras democracias. “O assunto principal, eu acho que é o principal ensinamento da eleição brasileira foi a mobilização da sociedade. É justamente para defender seus direitos, defender a democracia, defender uma série de valores. Que estão ligados à Constituição de 1988, e evidente que no momento onde na Europa há um questionamento também a esses valores cardeais das democracias liberais, é evidente que nós não podemos descartar que um processo semelhante possa vir a acontecer.” Relação com os Estados Unidos A relação bilateral com os Estados Unidos deverá continuar marcada pela dimensão econômica, apesar das tensões provocadas pelas tarifas e pelas sanções mencionadas durante a entrevista. Estrada considera que a interdependência comercial entre os dois países torna improvável uma ruptura. “O que vem por aí, eu acho que haverá uma manutenção da relação bilateral, inclusive porque há uma parceria econômica que é muito grande, já seja em termos de importação pelos Estados Unidos, de laranja, açúcar, carne, mas também produtos tecnológicos, aviões, aço.” Para o cientista político, a vitória de Lula pode ampliar a margem de negociação brasileira, sobretudo diante de uma eventual fragilização política do presidente norte-americano, Donald Trump, após as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. “Com essa vitória, o presidente Lula vai estar numa posição de força e que possivelmente o Trump vai estar numa situação de maior fraqueza, por causa de uma eventual derrota dele nas eleições de meio de mandato [previstas para 3 de novembro]. E se isso se confirmar, vai dar mais ímpeto à posição brasileira e poderia dar sequência a um relacionamento um pouco mais equilibrado, mesmo se a personalidade do presidente Donald Trump nos conduz a ser muito prudentes sobre qual serão as posições do governo norte-americano.” Uma vitória em defesa da democracia Ao analisar o significado político da eleição, Estrada rejeita a interpretação de que o resultado tenha sido apenas uma vitória de um projeto partidário. Para ele, a disputa foi marcada sobretudo pela defesa da democracia, do Estado de direito e da Constituição de 1988. “Eu acho que foi uma luta a favor da democracia e do Estado do direito e a defesa da Constituição. E evidente que os valores do bolsonarismo são contrários a isso, inclusive porque o próprio Bolsonaro e a família Bolsonaro tem se posicionado reiteradamente contra os valores da Constituição de 1988.” Estrada considera que a mensagem das urnas ultrapassa a plataforma eleitoral do PT e representa uma manifestação da sociedade em favor de princípios democráticos. “O presidente Lula reconheceu que ia ser uma eleição de mudança, mas, por outro lado, a sociedade brasileira, na sua maioria, reconheceu que quem defendia os valores cardeais da soci
Fenômenos da internet, os deputados federais mais votados da história do Brasil, o mineiro Nikolas Ferreira e o paulista Lucas Pavanato, simbolizam a adesão sem complexos de uma parcela da juventude à extrema direita, das periferias aos bairros nobres. Os dois se tornaram verdadeiras máquinas de atrair votos no Partido Liberal e impulsionam a candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência. No entanto, ao mesmo tempo, o interesse dos jovens pelo voto está em queda – um fenômeno que a radicalização política ajuda a explicar. Lúcia Müzell, enviada especial da RFI a Belo Horizonte A faixa de eleitores de 16 a 24 anos representou 14,9 milhões de eleitores nas urnas no primeiro turno, 12% a menos do que na última eleição, em 2022. A diminuição na faixa de 16 a 18 anos, quando o voto é facultativo, é ainda maior: os registros de títulos de eleitor nesta idade caíram 23%, passando de 2,1 milhões para 1,6 milhão, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Vendedor de doces no Mercado Central de Belo Horizonte, Eduardo, de 22 anos, votou pela primeira vez ao fazer 18 anos, mas agora decidiu não participar do pleito. “Vi os dois lados no governo e os dois foram ruins. Proposta que é bom, não tem, então vou passar bem longe do segundo turno”, disse ele à RFI. “Os políticos ficam só brigando e enquanto isso as pessoas morrem nas filas dos hospitais, os preços estão os olhos da cara. Não acho que nenhum deles [Flávio Bolsonaro e Lula] vá mudar alguma coisa.” A cientista política Mayra Goulart, coordenadora do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aponta a polarização política dos últimos anos como uma das razões para explicar o aumento do desinteresse de uma parte desses eleitores. “Eu não acredito que seja uma questão geral, de os jovens estarem menos engajados na política. Mas as dinâmicas