Discover
Linha Direta
1483 Episodes
Reverse
Há dois dias do segundo turno das eleições presidenciais em Portugal, algo inédito no país em quatro décadas, o candidato socialista, António José Seguro, franco favorito nas sondagens, admite um cenário de “pesadelo”: o risco de perder devido ao aumento da abstenção. Seu adversário, o líder do partido de extrema direita Chega, André Ventura, defende o adiamento das eleições em meio às graves inundações que atingem o país. As prefeituras de Alcácer do Sal, Pombal e Arruda dos Vinhos remarcaram a votação para o dia 15 de fevereiro. Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Lisboa Durante as três semanas que decorreram entre o primeiro e o segundo turno das eleições presidenciais em Portugal, os dois candidatos, o socialista António José Seguro e o populista André Ventura, participaram de um único debate, considerado morno. Uma pesquisa feita pelo jornal Expresso e rede de TV SIC dá vitória a Seguro, com 62,6% dos votos, à frente de Ventura, com 37,4%. Mas o fato da disputa estar quase definida pode desmobilizar a ida dos eleitores às urnas no domingo. Nas últimas semanas, Portugal enfrentou quatro tempestades em série – Leonardo, Kristin, Ingrid e Joseph –, com chuvas intensas, ventos de até 160km/h e danos significativos que fizeram o governo decretar estado de calamidade em 68 municípios do país. As agendas dos dois candidatos tiveram de ser alteradas por causa do mau tempo e ambos visitaram zonas afetadas. Seguro mostrou como atuaria se fosse eleito, enquanto Ventura usou a tempestade para fazer campanha contra o atual governo. A previsão para domingo, dia das eleições, é de chuvas menos intensas, mas as condições climáticas podem levar a um aumento na taxa de abstenção, considerada a maior adversária dos candidatos. Apesar das inundações, o segundo turno está mantido para o domingo. Seguro defende que cabe às autoridades competentes decidirem sobre o adiamento dao pleito em seus municípios. O voto em Portugal não é obrigatório. Discurso hostil e agressivo Até bem pouco tempo atrás, Portugal era a única nação europeia que parecia estar imune do radicalismo da extrema, mas a chegada de André Ventura na cena política do país causou uma virada. “Acreditava-se que, porque tínhamos tido um fascismo até 1974, com Salazar, havia uma vacina que fazia com que os portugueses fossem hostis ao discurso da extrema direita, e que Portugal era também um país muito liberal, onde não havia racismo. Mas há uma guinada com a eleição de Ventura, quando todos esses mitos caem”, explicou à RFI João Carvalho, cientista político e pesquisador do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa (CIES-ISCTE). “Ventura é uma pessoa midiática, que estava nos programas de TV. Passou anos a fio a fazer um debate de futebol na TV, onde falavam de tudo menos de futebol. Foi aí que ele aprendeu a criar uma imagem midiática, um discurso muito antagônico, hostil e agressivo, assim como ele defendia o Benfica contra o Sporting. Agora, ele defende o Ventura contra o socialismo, mas o estilo é o mesmo”, ressaltou. Segundo Carvalho, dois motivos sustentam o sucesso do líder do Chega: o antipartidarismo e a ciganofobia. “Em Portugal, é absolutamente natural as pessoas dizerem: 'eu não sou racista, só não gosto de ciganos'. Esta ciganofobia existe antes mesmo de Salazar. Os ciganos estão aqui há cinco séculos", salienta o pesquisador. "O anticiganismo é transversal na sociedade portuguesa, vai desde a extrema esquerda à extrema direita. Ventura soube instrumentalizar esse ódio, dando a ideia de que ao expulsar os ciganos, o país vai virar uma Suíça”, reforçou o cientista político. 'Cordão sanitário' contra Ventura Neste segundo turno, mesmo sendo um candidato da esquerda, Seguro recebeu a adesão de muitos políticos da direita portuguesa, formando um “cordão sanitário” contra o candidato de extrema direita. No primeiro turno, o candidato socialista defendeu o “voto útil” contra o crescimento do Chega. “Ele pensou que a direita ia cair nos seus braços a dizer 'o Andrezinho é o maior'. Como isso não aconteceu, Ventura diz que é uma conspiração contra ele, mas isso é o seu próprio fracasso. Ou seja, Ventura não consegue criar um discurso que seja conciliador e não consegue ir para além da sua tribo", ressalta Carvalho. "André Ventura é completamente narcisista e vive exclusivamente para alimentar o seu ego. Mas mesmo se o Chega não ganhar as eleições, a sociedade portuguesa continua a considerar o Chega um partido normal, apesar do discurso racista”, pondera o professor do ISCTE. António José Seguro venceu o primeiro turno com 31,14% dos votos válidos, contra os 23,48% para Ventura. Em Portugal, que tem o regime semipresidencialista, o primeiro-ministro é quem governa e cabe ao presidente exercer o “poder moderador”, no qual ele não governa diretamente, mas equilibra o sistema através de vetos, dissolução do Parlamento e nomeação do primeiro-ministro, especialmente em momentos de crises institucionais.
Os Jogos Olímpicos de Milão-Cortina reunirão cerca de 3.500 atletas ao longo de 16 dias de competições. Em um formato inédito, as provas acontecem em sete localidades diferentes, modelo escolhido pelos organizadores por razões de sustentabilidade. Ambientalistas, no entanto, apontam contradições neste discurso. Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão As competições já começaram nesta semana. Na quarta-feira (4), tiveram início as provas de curling, seguidas, nesta quinta (5), pelas disputas de hóquei no gelo e snowboard. No entanto, a cerimônia de abertura, que marca o início oficial dos Jogos Olímpicos de Inverno, será realizada nesta sexta-feira (06), às 20 horas no horário local.O evento acontece no estádio San Siro, em Milão, com um público estimado em 70 mil espectadores, e tem como tema “Harmonia”. A programação inclui apresentações de artistas italianos renomados, como Andrea Bocelli e Laura Pausini, além de atrações internacionais, como Mariah Carey. Trata-se de um evento de grande porte, com cerca de 1.300 membros do elenco, incluindo voluntários, além de uma equipe operacional de cerca de 950 pessoas. Uma das principais novidades da cerimônia de abertura desta edição é o formato do desfile dos atletas. Como as competições estão espalhadas por diferentes cidades da Itália, o desfile também será dividido. As delegações vão desfilar nos mesmos locais onde irão competir, evitando deslocamentos entre cidades. O desfile acontece em Milão, Predazzo, Livigno e Cortina d’Ampezzo. A decisão de espalhar as competições tem um motivo principal: sustentabilidade. Com esse modelo, a organização optou por utilizar, em parte, estruturas já existentes. Em Milão, ficam as provas realizadas em recintos fechados, enquanto as modalidades de montanha estão distribuídas pelo norte da Itália. No total, cerca de 85% dos locais de competição já existiam antes dos Jogos, segundo os organizadores. Além disso, a organização apostou no uso de energia renovável, em tecnologias sustentáveis para a produção de neve e na reutilização de materiais dos Jogos Olímpicos de Verão de Paris 2024. Apesar das iniciativas anunciadas, grupos ambientalistas apontam contradições. Nesta semana, o Greenpeace lançou um apelo para que o Comitê Olímpico encerre o patrocínio da Eni, uma das maiores empresas de gás e petróleo do mundo. Segundo a organização, as operações da empresa com combustíveis fósseis contribuem para o aquecimento global, justamente o fenômeno que ameaça esportes dependentes de neve. Já a ONG italiana Legambiente diz que as promessas de sustentabilidade não se concretizaram e criticam as obras realizadas. “A escolha de apostar em obras repetidamente criticadas também por associações e comunidades locais - como, por exemplo, a nova pista de bobsled em Cortina, o teleférico Apollonio-Socrepes ou ainda as numerosas infraestruturas rodoviárias que estão sendo priorizadas em detrimento das ferroviárias - demonstra como estas Olimpíadas se baseiam em um modelo de gestão territorial míope e obsoleto”, diz o comunicado. Dos 98 projetos de infraestrutura previstos para os Jogos de Inverno, apenas 40 ficaram prontos a tempo, segundo a SIMICO, sociedade italiana responsável pelas obras. Outros 29 seguem em construção, 27 estão na fase de projeto e 2 em licitação. Brasil terá a maior delegação da história O Brasil participa dos Jogos de Inverno com 14 atletas, a maior delegação da sua história. O país vai competir em cinco modalidades: bobsled, esqui alpino, esqui cross-country, skeleton e snowboard. Esta será a décima participação brasileira em Olimpíadas de Inverno e, pela primeira vez, o país chega com chances reais de disputar medalhas. Até hoje, o Brasil nunca subiu ao pódio em Jogos de Inverno. O principal destaque é Lucas Pinheiro Braathen, do esqui alpino. Atualmente, ele ocupa a segunda posição no ranking mundial da modalidade e, somente nesta temporada, subiu ao pódio cinco vezes. Outro nome importante é o de Nicole Silveira, do skeleton. Ela disputa sua segunda Olimpíada e ocupa, no momento, o nono lugar na classificação geral da modalidade. O Chefe de Missão do Brasil nos Jogos de Milão-Cortina, Emílio Strapasson, afirmou à RFI que a expectativa é de que os Jogos de 2026 traga maior visibilidade para os esportes de inverno. “Apenas o fato de o Brasil chegar com chances de disputar um lugar no pódio já é histórico e traz muita atenção. A gente vai ter uma cobertura inédita com quatro grandes canais cobrindo praticamente todos os Jogos Olímpicos. A gente percebe já um aumento significativo número de pessoas acompanhando e conhecendo as nossas modalidades. Isso, com certeza, vai ampliar o interesse de potenciais patrocinadores e de investimento privado”, afirmou. Emílio, que foi o primeiro atleta de skeleton do Brasil e chegou a ficar entre os 30 melhores do mundo, destaca que, na última década, o país passou por uma evolução significativa na estrutura dos esportes de inverno.“Três ou quatro ciclos [olímpicos] atrás, até quando eu parei em 2013, eu não conseguia ver, em um cenário de curto prazo, essa situação que a gente está vivendo. Me lembro muito que quando a gente começou era uma dificuldade até dentro do próprio Comitê Olímpico compreender a importância, a relevância dos Jogos Olímpicos de Inverno. O que mudou completamente no nos últimos anos. Espero que a gente consiga proporcionar aos atletas o melhor ambiente possível pra que eles desempenhem [bem] e realizem seus sonhos lá na Itália”, disse Emílio. Os primeiros atletas brasileiros a entrarem em ação serão Manex Silva, Eduarda Ribera e Bruna Moura, que representam o país nas provas de esqui cross-country, marcadas para ter início próxima terça-feira (10).
Liderados pela Alemanha, um grupo de seis países está propondo uma iniciativa para acelerar as tomadas de decisão na União Europeia. Chamado de E6, o grupo composto por Alemanha, França, Polônia, Espanha, Itália e Países Baixos pretende oferecer um contrapeso mais ágil aos crescentes poderes de Rússia, China e Estados Unidos no cenário global. Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf O E6 foi apresentado de forma discreta, em 27 de janeiro de 2026, através de uma vídeo-conferência convocada pelo ministro alemão das Finanças, Lars Klingbeil, com os seus homólogos destes outros cinco países. A repercussão até aqui é pequena, mas tem potencial para alavancar ou, ao contrário, rachar a União Europeia. Isso porque o que a Alemanha está propondo é uma espécie de “União Europeia dentro da União Europeia”, ou, como o próprio ministro alemão chamou, “uma Europa a duas velocidades”. Enquanto as decisões do bloco atualmente envolvem consultar os 27 países membros, o E6 conseguiria tomar decisões mais rápidas sobre alguns assuntos, consultando apenas as seis maiores economias. A ideia é acelerar a atuação europeia em quatro frentes econômicas e militares. São três propostas econômicas. Primeiro, criar a chamada União de Poupança e Investimento da União Europeia, o que garantiria mais financiamento para empresas e startups. Segundo, reforçar o papel internacional do euro. Embora este seja um termo genérico, sabe-se que uma das ideias é tornar a Europa menos dependente de meios de pagamento estrangeiros, com foco na soberania tecnológica. O último tema econômico que deve ser acelerado pelo E6 é garantir a disponibilidade de matérias-primas e assegurar cadeias de abastecimento confiáveis. Em outras palavras, obter energia industrial barata, o que hoje é o principal entrave ao crescimento da Alemanha, mas também terras-raras, em um dos pontos que esse novo grupo econômico europeu pode cruzar o caminho do Brasil. Impasse entre França e Alemanha O quarto tema é sem dúvida é o mais urgente, dado o contexto da invasão russa à Ucránia. O documento de lançamento do E6 diz que a defesa deve ser “firmemente consagrada como prioridade no próximo Quadro Financeiro Plurianual da União Europeia”. O bloco está desenvolvendo uma força de reação rápida de até 5.000 soldados, entre outras iniciativas. A Alemanha já vem reforçando parcerias bilaterais de defesa, tendo assinado recentemente acordos com Itália e Polônia para desenvolvimento de armamento e exercícios militares conjuntos. Mas os desafios de integração em defesa não são poucos. Só para citar um exemplo, o mega projeto Sistema Aéreo de Combate Futuro, que visava desenvolver um caça franco-alemão, está em um impasse há anos e, segundo a revista alemã Stern, a ideia teria sido sepultada por Friedrich Merz esta semana, porque as empresas Dassault e Airbus não conseguem chegar a um acordo econômico. Potencial para críticas Por enquanto, não há nenhuma reação oficial, mas não é difícil prever que haverá críticas e alguma resistência entre os outros 21 países do bloco que ficarão de fora dessa iniciativa. Afinal, a ideia de um grupo decisório menor dentro do bloco vai contra todo o já tradicional discurso vindo de Bruxelas, de que a União Europeia precisa de mais e não menos integração. O fato de a iniciativa ser liderada pela Alemanha também certamente despertará reações, já que também há uma crítica tradicional dentro do bloco de que a Alemanha seria invariavelmente a economia mais beneficiada pelo euro.
