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Author: RFI Português

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Uma vez por semana, os temas que marcam a actualidade científica são aqui descodificados.

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O teatro está a ser usado em Massingir, na província de Gaza, para alertar as populações para as doenças transmitidas pelos animais como a raiva ou a tuberculose bovina. São apresentações construídas com a população, utilizando a linguagem corrente para falar sobre estes temas e onde os investigadores advogam também pela melhoria das condições de vida dos habitantes à volta do Parque Natural do Limpopo. Em Moçambique, um projecto levado a cabo por cientistas sociais está a ir às comunidades em risco de contrair doenças zoonóticas, ou seja doenças passadas pelos animais domésticos ou selvagens ao homem, de forma a alertar, prevenir e informar as populações. Este projecto visa avaliar o que os habitante sabem sobre estas maleitas e, a partir daí, com o vocabulário próprio das comunidades criar uma peça de teatro não só que alerte para os perigos dessas interacções, mas também que fale sobre sintomas e descontrua mitos ou crenças à volta de doenças ainda bastante prevalentes como a raiva ou a tuberculose bovina. O sociólogo moçambicano, Carlos Cuinhane, tem levado a cabo este projecto no distrito de Massingir, na província de Gaza, nas comunidades limítrofes do Parque Natural do Limpopo, e explica como estas representações teatrais podem ser mais eficazes do que panfletos ou cartazes, dando um papel activo às populações no combate a estas doenças. "Chegámos à conclusão de que, efectivamente, todos os processos de comunicação que eram feitos eram baseados no processo tradicional, nomeadamente panfletos, com a tradução de inglês para português e língua local. Entendemos que face ao historial de Moçambique, em particular e da região havia esta informação, mas em termos de impacto, as práticas sociais de risco continuavam a serem comuns nas comunidades. E perguntamos para nós será que reproduzir o mesmo modelo valia a pena? Chegamos à conclusão de que não. Em outras comunidades, havia uma tentativa de envolvimento das próprias comunidades. Mas, mais importante ainda é a ideia em que chegamos à conclusão de que todas as práticas que eram desenvolvidas nesse sentido da produção de comunicação eram baseadas na perspectiva 'top down', ou seja, os cientistas faziam a investigação, chegavam as suas conclusões, definiam o que era a comunicação e depois enviavam à comunidade. E nós entendemos que, como uma inovação, podíamos fazer duas coisas. A primeira era basear se exatamente a informação de comunicação naquilo que a própria comunidade diz ser o problema e identificar a forma como eles gostariam que comunicassem. O segundo momento foi de que seria ideal usar o teatro exactamente baseado na ideia de que são eles próprios na comunidade a fazerem, a participarem neste processo de teatro e a transmitir a informação para eles próprios. Nós iríamos intermediários e passaríamos tudo para a comunidade", explicou Carlos Cuinhane, que é também investigador na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo. Assim, com a linguagem adaptada ao que já era conhecido pela população, o grupo de pesquisa trabalhou com o grupo de teator local Tilápia Star de forma a criar um espéctaculo interactivo que explique o que são doenças zoonóticas, como se transmitem, como podem ser prevenidas e os meios de tratamento possíveis. Neste processo, o grupo de pesquisa apercebeu-se que havia algumas "suspeitas" sobre o papel dos cientistas e dos governantes sobre os alertas feitos em relação a estas doenças, já que muitas promessas ficam por cumprir no que diz respeito à melhoria de condições de vida destas populações. "Nós conseguimos aproximar-nos mais das populações e fazer a sensibilização das comunidades. Nós nos desafiamos definitivamente a fazer advocacia não só a nível da própria comunidade, mas também para o Governo, os gestores dos parques [naturais] ou outras organizações, mas também a meta e sensibilizar os financiadores. Há projectos que não estão a responder àquilo que são as exigências ou as necessidades da própria população. Nós, como actores no meio, tentamos sensibilizar outros atores que são relevantes. Ao longo deste processo, o distrito tinha problemas muito graves em relação, por exemplo, à falta de vacinas contra a raiva e à falta de vacina contra a doença Newscastle que atinge o distrito e não havia nenhuma planificação para o efeito. O próprio distrito não tem mecanismos. Depende do governo provincial. O governo provincial depende do Governo central. Mas devido aos problemas todos ligados à macroestrutura da planificação, eles já não recebiam vacinas há vários anos. Então, em função disso, fizemos uma advocacia. Conseguimos vacinas", explicou o investigador. Em Moçambique, as doenças zoonóticas mais prevalentes, segundo o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) norte-americano, é a raiva, a tuberculose zoonótiva, a salmonelose, o vírus da gripe aviária zoonótica, a tripanasomose, a brucelose e a febre hemorrágica da Crimeia-Congo, mostrando que a informação sobre estas doenças é essencial para a população, sobretudo junto dos mais vulneráveis como crianças, idosos ou mulheres grávidas. Com o projecto a já ter sido apresentado em quatro localidades, a ideia é agora arrecadar mais financiamento de forma a alargar o raio de acção a mais comunidades na provínicia, e, mais tarde, pensar num projecto a nível nacional. "Em função dos recursos económicos disponíveis, já estamos a negociar com os parceiros para que haja expansão da apresentação da peça teatral e outros mecanismos. Mas há muitas comunidades que estão na zona tampão do Parque Nacional de Limpopo onde também devemos apresentar e houve ainda pedidos também do próprio Governo, depois de ver a peça. O ideal seria abranger todas essas comunidades antes de passarmos para outras províncias", conclui Carlos Cuinhane. 
Investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade Eduardo Mondlane podem estar prestes a revolucionar a forma como se diagnotica doenças cardíacas em Moçambique e no Mundo, utilizando a inteligência artificial. A utilização desta tecnologia pode ajudar a baixar os custos do diagnóstico destas doenças. A inteligência artificial vai muito para além de ferramentas de conversação e tem hoje um papel central em sectores essenciais como a saúde, nomeadamente nos campos da imagem médica, em que esta tecnologia tem melhorado a capacidade de detecção e diagnóstico de várias doenças e lesões. Albertino Damasceno, médico cardiologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Eduardo Mondlane, quer tentar implementar em Moçambique o uso da ecocardiografia assistida por inteligência artificial em cuidados primários, para o diagnóstico da insuficiência cardíaca, tendo recebido o apoio da Fundação Gulbenkian para levar a cabo um estudo nesse sentido. Em entrevista à RFI, Albertino Damasceno, explicou de que forma a inteligência artificial pode ajudar a detectar as doenças que afectam o coração, mas também economizar nos meios de diagnóstico. "Começa a usar-se a inteligência artificial para diagnóstico de várias patologias cardíacas e não só, portanto, qualquer patologia que possa ser diagnosticada pela imagem. Isto já é feito nalgumas partes do mundo, mas fundamentalmente em termos de investigação, não em termos de aplicação prática. O mais importante é que a insuficiência cardíaca, segundo as normas internacionais, deve ser confirmada por um teste que mostra a presença de peptídeo natriurético a nível do sangue periférico. Este teste custa cerca, aqui em Moçambique, cerca de 20 dólares por teste. Portanto, isto é perfeitamente impossível de suportar, não só em Moçambique como em qualquer outro país africano. Portanto, este gold standard de diagnóstico da doença cardíaca torna-se difícil de aplicar na prática, surgindo neste momento uma série de softwares que podem usar não só a ecocardiografia, mas uma coisa até mais simples, que é electrocardiograma para o diagnóstico da doença cardíaca", explicou o especialista. Este é um projecto levado a cabo em parceria com a Universidade do Porto e a Universidade de Yale e vai reencaminhar pacientes em cuidados primários, dando formação aos técnicos de saúde e comparando os diferentes métodos de diagnóstico durante vários meses, de forma a perceber se a análise de imagem feita pela inteligência artificial pode permitir detectar estas doenças com a mesma precisão que os testes de sangue. "Nós vamos começar por uma fase em que é, digamos, o standard of care, isto é, nós vamos pedir a três centros de saúde primários da cidade da cidade de Maputo que durante cinco meses nos enviem todos os doentes que acham que têm insuficiência cardíaca. E vamos fazer estes doentes. Um teste que é ecocardiografia para confirmar ou não a presença de insuficiência cardíaca. A fase seguinte são dois meses em que, com a colaboração com o Departamento de Fisiologia da Universidade do Porto, vamos treinar estes médicos e técnicos de medicina e enfermeiros das triagens, não só no diagnóstico de incidência cardíaca, mas também no uso de electrocardiograma e da ecocardiografia, e também usando para comparação, o tal peptídeo natriurético. Eles vão testar os três métodos e da mesma forma vão-nos enviar não só os casos positivos como os casos negativos. Nós vamos ter uma ideia de um qual é a sensibilidade e especificidade de cada um desses três métodos para o diagnóstico em ciência cardíaca em Moçambique. Portanto, a ideia é exactamente tentar provar que há alternativas mais baratas para se diagnosticar uma doença que neste momento não é diagnosticada a nível periférico", detalhou. Este estudo torna-se ainda mais relevante já que Moçambique tem visto nos últimos anos um aumento de 17,3% do risco de morte entre adultos entre os 40 e os 69 anos, assim como o aumento de outros factores importantes para o agravamento destas doenças como o aumento da hipertensão, da diabetes e da obesidade na população em geral. "Nós estamos a assistir a uma transição epidemiológica. Até há cerca de 20 anos, 30 anos mais ou menos, as doenças predominantes eram as doenças infecciosas. Depois apareceu o HIV SIDA. E, portanto, neste momento, as grandes prioridades dos ministérios da Saúde, particularmente do moçambicano, são o HIV SIDA, a malária e a tuberculose. E porquê? Porque estes são os programas que recebem financiamento internacional. Portanto, as doenças não transmissíveis neste momento ainda estão muito dependentes de qualquer tipo de orçamento que possa ser fornecido pelo Ministério a nível do orçamento nacional. E por isso também são os parentes pobres da medicina em Moçambique. A nossa ideia é que, com o aumento da prevalência da hipertensão arterial, da diabetes, nós vamos ter uma epidemia de doenças não transmissíveis, particularmente doenças cardiovasculares, a começar pelo infarto agudo do miocárdio e pela essência cardíaca e, fundamentalmente, pelo acidente vascular cerebral", concluiu.