que acentuam os componentes ideológicos de determinados segmentos acabam afastando aqueles que não desejam demarcar suas posições. Passa a ser um campo relativamente minado”, analisa. Esquerda perde espaço Com uma diferença de mais de 2,5 milhões de votos de vantagem do candidato do PL sobre o petista no primeiro turno, os jovens são uma prioridade da campanha de Lula, candidato à reeleição. Historicamente, os mais novos tendem a votar à esquerda, mas a emergência de influenciadores digitais ultraconservadores balança este cenário. Filho de um pastor evangélico da periferia de Belo Horizonte e formado em Direito, Nikolas Ferreira, 30 anos, ganhou projeção nacional pelas redes sociais com críticas ao PT e a defesa de pautas conservadoras, como o combate ao aborto e as políticas de gênero. Seus vídeos, com linguagem acessível e tom de ironia, são vistos por milhões de pessoas em todo o país. Agora, apenas seis anos depois de entrar na política, ele teve mais de 3,1 milhões de votos para deputado federal e se consolidou como uma liderança do bolsonarismo. A ascensão e o discurso de Nikolas seduzem jovens como o gerente de uma banca de complementos alimentares João Lanza, 23 anos. Ele evoca a situação econômica do país e os valores religiosos como as razões para escolher Flávio presidente. "O povo brasileiro precisa voltar a sonhar, adquirir, melhorar o poder de compra. Eu e minha família valorizamos a família e os princípios da Bíblia”, explicou. “O brasileiro cansou desse discurso assistencialista, populista. O brasileiro quer o concreto.” Liberalismo, segurança pública e gênero O deputado federal Lucas Pavanato, que superou o recorde de votos de Eduardo Bolsonaro em São Paulo, prega o liberalismo econômico, políticas duras de segurança e tem nas questões de gênero uma de suas prioridades. Ele declarou sobre as pessoas trans: "não suporto essa farsa, um homem é um homem e uma mulher é uma mulher”. Somadas, as votações de Nikolas e Pavanato puxaram a eleição de mais 15 deputados do PL para o Congresso. Outra expoente do partido em São Paulo, a eleita deputada estadual Eduarda Campopiano diz ser "a maior inimiga das feministas”. Católica praticante, a jovem de apenas 23 anos ganhou a confiança de mais de 2 milhões de eleitores. "Há indicadores de radicalização ideológica principalmente no caso dos jovens do sexo masculino. Eles têm sido muito capturados em redes de misoginia, que muitas vezes flertam com atitudes que são criminosas”, salienta Mayra Goulart. “Já as meninas passam por um processo de maior percepção da importância dos compromissos com dinâmicas progressistas e são menos afeitas a discursos de defesa da moralidade tradicional da família tradicional, porque observam nesses valores e ideais algo muito ruim para as suas trajetórias profissionais e afetivas”, pondera a cientista política. Em Minas Gerais, a deputada estadual petista recém-eleita Ana Elisa, de 21 anos, reflete essa dinâmica: preta, ela rompe com o destaque de políticos influenciadores principalmente de direita e se tornou uma referência de como o PT pode reagir à força dos ultraconservadores na esfera digital. "Eu acho que há uma certa dificuldade de observar o quão popular é o discurso da extrema direita e como ele é capaz de capturar diferentes grupos que não se reconhecem como marginalizados”, aponta Goulart. Renan Santos, voto jovem de rejeição Neste contexto, também chama a atenção a projeção que um nome de fora da divisão PL-PT registra particularmente nesta faixa etária. O candidato Renan Santos, fundador do Movimento Brasil Livre (MBL) e candidato pelo partido Missão no primeiro turno, tinha o dobro de intenções de voto dos opositores entre o eleitorado jovem, conforme indicaram pesquisas da Quaest e do Datafolha. No segundo turno, seus eleitores são cortejados pelos dois finalistas, mas Santos afirmou que não apoiará nem Flávio, nem Lula. Ele defendeu que seus mais de 2,6 milhões de eleitores (2,24% dos votos válidos) “façam o que quiserem” no próximo domingo. Para Henrique Amaral Rodrigues, que aos 18 anos participa de sua segunda eleição e sonha em ser policial, a escolha vai ser pelo petista – não por adesão ao candidato, mas por rejeição a Flávio. “Eu gostei muito do Renan Santos, das propostas dele e do jeito dele de fazer campanha política. Mas no segundo turno, estou indo mais contra o Flávio”, indicou. "Nem sou a favor do Lula, mas não admito que o Flávio seja o nosso presidente, principalmente pelas posições dele contra as minorias. O Lula é o único que se conecta com essas pessoas.” Para ouvir a entrevista com a cientista política Mayra Goulart, clique em "ouvir", no topo.