Há um mês, Nicolás Maduro e a esposa, Cilia Flores, foram capturados pelos EUA. Desde então, a Venezuela vive mudanças sob o comando de Delcy Rodríguez. A presidente interina tem tomado decisões que flexibilizam setores do país, como a liberação de presos políticos, medidas para reativar a economia e, de forma mais surpreendente, o estreitamento de laços com Washington, evidenciado pela recepção, na segunda-feira (1°), da encarregada de negócios dos EUA no Palácio Presidencial de Miraflores. Elianah Jorge, especial para a RFI Enquanto Nicolás Maduro e Cilia Flores aguardam julgamento no Centro de Detenção Metropolitano, no Brooklyn, em Nova York, Delcy Rodríguez vem mexendo em leis, gabinetes e dando ordens, o que vem atualizando a face do chavismo em pleno 2026. Para a analista política Luz Melly Reyes, os acontecimentos recentes na Venezuela seriam impensáveis poucas semanas atrás, quando Maduro ainda governava com mão de ferro. "Um mês após a saída de Nicolás Maduro do governo e sua extradição para os Estados Unidos, na Venezuela vêm acontecendo coisas impensáveis há trinta dias. Algumas delas são a aprovação da reforma da Lei de Hidrocarbonetos, a liberação de pelo menos 300 presos políticos e a reabertura da Embaixada dos Estados Unidos em Caracas", afirmou a especialista. Apesar de muitos interpretarem essas ações como sinais de liberalização, Reyes observa que se trata de "uma etapa de reforço tático que o governo sabia que lhe convinha e sobre a qual estava trabalhando para poder ter novas entradas de dinheiro que evitassem que o país caísse em uma crise ainda mais profunda em termos econômicos". Segundo ela, o cenário atual reflete mais "ajustes estratégicos e econômicos do governo interino do que avanços efetivos na democratização do país". Leia tambémPara refugiados venezuelanos no Brasil, presidência de Delcy Rodríguez é um 'mal necessário' Na tarde da segunda-feira, Delcy Rodríguez se reuniu com a encarregada de negócios de Washington na Venezuela. A reativação das relações entre ambos os países segue a passos rápidos. Laura Dogu é a responsável por reabrir a embaixada dos Estados Unidos em Caracas. Desde 2019, a sede da diplomacia norte-americana na capital venezuelana estava fechada após a ruptura das relações entre os outrora inimigos. De acordo com Dogu, a reunião com Rodríguez e Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional e irmão da presidente interina, serviu para reiterar as três etapas propostas por Marco Rubio, secretário de Estado de Washington, para a Venezuela: a estabilização, a recuperação econômica, a reconciliação e a transição. Já o ministro venezuelano da Comunicação, Miguel Pérez Pirela, informou pelas redes sociais que o encontro faz parte da agenda de trabalho entre a Venezuela e os Estados Unidos. Cotado para assumir como embaixador da Venezuela, Félix Plasencia já está em Washington conduzindo reuniões para reabrir a embaixada venezuelana nos Estados Unidos. Anistia e petróleo O advogado Ali Daniels, diretor da ONG Acesso à Justiça, observa que, embora algumas medidas possam ser vistas como positivas, a execução ainda é limitada. "Com a reforma da Lei Orgânica de Hidrocarbonetos, foram feitas mudanças radicais e essenciais à indústria petrolífera do país, que contradizem todo o discurso oficial dos últimos 25 anos e modificam a forma como o recurso será manejado", afirmou. No entanto, Daniels ressalta que a liberação de presos políticos foi lenta e pouco transparente: "Não são libertações plenas, mas ex-prisões submetidas a muitas restrições. Muitas pessoas liberadas são proibidas de falar em público e obrigadas a se apresentar diariamente aos tribunais." Segundo Daniels, embora a anistia anunciada por Delcy Rodríguez seja um sinal positivo, ainda não é possível confirmar seu alcance: "Recebemos isso como uma boa notícia, mas não podemos dar um sinal completo enquanto não tivermos o texto da lei e vermos qual será seu alcance." Transição? Com a mudança no cenário político interno da Venezuela, alguns analistas e setores afirmam que o país estaria em transição rumo à democracia. No entanto, Ali Daniels, advogado e diretor da ONG Acesso à Justiça, ressalta que ainda faltam medidas concretas que apontem para uma redemocratização "efetiva". “Nesse sentido, fazemos o mesmo chamado que fizemos no princípio: que saiam todos os prisioneiros políticos para, a partir desse fato, poder dizer que a Venezuela começou um longo processo — porque sabemos que vai ser longo — em direção à democracia. Foi anunciado que haverá uma anistia, mas não foram divulgados os termos dela. Recebemos isso como uma boa notícia, mas não podemos dar um sinal completo enquanto não tivermos o texto da lei e não soubermos qual será seu alcance. Também vemos como positivo, como um sinal de esperança, o fechamento do [complexo prisional localizado em Caracas, conhecido internacionalmente por denúncias de tortura] Helicoide”, afirmou Daniels. Leia tambémInvestida de Trump na Venezuela tende a impulsionar nova dinâmica de petróleo na América Latina Na última sexta-feira, Rodríguez anunciou que “decidimos promover uma lei de anistia geral que cubra todo o período de violência política de 1999 até a data atual”. Essa iniciativa, que inclui a transformação do infame centro de detenção El Helicoide em um espaço social e esportivo, tem sido vista como uma tentativa de “curar feridas” e avançar na convivência social, embora a ausência de detalhes sobre os critérios da anistia gere dúvidas sobre seu impacto real. Segundo a ONG Fórum Penal, até esta segunda-feira havia 687 presos políticos no país, entre os quais seis jornalistas ainda mantidos sob custódia, apesar de excarcelamentos parciais no último mês. Nas redes sociais circula um vídeo que compara o antes e o depois de Óscar Castañeda, preso em 2024. Nas imagens divulgadas recentemente, o opositor aparece com graves sequelas, incluindo dificuldade para caminhar e incapacidade de reconhecer a própria filha — um exemplo que tem alimentado protestos e apelos pela libertação de detidos e por transparência no processo de anistia. "Princesinha do chavismo” Mesmo defendendo a libertação e o retorno de Nicolás Maduro à Venezuela, Delcy Rodríguez fez mudanças significativas em pastas centrais do governo. Ela também colocou em segundo plano pessoas próximas a Maduro. É o caso de Alex Saab, designado por Maduro para o Ministério da Indústria e Produção Nacional. Delcy o destituiu e integrou a pasta ao Ministério do Comércio. A presidente interina preferiu manter por perto, como ministro de Despacho da Presidência, Juan Escalona, então aliado do agora ex-presidente. Já Calixto Ortega, que era presidente do Banco Central da Venezuela, passou à presidência do Centro Internacional de Investimento Produtivo, sendo responsável por atrair novos investimentos ao país. Na tarde da segunda-feira, Delcy nomeou a “princesinha do chavismo” para o cargo de ministra do Turismo. Sancionada pelos EUA em 2024, Daniella Cabello é filha de Diosdado Cabello, ministro do Interior e da Justiça. Há anos o governo tenta promover o turismo internacional no país, mas a falta de infraestrutura e a reputação negativa da Venezuela não têm ajudado. Melhora econômica Enfraquecida após anos de sucateamento da infraestrutura e de sanções internacionais, a indústria petrolífera continua sendo a base da economia venezuelana. A reforma da Lei de Hidrocarbonetos, somada aos acordos com os Estados Unidos, sinaliza uma possível expansão na extração e exportação de petróleo, apesar dos desafios históricos enfrentados pelo setor. Para o economista José Guerra, duas mudanças recentes ilustram esse movimento. Primeiro, explicou ele, empresas petrolíferas agora podem exportar barris de petróleo que anteriormente eram vendidos com desconto à China, recebendo cerca de 50 dólares por barril no mercado — um valor mais próximo do preço de mercado e que gera recursos para o país. O problema, segundo Guerra, é que “o dinheiro é administrado pelos Estados Unidos e depois enviado à Venezuela de forma algo discricionária, sem continuidade nas entregas de dólares ao país”. A segunda mudança, disse o economista, foi a aprovação da nova Lei de Hidrocarbonetos, que desmontou a estrutura jurídica, legal e operacional da indústria petrolífera venezuelana concebida sob Hugo Chávez a partir de 2001. Essa reforma representa uma quebra com décadas de controle estatal e busca atrair investimentos, flexibilizando regras e abrindo espaço para maior participação privada e estrangeira. Leia tambémPor que Trump ignorou Nobel da Paz e decidiu apostar no chavismo para transição após Maduro Cidadãos venezuelanos ouvidos pela RFI relatam que, apesar das dificuldades persistentes, há uma pequena melhora e, sobretudo, esperança de que a situação econômica avance. Uma funcionária pública de 40 anos destacou a expectativa por investimentos na infraestrutura: “Pretendem investir na área de eletricidade, o que seria maravilhoso. Aqui na Venezuela, de sete dias da semana, em três dias, em Caracas ficamos com algumas áreas sem luz, e no interior do país são muitos mais dias.” O psicólogo Rodolfo Romero observou que “um mês depois, a situação está mais calma e tranquila. Há uma certa sensação de esperança em relação a uma melhoria na situação do país”.