Está previsto decorrer na Guiné-Bissau um projecto clínico que está a suscitar polémica e a levantar muitas questões. Trata-se de um estudo, financiado por fundos americanos - 1,600 milhões de dólares pagos pelo Centro de Controlo das Doenças americano (CDC) - sobre os efeitos não específicos da vacina contra a Hepatite B. Em entrevista à RFI, a antiga ministra da Saúde da Guiné-Bissau, Magda Robalo, manifesta sérias reservas em relação ao estudo, alerta para fragilidades éticas, científicas e comunicacionais. O estudo, liderado pelo Projecto de Saúde de Bandim, pretende acompanhar 14.000 recém-nascidos ao longo de cinco anos, comparando dois grupos: um que recebe a vacina contra a Hepatite B nas primeiras 24 horas de vida e outro que segue a prática actual do país, recebendo a vacina apenas a partir das seis semanas de idade. E assim estudar os efeitos associados à vacinação contra a Hepatite B em função da data de administração da vacina. As recomendações da Organização Mundial da Saúde são claras: a vacina contra a Hepatite B é segura, sem efeitos adversos, e é mais eficaz quando administrada à nascença, sobretudo num país como a Guiné-Bissau, onde a prevalência da Hepatite B é elevada (18% da população está infectada). Actualmente, a Guiné-Bissau não administra a vacina contra a Hepatite B à nascença. No entanto, o Governo decidiu adoptar a vacinação universal de recém-nascidos a partir de 2028, em linha com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo os investigadores do Projecto de Saúde de Bandim, esta transição cria uma “janela de oportunidade” para comparar a política actual com a futura política já decidida, mas ainda não implementada. Durante o ensaio, todas as crianças recebem a vacina contra a Hepatite B às 6, 10 e 14 semanas, respeitando o plano nacional de vacinação. Metade, 7.000 recém-nascidos, vão receber uma dose adicional nas primeiras 24h de vida. Para alguns elementos da comunidade médica internacional, o interesse deste ensaio clínico é mais político do que sanitário, como demonstra o financiamento americano de 1,6 milhões de dólares, numa altura em que o secretário norte-americano da Saúde, Robert Kennedy, é conhecido pelas suas posições antivacinação. O Centro Africano de Controlo das Doenças anunciou, na semana passada, o cancelamento do ensaio clínico com base nas questões éticas. Todavia, a equipa que se encontra a liderar a investigação, contactada pela RFI, desmente o cancelamento ou a suspensão. Em entrevista à RFI, a antiga ministra da Saúde da Guiné-Bissau, Magda Robalo, manifesta sérias reservas em relação ao estudo proposto pelo Projecto de Saúde de Bandim, alertando para fragilidades éticas, científicas e comunicacionais que podem ter consequências negativas duradouras na confiança da população nas vacinas. Segundo a ex-governante, o Comité de Ética da Guiné Bissau terá analisado o protocolo “com a maior das boas vontades”, mas condicionado por uma relação histórica de proximidade com o Projecto de Saúde de Bandim, que actua no país há cerca de 45 anos. Essa proximidade poderá, na sua opinião, ter limitado uma avaliação mais crítica e abrangente do impacto do estudo. Para Magda Robalo, faltou ao Comité de Ética uma análise da “dimensão externa” do protocolo, nomeadamente do seu alcance internacional e da real necessidade científica de testar uma vacina amplamente utilizada. “Estamos a falar de uma vacina contra a Hepatite B que é utilizada há 40 anos e que não precisa de ser testada nos recém-nascidos da Guiné-Bissau”, afirma. A antiga ministra acrescenta que a eficácia da vacina administrada à nascença está solidamente comprovada e é recomendada pela Organização Mundial de Saúde. Num país onde se estima que 18% da população esteja infectada com Hepatite B e onde cerca de 11% das crianças já estejam infectadas aos 18 meses, Magda Robalo considera que o estudo pode ter um efeito contraproducente. “O grande efeito nefasto deste estudo é exactamente criar na mente das populações, nomeadamente das mães, a desconfiança relativamente a esta vacina.” A ex-ministra relata que já ouviu no terreno perguntas que revelam esse receio: “Mas porque é que nós vamos introduzir uma vacina que nunca foi testada na Guiné-Bissau?”. A resposta é clara: “Várias vacinas, se não todas, que estão a ser administradas na Guiné-Bissau, nunca foram testadas particularmente na Guiné-Bissau. Não precisam de ser testadas na Guiné-Bissau, porque foram testadas em vários outros países e em populações muito maiores.” Magda Robalo insiste que as recomendações da OMS resultam sempre de estudos alargados e da avaliação de múltiplos peritos, antes de serem integradas nas políticas de saúde pública. Ainda assim, alerta para o perigo de as mães se sentirem usadas como “cobaias”, o que pode levar à rejeição da vacina. “É o risco que nós corremos, que as mães pensem que não se deve dar esta vacina às crianças”, afirma. Outra questão que se levanta prende-se com o processo de consentimento informado, num contexto de fraca literacia em saúde. “Na Guiné-Bissau, o consentimento informado é problemático”, garante Magda Robalo, lembrando que 14 mil mães teriam de ser esclarecidas no âmbito do estudo. Na sua opinião, é pouco provável que a maioria compreenda plenamente as diferenças entre os grupos e as implicações da decisão. “Posso arriscar a dizer que a maior parte das mães não irá perceber exactamente o que é que se passa”, esclarece. Em resposta escrita à RFI, Isaquel da Silva e Frederik Schaltz-Buchholzer, investigadores responsáveis pelo estudo no Projecto de Saúde de Bandim, salientam que o ensaio “não retira vacinas dos participantes, pelo contrário, metade dos participantes receberá uma vacina que, de outra forma, não teria recebido”. Explicam que se trata de “um ensaio clínico para avaliar os efeitos não específicos das vacinas administradas no período neonatal. (...) O estudo não questiona a eficácia da vacina contra Hepatite B na prevenção da doença. A lacuna científica está nos efeitos não específicos das vacinas - impactos sobre mortalidade geral, resistência a outras infecções e saúde global da criança. Há evidências de que o momento da vacinação pode influenciar esses efeitos, mas faltam dados robustos em contextos africanos.” Os investigadores acrescentam que “o ensaio resultará num maior número de recém-nascidos vacinados (e protegidos) contra a Hepatite B” e ressalvam que “o estudo segue protocolos éticos e científicos, foi aprovado pelo Comissão de Ética na Saúde de Guiné-Bissau, e vai responder perguntas importantes antes da implementação universal”. Questionados sobre as críticas éticas levantadas por alguns especialistas, explicam que essas críticas estão baseadas “mal-entendidos e em informação incompleta.” Apesar do Centro Africano de Controlo das Doenças ter anunciado o cancelamento do ensaio clínico, a equipa do Projecto de Saúde de Bandim desmente o cancelamento ou suspensão e reitera que os preparativos continuam e que será feito um anúncio aquando do arranque do projecto.