Em nova turnê na Europa, Fabiana Cozza se apresenta em Paris com repertório que percorre clássicos do samba brasileiro, do samba de roda baiano à obra de compositores como Dona Ivone Lara, Nelson Cavaquinho, Cartola, Wilson Moreira, Ney Lopes e Clementina de Jesus. Uma das principais vozes do samba contemporâneo, a cantora, pesquisadora e escritora celebra os 50 anos de vida em um momento de especial realização pessoal: a conclusão do doutorado em música pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A celebração começou no último dia 10, com uma roda de samba no Studio de l'Ermitage, produzida por Regina Del Papa. Cercada por músicos brasileiros e franceses, entre eles o baixista Gerson Saeki, Fabiana reencontrou em Paris o ambiente festivo e coletivo que considera fundamental para compreender o samba para além do espetáculo. Para ela, a roda de samba é "esse lugar de celebração, de festa", mas também o espaço que a "forjou como artista" e como pensadora. A artista segue aprofundando a proposta que orienta esta temporada europeia: apresentar o samba não apenas como gênero musical, mas como expressão cultural, histórica e filosófica. Fabiana observa que o samba continua sendo frequentemente reduzido, fora do Brasil, à imagem do Carnaval. Sua proposta é ampliar esse olhar, apresentando-o como um espaço de memória, sociabilidade, ancestralidade e produção de conhecimento. "Eu tenho o samba como uma estrutura de pensamento, de relação, de sociabilidade, de história, de ancestralidade, de espiritualidade, onde a gente, através da música, faz com que ele aconteça", afirma. Na conversa com a RFI, a cantora explica que procura compartilhar essa dimensão com o público europeu, contextualizando as obras e os artistas que interpreta. Ao revisitar compositores como Dona Ivone Lara, Cartola, Nelson Cavaquinho, Ney Lopes e Clementina de Jesus, ela busca mostrar o samba como uma tradição viva, capaz de transmitir valores, histórias, formas de compreender o mundo e a sociedade brasileira. Essa reflexão atravessa também seus trabalhos mais recentes. Nos últimos dois anos, Fabiana lançou singles como Motumbá, Oloie de Ogum, Choro das Águas e Macumbeira, nos quais reafirma a importância das tradições afro-brasileiras e da liberdade religiosa. Ligada ao candomblé, a cantora afirma que se sente comprometida com o combate à intolerância religiosa e com a divulgação de conhecimentos sobre os orixás e as culturas de matriz africana, sem abrir mão do respeito às diferentes crenças. Pela pacificação inter-religiosa Sua defesa dessas tradições vem acompanhada de uma mensagem de convivência. Fabiana diz ser uma pessoa "muito respeitosa com a fé das pessoas e também com aqueles que não a professam" e rejeita qualquer tentativa de impor convicções religiosas. O objetivo, afirma, é contribuir para "a construção de um mundo onde as pessoas possam professar a sua fé amplamente". O momento de celebração coincide, porém, com uma fase de inquietação em relação ao Brasil. Embora descreva a turnê como uma festa pelos 50 anos e pela conclusão do doutorado, Fabiana admite acompanhar com preocupação a conjuntura política do país. Na sua visão, o samba mantém uma vocação histórica para a resistência, a denúncia e a construção de laços comunitários. "O samba é e sempre foi essa arte da palavra, da poesia, da resistência, da denúncia e da festa como potência revolucionária", resume. Comunidades do samba de São Paulo Aos 50 anos, a artista também prepara novos projetos. Ela tem selecionado títulos para dois novos álbuns. Um deles será dedicado a compositores ainda pouco gravados das tradicionais comunidades de samba paulistas, como o Berço do Samba de São Mateus, na zona leste, o Pagode da 27, no Grajaú, e a Comunidade Samba da Vela, ambos na zona sul. Outro, concebido ao lado do baixista Fi Maróstica, pretende retomar o diálogo com a diáspora negra, tema recorrente em sua trajetória artística. A turnê europeia prossegue neste domingo, 25 de outubro, com uma nova roda de samba no Studio de l'Ermitage, em Paris, espaço que se consolidou como um dos principais palcos da música brasileira na capital francesa. Depois, seguem duas apresentações mais intimistas nos dias 30 e 31 de outubro, na sala L'Accord Parfait, acompanhada pelo pianista franco-brasileiro Philippe Powell. Filho do violonista Baden Powell, Philippe é um dos nomes de destaque da cena jazzística contemporânea, transitando entre o jazz, a música brasileira e os ritmos afro-brasileiros.