O Oriente Médio vive dias de expectativa diante da possibilidade de uma ação militar dos Estados Unidos contra o Irã, como forma de punição ao regime do país pelas milhares de mortes de manifestantes iranianos. Os protestos diminuíram, mas, segundo o Centro Internacional para Direitos Humanos no Irã (CHRI, em inglês), organização que monitora o que acontece no país a partir de Nova York, pelo menos 43 mil pessoas foram mortas pelas forças do governo iraniano. Henry Galsky, correspondente da RFI em Israel O presidente Trump recebeu um relatório da Inteligência dos EUA informando que este é o momento mais frágil do governo do país desde a chamada Revolução Islâmica de 1979, quando este regime assumiu o controle do Irã. Há uma corrida contra o tempo para evitar uma nova guerra na região, mas, até agora, os esforços diplomáticos da Arábia Saudita, Egito, Turquia, Catar e Omã para aliviar as tensões fracassaram. Esses países buscam convencer o Irã a agir racionalmente e a “oferecer algo ao presidente Trump” que seja capaz de evitar um confronto. Em Washington, o presidente norte-americano confirmou a jornalistas que manteve conversas com o os iranianos. Trump tem repetido que prefere negociações sobre o programa nuclear do Irã e também sobre o enriquecimento de urânio. A bordo do avião presidencial Força Aérea Um, ele confirmou que o Irã “está conversando seriamente” com os Estados Unidos. De acordo com o New York Times, algumas das opções apresentadas a Trump incluem incursões terrestres no Irã. Se este for o caminho escolhido, os EUA consideram também a possibilidade de operações que venham a danificar gravemente ou destruir completamente instalações do programa nuclear iraniano que não foram atingidas durante a guerra de 12 dias de junho do ano passado. Mas, segundo fontes citadas de forma anônima pelo jornal, o líder norte-americano ainda não decidiu qual será a estratégia, se um ataque for mesmo realizado. A posição do Irã O líder-supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, foi às redes sociais dar um aviso claro: segundo ele, “os americanos devem saber que se eles começarem uma guerra, desta vez vai ser uma guerra regional”. A declaração de Khamenei é similar à de Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do parlamento do país, que afirmou que “o senhor Trump poderia até ser capaz de iniciar uma guerra, mas não teria controle algum sobre como ela terminaria” Também por meio das redes sociais, o secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Ali Larijani, declarou que “ao contrário da atmosfera criada pela guerra midiática artificial, a formação de uma estrutura para negociações está em andamento”. Mas não deu mais detalhes. O regime iraniano tem optado por mensagens ambíguas; acena para negociações, mas também diz estar pronto para a guerra. A missão do país na ONU afirmou na conta oficial na rede X (ex-Twitter) que “da última vez que os EUA se envolveram em guerras no Afeganistão e no Iraque, desperdiçaram mais de US$ 7 trilhões e perderam mais de 7 mil vidas americanas”. Em maiúsculas, como Donald Trump costuma fazer, os iranianos ameaçaram: “O Irã está pronto para o diálogo baseado no respeito mútuo e em interesses comuns — MAS, SE PROVOCADO, SE DEFENDERÁ E RESPONDERÁ COMO NUNCA ANTES!”. Ali Shamkhani, conselheiro do líder Supremo do Irã, incluiu Israel nas ameaças em postagem na rede X. “Falar de um ataque limitado é uma ilusão. Qualquer ação militar norte-americana, em qualquer nível, será considerada o início de uma guerra e será recebida com uma resposta imediata e sem precedentes direcionada ao agressor, a todos os seus apoiadores e ao coração de Tel Aviv”. A posição de Israel A avaliação de fontes de segurança é que os Estados Unidos deverão comunicar as autoridades israelenses com alguma antecedência, se de fato o presidente Donald Trump determinar uma ação no Irã. Reservistas israelenses aguardam a convocação, em caso de necessidade. Israel também se prepara para modelos alternativos de ataques contra o seu território com a possibilidade até de ações terrestres. Segundo informação obtida pela RFI, milícias pró-Irã no Iraque podem buscar uma infiltração terrestre em Israel por meio da fronteira com a Jordânia, a mais extensa de todas as fronteiras israelenses, com cerca de 350 quilômetros. O Exército de Israel, em resposta, disse que não iria comentar a informação. Em caso de ataque por parte do Irã, a imprensa israelense afirma que o Exército de Israel projeta um cenário extremo envolvendo o disparo de centenas de mísseis balísticos pelo regime iraniano. Durante a guerra de 12 dias de junho do ano passado, o Irã disparou cerca de 500 mísseis contra Israel. Agora, uma das possibilidades é que este número pode chegar a 700 mísseis balísticos. De qualquer forma, as autoridades israelenses consideram que será possível lidar com esta ameaça, em especial se este for o “preço” a se pagar caso a ofensiva norte-americana venha a resultar na queda do regime da República Islâmica.
Com o lema “Agentes do ICE em Milão? Não, obrigada”, a manifestação deste sábado (31) contará com a participação de políticos de centro-esquerda, sindicatos e movimentos civis. O governo italiano afirma que a atuação dos policiais americanos será restrita à área de inteligência, sem presença deles nas ruas. Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão O protesto foi organizado por políticos de centro-esquerda, com apoio de centrais sindicais e outras organizações civis, entre elas a Associação Nacional dos Partigianos Italianos (Anpi), entidade histórica da resistência contra o fascismo. Os organizadores pedem que os participantes levem apitos — o mesmo instrumento que vem sendo usado por cidadãos americanos nos atos contra a presença do ICE na cidade de Minneapolis. “Uma grande mobilização democrática e pacífica [ocorrerá] para dizer que não queremos as patrulhas do ICE na nossa cidade, para dizer que queremos as Olimpíadas dos direitos humanos e para dizer que estamos do lado de quem luta pelos direitos humanos, de Minneapolis ao resto do mundo”, afirmou o secretário metropolitano do Partido Democrático, Alessandro Capelli, um dos organizadores do protesto. Na última terça-feira (27), os Estados Unidos confirmaram a presença de agentes da divisão investigativa do ICE, anunciando que eles estarão na Itália para auxiliar na segurança da delegação americana e na mitigação de riscos provenientes de organizações criminosas transnacionais. A atuação do órgão, responsável pelo controle de fronteiras nos Estados Unidos e pela deportação de imigrantes em situação irregular, é um dos temas de maior controvérsia no momento, após a morte de dois cidadãos em operações recentes na cidade de Minneapolis. Partidos italianos de centro-esquerda defendem que os agentes americanos não devem atuar no país. O prefeito de Milão, Giuseppe Sala, classificou o ICE como uma “milícia que mata” e afirmou que seus integrantes não são bem-vindos na cidade. Houve ainda um protesto no Conselho Regional da Lombardia, no norte, onde políticos progressistas exibiram cartazes com a frase “Fora ICE”. Embora as críticas venham majoritariamente da esquerda italiana, alguns representantes de centro-direita também se manifestaram contra a vinda dos agentes americanos. “Cada delegação estrangeira decide de forma autônoma a quais forças confiar a escolta de seus representantes, mas, neste momento, a presença de agentes do ICE na Itália seria inoportuna”, escreveu nas redes sociais o líder do partido Noi Moderati, Maurizio Lupi. Governo italiano tenta evitar crise diplomática O governo da primeira-ministra Giorgia Meloni vem tratando o tema com cautela, em uma tentativa de evitar uma crise diplomática com os Estados Unidos. Considerada a principal aliada de Donald Trump entre os países da União Europeia, a premiê não se pronunciou diretamente sobre o caso. Já seus ministros têm buscado minimizar a relevância o assunto, afirmando que a segurança durante os Jogos Olímpicos será responsabilidade exclusiva das forças de ordem italianas. O ministro do Interior, Matteo Piantedosi, publicou uma nota informando que analistas do ICE atuarão apenas em escritórios diplomáticos, como o consulado americano em Milão, e não nas ruas. “Os investigadores do Homeland Security Investigations não serão representados por pessoal operacional, como os envolvidos no controle migratório em território dos Estados Unidos, mas por profissionais exclusivamente especializados em investigações”, diz o texto. Piantedosi fará uma declaração formal no Parlamento italiano sobre o assunto na próxima quarta-feira (4). Na quinta-feira (29), o ministro das Relações Exteriores, Antonio Tajani, afirmou que apenas três agentes do ICE irão à Itália e que a função será colaborar com a polícia italiana, fornecendo eventuais informações. “Não há motivo para alarmismo. Quando há eventos desse porte, é natural que os países enviem suas próprias forças para colaborar na segurança. Eles não sairão pelas ruas em trajes de combate. Três funcionários que vão ao consulado não me parece um perigo para a democracia ou para a segurança dos cidadãos italianos”, afirmou Tajani. O embaixador dos Estados Unidos na Itália, Tilman Fertitta, também ressaltou, em nota, que a atuação do ICE será estritamente de assessoramento, com fornecimento de inteligência voltada principalmente ao combate a crimes cibernéticos e a ameaças à segurança nacional. Deputados europeus pedem que UE impeça entrada do ICE no continente Os líderes do grupo “A Esquerda”, no Parlamento Europeu, enviaram uma carta à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e à chefe da diplomacia do bloco, Kaja Kallas, pedindo que os membros do ICE sejam impedidos de entrar em território europeu. “Diante das informações de que agentes do ICE serão encarregados de fornecer segurança durante os Jogos Olímpicos de Inverno na Itália, ainda neste mês de fevereiro, o aumento da violência e da repressão associadas ao ICE terão impacto direto sobre os cidadãos europeus. A União Europeia deve tomar medidas para impedir a entrada dessas forças em seu território”, afirma o documento. Outro grupo que se manifestou foi o “Renovar a Europa”, que classificou a presença do ICE de inaceitável. “Na Europa, não queremos pessoas que ignoram os direitos humanos e evitam o controle democrático”, diz uma publicação do grupo nas redes sociais. Até o momento, a Comissão Europeia não se pronunciou oficialmente sobre o assunto.
A chegada da tempestade Kristin provocou chuvas intensas, neve e ventos fortes na Espanha nesta quarta-feira (28), alterando a rotina em diversas regiões do país, causando incidentes e transtornos nas malhas rodoviária e ferroviária. A previsão é de que o tempo permaneça instável nesta quinta-feira. Ana Beatriz Farias, correspondente da RFI em Madri A Agência Estatal de Meteorologia da Espanha, a AEMET, emitiu alerta laranja – de risco considerável – para algumas zonas das regiões da Galícia (noroeste), do Principado das Astúrias (norte), da Andaluzia (sul) e de Múrcia (sudeste). O aviso, nessas áreas, é devido a fortes ventos e a condições adversas no mar. Outras regiões do país seguem em alerta amarelo, que representa risco mais baixo, mas que ainda demanda atenção. Segundo as previsões meteorológicas, a tempestade deve perder força no fim de semana. A AEMET, no entanto, manteve em seu perfil no X um aviso de que, nos próximos dias, a Espanha continuará “sob a influência de tempestades atlânticas, que trarão novamente chuvas abundantes, ventos muito fortes, tempestades marítimas e neve nas montanhas”. Trajetos alterados A tempestade alterou a rotina dos espanhóis na quarta-feira. Problemas generalizados no setor dos transportes afetaram muitas pessoas simultaneamente, com intervenções no trânsito em muitas rodovias e dezenas delas cortadas ao longo do dia. Em uma atualização publicada pela Direção-Geral de Tráfego, já nas últimas horas da quarta-feira, 88 estradas continuavam afetadas pela neve. No aeroporto de Madri, com a neve que atingiu a capital, uma das quatro pistas chegou a ser temporariamente fechada, enquanto equipes de limpeza trabalhavam em áreas de movimento das aeronaves, como informou a empresa administradora, Aena. O órgão já havia informado, durante a manhã, que as operações do aeroporto estavam mais lentas e que a prioridade, em casos assim, era a segurança. Em diferentes regiões do país, voos foram cancelados devido ao mau tempo. O tráfego ferroviário também foi afetado, e alguns trajetos de trem foram interrompidos ao longo do dia. Aulas suspensas Várias regiões da Espanha fecharam as escolas por conta das condições climáticas. O governo da Extremadura suspendeu as aulas da manhã em todos os centros educativos. Os moradores receberam um alerta de proteção civil solicitando que evitassem deslocamentos desnecessários. Em Madri, centros de ensino superior como a Universidade Autónoma de Madrid, a Universidade Carlos III e a Politécnica de Madrid tiveram suas atividades suspensas. Também foram interrompidas temporariamente as aulas em centros educativos e assistenciais de 77 municípios da Andaluzia. A região teve mais de 2500 emergências registradas entre terça e quarta-feira, em decorrência da tempestade Kristin e também da tempestade Joseph, que atingiu grande parte da Espanha na terça-feira. Famílias desalojadas e vítima fatal Diante da instabilidade meteorológica, muitas pessoas tiveram que ser desalojadas. Na província de Cádis, na Andaluzia, cerca de 250 moradores do município de San Roque tiveram que deixar suas casas por risco de inundação. As autoridades anunciaram a decisão ainda na noite de terça-feira. Também na terça-feira, quando a tempestade Joseph atingiu o país, com fortes rajadas de vento, uma mulher morreu após ser atingida por uma palmeira na localidade de Torremolinos, em Málaga. O governo local confirmou a morte em mensagem no X e disse lamentar profundamente o ocorrido. Tempestade deixou mortos em Portugal A tempestade Kristin também provocou estragos e fez vítimas em Portugal. Segundo um balanço divulgado nesta quinta-feira, pelo menos cinco pessoas morreram e quase meio milhão continuam sem energia elétrica após a passagem de Kristin. O governo português se referiu à tempestade como um "fenômeno climático extremo, que causou danos significativos em várias partes do território".