Guimarães iniciou esta sexta-feira, 9 de Janeiro, o ano como Capital Verde Europeia 2026, com uma programação que cruza compromissos políticos, acordos estratégicos e celebração cultural, afirmando-se como território-laboratório da transição verde através de iniciativas de sustentabilidade, inovação urbana e participação cívica. Em entrevista à RFI, Isabel Loureiro, directora executiva de Guimarães 26, afirma que “a transição climática não é abstracta: acontece nas cidades, no quotidiano das pessoas, e Guimarães é hoje um exemplo disso”. O que representa para Guimarães ser Capital Verde Europeia em 2026? Significa, acima de tudo, um reconhecimento da importância das cidades no que diz respeito à transição verde e à sustentabilidade, nomeadamente à sustentabilidade ambiental. Há dez anos, quando Guimarães começou a sua jornada climática, havia muito a ideia de que o problema das alterações climáticas era um problema global. Mas, de facto, também é um problema local. Com o trabalho que está a ser feito e com todos os projectos que estão elencados para o futuro, estamos a conseguir provar que é possível fazer estas transformações e ter impacto através das cidades. É por isso que Guimarães, sendo Capital Verde Europeia, será também um hub da sustentabilidade em 2026, onde outras cidades, cidadãos e pessoas de todo o mundo poderão visitar e conhecer algumas das nossas boas práticas. Em que é que se traduz esta designação de Capital Verde? Traduz-se sobretudo num esforço colectivo que foi feito e num conjunto de políticas que foram adoptadas e que alteraram o percurso ambiental da cidade a partir de 2014. Guimarães fez um diagnóstico da sua situação ambiental e, como sabe, somos uma cidade industrial, com alguns impactos resultantes dessas dinâmicas. Ao longo dos anos houve um grande investimento na educação ambiental. O programa Pegadas, por exemplo, impacta hoje 800 alunos de 88 escolas. É um programa voluntário, dirigido aos quase 20 mil alunos da cidade, com uma equipa dedicada do Laboratório da Paisagem que realiza diariamente acções de sensibilização. Traduz-se também numa alteração dos indicadores ambientais, nomeadamente daqueles avaliados pela Comissão Europeia. Guimarães apresentou três candidaturas e foi na última que conquistou este título. O que verificámos ao longo desta jornada de dez anos é que os indicadores ambientais melhoraram. Hoje, por exemplo, 97% dos nossos cidadãos respiram ar de boa qualidade. Incrementámos em 30% as zonas pedonais e criámos quiet zones. Actualmente, toda a rede de transporte público é eléctrica, o que reduz significativamente as emissões. Há, portanto, um conjunto de boas práticas que, como refere o senhor Presidente da Câmara, Dr. Ricardo Araújo, se reflectem directamente na qualidade de vida dos cidadãos. Ao longo do ano estão previstas várias iniciativas. Quais serão as áreas mais privilegiadas? A Capital Verde desenvolver-se-á em dois grandes momentos. Um deles será marcado pela realização de conferências, congressos e seminários, incluindo importantes encontros internacionais e nacionais subordinados às temáticas da Capital Verde Europeia e às áreas dos indicadores. Paralelamente, durante o ano de 2025 lançámos duas chamadas à comunidade para que pudesse propor eventos. Recebemos mais de 200 propostas, que serão agora implementadas ao longo do ano. As grandes áreas serão a água, a qualidade do ar e a saúde, não apenas a saúde física, mas também a saúde mental e a forma como o ambiente impacta a saúde e vice-versa. Abordaremos também a energia, a resiliência, o espaço público, a arquitectura das cidades e a melhoria da conectividade das áreas verdes, permitindo a circulação de pessoas e animais, preservando a natureza e a biodiversidade. Teremos ainda eventos ligados à economia circular e à gestão de resíduos. No fundo, será um programa que tocará todas as áreas elencadas na candidatura de Guimarães a Capital Verde Europeia: sete áreas ambientais e uma oitava, desenhada por nós, dedicada à democracia participativa, explorando de que forma a participação, a mobilização e a ciência suportam esta transformação. Quais serão os benefícios desta Capital Verde para a população? Quando adoptamos, por exemplo, um sistema de transporte público totalmente eléctrico, isso tem impacto nas emissões e nas partículas PM2,5, melhorando a qualidade de vida das pessoas. É um exemplo claro de como uma estratégia pública pode beneficiar directamente os cidadãos. Por outro lado, ao permitir que os cidadãos participem, desenhem e criem projectos e iniciativas, estamos a sensibilizar e a formar futuras gerações. Alterar os comportamentos? Sim. Quando falamos da população, falamos também dos sectores económico e empresarial. Na hotelaria e restauração, por exemplo, desenhámos uma declaração de compromisso que pode ser subscrita por estes estabelecimentos, permitindo-lhes identificar as boas práticas que implementam nas várias áreas de indicadores. Ao longo do ano, as equipas destes negócios receberam acções de formação e sensibilização, bem como um dístico que sinaliza aos visitantes que aquele restaurante ou hotel segue critérios ambientais. Alterar comportamentos significa também transformar os negócios, e esse é um legado importante que queremos deixar. O que é que ainda falta fazer na área ambiental? Guimarães tem uma visão clara: ser uma cidade de um só planeta em 2050. A última vez que foi calculada a pegada ecológica do município, Guimarães consumia 2,28 planetas. Para alcançar esta ambição, é necessária uma transformação não apenas do território e das infra-estruturas, mas sobretudo dos cidadãos. Esta mudança leva tempo. O que sabemos hoje é que estamos a preparar as gerações para que esta transição aconteça de forma mais acelerada, permitindo que em 2050 vivamos dentro dos limites planetários. Há também o compromisso com a neutralidade climática em 2030… Sim. Em 2022, Guimarães foi uma das seis cidades eleitas pela Missão das Cidades para atingir a neutralidade climática em 2030. Foi elaborado o Plano Municipal de Acção Climática, focado tanto na adaptação como na mitigação, acompanhado por um plano de investimento e de monitorização. Neste momento, o trabalho passa por implementar e monitorizar essas medidas para alcançar a neutralidade climática em 2030. É este o legado que Guimarães quer deixar, enquanto capital verde da Europa? Sim, é um legado de transformação das pessoas, de melhoria da qualidade de vida e de partilha com outras cidades. Queremos inspirar e mobilizar outros territórios. Guimarães é uma cidade de média dimensão, e se nós conseguimos, outras cidades da mesma dimensão também poderão conseguir. Cerca de 75% das cidades europeias são de pequena e média dimensão. Se conseguirmos inspirá-las, acredito que juntos poderemos transformar este planeta.
Foi lançada em Dezembro, em Angola, a REEDUCA – Rede de Educação Ambiental Angolana para a Prevenção, Redução, Reutilização e Reciclagem do Resíduo Plástico, uma iniciativa conjunta da Agência Nacional de Resíduos e da EcoAngola. A rede tem como objectivo reforçar a educação ambiental no país e promover uma gestão mais sustentável do lixo plástico. Dara Correia, coordenadora do projecto pela EcoAngola, explicou à RFI que o REEDUCA visa criar uma intervenção estratégica a nível nacional para mitigar os impactos do resíduo plástico. “O projecto é a nível nacional e teve como piloto a cidade de Luanda, entre Outubro e Dezembro. A intenção é expandir a rede para outras províncias”, afirmou. Na prática, o projecto começou com a elaboração de um diagnóstico que envolveu diferentes intervenientes do sector da gestão de resíduos, desde cooperativas de catadores a empresas especializadas. Em seguida, foram realizadas formações direccionadas a públicos distintos, incluindo líderes de cooperativas, catadores individuais e professores do ensino primário. Além das formações, o projecto promoveu uma campanha digital de sensibilização sobre prevenção, redução e reciclagem de resíduos plásticos. O lançamento da rede culminou num seminário com 72 participantes do sector, onde se enfatizou que a implementação efectiva da economia circular em Angola depende da união entre os diferentes intervenientes. Segundo a coordenadora do projecto, a educação ambiental é fundamental para mudar comportamentos. “Ainda estamos numa fase embrionária de consciencialização. É necessário um trabalho contínuo de educação ambiental no país”. O problema do plástico em Angola, de acordo com Dara Correia, é visível e urgente: “O plástico demora anos a decompor-se e transforma-se em microplásticos. Já se encontram resíduos plásticos nos peixes que consumimos e nos ambientes costeiros. É um problema que afecta a saúde e o meio ambiente de todos. Todos devemos mudar as nossas atitudes diárias”.
Foi oficialmente lançada em Novembro, à margem da COP30, a Rede Lusófona para o Clima, uma iniciativa conjunta da ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável e da Oikos – Cooperação e Desenvolvimento, que pretende criar um espaço de cooperação entre países lusófonos na mitigação e adaptação às alterações climáticas. A primeira fase da rede foca-se em África, mas a ambição é estender a acção a toda a lusofonia, incluindo Brasil e Timor-Leste.   De acordo com o comunicado de lançamento, a iniciativa assinala a criação de uma nova aliança destinada a fortalecer a cooperação climática entre os países de língua portuguesa. A Rede Lusófona para o Clima nasce com o propósito de promover a acção climática conjunta entre organizações da sociedade civil, jovens líderes, activistas e representantes comunitários dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) e de outros territórios lusófonos. O objectivo é reforçar a presença e a influência das vozes lusófonas nos processos globais de decisão sobre o clima, incentivando o diálogo, a partilha de conhecimento e o desenvolvimento de soluções sustentáveis alicerçadas em laços culturais e linguísticos comuns. “Como pode um espaço lusófono comum fortalecer a sociedade civil e as comunidades dos países de língua portuguesa na influência da política climática global, promovendo uma governação inclusiva e equitativa?” foi o ponto de partida para o debate que contou com a participação de Miguel de Barros director executivo da Tiniguena (Guiné-Bissau), Ilda Cerveja, da Youth for Climate Action Platform (Moçambique), Jédio Fernandes, coordenador do Colégio de Engenharia Ambiental da Ordem dos Engenheiros de Angola e em representação das organizações fundadoras, Francisco Ferreira, presidente da ZERO (Portugal), e José Luís Monteiro, da Oikos (Portugal). Miguel de Barros, director executivo da Tiniguena (Guiné-Bissau), destacou a urgência da cooperação: “Esta iniciativa é muito importante se tomarmos em consideração que só no ano passado nós tivemos cerca de 18% da população africana em situação de pobreza climática. Isso significa mudanças estruturais no sistema produtivo, no acesso à terra, na segurança alimentar, mas também provoca uma incidência muito forte na migração juvenil das zonas rurais, atendendo às dificuldades de inserção