Depois de encerrar uma turnê europeia de 17 apresentações, o acordeonista cearense Nonato Lima faz um balanço de sua trajetória internacional e de sua missão de divulgar a música brasileira além das fronteiras. Entre os momentos mais marcantes está a amizade construída com o francês Richard Galliano, referência mundial do acordeão e um dos músicos que mais influenciaram sua formação artística. Filho de sanfoneiro, Nonato Lima começou a tocar aos sete anos de idade e passou a se apresentar profissionalmente ao lado do pai ainda na infância. O que começou como uma brincadeira logo se transformou em profissão. "A sanfona virou amor à primeira vista. Nunca mais me separei dela. Ela já é um pedaço de mim", afirma. Ao longo da carreira, o músico construiu um percurso que o levou a dividir palcos e estúdios com nomes como Dominguinhos, Fagner, Ivete Sangalo, Yamandu Costa e Hamilton de Holanda. A versatilidade que lhe permite transitar entre o forró, a música instrumental brasileira, o jazz e o repertório erudito tornou-se uma de suas marcas. Essa abertura musical também explica a admiração antiga pelo acordeonista francês Richard Galliano. Nonato conta que descobriu sua obra aos 14 anos, por indicação do sanfoneiro cearense Zé do Norte. Fascinado pela sonoridade do músico francês, passou a estudar sua discografia e a incorporar referências de sua linguagem. Parceria com Richard Galliano Referência internacional do acordeão, Richard Galliano construiu uma carreira marcada pelo diálogo entre o jazz, a música clássica e a tradição musical dos bailes populares franceses, conhecida como "musette". Incentivado por Astor Piazzolla, criou nos anos 1980 o movimento "New Musette", que modernizou esse repertório ao incorporar influências contemporâneas. "Ele tem uma forma moderna do jeito francês de tocar. Isso me chamou muita atenção", lembra Nonato. A admiração de fã acabou evoluindo para uma amizade. Depois de anos acompanhando o trabalho do francês, os dois passaram a se comunicar pelas redes sociais, encontraram-se pessoalmente e chegaram a dividir o palco. Recentemente, também gravaram juntos a música "Fou Rire". O primeiro encontro superou as expectativas do músico cearense. Além da emoção de finalmente conhecer uma de suas maiores referências artísticas, Nonato conta ter sido surpreendido pela acolhida do acordeonista francês. "Você estar ao lado de mestres que sempre admirou é uma alegria sem fim. Foi a mesma emoção que senti quando toquei a primeira vez com Dominguinhos", afirma. Segundo ele, além do virtuosismo musical, Galliano o impressionou pela simplicidade e generosidade. "Ele me tratou como um filho." Um instrumento sem fronteiras A convivência com músicos de diferentes países reforçou uma percepção que Nonato leva para os seus espetáculos: embora a sanfona seja associada no Brasil ao forró e à cultura nordestina, o acordeão é um instrumento profundamente enraizado em tradições musicais espalhadas pelo mundo. "Em cada país existe uma linguagem própria para o acordeão. Na França, ele tem uma história muito ligada à música popular e também à música erudita. Quando apresento a música brasileira, as pessoas muitas vezes se surpreendem com as possibilidades do instrumento", explica. Durante a turnê, Nonato alternou apresentações, workshops e encontros com músicos locais. Em muitas cidades, foi recebido por brasileiros que acompanham sua carreira há anos e por europeus interessados em descobrir os ritmos do Nordeste. Um sinal, segundo ele, de que a sanfona continua encontrando novos caminhos muito além de sua terra de origem.