Disputa pelo território da Groenlândia leva dinamarqueses buscarem alternativas para fugir das grandes empresas de tecnologia americanas. O boicote também se estende a outros setores da economia. Fernanda Melo Larsen, correspondente da RFI em Copenhague A crise diplomática com os Estados Unidos ganhou um novo capítulo e agora passa pelo mundo digital. Cresceu no país a busca por alternativas às grandes plataformas e redes sociais americanas, em um movimento que muitos descrevem como uma disputa entre Davi e Golias. Um dos exemplos é a rede social Oase, que passou a receber um número muito maior de novos usuários desde o início do ano, um crescimento inesperado. A plataforma oferece uma alternativa local às redes sociais dominadas por empresas americanas, como a Meta. “É como um coral gospel de 300 pessoas pedindo. Depois, há várias cooperativas que querem começar. E ainda há famílias e grupos de amigos”, explica o CEO da empresa Anders Lemke-Holstein. O mesmo fenômeno é observado em outras plataformas digitais. O serviço europeu de buscas na internet Vivaldi é visto como uma alternativa ao Google, e também registrou aumento no interesse de usuários dinamarqueses após as declarações do presidente americano sobre a Groenlândia, com pessoas afirmando que querem reduzir a dependência de tecnologia dos Estados Unidos. Outros setores atingidos O movimento se espalha para outros setores da economia. No turismo, os cancelamentos e buscas por passagens e pacotes de viagens para os Estados Unidos teve uma queda. “A venda de viagens para os Estados Unidos caiu mais de 50 por cento em comparação com períodos anteriores, e vemos clientes escolhendo outros destinos como o Canadá”, disse Jacob Østergaard, diretor de uma das maiores agências de viagem do país, em entrevista a uma emissora de TV dinamarquesa. O impacto também aparece no mercado financeiro. Fundos de pensão dinamarqueses começaram a vender ativos americanos, alegando que a incerteza em torno dos Estados Unidos se tornou grande demais. Já nos supermercados, os consumidores têm usado aplicativos que ajudam a identificar e evitar produtos americanos. E uma escola de ensino médio dinamarquês, resolveu cancelar uma viagem de estudos que faria neste semestre aos Estados Unidos. Credibilidade em risco Segundo um professor do Instituto de Gestão Empresarial da Universidade do Sul da Dinamarca, o boicote pode gerar impacto quando ganhar escala. “Isso coloca em xeque marcas e produtos que se apoiam em uma identidade americana, algo que antes era visto como valioso, mas que perde força quando os consumidores passam a rejeitar essas marcas”, analisa o professor Dannie Kjeldgaard. A discussão também envolve soberania digital. Para a responsável pela associação Digital Independente da Dinamarca, a dependência de plataformas americanas é um risco. “Somos dependentes demais de fornecedores dos Estados Unidos. Precisamos retomar parte desse poder e passar a usar serviços europeus”, conclui Camilla Gregersen.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva viaja nesta terça-feira para o Panamá, onde será o convidado de honra do Fórum Econômico Internacional da América Latina, organizado pelo Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe e o governo do Panamá. É uma viagem curta, mais com mais de um objetivo, na verdade: um regional e outro bilateral. Esta é a primeira visita do brasileiro ao país no atual mandato e faz parte da estratégia do Palácio do Planalto de intensificar as relações com todas as nações da região, independentemente de posições ideológicas. Vivian Oswald, correspondente da RFI no Rio de Janeiro Lula será o segundo a discursar depois do presidente panamenho, José Raul Mulino. Durante o Fórum, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, deve assinar o Acordo de Cooperação e Facilitação de Investimentos, que vai estabelecer as regras de proteção de investimentos panamenhos no Brasil, e vice-versa. O Brasil tem um estoque de US$ 9,5 bilhões em investimentos no Panamá, que é o sétimo maior destino de investimentos brasileiros no exterior. O encontro, que está sendo chamado de a "Davos da América Latina", ou "Davosito" nos círculos mais restritos, acontece uma semana depois do Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, dominado pelas ameaças de Donald Trump à Groenlândia. Lula não foi. Integração regional No Panamá que o brasileiro pretende enfatizar a necessidade de mais integração regional em momento simbólico, após o ataque dos EUA à Venezuela e às políticas expansionistas americanas. Ele, contudo, não deve mencionar diretamente o país vizinho na cerimônia. Mas diplomatas no seu entorno não descartam que acabe fazendo comentários à imprensa. Entre os temas a serem debatidos no fórum estão os papéis econômico da região, em especial com relação ao setor privado, infraestrutura e desenvolvimento, além de inteligência artificial, comércio, energia, mineração e segurança alimentar. Outro assunto é o da segurança, sobretudo no que se refere ao combate ao crime organizado - tema que se tornou tema sensível na região, depois de ser usado pela administração Trump para atacar a Venezuela e pressionar países vizinhos. Reforço das relações bilaterais Desde 2024, Lula e o homólogo panamenho Mulino, que é de direita, já tiveram cinco encontros bilaterais. A relação entre os dois países, tem se incrementado nos últimos anos. O intercâmbio comercial entre Brasil e Panamá teve um aumento histórico de 78% em 2025, ficando em US$ 1,6 bilhão. Tiveram destaque as exportações brasileiras de petróleo e derivados. O Brasil é o 15º maior usuário do Canal do Panamá, por onde passam, segundo informações oficiais, 7 milhões de toneladas de produtos brasileiros. O Mercosul também está na pauta. Lula e Mulino devem tratar dos próximos passos para uma maior integração do Panamá ao Mercosul. Hoje, é um país associado, o primeiro da América Central. Lula ainda terá bilaterais com outros líderes de países latino-americanos. A agenda ainda não está fechada, mas há expectativa de que se encontre com os recém-eleitos presidentes de direita do Chile, José Antonio Kast, e da Bolívia, Rodrigo Paz, a quem pretende convidar para vir ao Brasil. Lula termina a agenda com uma visita ao Canal do Panamá, onde os líderes presentes farão a foto oficial do encontro. Também estão confirmadas as participações do Fórum de Daniel Noboa, presidente do Equador, da primeira-ministra de Barbados, Mia Mottley, e do primeiro-ministro da Jamaica, Andrew Holness. As bilaterais acontecerão no Palácio de Las Garzas, sede do governo panamenho.
O presidente Donald Trump enfrenta forte tensão política depois que agentes federais de imigração dos Estados Unidos (ICE) atiraram e mataram um cidadão americano em Minneapolis. A vítima, Alex Jeffrey Pretti, 37, era enfermeiro de UTI no Centro Médico de Veteranos da cidade e cidadão americano. O governo classificou a ação como legítima defesa e disse que Pretti estaria armado, mas vídeos verificados mostram que ele segurava um celular, e não uma arma, quando foi imobilizado pelos agentes. Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York O caso provocou protestos e gerou críticas inesperadas de aliados políticos e de grupos próximos ao governo, aumentando a pressão sobre Trump às vésperas de votações importantes no Congresso. O incidente poderia levar o país a um novo fechamento de instituições federais. Desde o começo de janeiro, uma série de confrontos entre agentes federais de imigração e civis em Minneapolis tem escalado a tensão em Washington. No sábado, um agente da Patrulha de Fronteira matou o americano Alex Pretty durante uma operação, o terceiro incidente envolvendo agentes federais na cidade em poucas semanas, e isso provocou uma onda de protestos e críticas públicas. Membros democratas no Senado anunciaram que irão bloquear o projeto de lei de financiamento do Departamento de Segurança Interna, que destina US$ 64,4 bilhões ao departamento e US$ 10 bilhões (cerca de R$ 340 bilhões e R$ 53 bilhões, respectivamente) especificamente para o ICE, após a morte de Alex Pretti em Minneapolis. Isso ocorre porque muitos democratas consideram inaceitáveis as táticas de imigração federal e a falta de prestação de contas dos agentes. A legislação precisa de pelo menos 60 votos no Senado para avançar, mas a oposição crescente dentro do próprio Congresso ampliou a possibilidade de uma paralisação parcial do governo até o fim do mês, quando expira o prazo para a aprovação do orçamento. O líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, disse que não fornecerá os votos necessários para que o projeto siga adiante se a parte que financia o Departamento de Segurança Interna estiver incluída, classificando os acontecimentos em Minnesota como “terríveis” e “inaceitáveis em qualquer cidade americana”. Leia tambémMortes em ação do ICE em Minneapolis aumentam risco de paralisação orçamentária nos EUA Trump pede o fim das cidades-santuário Donald Trump usou as redes sociais na noite deste domingo para pedir que o Congresso aprove, com urgência, uma lei que acabe com as chamadas cidades-santuário nos Estados Unidos. Segundo o presidente, essas cidades estariam na raiz da crise atual envolvendo a polícia migratória e os confrontos registrados nos últimos dias. Cidades santuário são municípios ou estados que limitam a cooperação entre a polícia local e agentes federais de imigração, como o ICE. Na prática, isso significa que a polícia local não prende nem entrega imigrantes apenas por estarem em situação irregular, priorizando crimes graves e a relação de confiança com a comunidade. No comunicado, Trump afirmou que, durante o governo Biden, milhões de imigrantes ilegais, incluindo criminosos, teriam entrado no país. Ele disse que venceu a eleição com a promessa de fechar a fronteira e promover a maior operação de deportação da história americana, operação que, segundo ele, estaria funcionando melhor em estados governados por republicanos, onde a polícia local coopera com o ICE. Trump acusou os governos democratas de se recusarem a colaborar com agentes federais e de criarem um ambiente de confronto e insegurança. O presidente citou diretamente o governador de Minnesota e o prefeito de Minneapolis, cobrando que entreguem imigrantes presos às autoridades federais e que as polícias locais passem a ajudar nas detenções. Leia tambémICE: quando a polícia de imigração dos EUA se torna um negócio bilionário de aliados de Trump Governo de Minnesota tenta frear operação do ICE nos tribunais O tiroteio em Minneapolis levou a disputa agora para o Judiciário. O governo do estado de Minnesota e as prefeituras de Minneapolis e St. Paul pediram à Justiça que interrompa a operação da polícia migratória, argumentando que a forma como os agentes estão atuando coloca moradores em risco e pode provocar novas mortes. Na noite deste domingo (25), os advogados entraram com um pedido urgente dizendo que a Justiça precisa agir antes que outro morador seja morto durante essa operação. Além disso, o estado também solicitou uma medida para garantir que nenhuma prova do local do tiroteio seja destruída ou alterada por agentes federais. Esse pedido foi aceito rapidamente por um juiz federal indicado por Donald Trump, que determinou que todas as evidências sejam preservadas. Agora, o próximo passo será uma audiência marcada para esta segunda-feira (26), às duas da tarde, quando a Justiça vai decidir se a operação de imigração pode continuar da forma atual ou se terá limites impostos pelo tribunal. Cresce pressão por uma investigação profunda do caso A pressão sobre o governo Trump está aumentando e agora vem também de setores que tradicionalmente apoiam o presidente. Ex-presidentes democratas, como Barack Obama e Bill Clinton, divulgaram notas duras sobre o caso. Obama e Michelle Obama classificaram a morte como uma tragédia e disseram que o episódio é um alerta de que valores fundamentais dos Estados Unidos estão sob ataque, afirmando que agentes federais não estariam atuando de forma legal ou responsável em Minnesota. Bill Clinton afirmou que cenas vistas em Minneapolis são algo que ele jamais imaginou ver no país e pediu que os americanos se manifestem em defesa da democracia. Mas o dado mais sensível politicamente para a Casa Branca é que as críticas não estão restritas aos democratas. Um número crescente de parlamentares republicanos passou a pedir uma investigação mais profunda sobre as táticas usadas por agentes federais de imigração. O presidente da Comissão de Segurança Interna da Câmara, o republicano Andrew Garbarino, solicitou depoimentos de dirigentes do ICE, da Patrulha de Fronteira e do serviço de imigração, afirmando que a prioridade deve ser manter os americanos seguros. Entre os republicanos que passaram a cobrar explicações estão Michael McCaul, deputado do Texas e ex-presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, Thom Tillis, senador da Carolina do Norte, Bill Cassidy, senador da Louisiana, além de Susan Collins, do Maine, e Lisa Murkowski, do Alasca, duas senadoras conhecidas por posições mais independentes dentro do Partido Republicano. Até grupos de defesa de armas pedem investigação A reação mais inesperada veio da Associação Nacional do Rifle, a NRA, uma das organizações mais próximas de Trump. A entidade se uniu a outros grupos de defesa das armas e pediu uma investigação completa sobre a morte de Alex Pretti. A NRA criticou declarações do procurador da Califórnia Bill Essayli, indicado por Trump, que sugeriu que agentes estariam quase sempre justificados ao atirar em pessoas armadas. Segundo a associação, esse tipo de discurso é perigoso e criminaliza cidadãos que possuem armas legalmente. Para a NRA, é preciso aguardar a investigação antes de qualquer julgamento. O Gun Owners of America, uma organização sem fins lucrativos que faz lobby em defesa do direito às armas, também criticou o comentário do procurador. O grupo afirmou que agentes federais não estão “altamente propensos” a estar “legalmente justificados” a atirar em pessoas com licença para portar arma oculta que se aproximem enquanto estão legalmente armadas. A organização acrescentou que a Segunda Emenda da Constituição dos Estados Unidos protege o direito dos americanos de portar armas durante protestos, um direito que o governo federal não deve violar.