na agricultura familiar. A ausência de modernização da agricultura familiar tem levado a uma certa reconfiguração do espaço das cidades, com maior concentração, sobretudo nas zonas urbanas.” O investigador guineense sublinhou ainda os desafios da erosão costeira, da salinização dos campos agrícolas e da falta de tecnologias adaptadas: “As fragilidades existentes fazem com que esta oportunidade de lançamento da rede nos permita trabalhar numa perspectiva de harmonização de políticas públicas, detecção da variabilidade climática e adaptação às transformações, promovendo simultaneamente a transição energética e a educação para o clima.” Para Francisco Ferreira, presidente da ZERO (Portugal), a acção climática deve ser integrada e inclusiva: “Em Portugal temos de garantir que as políticas climáticas conseguem atingir os seus objectivos em termos de adaptação e mitigação. A responsabilidade é muito maior, porque somos um país desenvolvido, com excesso de emissões em vários sectores. Além disso, a CPLP é uma comunidade com uma elevada percentagem de áreas classificadas como Reserva da Biosfera, o que nos dá potencial para trabalhar nas várias linhas da biodiversidade, terrestre e oceânica.” Francisco Ferreira enfatizou ainda a importância do financiamento: “O financiamento deve ser uma prioridade. Temos apoiado Portugal, como ZERO, na negociação da dívida e na conversão da dívida em projectos climáticos em cada um dos países. É preciso que isso se expanda para além de Cabo Verde, que é o único institucionalizado. Já se falou em São Tomé e Príncipe, mas é necessário que haja financiamento de forma ampla, não apenas pelo sistema público, mas também pelo privado.” Ilda Cerveja, da Youth for Climate Action Platform (Moçambique), abordou a vulnerabilidade de Moçambique aos fenómenos climáticos extremos: “Moçambique é um dos países mais afectados pelos eventos climáticos extremos, principalmente os ciclones, que acabam resultando em cheias e secas. Pelo menos dois ciclones afectam o país por ano, o que compromete a capacidade de resposta a este desafio. O país é extremamente vulnerável devido à forma como a terra é usada, à ocupação e às infra-estruturas. A maior parte da nossa população são crianças e jovens, e este grupo é particularmente afectado pelos eventos climáticos extremos. Um dos principais desafios na nossa participação nos espaços de debate climático é a língua, o que limita a nossa capacidade de intervenção.” Jédio Fernandes, coordenador do Colégio de Engenharia Ambiental da Ordem dos Engenheiros de Angola, descreveu a situação no seu país: “Províncias como Cunene, Huíla e Namibe enfrentam a pior seca dos últimos 40 anos, com consequências graves para a vida das populações. A actividade económica destas regiões depende da produção de gado em massa. Sem vegetação e água, o gado morre. Isto força as populações a abandonarem as zonas rurais, aumentando a pressão sobre Luanda, que foi projectada para 500.000 pessoas e hoje acolhe cerca de 9 milhões. Vemos com bons olhos o lançamento da Rede Lusófona, que permite agir em bloco e comunicar com maior clareza na nossa própria língua.” Miguel de Barros acrescentou, ainda, que a rede deve focar-se na justiça climática e apoio a grupos vulneráveis: “Numa primeira instância, a própria rede tem de ser capaz de trazer esse diálogo na forma como quer estar e quer se posicionar. E nesse campo há duas perspectivas que, para mim são essenciais: a questão da responsabilização dos países emissores e, ao mesmo tempo, uma abordagem para a justiça climática; outra questão, que para mim é estrutural, é que, por exemplo, no caso africano, mais de 64% da mão-de-obra na agricultura familiar depende das mulheres. E quando vamos olhar o impacto das mudanças climáticas dos últimos cinco anos, há uma projecção de perda de pelo menos de 34% da mão-de-obra na agricultura, afectando sobretudo as mulheres. Então, devemos olhar por uma perspectiva de como é que a rede traz uma abordagem sobre os grupos vulneráveis, em particular as mulheres, permitindo, por um lado, salvaguardar os grandes biomas, mas também toda a transição ecológica em termos de emprego, educação, profissionalização e criação de colectivos.” José Luís Monteiro, da Oikos, reforçou a dimensão prática do projecto: “A rede existe para produzir resultados concretos, não apenas declarações. Queremos apoiar projectos, formação e formas de dar escala ao trabalho das comunidades dos PALOP”.
As fortes chuvas que afectaram recentemente vários países da Ásia provocaram inundações devastadoras e causaram mais de 1.800 mortos. A Indonésia, o Sri Lanka e a Tailândia estão entre os países mais fustigados. Cientistas afirmam que as tempestades estão a intensificar-se devido às alterações climáticas, que aquecem a atmosfera e aumentam a capacidade de reter humidade. Francisco Ferreira, presidente da organização ambientalista Zero, explica o fenómeno e alerta ainda que a diferença de temperatura entre o Equador e os Pólos está a diminuir, o que faz com que as tempestades se desloquem de forma mais lenta, intensificando, por consequência, a quantidade de precipitação. As chuvas extremas que fustigam a Ásia são o resultado das alterações climáticas? Sem dúvida que sim. Nós estamos a ter a resposta não apenas na Ásia, onde talvez seja mais visível percebermos as consequências, porque, efectivamente, os efeitos destes eventos meteorológicos extremos acabam por ser mais visíveis e ter maior expressão. Mas o que é facto é que, se temos um clima mais quente, temos uma maior evaporação e também a atmosfera retém mais água, que depois acaba por cair sobre as zonas afectadas em grandes tempestades. E há uma outra circunstância muito importante que também se tem vindo a verificar, quer no caso das tempestades na Ásia, quer também noutros locais. É que a diferença de temperaturas entre o Equador e os pólos está a ser menor, porque os pólos estão a aquecer mais. E, portanto, à escala global, a dinâmica da atmosfera está a ser afectada na medida em que as tempestades se deslocam de forma mais lenta. Isso leva a que a quantidade de precipitação de chuva que cai numa mesma zona seja muito mais significativa do que era antes. Esta é outra consequência da desregulação climática? Sem dúvida alguma. Ou seja, o facto de termos um aquecimento global, mas que está a ter maior expressão, quer no Árctico, quer na Antárctida, está a fazer com que estas tempestades tenham realmente um impacto maior. A diferença de temperaturas em relação ao Equador está a ser menor e, portanto, os movimentos atmosféricos estão mais lentos. A desflorestação pode estar também na origem das cheias mortais na Ásia? Claro! Há aqui duas componentes muito importantes. Uma é a ocorrência de enormes precipitações num curto espaço de tempo, e aí tem a ver com o clima. Mas os efeitos podem ser muito potenciados de acordo com o ordenamento do território em cada um dos locais. E sabemos que, com o aumento muito grande da população na Ásia, a construção tem vindo a ocorrer em locais onde o deslizamento de terras, que é uma das consequências que está a ter maior expressão, pode acontecer mais facilmente. O deslizamento de terras também tem a ver com a desflorestação que ocorre nas zonas próximas, onde a água deixa de se infiltrar e escorre a grande velocidade, levando ao arrastamento de terras. E, obviamente, também afecta as casas das pessoas que não estão em locais de construção mais adequados. A resposta pode passar pelo reforço dos sistemas de drenagem e protecção de margens dos rios ou infra-estruturas mais resilientes? Acima de tudo, a resposta está a dois níveis. Por um lado, a resposta do ponto de vista de reduzirmos as emissões para evitarmos alterações climáticas que, infelizmente, são cada vez mais expressivas, porque estamos num aumento de temperatura de dois graus e meio em relação à era pré-industrial. Depois, do ponto de vista do ordenamento do território, é muito importante criarmos soluções com base na natureza, sem agravarmos ou irmos contra aquilo que é a dinâmica dessa própria natureza. É evidente que, em locais onde não temos os recursos financeiros ou a capacidade técnica para o fazer, continuaremos a estar cada vez mais vulneráveis, como acontece em muitas cidades asiáticas. As notícias sobre estes fenómenos falam sempre na importância do reforço dos sistemas de alerta precoce, de transferência de tecnologia e de conhecimento entre os países. Há fenómenos climáticos nos Estados Unidos idênticos, mas que não provocam o mesmo número de mortos. Provocam menos vítimas. Porque é que não se usa esta tecnologia de traçar a rota das tempestades, dos ciclones, tufões? Porque razão não se partilha esta tecnologia para beneficiar outros países? O problema está exactamente na transferência de recursos financeiros entre os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento. Claro que é isso que deveríamos fazer. Claro que é absolutamente crucial que, quando falamos que são necessários uns 3 biliões, em inglês, falamos, aliás, de triliões de dólares por ano dos países desenvolvidos para os países em desenvolvimento, é precisamente para permitir, em grande parte, investimentos na adaptação a um clima que está em mudança, para evitar estes prejuízos. Mesmo nos Estados Unidos, temos prejuízos muito avultados, mas eles têm a capacidade económica para ultrapassar essas situações, o que não acontece em muitos países da Ásia. Esssa partilha de conhecimento, de fundos, chamaríamos uma transição justa? E isso seria uma transição justa, porque realmente muitos destes países [não têm capacidade de resposta]… Podemos pegar, por exemplo, nas Filipinas. Noutros. Mas as Filipinas têm sido um dos casos em que as tempestades de maior expressão têm tido impactos ao longo dos últimos anos. E o que é facto é que precisamos, por um lado, que a economia passe do uso dos combustíveis fósseis para fontes renováveis, do ponto de vista das emissões. E, por outro lado, também que haja essa capacidade de adaptação. E os responsáveis pelas alterações climáticas não são estes países, são os países desenvolvidos que usufruíram durante muitos anos da queima de carvão, petróleo e gás natural. Agora, deveriam transferir esses benefícios conseguidos na sua economia para estes países. Relativamente às Filipinas, há uma questão que é recorrente, que tem a ver com o facto de a extracção de areias colocar o país numa situação mais vulnerável face a estes fenómenos climáticos extremos. Há muitas práticas desadequadas em países em desenvolvimento. Por exemplo, a floresta da Indonésia tem sido completamente devastada à custa da poluição da plantação para a produção de óleo de palma e, obviamente, isso leva a uma erosão enorme. Temos visto isso também em várias florestas tropicais, quer em África, quer no Brasil, com a queima também de florestas. Portanto, há realmente práticas que deveriam ser evitadas. Mas, para isso, também, mais uma vez, é preciso o apoio económico dos países desenvolvidos para que não seja esse o caminho. E os países que têm de desenvolver a sua economia têm vindo a traçar alternativas mais sustentáveis.
O futuro da agricultura está cada vez mais ligado às novas tecnologias. Em Angola, um dos exemplos é dado pela Kilunga. A Agritech angolana utiliza imagens de satélite e modelos de IA para monitorizar a saúde das culturas em tempo real e combina isso com ferramentas integradas de gestão agrícola, financeira e operacional que permitem a tomada de decisões agrícolas sustentáveis e baseadas em dados. A empresa de tecnologia agricola ajuda os agricultores a tomarem decisões e a melhorarem a produtividade  de forma sustentável. O fundador e CEO da Startup, João N’vula, esteve recentemente em Portugal, na Websummit, a RFI aproveitou a ocasião para descobrir mais sobre o funcionamento de uma empresa como a Kilunga. Nós usamos satélites europeus para ajudar fazendeiros em Angola e agora estamos a expandir para a África, no geral, com a nossa parceria que temos com o Corredor do Lubito. O Corredor do Lobito é um dos corredores logísticos mais importantes de África neste momento. Está a expandir essa importância a nível mundial, inclusive a China, os Estados Unidos e os Emirados também estão com investimento pesado no Corredor do Lobito. E nós estamos lá para digitalizar as fazendas ao longo daquele corredor e expandir as nossas operações lá. O que é que um agricultor que adquira os vossos serviços vai poder ter? O agricultor que adquira os nossos serviços vai poder ter o controle da sua própria fazenda. Isso a nível espacial, a nível financeiro e não vai precisar perder muito tempo naquilo que é a gestão da própria actividade, porque terá tudo num único lugar, tanto a gestão financeira, a gestão de equipa, a gestão de tarefas, o cálculo automático dos custos e consegue ter toda aquela análise, todos aqueles indicadores financeiros que vão lhe ajudar a entender a saúde técnica e também, realmente, financeira da própria fazenda. Então, é isso que nós propomos a ele, rapidez na tomada de decisão e praticidade na visualização dos dados. Quem está no terreno, quem vai fazer o plantio ou a colheita, qual é o tipo de informação que pode recolher? Se vai fazer o plantio, ele vai precisar de dados climáticos. Esses dados climáticos vão-lhe dar quando é que vai chover e fazer o melhor planeamento. Para fazer o melhor planeamento, ele vai precisar cadastrar o talhão, na plataforma ele delimita o talhão. É como se ele estivesse fisicamente a arar a terra, fazer o tratamento e plantar as sementes. Ele faz o registo online, delimita a terra e dá o nome ao talhão, a geo-referência do talhão e as descrições do que vai ser feito aqui no talhão. Depois, vai para a parte do plantio, que está também na plataforma, e aí consegue escolher o talhão, escolher os insumos que vão estar no talhão, que vão estar naquele talhão, e também a data em que o talhão vai ser usado para o plantio. Aí ele consegue automaticamente, com base nesses dados, saber quanto é que ele vai gastar, e por aí já sabe quanto ele vai vender cada produto de maneira a ter o devido rendimento. Há doenças, há pragas, há teor de humidade no solo, … . Em que é que a vossa aplicação pode ajudar o agricultor, as cooperativas?   A plataforma, por oferecer imagens de satélites, vamos lá desmistificar esse ponto... : Quando uma planta está de boa saúde, ela reflecte a luz do solo de uma certa maneira quando está saudável, então, o satélite, ao captar essas imagens, capta aquilo em quatro bandas do espectro eletromagnético, e infelizmente os nossos olhos não conseguem observar, mas o computador observa e o nosso algoritmo pega aquelas bandas e calcula. Assim consegue dar essas informações do índice de vegetação daquela zona e o índice de humidade daquela zona. Ele consegue saber, pelo índice de vegetação, consegue saber se a plantação está boa, onde está boa e onde está má e onde tem humidade ou não tem humidade, onde está completamente seco. Essas informações são cruciais para o monitoramento da fazenda e proporcionar uma actividade mais profissional e realmente mais comercial, porque vai poder ter a capacidade de produzir mais ainda e com mais qualidade.   A partir do momento da recolha até à distribuição, qual é o papel da vossa aplicação?   Os nossos clientes relatam um aumento de 40%, 60% das suas plantações. Então, nós observamos que eles estavam a ter um aumento, mas aí têm que vender a uma velocidade muito grande, porque senão os produtos acabam por estragar. E nós observamos, agora, um outro mercado aí e começamos agora a criar postos logísticos inteligentes para a stocagem (armazenamento) de produtos agrícolas. O que acontecia? Eles têm a necessidade de vender aquilo muito rápido, os escoadores cobravam muito caro, de acordo com a necessidade do cliente. Mas, já com um posto logístico inteligente, ele pode controlar tudo a partir da plataforma, ele tem a possibilidade e tem o tempo de esperar por propostas melhores, para negociar propostas melhores. Então, nós não temos carros para escoar, mas nós oferecemos a possibilidade de estocar. Por isso é que estamos entrando, também, no corredor do Lobito.   Como é que está a ser a aceitação?   Ainda é um problema, por isso é que nós estamos a investir, a levantar capital também para investir pesado na formação. Antes de vir cá, para Portugal, eu estava atrás de uma parceria com Universidade Mandume ya Ndemufayo (UMN)  , uma universidade agrária, e também com alguns centros de formação que são especializados em cursos agrários, de tal maneira a ajudar as pessoas a entender a importância desses dados, a importância de trabalhar com informação precisa de maneiras a melhorar as suas actividades. Então, a literacia ainda é um problema. Tem zonas que nem telemóvel usam, quando usam a rede é escassa. Então, é um problema. Inclusive, eu já pude contribuir com o Governo participando da Estratégia Nacional de Inclusão Financeira. Também falando em inclusão financeira, estamos a envolver o digital. Então, tínhamos que pensar também na distribuição das redes e muito mais, como é que a informação chegaria até lá. Com a minha experiência de campo, com o projeto, já pude contribuir naquela área. E aí o Governo também está a começar a olhar nesse ponto e tentamos tratar aqui da digitalização que vai facilitar também a nossa entrada no mercado.   A nível de área, qual é a área que já tem ao vosso cuidado? Quimbele, agora também estamos, Benguela, Lobito, exatamente, e estamos agora também no Cuanza Norte. São um total de 7 mil hectares. O Lobito estamos a entrar agora e pretendemos já atacar as fazendas que estão ao longo do corredor Lobito. Estiveram presentes na Web Summit, foi importante a vossa presença? Muito importante. Tivemos contacto com investidores internacionais, temos contacto com empresas e empreendedores que realmente podem agregar valor às nossas empresas. Consegui firmar uma parceria que vai levar a nossa solução para um outro nível, vai ajudar com que os nossos fazendeiros tenham portas abertas para o globo, venderem os seus produtos numa única plataforma e também importarem produtos sem múltiplas fontes. Numa única fonte conseguem importar os seus produtos sem ter necessidade de importar de vários pontos e perder a qualidade. Então, se temos um único ponto, onde eles podem confiar. Eles podem, simplesmente, entrar em contacto com aqueles que eles precisam. É, realmente, uma mais-valia para os nossos clientes e também para nós, porque estamos aqui a dar múltiplas oportunidades aos nossos clientes. Então, foi muito, muito, muito importante a nossa presença cá.