Os europeus decidiram reforçar a presença na Groenlândia e indicaram que em breve deverá ser anunciado um acordo entre os Estados Unidos e os demais países da Otan. A decisão, tomada durante uma cúpula de emergência do Conselho Europeu, realizada na noite desta quinta-feira em Bruxelas, expôs a cautela europeia diante das iniciativas diplomáticas de Donald Trump. Artur Capuani, correspondente da RFI em Bruxelas Segundo a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, qualquer entendimento sobre a Groenlândia deve ocorrer no âmbito da aliança militar. O presidente americano já havia afirmado que tinha fechado um acordo com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, que permitiria aos Estados Unidos 'acesso total' à ilha. Nesta sexta-feira (23), o ministro francês das Relações Exteriores, Jean‑Noël Barrot, disse não ter ainda detalhes do acordo, mas reiterou o apoio da França à soberania dinamarquesa e às autoridades groenlandesas, destacando que a Dinamarca é o principal ator das negociações. Barrot afirmou que poderá visitar a Groenlândia nas próximas semanas. De acordo com o jornal The New York Times, o acordo em discussão inclui a implementação de uma nova missão da Otan no Ártico, a atualização do acordo de 1951 entre Dinamarca e Estados Unidos para ampliar o acesso americano à Groenlândia, a construção de bases militares soberanas em partes do território para o desenvolvimento do sistema de defesa antimíssil dos EUA e restrições para impedir a exploração de terras raras por Rússia e China sob a camada de gelo da ilha. Mark Rutte afirmou que agora cabe aos altos comandantes da aliança trabalhar nos requisitos adicionais de segurança e que esse processo pode avançar rapidamente. Ursula von der Leyen também disse esperar divulgar um comunicado conjunto em breve. Tarifas e Conselho de Paz A crise envolvendo a Groenlândia também teve impacto direto nas relações comerciais. Com o avanço do acordo no âmbito da Otan, Trump recuou e derrubou as tarifas de 10% aplicadas aos países que enviaram tropas para a ilha. Diante desse gesto, o Conselho Europeu decidiu mudar o tom e avançar com a aprovação do acordo tarifário entre a União Europeia e os Estados Unidos, fechado no ano passado. O texto estava com a aprovação congelada no Parlamento Europeu após as ameaças de Trump, mas agora a tendência é que volte a tramitar. Outro tema sensível discutido na cúpula foi o Conselho de Paz lançado por Trump durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos. No evento, a Hungria foi o único país da União Europeia representado, por meio do primeiro-ministro Viktor Orbán, aliado ideológico do presidente americano. A Itália também sinalizou que deve integrar o grupo, devido à proximidade da primeira-ministra Giorgia Meloni com Trump. Ainda assim, a maioria dos países europeus não aderiu à iniciativa. Em comunicado divulgado após a cúpula, o bloco deixou claro seu posicionamento. Segundo Antonio Costa, presidente do Conselho Europeu, os Estados-membros têm sérias dúvidas sobre diversos elementos da carta do Conselho de Paz de Trump, especialmente em relação à sua aplicação e à compatibilidade com a Carta da ONU. Mesmo assim, Costa afirmou que a União Europeia está disposta a trabalhar conjuntamente em um plano de paz para Gaza e nas negociações entre Rússia e Ucrânia. Acordo UE-Mercosul A reunião também trouxe sinalizações sobre o acordo entre a União Europeia e o Mercosul. Apesar da expectativa de que o tema voltasse formalmente à pauta, o processo segue travado após o Parlamento Europeu decidir levar o acordo à justiça europeia, o que pode congelar a aprovação por até dois anos. Existe, porém, a possibilidade de a Comissão Europeia colocar em vigor de forma interina a parte comercial do tratado, mesmo sem a aprovação do Parlamento e sem uma decisão da Corte Europeia. Essa parte comercial é considerada a mais relevante, pois permitiria iniciar a redução das tarifas entre os dois blocos. Antonio Costa deixou claro que espera que a Comissão avance nessa direção. Ursula von der Leyen afirmou que ainda não há uma decisão tomada, mas indicou que, assim que um dos países do Mercosul concluir seus procedimentos internos de validação, a Comissão já terá uma posição definida e pronta para ser anunciada. O acordo, portanto, pode viver mais uma reviravolta nos próximas semanas.
O Conselho da Paz nasceu com foco no conflito entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza. Mas, agora, é um projeto mais amplo e com metas ambiciosas defendido pela administração norte-americana. Especificamente na Faixa de Gaza, a Casa Branca afirma que o objetivo do Conselho da Paz é colocar em prática os 20 pontos do plano de Donald Trump que estabeleceu em outubro do ano passado o cessar-fogo entre Israel e Hamas. Henry Galsky, correspondente da RFI em Israel Apesar de acusações de violações entre as partes e da fragilidade da situação, a guerra parou. O plano de Trump para a Faixa de Gaza tem metas importantes, como a desmilitarização do território, a retirada das tropas israelenses, a introdução de uma Força Internacional de Estabilização (ISF, em inglês), o desarmamento do Hamas e a reconstrução de Gaza. Segundo uma fonte com a qual a RFI conversou, uma das principais dúvidas em Israel é em relação ao momento em que cada uma dessas metas passará a ser cumprida. Ou seja, se cada um desses passos será dado de forma escalonada - e em qual ordem - ou se todos eles vão ocorrer ao mesmo tempo. Arábia Saudita, Argentina, Turquia, Egito, Jordânia, Indonésia, Paquistão, Catar, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Albânia, Armênia, Azerbaijão, Belarus, Hungria, Israel, Cazaquistão, Kosovo, Marrocos e Vietnã aceitaram o convite de Donald Trump para integrar a entidade. Segundo a Associated Press, um oficial da Casa Branca disse que a expectativa é que cerca de 30 países façam parte do Conselho. Até agora, cinquenta foram convidados pelos Estados Unidos. Palestinos e a expectativa sobre o governo de transição O Conselho da Paz tem como documento a cumprir o plano de 20 pontos de Trump. O item 19 do plano determina que "à medida que o processo de reconstrução de Gaza avança e o programa de reformas da Autoridade Palestina é implementado, as condições poderão finalmente estar reunidas para um caminho possível rumo à autodeterminação e à formação de um Estado palestino, que reconhecemos como a aspiração do povo palestino". No item seguinte, os Estados Unidos se comprometem "a estabelecer um diálogo entre Israel e os palestinos para que concordem sobre um horizonte político para coexistência próspera e pacífica". A questão desses dois itens é que não há prazos para que eles aconteçam. Não há cronogramas específicos nem a divisão desses objetivos em metas mais palpáveis. Neste momento, a expectativa mais imediata da população em Gaza é sobre a atuação do governo de 15 tecnocratas palestinos que também é resultado do plano de Trump. Este governo de transição, que deverá substituir o Hamas na administração do território, será supervisionado pelo Conselho da Paz. No último domingo, famílias e clãs palestinos na Faixa de Gaza endossaram publicamente este governo de transição. A declaração de apoio ocorreu durante uma manifestação de solidariedade no Hospital dos Mártires de Al-Aqsa, em Deir al-Balah, na região central de Gaza. Uma da grandes questões que se apresenta ao Conselho da Paz é se ele será capaz de iniciar um movimento para desarmar o Hamas e, se isso acontecer, qual será a reação do grupo extremista palestino. Governo israelense e o dilema do convite de Trump A avaliação em Israel é similar a de boa parte da comunidade internacional; de que, por meio do Conselho da Paz, Trump está em busca de criar uma espécie de alternativa às Nações Unidas. De acordo com a imprensa local, o primeiro-ministro Netanyahu decidiu aceitar o convite para participar da entidade cerca de 24 horas antes do anúncio oficial sobre a criação do mecanismo em Davos, na Suíça. A decisão foi tomada após discussões intensas a partir de três pontos fundamentais: Rejeitar o convite poderia causar algum embaraço ao presidente Trump e levar Israel a não ter influência no Conselho da Paz. Agora, aceitar o convite - como de fato ocorreu - deixa claro que Israel vai sentar-se ao lado de Turquia, Catar e outros países com direito a voto em iguais condições para definir as decisões sobre o futuro da Faixa de Gaza e, no final das contas, sobre a segurança de Israel. Ou seja, na prática Israel legitima as presenças de países como Turquia e Catar que o governo israelense havia deixado claro que não poderiam fazer parte das decisões sobre o chamado "dia seguinte" em Gaza. Embora Israel tenha divulgado um comunicado público de que o país não foi consultado pelos EUA sobre os membros do Conselho da Paz, a informação da imprensa local é de que o texto foi redigido para servir como resposta interna aos membros da própria coalizão de governo, e não com o objetivo real de alterar as decisões do presidente Donald Trump.
Ameaças do presidente norte-americano, envio simbólico de tropas europeias e risco de guerra comercial transformam uma disputa territorial no Ártico em um teste existencial para a Otan e para a relação transatlântica. Artur Capuani, correspondente da RFI em Bruxelas A disputa em torno da Groenlândia, território autônomo da Dinamarca no Ártico, deixou de ser um episódio excêntrico da diplomacia internacional para se tornar a maior crise entre Estados Unidos e Europa em décadas. O presidente norte-americano Donald Trump não descarta o uso da força para assumir o controle da ilha, tida por ele como estratégica tanto do ponto de vista militar quanto econômico. Do outro lado, governos europeus e as autoridades locais da Groenlândia rejeitam qualquer negociação nesse sentido. As ameaças de Trump começaram ainda durante o seu primeiro mandato, em 2019, e ganharam força em seu retorno à Casa Branca. Na época, soavam como mais uma declaração exagerada. Os europeus, acostumados a dar respostas políticas e a evitar confrontos diretos com Washington, viram Trump intensificar os ataques. Já é possível dizer que esta é a maior crise diplomática entre os Estados Unidos e a Europa nas últimas décadas. O presidente americano passou a atacar publicamente líderes europeus, sugeriu que Emmanuel Macron pode deixar o poder em breve e divulgou mensagens privadas do presidente francês e do secretário-geral da Otan, Mark Rutte. Trump também publicou uma imagem gerada por inteligência artificial em que aparece fincando uma bandeira dos Estados Unidos na Groenlândia e anunciou tarifas de 10% sobre países europeus que enviaram tropas para a região, com a ameaça de elevar a taxa para 25% caso não haja recuo até junho. Em meio a essa escalada, o presidente afirmou acreditar que Washington e a Otan chegarão a um acordo que satisfaça “ambos os lados”. Vale lembrar que os Estados Unidos e a maioria dos países europeus fazem parte da aliança militar e que essa crise já é vista como uma questão existencial para a Otan. A reação europeia Desta vez, os europeus finalmente subiram o tom. Durante muito tempo, o continente vinha fazendo vista grossa para as ações de Trump. Agora o cenário é outro, trata-se de uma ameaça direta a um território europeu. O presidente francês Emmanuel Macron afirmou que a União Europeia não pode aceitar a “lei do mais forte” e cobrou respeito nas relações internacionais. Durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, ele declarou que o bloco prefere estabilidade e crescimento, mas não à custa de intimidação. Nesta quarta-feira (21), Macron solicitou à Otan a realização de um exercício militar na Groenlândia. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, classificou o episódio como um sinal de mudança “sísmica” na ordem internacional e garantiu que o bloco não hesitará em responder. A Dinamarca também adotou um tom duro. A primeira-ministra Mette Frederiksen descartou qualquer possibilidade de venda da ilha e afirmou que o continente não pode ignorar o risco de uma ação militar norte-americana. Discurso endossado pelo primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, que não descartou a possibilidade de uma incursão dos Estados Unidos e anunciou que o governo local começou a se preparar para esse cenário. Nos últimos dias, países europeus também enviaram pequenos contingentes militares à Groenlândia, em um gesto mais simbólico do que operacional. A Alemanha deslocou 13 soldados, a França 15, a Suécia três oficiais, Noruega e Finlândia dois cada, e a Holanda apenas um militar. A Dinamarca enviou cerca de 100. Segundo líderes europeus, esses primeiros envios têm como objetivo preparar exercícios militares conjuntos e planejar um reforço maior ao longo de 2026. A frente econômica Em Bruxelas, a questão também é tratada com muita seriedade no campo econômico. Trump já anunciou tarifas de 10% sobre todos os bens importados de países que enviaram tropas para a Groenlândia. A ameaça é elevar essa taxa para 25% se não houver recuo até junho. A resposta imediata da União Europeia foi congelar o acordo tarifário com os Estados Unidos, negociado no ano passado e que ainda precisava ser ratificado pelo Parlamento Europeu. Os eurodeputados estão reunidos em Estrasburgo, e os líderes dos principais grupos políticos afirmam que há consenso para suspender a aprovação. Além disso, duas outras medidas estão sobre a mesa. A primeira é a retomada automática de tarifas contra € 93 bilhões em produtos americanos. Esse pacote estava apenas suspenso e pode entrar em vigor já no início de fevereiro. A segunda é o chamado Instrumento Anti-Coerção, apelidado de bazuca comercial. Ele permitiria à União Europeia limitar investimentos, contratos públicos e até serviços financeiros de países que usem o comércio como forma de pressão política. Um desgaste antigo A crise da Groenlândia é apenas a gota d’água de um copo que vinha enchendo desde o retorno de Trump ao poder. Historicamente, a Europa se acostumou a depender dos Estados Unidos tanto no comércio quanto na defesa. Mas Trump bagunçou esse equilíbrio. Neste mandato, ele já ameaçou sair da Otan, forçando os países da aliança a assumir investimentos muito mais altos em defesa, de até 5% do PIB, e a comprar armamentos americanos. Também mudou completamente a lógica do comércio exterior, aplicando tarifas sem qualquer negociação diplomática prévia. Outro ponto importante é que Trump tem deixado a Europa de fora das negociações de paz entre Rússia e Ucrânia. O resultado é uma relação profundamente abalada. A União Europeia até tem hoje um plano para investir em defesa, mas isso leva tempo, sem contar a ameaça constante da Rússia. No campo econômico, o bloco também sofre. O crescimento é baixo, e a concorrência da indústria chinesa é cada vez mais agressiva. Ursula von der Leyen fala em uma nova independência europeia. Mas, na prática, isso ainda está longe de acontecer. Uma crise dessa magnitude com um aliado histórico como os Estados Unidos só torna tudo ainda mais difícil.