A COP30 encerrou, neste sábado, 22 de Novembro, com um acordo modesto sobre a acção climática e sem plano para abandonar as energias fósseis. O Brasil, que acolheu a cimeira do clima em plena Amazónia, esperava mostrar que a cooperação climática não estava morta e “infligir uma nova derrota aos negacionistas”, como prometeu o presidente basileiro José Inácio Lula da Silva no início da conferência, mas não conseguiu convencer os países petrolíferos do Norte e do Sul, nem as economias emergentes, a enviarem uma mensagem colectiva ambiciosa para acelerar o abandono das energias fósseis. O texto adoptado por consenso pelos 194 países membros do Acordo de Paris e pela União Europeia faz apenas uma referência não explícita à saída das energias fósseis, recordando a decisão da COP28 no Dubai, Emirados Árabes Unidos.  Os países em desenvolvimento obtiveram um apelo para triplicar a ajuda financeira destinada à adaptação a um clima mais violento até 2035. “Não vencemos em todas as frentes, mas obtivemos o triplo dos financiamentos para a adaptação até 2035. Era a nossa prioridade, tínhamo-la estabelecido como linha vermelha”, declarou Evans Njewa, representante do grupo dos 44 países menos avançados do mundo. O presidente brasileiro da COP30, André Corrêa do Lago, anunciou entretanto a intenção de lançar uma iniciativa própria sobre o abandono gradual das energias fósseis, bem como outra contra a desflorestação, para os países voluntários. Todavia, não se trata de uma decisão geral dos países da COP. Acho que uma das grandes coisas que vai nos animar nos próximos meses vai ser esse exercício de desenvolver um mapa do caminho sobre a redução da dependência de combustíveis fósseis e também de como é que nós vamos acelerar o combate ao desmatamento. A presidente da delegação do Parlamento Europeu à 30.ª Conferência das Nações Unidas para as Alterações Climáticas, Lídia Pereira, saudou o acordo alcançado, sublinhou que a "Europa conseguiu garantir avanços concretos e evitou um não-acordo, que seria desastroso para o clima e para o multilateralismo a nível global". A União Europeia voltou a enfrentar um bloco muito coeso, os BRICS, o grupo do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul e, também, dos países árabes e, ao mesmo tempo, uma presidência brasileira pouco diligente em propor ou aceitar novas propostas em particular na área da mitigação, ou seja, nos compromissos de redução das emissões de gases com efeito de estufa. Que, aliás, foi sempre a nossa prioridade número um. Apesar de tudo, a União Europeia conseguiu alguns resultados importantes. Por exemplo, no pilar da mitigação houve finalmente um reconhecimento claro do défice que existe entre aquilo que está prometido e acordado e o que é realmente necessário para manter 1,5°C, dentro do quadro do Acordo de Paris. O texto final inclui uma referência ao Consenso dos Emirados Árabes Unidos da COP28, no Dubai. Foi também lançada uma iniciativa bilateral para a transição no abandono dos combustíveis fósseis. Não é a solução ideal. Não é aquilo que pretendíamos, mas é um passo relevante no pilar da adaptação. O financiamento fica protegido dentro daquilo que foi definido nas COP’s anteriores. E há uma novidade é que os países recomendaram, pelo menos, triplicar o financiamento até 2035.  ONG ambientalistas denunciaram a ausência de um roteiro concreto para a saída dos combustíveis fósseis, “mais uma vez continuou a falhar o essencial”, referem as ong’s portuguesas Zero, Oikos e FEC - Fundação Fé e Cooperação. Francisco Ferreira, presidente da ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável, sublinha que a conferência ficou “muito aquém daquilo que aqui se esperava”. Esta era, supostamente, a COP da verdade e da implementação. E no que diz respeito à verdade, continuamos, infelizmente, numa trajectória de aquecimento de 2,5°C em relação à era pré-industrial.  No que respeita à implementação, aí é talvez a maior desilusão, porque a queima de combustíveis fósseis - onde está a principal responsabilidade pelo aquecimento da atmosfera - e  daqui tinha que sair um roteiro, que agora é apenas uma promessa fora da convenção por parte da presidência brasileira para os próximos meses. Quando a mitigação é crucial para garantir que alteramos esta trajectória de aquecimento, esta conferência está longe realmente da acção da implementação prometida.  Como balanço final feito pela ZERO, Oikos e FEC, termos aqui, em Belém, conseguido aprovar textos e o Mutirão, o grande documento-chave com um conjunto de linhas orientadoras, nomeadamente um acelerador global de implementação, são avanços, mas esta COP30 falhou naquilo que era essencial.  Acabou por valer a pena, sem dúvida, mas é sempre triste chegarmos ao fim e percebermos que as necessidades do planeta e dos compromissos, principalmente dos países desenvolvidos, ficaram muito aquém daquilo que aqui se esperava. A Amnistia Internacional acusa os líderes mundiais de serem “incapazes de colocar as pessoas à frente dos lucros”. André Julião, Coordenador Editorial e Assessor de Imprensa da Amnistia Internacional Portugal mostra-se ainda chocado com a presença e participação dos lobistas do sector petrolífero no encontro.  Houve aqui questões que ficaram muito abaixo das expectativas. Desde logo, porque os líderes da COP30 não conseguiram chegar a um acordo para colocar as pessoas acima dos lucros. Houve uma enorme falta de unidade, responsabilidade e transparência. Isso prejudicou a implementação de medidas climáticas urgentes. A principal decisão da COP30 evitou qualquer menção aos combustíveis fósseis, que são, como se sabe, o principal motor das alterações climáticas. Como agravante, houve um número recorde de lobistas de combustíveis fósseis. Esses lobistas tiveram acesso às negociações, nomeadamente através dos Estados que os representam e, portanto, deixaram a humanidade à mercê das consequências mortais dos seus planos de continuar a expansão dos combustíveis fósseis.  O Brasil, porém, cumpriu a palavra: a sua COP30  foi a COP “dos povos”. Dezenas de milhares de militantes do clima, indígenas, sindicalistas e outros simpatizantes manifestaram-se pacificamente nas ruas de Belém. A sociedade civil não o fazia desde Glasgow, em 2021.
Arrancou esta segunda-feira a segunda e última semana da COP30, Cimeira das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, que decorre em Belém do Pará, Brasil, em plena Amazónia. Miguel de Barros, director da ONG guineense Tiniguena, sublinha que “apesar de 26% do território guineense serem áreas protegidas", o país "continua sem mecanismos de detecção, sem tecnologia para mitigação ou adaptação e altamente vulnerável”. Arrancou esta segunda-feira a segunda e última semana da COP30, Cimeira das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, que decorre em Belém do Pará, Brasil, em plena Amazónia. Em cima da mesa, continua a falta de ambição das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC, na sigla em inglês) e o financiamento climático. Entre os participantes, e longe da campanha eleitoral para as eleições gerais da Guiné-Bissau, está Miguel de Barros, director da ONG guineense Tiniguena, que sublinha que “apesar de 26% do território guineense serem áreas protegidas, [o país] continua sem mecanismos de detecção, sem tecnologia para mitigação ou adaptação e altamente vulnerável” às consequências do aquecimento global do planeta. Segundo Miguel de Barros, a primeira semana da COP30 foi marcada por “forte expectativa” após o discurso de Lula da Silva, que anunciou um novo mecanismo de financiamento directo para comunidades que preservam florestas tropicais. Uma “grande novidade”, afirma, por permitir que o acesso aos fundos seja feito pelos próprios beneficiários, e não apenas por doadores. O sociólogo sublinhou, ainda, que os protestos dos povos indígenas, junto à Zona Azul, onde decorrem as negociações oficiais, que reclamavam mais representatividade no processo, acabou por alertar para os “riscos de falta de legitimidade” das decisões. Esta contestação, veio somar-se à Marcha da Cúpula dos Povos, que reuniu milhares de pessoas e entregou à presidência da COP30 uma declaração com críticas mas também propostas de transição justa, solidária e sustentável. Ao entrar na segunda semana, Miguel de Barros identifica dois grandes impasses nesta COP30: o financiamento climático e os indicadores que deverão sustentar novos compromissos. Países africanos exigem metas claras e mecanismos de verificação, enquanto países desenvolvidos afirmam não haver tempo para tal nível de detalhe. Há, inclusive, quem interprete a posição africana como uma estratégia para adiar a implementação de compromissos até à COP32, marcada para a Etiópia. Questionado sobre o contexto nacional, Miguel de Barros é claro: apesar de 26% do território guineense serem áreas protegidas e das culturas locais favorecerem a preservação da natureza, o país continua sem mecanismos de detecção das mudanças climáticas, sem tecnologia para mitigação ou adaptação e altamente vulnerável. Ainda assim, Barros recusa o pessimismo. O activista lembra que, em 1992, após a Cimeira do Rio, as autoridades nem queriam ouvir falar de áreas protegidas, hoje fundamentais para a biodiversidade e segurança alimentar do país. A mudança, defende, virá do investimento contínuo em educação ambiental, do fortalecimento das capacidades comunitárias e da pressão civil para políticas e leis mais robustas. “Se conseguirmos avançar nestes três níveis, podemos ter um quadro muito mais favorável em 2030 do que o que temos agora”, conclui.
O Brasil acolhe desde esta segunda-feira a 30a Conferência das Nações Unidas sobre o clima. O economista guineense Carlos Lopes é o enviado especial do evento para África, por decisão do chefe de Estado brasileiro, Lula da Silva. Este também docente universitário na cidade sul-africana do Cabo está, em Belém do Pará para esta COP30. Carlos Lopes, enviado especial da COP30 para África, e economista guineense, começa por nos revelar em que consiste a sua tarefa nesta cimeira. Somos sete para as regiões consideradas pelo Brasil como estratégicas para a discussão climática. No que me toca, eu responsabilizo-me pela África. Estive envolvido na Organização da Cúpula Africana do Clima, que teve lugar em Adis Abeba há cerca de um mês e, portanto, faço a ponte entre as lideranças africanas e a presidência brasileira para poder fazer com que esta COP ouça melhor cada uma das regiões. No meu caso, a África, mas também possa, digamos, articular as várias conexões que são necessárias para negociações desta natureza, que são sempre muito complexas.  E é sempre o mesmo chavão. Mas, ao fim ao cabo, um chavão acertado em relação à realidade, ou seja, um continente que padece sobremaneira das alterações climáticas e que pouco polui. Esta constatação continua a ser válida em 2025, na COP de Belém em relação a África ? Sim, eu penso que nós temos agora até uma narrativa mais forte sobre o facto de regiões como a África precisarem de muito mais foco nos problemas de adaptação climática... E menos na mitigação, que normalmente domina os debates. E isso graças ao Brasil, digamos, ter também a mesma preocupação e estar orientada na mesma direcção. Portanto, o Brasil oferece à África essa possibilidade de maior concentração na adaptação, que é, de facto, o que nos interessa.  Fala-se muito em perdas e danos, precisamente em mitigação. O que é que se pode esperar em relação a esse prisma, sendo que houve já anúncios feitos desde a pré-COP e agora o início da COP propriamente dita... por exemplo, o lançamento do Fundo de Florestas Tropicais para sempre. Na prática, há já avanços aí a registar ? Na realidade, é o único fundo novo que aparece nesta COP porque a presidência brasileira quis dar ênfase à implementação e não a novos acordos. Mas tratando-se de uma COP que tem lugar numa zona que é considerada a maior floresta mundial, achou oportuno que se lançasse, digamos, uma iniciativa particularmente orientada para as florestas tropicais e centrada sobretudo na protecção de três grandes zonas do planeta, que são a principal reserva florestal que é a Amazónia, a África, na Bacia do Congo e também a Indonésia e o Sudeste Asiático.   E, portanto, a inovação desse fundo é que ele tem características um pouco diferentes de tudo o que foi até agora lançado na COP, porque é um fundo para pagar aquilo que já existe e não para fazer coisas. Portanto, é para permitir a protecção da floresta existente, e com uma ênfase também nas populações locais: as populações indígenas, as comunidades locais, a quem será reservada a 20% da utilização dos fundos apropriados. E com, digamos, características que são menos de compensação, e que são mais de aposta e investimento no futuro através da conservação. Portanto, têm de facto uma inovação muito grande. É importante sublinhar que o Fundo já está, digamos, com contribuições anunciadas importantes, sendo que dos 5 biliões que foram anunciados, cerca de três são da Noruega, que é o país que toma a dianteira e vai muito para além até das expectativas que se poderia ter nesta etapa da discussão. E há, digamos, uma adesão muito importante neste momento política para a criação desse fundo.    Como é que é o ambiente aí, sendo que, uma vez mais, os Estados Unidos ficam de fora? É claro que já não é uma novidade. Em que medida é que o "climato-cepticismo", por assim dizer, continua a pairar como uma sombra sobre as negociações da COP?    As negociações deste ano não são tão importantes porque não se trata de conseguir mais. Há um mapa do caminho, como se chama, de Baku para Belém, que foi definido na COP 29 e que é o assunto principal de negociações. E à volta de quais são os montantes de financiamento que até agora não foram cumpridos, e qual é o nível de ambição que se tem que acrescentar em matéria de financiamento climático? Mas, para além disso, as outras discussões estão mais ou menos alinhavadas. Não vai haver grandes controvérsias. A ausência dos Estados Unidos vai-se fazer sentir em termos de resultados, porque não é só o facto de os Estados Unidos estarem ausentes do debate climático. É a importância que tem indirecta nos comportamentos, equipamentos, por exemplo, corporativos, regulatórios. O facto de, por exemplo, os financiamentos privados estarem muito orientados pelas preocupações da principal bolsa de valores que é a Bolsa de Valores de Nova Iorque e, portanto, acaba por ter resultados indirectos muito negativos e que vão muito para além de os Estados Unidos propriamente ditos fazerem ou não fazerem o necessário.    Que olhar é que se pode ter acerca da proposta da economista francesa Esther Duflo, que apresenta uma solução original e na COP 30 de Belém, com o economista indiano Abhijit Banerjee, que é o seu esposo, que ganhou com ela o Prémio Nobel da Economia em 2019, mais o economista americano Michael Greenstone, que foi conselheiro de Barack Obama ? Eles estão a propor um sistema de transferências de dinheiro em troca de acções ambientais. Acha que este sistema pode ter pernas para andar? Eles propõem um esquema em que os países ricos se comprometem a arrecadar fundos e a enviá-los directamente às entidades, às pessoas para as ajudar a se proteger contra os excessos do clima na forma de transferências financeiras ?   Digamos que não é tão original. Tem a ver com as várias iniciativas para regular de uma forma ética, a emergência de um mercado de carbono. Eu sou defensor de que, no caso da África, nós precisamos ter um mercado de carbono regulado pelos africanos e liderado pelo Banco Africano de Desenvolvimento, porque é assim que nós podemos contornar o facto de que do exterior se faz a certificação, se faz a taxonomia, se faz, digamos, o controlo daquilo que é verde e do que não é verde, o que é o bom e o mau carbono e qual é o valor do carbono? Portanto, isto não são coisas que podem ser decididas por outrém, devem ser decididas por aqueles que detém, de facto, uma espécie de crédito histórico de carbono que não contribuíram para o problema e estão a sofrer mais do que os outros. E, portanto, é necessário poder de facto, conseguir transferir aquilo que nós consideramos como problema, que é o problema da dívida de um aspecto financeiro para um aspecto de carbono.    É adquirido, portanto, que não se consegue cumprir a meta de um máximo de 1,5 graus de aquecimento do planeta. Já se está a trabalhar num patamar superior: de menos de dois graus e meio do aquecimento, é assim ?   É de 2,4 graus ! Mas eu acho que o problema maior é de que mesmo essa segunda meta, que é uma meta, digamos, de realismo, também não será atingida se não se fizerem muito mais esforços do que aqueles que estão anunciados. E nós temos ainda o déficit sempre verificado daquilo que se promete e daquilo que se faz. Portanto, há contribuições dos vários países anunciadas aqui na COP, porque este era o ano em que se deveria fazer a revisão dos planos nacionais. Apenas 100 países, mais ou menos, vão apresentar esses planos nacionais. Se tivermos sorte, chegar aos 100. Portanto, faltarão cerca de 80 e poucos países. Mas mais importante do que isso é que esses países que não estão presentes, digamos, na mesa, alguns deles são os maiores emissores e, portanto, nós temos aqui já, digamos, comprometimento muito menor do que anteriormente, mas daqueles que anunciam temos um nível de ambição que está em redução, em vez de aumento.    Como o senhor professor está, nomeadamente responsável pela parte africana. Eu pedir-lhe-ia que nos desse um pouco um olhar da dimensão dos africanos presentes em Belém. Em que estado de espírito é que viu as delegações chegarem? São de alto nível? Isso é promissor, a seu ver, em relação à visibilidade de África nesta conferência ?   Nós não temos delegações lideradas por chefes de Estado em grande número, não é? E também a nível ministerial, a presença é bastante limitada e há várias explicações para isso. Uma delas é o facto de que estamos quase com as mesmas datas com a cimeira do G20, em que a África, pela primeira vez, tem uma importância maior, porque está a hospedar a cimeira do G20 e é a primeira vez que a União Africana participa a pleno. E há uma série de países africanos convidados pela presidência sul-africana. Portanto, isso não joga a favor da COP. A segunda razão é a logística. A logística aqui em Belém é muito complexa, é também muito cara. Portanto, as delegações africanas acabaram por ser penalizadas por causa dessa logística. A terceira razão é o facto de nós estarmos numa COP em que, digamos, os principais protagonistas estão ausentes e, portanto, não vamos ter aqui os três principais emissores actuais, que são os Estados Unidos, a China e a Índia. E podemos juntar de todo o G7. A nível de lideranças vieram apenas cerca de três, portanto há 17 países do G20 e do G7 e do G20, que não estarão presentes. E isso é, digamos, um desincentivo para a própria presença de outros países, nomeadamente africanos.      No discurso de abertura, o presidente brasileiro, Lula da Silva, lembrava que, de facto, em 92 tinha havido um pontapé de saída importante já no Brasil em relação às questões ambientais. E esta conferência volta, então, ao Brasil e agora à a Amazónia e a Belém, onde se encontra o senhor professor.  O que é que nos pode dizer acerca, precisamente, da expectativa dos habitantes desta grande cidade da Amazónia brasileira, relativamente ao acolhimento desta conferência, para a qual o mundo inteiro tem os olhos virados ?     Há uma grande excitação em Belém e há uma atitude
De Bissau para Belém do Pará, o jovem activista e empreendedor Dembo Mané Nanque, director-geral da Mana Nanque Piscicultura e fundador do “Puder di Bentana”, prepara-se para participar na Cimeira do Clima das Nações Unidas (COP30), que terá lugar em Belém do Pará, no Brasil, onde pretende partilhar a sua experiência no terreno e defender políticas climáticas que cheguem às comunidades mais vulneráveis. Antes de ir para a COP30, Dembo Mané Nanque passou pela capital francesa para encontrar parceiros internacionais. O objectivo é exportar a farinha de peixe da Guiné Bissau para França: “Em França há uma comunidade africana enorme e acreditamos que até ao próximo ano o nosso produto poderá estar no mercado”. Apesar do entusiasmo, reconhece que o caminho ainda é desafiante. “Tudo o que fazemos é graças aos nossos pequenos recursos e ao apoio de alguns parceiros internacionais. Mas acreditamos que poderemos abastecer o mercado internacional de acordo com as suas demandas”. O jovem empresário é também fundador e director-geral do “Puder di Bentana”, uma iniciativa de piscicultura com forte impacto social. “‘Puder di Bentana’ é um nome tradicional guineense. ‘Bentana’ é o que cientificamente chamamos de tilápia”, explica. “Trata-se de um projecto de aquacultura que nasceu com o intuito de combater a insegurança alimentar, o êxodo rural e os efeitos das mudanças climáticas.” A tilápia, que é o nome comum dado a várias espécies de peixes ciclídeos de água doce, é consumida fresca ou transformada em farinha. “A farinha tem mais procura porque as infra-estruturas rodoviárias, na Guiné-Bissau, são fracas e o transporte do peixe fresco é difícil. Por isso optámos pela desidratação e embalagem, seguindo os padrões internacionais”, refere. O projecto enquadra-se numa lógica de economia azul e circular, e tem sido apresentado em fóruns internacionais como exemplo de inovação africana. “Queremos mostrar que, com criatividade e empenho, é possível criar soluções sustentáveis a partir da nossa realidade”, sublinha. Depois de Paris, Dembo Mané Nanque seguiu para Lisboa e prepara-se agora para participar na COP 30, no Brasil, onde irá participar num painel de Jovens Afro-descendentes: “A minha intervenção tem como objectivo mobilizar parceiros e impulsionar políticas que beneficiem as comunidades vulneráveis. Queremos garantir que as decisões tomadas nas cimeiras internacionais cheguem efectivamente às zonas rurais”. Para o jovem activista, estar na COP 30 representa muito mais do que uma oportunidade pessoal. “Quero mostrar que a Guiné-Bissau não é apenas sinónimo de instabilidade. Há uma juventude informada, inovadora e pronta para agir”. No entanto, o jovem empreendedor lamenta a falta de apoio governamental. “Existe um apoio limitado e dirigido apenas a determinados grupos. Muitas vezes, por ser activista ambiental e empreendedor, encontro resistência por parte das autoridades. O Estado ainda não compreende que não estamos a sabotar nada, estamos a propor soluções e a querer liderar os desafios climáticos”. A 30.ª Conferência das Partes (COP30) da Organização das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, decorre de 10 a 21 de Novembro, em Belém do Pará, no Brasil.