Desde que voltou à Casa Branca, no dia 20 de janeiro de 2025, Donald Trump tem avançado em temas como deportação em massa, tarifas comerciais e uma política externa que desafia os tratados internacionais. Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York Em agosto de 2025, ao anunciar o envio de tropas federais a Chicago sob o argumento de combate ao crime, Trump resumiu sua visão de poder em uma frase que repercutiu mundialmente. Ele disse: “Eu tenho o direito de fazer qualquer coisa que eu quiser fazer. Eu sou o presidente dos Estados Unidos.” E esse poder que não conhece limites, virou um dos traços mais marcantes do chamado Trump 2.0. Com um Congresso a favor e uma equipe formada majoritariamente por aliados fiéis, o presidente americano tem encontrado poucas barreiras para pôr em prática seus planos para o país. A RFI separou alguns dos principais pontos que marcaram o início deste segundo mandato. Ofensiva contra a imigração No primeiro ano do segundo mandato, o presidente Donald Trump colocou em prática uma das políticas migratórias mais duras da história recente dos Estados Unidos. A promessa de campanha de “fechar” a fronteira sul foi cumprida. As detenções de pessoas atravessando a fronteira caíram ao nível mais baixo desde 1970, após o envio de forças armadas, a criação de novas zonas militares e o endurecimento extremo da fiscalização. Mas a repressão não ficou só na fronteira. No interior do país, operações migratórias provocaram prisões em massa, muitas delas de pessoas sem antecedentes criminais e, em alguns casos, até de cidadãos americanos. O governo diz ter deportado mais de 600 mil pessoas em 2025, número superior ao total dos quatro anos da gestão Biden. Trump também restringiu a imigração legal, reduziu a entrada de refugiados e impôs novas proibições de entrada para pessoas buscando residência, freando o processo de visto de 75 países. O impacto foi inédito. Em 2025, os Estados Unidos registraram migração líquida negativa pela primeira vez em mais de cinquenta anos. A política migratória e a estratégia de detenção do ICE (polícia de imigração) também alimentaram protestos, especialmente em Minneapolis, após a morte de uma cidadã americana durante uma operação. Para o segundo ano de mandato, dois pontos estão no radar quanto a políticas migratórias: a tentativa de acabar com o direito à cidadania por nascimento e a possibilidade de Trump invocar a Lei da Insurreição para ampliar ainda mais seus poderes. Tarifas como uma arma geopolítica No segundo mandato, o presidente Donald Trump transformou as tarifas em um instrumento central de pressão política e diplomática. Logo no início do ano, a Casa Branca impôs tarifas a parceiros estratégicos como China, Canadá e México. Muitas dessas medidas agora estão sob análise da Corte Suprema, que decidirá se o presidente extrapolou seus poderes constitucionais. Em abril, Trump anunciou o chamado “Liberation Day”, quando apresentou um plano de tarifas globais. Países das Américas passaram a enfrentar uma taxa básica de 10%, com ameaças de percentuais mais altos. Parte dessas tarifas foi adiada, mas acabou entrando em vigor em agosto. Nenhum país da região, porém, foi tão atingido quanto o Brasil. Em julho, Trump anunciou tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, citando o processo judicial contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. A medida gerou forte tensão diplomática. Após contatos diretos com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, incluindo encontros em eventos internacionais, o governo americano recuou parcialmente. Em novembro, produtos estratégicos como café e cacau ficaram fora das tarifas mais altas. No entanto, as tarifas voltaram a ser ativadas na disputa de Trump com os países membros da OTAN que demonstraram apoio à Dinamarca no atual conflito pelo controle da Groenlândia. O presidente americano anunciou que taxará em 10% cada um dos países que enviou tropas para ajudar na defesa da ilha frente a uma possível invasão americana. Obsessão pelo Nobel da Paz, não mais tanto pela paz Trump segue demonstrando interesse pelo Prêmio Nobel da Paz, mas suas ações internacionais apontam para uma política externa cada vez mais assertiva. Em setembro, ele assinou uma ordem executiva para tentar rebatizar o Departamento de Defesa como “Departamento da Guerra”. A confirmação dessa mudança ainda depende do Congresso, mas a iniciativa reforçou o tom simbólico do segundo mandato. No cenário internacional, o presidente Donald Trump combinou diplomacia seletiva com o uso direto da força. Ele se reuniu com o presidente russo Vladimir Putin, participou de negociações que levaram à libertação de reféns e a um cessar-fogo parcial em Gaza, autorizou a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e ordenou bombardeios contra o Irã. Promessas feitas durante a campanha, porém, não se concretizaram. Trump havia afirmado que encerraria a guerra entre Rússia e Ucrânia em 24 horas e chegou a dizer que transformaria Gaza em um polo turístico de luxo, planos que até agora não saíram do papel. A atualização mais recente veio nesta segunda-feira (19). Em carta enviada ao primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre, Trump afirmou que não se sente mais obrigado a “pensar puramente na paz” após não ter recebido o Prêmio Nobel da Paz e voltou a exigir controle sobre a Groenlândia, aprofundando as tensões com países europeus. Nesse mesmo contexto, Trump anunciou a criação de um “Conselho da Paz”, presidido por ele próprio, para supervisionar a transição política em Gaza. Brasil e Rússia estão entre os países convidados, com a possibilidade de participação permanente mediante o pagamento de um bilhão de dólares. Em entrevista recente ao New York Times, Trump resumiu sua visão ao afirmar que não precisa do direito internacional e que o único limite ao uso das Forças Armadas americanas é a própria moral. Trump 2.0 redefiniu o conceito de “America First” O início do segundo mandato do presidente Donald Trump marcou uma guinada agressiva na política dos Estados Unidos para a América Latina. A promessa de “America First”, que consistia em colocar os assuntos internos em primeiro lugar, deu espaço para uma releitura da Doutrina Monroe, e o impacto foi imediato no continente. A chamada guerra às drogas virou eixo central da estratégia. O governo americano classificou 15 novos grupos da América Latina e do Caribe como organizações terroristas, acusou o México de ser controlado por cartéis e retirou da Colômbia o status de parceira no combate ao narcotráfico. No fim do ano, Trump passou a tratar o fentanil como uma “arma de destruição em massa”. Nesse contexto, Washington promoveu a maior mobilização militar no Caribe Sul desde a Crise dos Mísseis de Cuba. Operações navais atingiram embarcações suspeitas de tráfico em águas latino-americanas, deixando ao menos 115 mortos. O movimento mais simbólico dessa nova postura foi a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro. A ação elevou a tensão regional e marcou uma escalada inédita na política americana em relação a governos considerados hostis. E o clima de instabilidade não parou por aí. No final da semana passada, autoridades americanas alertaram companhias aéreas sobre riscos ao sobrevoar partes da América Latina, citando atividades militares e possível interferência em sistemas de navegação. Nos últimos dias, Trump voltou a ameaçar países da região, incluindo Cuba e México. Em redes sociais, afirmou que não haverá mais petróleo nem dinheiro para Havana e sugeriu que o país “faça um acordo antes que seja tarde”. Mudanças no equilíbrio de poder em Washington Um ano depois do início do segundo mandato, o presidente Donald Trump ampliou como nunca o uso do poder executivo. Só no primeiro ano, ele assinou mais decretos do que em todo o primeiro mandato. Trump passou por cima do Congresso em decisões centrais e confrontou abertamente o Judiciário. Ao mesmo tempo, reduziu e redesenhou áreas inteiras do governo federal, eliminando programas de diversidade e enfraquecendo órgãos como o Departamento de Educação e a agência americana de ajuda internacional. Mesmo que um próximo presidente tente reverter essas mudanças, parte da estrutura desmontada será difícil de reconstruir. O principal legado, até aqui, é a normalização de um Executivo muito mais forte. A resposta dos eleitores a essa concentração de poder e outras mudanças no país ocorridas neste último ano deve aparecer nas eleições de meio mandato que acontecem em novembro.
Quase seis milhões de portugueses foram às urnas no domingo (18) para eleger o novo presidente de Portugal, sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa, que tomará posse no próximo dia 9 de março. O socialista António José Seguro e o ultradireitista André Ventura foram os candidatos mais votados e, como nenhum deles conseguiu 50% dos votos, os dois voltarão a se enfrentar no segundo turno, marcado para o dia 8 de fevereiro. Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Lisboa O primeiro turno das eleições presidenciais em Portugal foi marcado pelo elevado comparecimento dos eleitores às urnas e pela fragmentação do poder em um país dividido pelo voto. Com a ascensão da extrema direita em Portugal, o cenário político se polarizou e, no segundo turno — algo raro no país —, o confronto será entre dois campos políticos opostos. O socialista António José Seguro saiu na frente e obteve 31,1% dos votos. Em seu discurso de vitória no primeiro turno, Seguro disse que regressou para unir o país. “Jamais serei o presidente de uma parte dos portugueses contra a outra parte”, ressaltou. Seguro convidou “todos os humanistas e progressistas” a se juntarem a ele para “derrotar o extremismo” e quem semeia o ódio. Já o líder do Chega, o ultradireitista André Ventura, que conquistou 23,5% dos votos, afirmou que a direita havia ganhado as eleições porque os candidatos de direita que concorreram no primeiro turno receberam mais votos. “Agora é preciso agregar e juntar esforços para evitar um socialista em Belém”, declarou. O Palácio de Belém é a sede da Presidência da República em Lisboa. Quase um terço dos portugueses deixou para decidir o seu voto na semana final, nas eleições mais disputadas dos últimos tempos no país. A taxa de abstenção das eleições presidenciais foi de 47%, a mais baixa dos últimos quinze anos. É a primeira vez que Portugal elege um presidente com uma geração que não viveu o 25 de Abril de 1974 – data que marca o início da vida democrática no país depois de quatro décadas de ditadura. Transformação estrutural Para o pesquisador Luca Manucci, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e especialista em populismo e extrema direita, “os resultados destas eleições confirmam uma transformação estrutural do sistema político português: um espaço partidário hoje claramente mais fragmentado e polarizado”, diz. “O fato de o segundo turno voltar a ser necessário é, por si só, um indicador dessa mudança. Esse processo ocorre em um contexto em que a esquerda radical surge ainda mais enfraquecida, perdendo capacidade de estruturação do debate político. O cenário que se desenha remete diretamente às eleições presidenciais francesas, em que durante décadas a extrema direita chegou sistematicamente ao segundo turno para ser derrotada por um cordão sanitário mobilizado em torno do candidato adversário”, ressalta Manucci. “É plausível que André Ventura enfrente uma dinâmica semelhante, sendo derrotado por uma convergência de forças moderadas, como o que aconteceu com Jean-Marie e Marine Le Pen na França. Ainda assim, o percurso de Ventura é politicamente revelador: um político de estilo bolsonarista, ausente do panorama político nacional até 2019, que em poucos anos conseguiu reconfigurar o debate público. A rapidez com que a política portuguesa se ‘normalizou’ segundo padrões globais de sucesso da direita radical — rompendo com a ideia de excepcionalismo português — é, nesse sentido, particularmente notável”, salienta. Quem é André Ventura André Ventura cresceu em Mem Martins, um subúrbio de Sintra, na Grande Lisboa, que ele diz agora parecer a África por causa da imigração. Aos 42 anos, Ventura é o líder do Chega, partido de extrema direita que se define como “conservador, liberal e nacionalista” e que tem o discurso anti-imigração como um de seus principais alicerces. Ventura formou-se em Direito, deu aulas em duas universidades em Lisboa e também foi comentarista esportivo. Militante do PSD, o Partido Social Democrata, foi eleito vereador em Loures, subúrbio de Lisboa, em 2017, mas logo depois deixou o partido com o objetivo de formar uma nova força política. Enquanto na Europa vários países já conviviam com uma extrema direita consolidada, Portugal era exceção. Mas em 2019 tudo mudou com o aparecimento do Chega, e só foram precisos três anos para que o partido de extrema direita passasse a ser a terceira força política no país. Entre 2024 e 2025, o Chega teve uma ascensão meteórica e hoje é a segunda maior força na Assembleia da República (Parlamento português), com 60 deputados. O jornalista português Vítor Matos explica no Expresso que “era só preciso alguém sem pudor que quisesse estimular alguns pontos sensíveis e nunca explorados do eleitorado e dos abstencionistas: um racismo envergonhado, o ressentimento contra as elites e as classes políticas, a raiva dos que viveram toda a vida revoltados, os que se sentem excluídos ou uma parte da direita que nunca se encaixou plenamente na democracia portuguesa. A receita era a mesma nos outros países. A prova de que os portugueses estavam mesmo só à espera que aparecesse o seu populista. André Ventura é um homem que se acha ungido com uma missão divina e que diz que fala com Deus”.
Portugal se prepara para eleger o novo presidente do país no domingo (18), em um cenário de incerteza política e sem maioria absoluta para nenhum dos 11 candidatos. Nos últimos 40 anos, o Partido Social Democrata e o Partido Socialista vêm se alternando no poder, mas com a ascensão do partido populista Chega, que se tornou a segunda força política do país, as perspectivas mudaram. Os brasileiros em Portugal com direito a voto tendem a priorizar os direitos dos imigrantes. Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Lisboa A menos de 48 horas da abertura das urnas para a escolha do sucessor do social-democrata Marcelo Rebelo de Souza, que ocupou o cargo nos últimos dez anos, a disputa continua polarizada. Metade dos eleitores que já decidiram o seu voto admite mudar, o que faz com que estas eleições sejam as mais imprevisíveis dos últimos tempos em Portugal. A realização do segundo turno, em 8 de fevereiro, é quase certa – algo raro no país. Um terço dos portugueses ainda não decidiu o seu voto, mas cerca de 93% dos eleitores pretendem comparecer às urnas, em um país onde a participação não é obrigatória. Os cinco candidatos que mais se destacam nas sondagens são o da esquerda António José Seguro, apoiado pelo Partido Socialista (PS); o populista André Ventura, líder do Chega, de extrema direita; Luís Marques Mendes, da coligação de centro-direita AD-PSD/CDS, entre o Partido Social Democrata e o Partido Popular; o neoliberal João Cotrim de Figueiredo, fundador da Iniciativa Liberal, e o almirante Henrique Gouveia e Melo, que concorre como independente. Desta vez, o número de candidatos para a corrida presidencial é um recorde para Portugal: são 11 candidatos oficiais. Com a dispersão de votos entre os concorrentes, será praticamente impossível alguém alcançar os 50% necessários para vencer no primeiro turno. De acordo com a última sondagem do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião (CESOP) da Universidade Católica Portuguesa, Seguro e Ventura estão em primeiro lugar nas intenções de voto, em uma disputa intensa pela liderança. Extrema direita se consolida em Portugal O tema da imigração ganhou destaque na campanha destas eleições e o líder ultradireitista André Ventura parece ter normalizado o seu discurso de ódio, quando usou a frase xenófoba “Isto não é Bangladesh” como um de seus slogans de campanha. “O Chega desempenha um papel central ao redefinir simbolicamente quem pertence à comunidade nacional, tendo como alvos explícitos as comunidades ciganas e, mais recentemente, migrantes do sul da Ásia, em particular oriundos de Bangladesh”, afirmou à RFI, Luca Manucci, pesquisador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e especialista em populismo e extrema direita. “O dado politicamente mais relevante, porém, é que a direita tradicional, em particular o PSD, longe de conter essa dinâmica, tem contribuído para a sua normalização, como ilustra a recente legislação sobre a nacionalidade. No contexto presidencial, isso não revela uma crise nas relações luso-brasileiras, mas sim a consolidação de um espaço político onde posições antes marginais da direita radical passam a integrar o debate dominante sobre imigração e identidade nacional”, analisa. De olho nos direitos dos imigrantes Os brasileiros com nacionalidade portuguesa que moram em Portugal, no Brasil ou qualquer outro país podem votar nas eleições presidenciais. Segundo o jornal português Público, “os brasileiros vão às urnas de olho nos direitos dos imigrantes”. A comunidade brasileira, que tem sido alvo de xenofobia em Portugal, deve votar em peso contra o Chega, partido anti-imigração. Neste pleito que está sendo considerado o mais emocionante desde a redemocratização do país, em 1974, o candidato socialista António José Seguro parece ser o favorito em um possível confronto no segundo turno contra o líder do Chega. “É interessante perceber que o André Ventura, embora tenha estado nas sondagens sempre em primeiro lugar e com uma ida ao segundo turno praticamente garantida, parece também ser o único candidato que, indo para o segundo turno, não seria eleito presidente, porque tem uma taxa de rejeição muito grande”, ressalta a ativista ambiental e tradutora portuguesa Ana Berhan. Desde 1986 não se tem uma disputa para eleger o chefe de Estado de Portugal em dois turnos. A última vez que isso aconteceu foi há 40 anos, nas eleições mais disputadas da democracia portuguesa, com vitória do socialista Mário Soares. Foi a primeira vez que um civil assumia o Palácio de Belém, sede do governo em Lisboa, após quase cinco décadas de ditadura militar e dez anos de transição democrática.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não descarta uma ação militar no Irã para pôr fim à repressão do regime aos protestos no país. Caso a ameaça americana se concretize, membros do alto escalão do governo iraniano prometem atacar Israel, que aguarda em estado de prontidão máxima. Em meio às tensões na região, Washington anunciou a transição para a segunda fase do acordo de estabilização na Faixa de Gaza. Henry Galsky, correspondente da RFI em Israel De acordo com a imprensa israelense, a avaliação das autoridades do país não é mais “se” o presidente Trump vai determinar uma ação, mas qual será, quando e com qual intensidade. Israel e EUA compartilham informações e, em Jerusalém, o governo deverá ser avisado horas antes da ação norte-americana, caso ela seja colocada em prática. Uma fonte do alto escalão israelense, citada de forma anônima pelo Canal 12, disse acreditar que a resposta do Irã dependerá do alcance do ataque norte-americano. Se for uma operação limitada, é possível que o Irã não ataque Israel. Mas uma ofensiva ampla provavelmente levará o regime iraniano a atacar o território israelense. O Irã buscaria também atingir alvos de Israel no exterior, como embaixadas e representações do país ou instituições das comunidades judaicas. O porta-voz do Exército de Israel, Effie Defrin, disse que as forças do país não têm intenção de atacar o Irã e que as manifestações são assunto interno iraniano. As mesmas declarações foram feitas pelo chefe do Estado-Maior do Exército, Eyal Zamir, que já participou de uma série de reuniões de atualização sobre os protestos e a repressão no país. Diversas personalidades do alto escalão iraniano têm repetido quase diariamente que atacarão Israel em caso de uma ação norte-americana. O Ministério da Saúde de Israel enviou aos hospitais uma circular de atualização sobre os procedimentos a serem adotados em caso de necessidade de transição da rotina para situação de emergência. O documento detalha as ações a serem tomadas, incluindo a transferência de pacientes para áreas protegidas. Uma fonte do hospital Sheba, em Tel Hashomer, o maior do país, confirmou o recebimento do documento e também disse que a rotina é normal até este momento. Segundo esta fonte, “o hospital está sempre preparado” para qualquer situação. Apoio a protestos Apesar do bloqueio da internet no Irã, o ministro das Relações Exteriores do país, Abbas Araghchi, recorreu à sua conta na plataforma X para culpar Israel pelas manifestações e pelas mortes. “Com sangue em nossas ruas, Israel se vangloria de ter armado manifestantes. Essa é a razão para as centenas de mortes”, acusou o ministro, sem apresentar provas. O ministro tampouco explicou os motivos que levaram o governo iraniano a cortar o acesso à internet. Em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu orientou os membros do governo a evitarem manifestações públicas de apoio aos protestos e não oferecerem argumentos que possam alimentar a narrativa do regime iraniano de interferência externa e, dessa forma, esvaziar a legitimidade do movimento. “Sofremos com a falta de água e apagões diários. O regime culpa o aquecimento global e nossos ‘inimigos’. A realidade é que estamos sofrendo por causa da corrupção e da péssima gestão de um regime que não tem a menor ideia de como administrar um país, e ainda assim é especialista em exportar terrorismo e fornecer mísseis e armas a grupos aliados”, disse uma jovem iraniana, que pediu para não ser identificada. Em Israel, na noite de quarta-feira, cerca de 500 pessoas se reuniram em Holon, na região central do país, para demonstrar solidariedade aos manifestantes iranianos. “Em 2022, vimos a forma como o regime trata as mulheres. Agora, vemos como o regime trata com violência todos os que se manifestam. Chegou a hora de dar um fim a isso”, diz a atriz Sogand Fakheri, que deixou o Irã em 2007 e desde então vive em Israel. Segundo o canal de oposição Iran International, baseado em Londres, no Reino Unido, o número de mortos pelas forças de segurança iranianas já chegou a 12 mil. As autoridades israelenses consideram que esse número pode variar entre 4 mil e 5 mil. A Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos (HRANA, sigla em inglês), sediada nos Estados Unidos, relata 2 mil mortos, mesmo número citado por um oficial iraniano, de acordo com a agência Reuters. Segunda fase do cessar-fogo em Gaza O enviado americano para o conflito em Gaza, Steve Witkoff, anunciou a transição para pôr fim ao conflito que, de forma ampla e segundo o plano de 20 pontos anunciado por Donald Trump, deverá incluir a desmilitarização do território e o desarmamento do Hamas, a formação de um governo tecnocrático, a chegada de uma Força Internacional de Estabilização e a reconstrução da Faixa de Gaza. Houve também a divulgação dos 15 palestinos que vão compor o comitê que deverá governar o território palestino em substituição ao Hamas. Além do presidente do comitê, Ali Shaath, que anteriormente ocupou cargos de alto escalão na Autoridade Palestina (AP) e atuou como vice-ministro do Planejamento, os demais membros, de acordo com fontes israelenses, palestinas e norte-americanas, são: Ayed Abu Ramadan, chefe de Comércio e Economia (presidente da Câmara de Comércio e Indústria de Gaza); Omar Shamali, chefe da pasta de Telecomunicações (diretor da Palestinian Telecommunications em Gaza); Abdul Karim Ashour, chefe da pasta de Agricultura (diretor da Agricultural Relief e ativista comunitário); Aed Yaghi, chefe da pasta de Saúde (diretor da Palestinian Medical Relief Society); Jaber al-Daour, chefe da pasta de Educação (presidente da Universidade Palestina); e Bashir Al-Rayyes, chefe da pasta de Finanças (consultor de engenharia e finanças). “O comitê vai coordenar com o governo da AP os serviços públicos e sociais em Gaza, além de trabalhar com agências internacionais de ajuda e as Nações Unidas.” Além disso, a expectativa é que os países doadores criem um fundo para financiar as atividades desse comitê. De acordo com o ativista palestino Samer Sinijlawi, os membros do comitê devem se reunir em breve no Cairo, capital do Egito. Apesar do anúncio sobre a segunda fase do acordo, há indignação por parte dos familiares de Ran Gvili, o último refém israelense cujos restos mortais ainda estão na Faixa de Gaza. Após se reunir com os pais de Gvili, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, divulgou um comunicado pedindo ao Hamas que respeite o acordo. “O governo de Israel insiste que as informações fornecidas aos mediadores pelo coordenador para Assuntos de Reféns e Desaparecidos (de Israel) e sua equipe devem se traduzir imediatamente em ações efetivas no terreno. O Hamas é obrigado a cumprir os termos do acordo e a envidar todos os esforços para o retorno dos reféns mortos, até o último deles, Ran Gvili, um herói de Israel.”
O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, rejeitou publicamente qualquer possibilidade de vender o território aos Estados Unidos às vésperas de uma reunião de alto nível em Washington. Em entrevista coletiva ao lado da primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, em Copenhague, Nielsen afirmou que “falar em comprar outro povo é desrespeitoso” e reforçou que os groenlandeses “escolhem a Dinamarca”. Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York A declaração ocorre antes do encontro marcado para quarta-feira (14) na Casa Branca entre a chanceler da Groenlândia, Vivian Motzfeldt, o ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Lokke Rasmussen, o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, e o secretário de Estado, Marco Rubio. A reunião foi solicitada por Rasmussen após o endurecimento do discurso do presidente Donald Trump sobre a possibilidade de os Estados Unidos assumirem o controle da ilha. O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, afirmou que Groenlândia e Dinamarca atuarão de forma conjunta: “Entramos juntos na sala, saímos juntos e falamos com os americanos juntos”. A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, também destacou a unidade entre os dois governos e disse que enfrentar “pressões inaceitáveis de aliados históricos” não tem sido fácil, acrescentando que “o mais difícil pode estar por vir”. A presença do vice-presidente JD Vance no encontro elevou o nível político da reunião, que será realizada na Casa Branca. Segundo Rasmussen, Vance solicitou participar e vai presidir o encontro. Após reunião entre Nielsen e Frederiksen, os dois líderes reiteraram que manterão posição unificada diante dos Estados Unidos. Trump insiste em "garantir a Groenlândia" Donald Trump tem repetido publicamente o desejo de adquirir a Groenlândia, território semi-autônomo sob soberania dinamarquesa, classificando a iniciativa como um “imperativo estratégico”. No domingo (11), afirmou que “se os Estados Unidos não tomarem a Groenlândia, Rússia ou China tomarão”, e disse que pretende garantir o controle da ilha “de um jeito ou de outro”. Na semana passada, declarou que prefere “o jeito fácil”, comprando o território, mas não descartou o “jeito difícil”, incluindo pressão extrema e até ação militar. O presidente americano também afirmou que garantir a Groenlândia é essencial para a segurança dos Estados Unidos, citando a presença russa e chinesa no Ártico. Governos nórdicos, no entanto, rejeitam a alegação de que navios chineses e russos estejam operando em águas próximas à Groenlândia de forma ameaçadora. A crise também chegou ao Reino Unido. Em Londres, a ministra de Negócios e Energia da Groenlândia, Naaja Nathanielsen, pediu ao governo britânico que “ouse ter princípios” e ajude a ilha a resistir às pressões de Trump. Em um briefing com parlamentares britânicos, Nathanielsen defendeu que os conflitos sejam resolvidos por meio do diálogo e do respeito ao direito internacional, e não pela força. Ela agradeceu publicamente o apoio do primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, e pediu que o Reino Unido insista na defesa do direito internacional e na relevância da Otan. Starmer já declarou que o futuro da Groenlândia deve ser decidido apenas pela Dinamarca e pelos groenlandeses. Leia tambémIntervenção dos EUA na Venezuela pode ser ensaio para conflito geopolítico mundial, diz especialista
A Alemanha entrou em 2026 tendo de enfrentar um debate incômodo: a necessidade ou não de o país desenvolver suas próprias armas nucleares. Embora o tema seja controverso, há um consenso na imprensa, entre especialistas e políticos: Berlim não pode mais confiar 100% no chamado “guarda-chuva nuclear americano”, que garantiu a segurança do país por décadas. Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf A Alemanha é proibida de desenvolver armas nucleares desde o final da Segunda Guerra Mundial, mas a restrição se consolida com o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), assinado em 1968 e em vigor desde 1970, do qual a então Alemanha Ocidental se tornou signatária em 1975. O que disparou o atual debate sobre armas nucleares na Alemanha foi uma mistura de fatores que começou com a invasão da Ucrânia pela Rússia, mas que ganhou força neste começo do ano com as ameaças americanas de anexação da Groenlândia, que pertence à Dinamarca. A lógica é que um conflito pela Groenlândia poderia levar ao fim da Otan, o que, por sua vez, poderia levar ao fim do guarda-chuva nuclear dos Estados Unidos para a Alemanha, que existe desde a Guerra Fria. Os americanos atualmente mantêm bombas nucleares armazenadas na Base Aérea de Büchel, no Oeste da Alemanha. Em outubro do ano passado, o chanceler Friedrich Merz disse não estar pensando na questão nuclear naquele momento, mas o cenário mudou. Na semana passada, o Brigadeiro-General Frank Pieper, que pertence à Academia de Liderança do exército alemão, publicou nas redes sociais um texto dizendo com todas as letras: “A Alemanha não pode mais confiar sua existência aos Estados Unidos e ao seu guarda-chuva nuclear. A Alemanha precisa de armas nucleares táticas para se opor à ameaça russa”. Leia tambémEUA vão anexar Groenlândia ‘de um jeito ou de outro’, ameaça Trump Nesta semana, um membro do próprio partido de Merz quebrou o silêncio sobre o tema. O especialista em política externa da CDU, o coronel aposentado Roderich Kiesewetter, sugeriu que a Alemanha contribua financeiramente para um sistema europeu de proteção nuclear, porém sem assumir a liderança. A tese de que a Alemanha deva fazer um acordo para ter proteção nuclear da França é descartada por quase todos os especialistas, incluindo membros do governo. Primeiro, porque a oferta feita pela França até aqui foi tímida e com quase nenhuma garantia. Segundo, que a possibilidade da chegada do partido de Marine Le Pen ao poder na França colocaria a segurança da Alemanha novamente em risco. Alemanha poderia desenvolver ogiva em até 5 anos Especialistas como Rainer Moormann, que trabalhou durante anos no Centro de Pesquisa Nuclear de Jülich, acreditam que a Alemanha possui o conhecimento técnico para construir sua própria ogiva nuclear em um período de três a cinco anos, graças à usina de enriquecimento nuclear de Gronau. Mas não seria algo tão simples: vale lembrar que o país é signatário de dois tratados que, em tese, o impedem de desenvolver armas nucleares. Já o especialista Eckhard Lübkemeier defendeu, em entrevista ao Frankfurter Allgemeine, que em um cenário profundamente alterado, ou seja, sem a proteção americana e com uma Rússia agressiva no leste, o direito internacional dos tratados permite a revogação de antigos compromissos. Lübkemeier, que é ex-vice-chefe do departamento europeu da Chancelaria Federal, é um dos que defendem a ideia da “bomba alemã”, caso "nenhum de nossos parceiros esteja preparado para assumir um compromisso”. Vale registrar ainda que a opinião pública alemã, que ainda é majoritariamente contra a ideia, mas que vem mudando. Em 2020, apenas 5% se diziam a favor de uma bomba nuclear alemã. Em 2025, este número se multiplicou por seis, atingindo 30%. O poder da dissuasão Uma das vozes mais eloquentes na defesa de uma nova dissuasão nuclear para a Alemanha é a de Claudia Major, vice-presidente do German Marshall Fund e assessora do governo alemão. Ela disse ao Die Zeit que a guerra na Ucrânia está demonstrando que o poder da dissuasão nuclear ainda funciona. A Rússia até agora evitou qualquer conflito militar com os países da Otan porque sabe dessa ameaça. Ao mesmo tempo, os países ocidentais estão calibrando seu apoio à Ucrânia com muita cautela, justamente por medo das ameaças nucleares russas. Mas, segundo Major, agora há uma novidade. Tradicionalmente, a dissuasão era entendida como a defesa do status quo: a Otan e a Rússia protegem suas fronteiras e a ordem vigente. Mas a Rússia agora está usando a proteção de suas armas nucleares para mudar a ordem vigente: redesenhou fronteiras e anexou quatro regiões ucranianas
"O Agente Secreto" e Wagner Moura confirmam a excelente fase do cinema nacional e entram para a história do Globo de Ouro. Pela primeira vez em 83 anos de premiação, um ator brasileiro vence o prêmio de Melhor Ator em Drama e o Brasil conquista a estatueta de Melhor Filme de Língua Não Inglesa pela segunda vez, 27 anos após 'Central do Brasil', de Walter Salles. Cleide Klock, correspondente da RFI em Los Angeles A premiação aconteceu neste domingo (11), no hotel Beverly Hilton, em Beverly Hills, na Califórnia. Além das vitórias históricas, "O Agente Secreto" ainda concorria ao prêmio de Melhor Filme de Drama. O diretor Kleber Mendonça Filho subiu ao palco para receber o prêmio de Melhor Filme de Língua Não Inglesa, acompanhado da equipe presente na cidade, entre eles os atores Wagner Moura, Alice Carvalho, Gabriel Leone e a produtora Émilie Lesclaux. Pela primeira vez, o Brasil leva dois Globos de Ouro na mesma cerimônia. Visivelmente emocionado, Kleber começou com um 'oi' em português para quem assistia no Brasil e agradeceu à Neon, distribuidora do filme nos Estados Unidos, responsável por uma campanha robusta em Hollywood; e ao Festival de Cannes, onde ele foi premiado como Melhor Diretor e Wagner Moura como Melhor Ator. O diretor também agradeceu à Vitrine Filmes, distribuidora nacional, por transformar "O Agente Secreto" em 'um blockbuster incomum no Brasil'. Kleber Mendonça dedicou o prêmio aos jovens cineastas e fez um discurso marcante. "Este é um momento muito importante para se fazer filmes, aqui nos Estados Unidos e no Brasil. Jovens americanos, façam filmes." Quem anunciou o prêmio foi a atriz Minnie Driver ("Gênio Indomável"), que fez questão de dizer 'parabéns' em português, ao lado do ator Orlando Bloom ("Piratas do Caribe"). Título inédito Wagner Moura venceu como Melhor Ator em Drama, levando ao Brasil um título inédito. O ator baiano já aparecia como favorito absoluto. Na plataforma de apostas Kalshi, ele liderava com 66% de chances de vitória, bem à frente do segundo colocado, Michael B. Jordan, por "Pecadores". Ao subir ao palco, Wagner falou em português. "Viva o Brasil, viva a cultura brasileira." Em seguida, elogiou o diretor em inglês. "Kleber, você é um gênio e um irmão. 'O Agente Secreto' é um filme sobre memória — ou a falta dela — e sobre trauma geracional. Se o trauma pode ser passado de geração para geração, os valores também podem. Esse prêmio é para aqueles que resistem com seus valores em tempos difíceis", declarou. Wagner dedicou a estatueta à esposa, Sandra Delgado, e aos três filhos. Há dez anos, ele já havia sido indicado ao Globo de Ouro por "Narcos", na categoria de ator em série. Naquela ocasião, o prêmio ficou com Jon Hamm, de "Mad Men". Globo de Ouro 2025 No Globo de Ouro de 2025, "Ainda Estou Aqui" foi indicado, mas quem venceu como Melhor Filme de Língua Não Inglesa foi "Emilia Perez", representando a França, então considerado o grande favorito da temporada. Pouco depois, um escândalo envolvendo a atriz Carla Sophia Gascon — por mensagens de ódio divulgadas nas redes sociais — mudou completamente o cenário. "Ainda Estou Aqui" acabou ganhando força, assumiu a liderança e venceu o Oscar de melhor filme internacional. Fernanda Torres, que venceu o Globo de Ouro de Melhor Atriz no ano passado, ganhou uma visibilidade decisiva em Hollywood, o que contribuiu para a indicação ao prêmio. Mais Esperança Com essa vitória dupla, "O Agente Secreto" e Wagner Moura ganham ainda mais projeção numa temporada que já é histórica para o cinema brasileiro. Nunca um filme nacional chegou tão bem cotado logo na largada, nem mesmo "Ainda Estou Aqui". O sucesso do filme já trouxe um clima de vitória de Copa do Mundo às redes sociais, onde os brasileiros comemoram como nenhum outro povo no planeta. O presidente Lula também entrou no clima e publicou uma mensagem parabenizando o filme e o ator baiano. Na semana passada, o longa venceu como Filme Internacional nos Critics' Choice Awards. Embora os votantes do Oscar não sejam os mesmos do Globo de Ouro ou do Critics' Choice, esses prêmios amplificam muito a visibilidade da produção. Em dez dias, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anuncia os indicados ao Oscar. A disputa é acirrada, com títulos como "Valor Sentimental" (Noruega), "Foi Apenas um Acidente" (França) e "A Única Saída" (Coreia do Sul), todos filmes premiados e concorrentes de peso, que também estavam indicados ao Globo de Ouro. Outras premiações "Uma Batalha Após a Outra" foi o mais premiado da noite: venceu como Melhor Filme de Comédia ou Musical, além de direção e roteiro para Paul Thomas Anderson e atriz coadjuvante para Teyana Taylor. "Hamnet: A Vida Antes de Hamlet" levou Melhor Filme de Drama e Melhor Atriz, para Jessie Buckley. Entre as séries, os destaques foram "The Pitt" (HBO Max), "The Studio" (Apple TV) e "Adolescência" (Netflix).