A dona do ChatGPT lançou o Atlas, um navegador que promete mudar a forma como nos relacionamos com a internet. Além das novas formas de utilização, a Open AI visa um mercado que é actualmente dominado pelo Chrome, da Google. Cátia Pesquita, Professora em Ciência de Dados e Inteligência Artificial no Departamento de Informática da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, respondeu às perguntas da RFI para esclarecer as dúvidas sobre o significado do lançamento do ChatGPT Atlas. A Open AI, proprietária do ChatGPT, lançou um navegador com o famoso agente de inteligência artificial generativa no seu núcleo no dia 21 de Outubro. De momento, o ChatGPT Atlas está apenas disponível nos computadores da Apple. Os sistemas Windows, Android e iOS do iPhone vão ter de aguardar. Para a empresa de Sam Altman, trata-se de uma inovação que vai revolucionar a forma como nos relacionamos com a internet. Vamos ter ao nosso dispor uma ferramenta que vai aprender quem somos e transformar-se num super-assistente que nos ajuda a realizar as nossas tarefas de forma mais rápida e eficaz. Os críticos apontam para a falta de segurança do sistema, nomeadamente no que diz respeito aos dados privados do utilizador. Por outro lado, o Chat GPT Atlas é construído com base no Chromium, uma estrutura de código aberto desenvolvida pela Google e que está na base de navegadores como o Microsoft Edge ou o Duckduckgo. RFI: Estamos perante uma revolução, à semelhança do que viria a ser o iPhone no campo dos telemóveis. Ou trata-se de um ataque comercial à Google que domina o mercado dos navegadores com o Chrome? Cátia Pesquita: Eu acho que o lançamento do Atlas é, sem dúvida, uma ameaça directa à hegemonia do Google Chrome, que é actualmente o browser mais usado a nível mundial. E é interessante ver como a história às vezes se repete. Porque o Chrome ganhou esta preponderância, em parte, porque conseguiu integrar directamente o motor de pesquisa da Google, permitindo aos utilizadores fazerem pesquisas directamente na barra de endereços. Hoje em dia, temos uma estimativa de mais de 14 mil milhões de pesquisas feitas na Google a nível global, muito graças a esta integração. Agora, a Open AI vê neste browser uma oportunidade de capitalizar a sua base de utilizadores. Se estamos perante uma revolução, temos de esperar um pouco para saber. RFI: Quando refiro o iPhone é porque na altura, quando foi lançado, já existiam telemóveis. O que aconteceu com o dispositivo da Apple foi que os utilizadores começaram a ter acesso a outras possibilidades e isso veio revolucionar toda a forma como nos relacionamos com a internet. Há a possibilidade do ChatPT vir a fazer isto? Cátia Pesquita: Eu diria que é a capacidade de automatizar uma série de interacções online que vai ter esse potencial de revolução. A Open AI promete automatizar tarefas mundanas, como marcar uma visita ao restaurante ou uma consulta médica, tudo através desta integração da inteligência artificial directamente num browser. Isto, obviamente tem muitas vantagens, mas também riscos associados. RFI: Os mais jovens, em termos de busca de informação, já estão a alterar os seus comportamentos com o recurso à inteligência artificial generativa. Em que medida é que a aprendizagem que o agente vai fazer dos hábitos de navegação do utilizador, pode provocar um estreitar de vistas ainda maior, semelhante ao que sucede já com os algoritmos das redes sociais? Cátia Pesquita: A Open AI está muito ciente desta alteração dos comportamentos online e, na verdade, há poucos meses, em entrevista, o Sam Altman, o CEO da Open AI, revelou que o plano de expansão está a ser inspirado pela forma como os utilizadores mais jovens interagem com a plataforma. Enquanto as camadas de maior idade usam-no essencialmente como motor de busca para encontrar informação, os mais jovens estão a usar desde já o ChatGPT como um serviço pessoal de inteligência artificial para os ajudar a tomar as suas decisões no dia a dia. E, portanto, eu vejo o Atlas como um primeiro passo nesta estratégia. Só que esta personalização vem com um custo potencialmente muito elevado, porque para a termos, temos de permitir à Open AI registar toda a nossa actividade online. Mas eu acho que um dos maiores riscos não é apenas esta perda de controlo sobre os nossos dados ou a dependência excessiva na IA de que tanto falamos, mas aquilo também a que se refere que é esta perda de pluralidade de vozes e perspectivas. E na verdade, ao longo dos últimos 30 anos, a Internet tem sido um arauto desta pluralidade de vozes e perspectivas. Os motores de busca tradicionais, como a Google, listam diferentes fontes relacionadas com o tema de pesquisa, ainda que coordenadas por relevância, claro, mas o resultado de pesquisa que vai ser processado por IA, tarefas que são automatizadas por IA, têm um grande potencial de se resumirem ao ponto de vista partilhado pela maioria das fontes, estreitando horizontes. E é assim que os modelos são treinados para captar aquilo que é a maioria das opiniões. E, portanto, o grande desafio aqui vai ser garantir que as nossas pesquisas e interacções online reflictam a diversidade de ideias, opiniões, perspectivas da humanidade. Claro, sem esquecer que têm de ser fundamentadas em fontes fidedignas. A mim resta-me saber se os gigantes tecnológicos partilham desta preocupação. RFI: Isso implica também que os mais velhos, os educadores, cumpram esse papel de explicação aos mais jovens, que há mais mundo além daquilo que lhes é dado através do ecrã? Cátia Pesquita: Este é um tema extremamente complexo. Isto não basta apenas as preocupações da sociedade de uma forma alargada numa educação da população geral, mas onde temos que intervir antes, mas mais atrás, e intervir ao nível do desenvolvimento destas tecnologias. E como todas as tecnologias com potencial de disrupção, é uma espada de dois gumes. Por um lado, todos queremos poder usar inteligência artificial para automatizar as tarefas do dia-a-dia, as tarefas mais mundanas, mais aborrecidas ou até ter um browser que antecipa as nossas necessidades. Por outro lado, nós queremos garantir que temos privacidade, transparência, que mantemos a nossa autonomia nas nossas decisões. Só que para navegar este desafio, não só temos de educar a população geral para os riscos e benefícios de uma tecnologia que não vai parar de evoluir. Mas também temos de apostar na formação de profissionais que aliam o conhecimento técnico e científico às preocupações éticas. RFI: Relativamente ao nível da segurança dos dados, como é que é vista esta relação com o ChatGPT e com o ChatGPT Atlas? Cátia Pesquita: O Atlas, para poder funcionar de forma verdadeiramente personalizada, vai ter de registar toda a nossa actividade online. No entanto, os termos de utilização que estão agora públicos indicam que a autorização para que esses dados sejam utilizados para treinar os modelos da Open AI vem desligada por omissão. No entanto, não faltam vozes que nos relembram dos escândalos de privacidade e direitos de autor, etc., em que a OPA se tem visto envolvida nos últimos anos. Por isso, resta aqui saber se vamos confiar ou se vamos desconfiar. RFI: A Open AI e o Chat PT vão ser, como todos os outros agentes de inteligência artificial, vão ser sorvedouros do nosso conhecimento, da nossa existência? Cátia Pesquita: Eu acho que é na capacidade de consumirem enormes quantidades de dados que estes modelos recentes de inteligência artificial têm ganho as suas capacidades surpreendentes e quase sobre-humanas. A questão é que estamos a chegar ao final dos dados disponíveis online e as empresas correm com criatividade a tentar procurar novas fontes de dados que possam ajudar aos próximos passos de evolução destes modelos. Eu penso que o Atlas tem também por detrás essa motivação, uma motivação de conseguir extrair mais dados dos utilizadores que possam alimentar os algoritmos e, de certa forma, melhorar o seu desempenho e aumentar, obviamente, a sua preponderância no mercado. RFI: Pessoalmente, considera que a existência destas máquinas é um perigo ou uma oportunidade? Cátia Pesquita: Ambas as coisas é um perigo e é uma oportunidade. É uma oportunidade porque existem desafios no mundo que são demasiado complexos para que nós, humanos, com as nossas capacidades cognitivas, os consigamos resolver. Por exemplo, desafios na medicina personalizada e em nós conseguirmos compreender as relações entre os genes e doenças, que é uma das minhas áreas de investigação, são demasiado complexos para nós conseguirmos entender o manancial de dados e informação que estão a ser recolhidos a nível de investigação e, portanto, existe aqui uma oportunidade enorme para o bem da inteligência artificial nos ajudar, por exemplo, a atacar problemas tão prementes como o cancro ou as alterações climáticas. Por outro lado, existem riscos claros. E um risco claro é também a perda de capacidades da população ao confiar demasiado nestas ferramentas para se substituir a si mesmo na aprendizagem, no trabalho e na criatividade. E este é um desafio que a mim me toca também como professora, em que o uso responsável destas ferramentas como potenciadores e não como substitutos da inteligência humana. RFI: Para si o ChatGPT é mesmo a melhor IA do mercado ou beneficia de um fenómeno de marca? Cátia Pesquita: Eu acho que a grande vantagem que o ChatGPT tem não é apenas em termos do modelo de inteligência artificial que o alimenta, mas também da experiência de utilizador que a plataforma permite. Outras plataformas podem termodelos que atingem um desempenho igualmente bom em diversos benchmarks e análises, mas é a experiência de utilização do ChatGPT, os modos de interação, o próprio website e plataforma do ChatGPT que eu julgo que estão a contribuir para a grande fatia de mercado que a Open AI tem.
Um novo medicamento de prevenção e tratamento do VIH/Sida vai entrar no mercado angolano em breve. Trata-se do Lenacapavir, que funciona com duas injecções por ano e poderá custar 28 mil dólares por ano e por pessoa, com ajuda de financiamentos estatais. Este medicamento foi aprovado na União Europeia há alguns anos para o tratamento de pacientes com o vírus.   Em entrevista à RFI, Isabel Daniel, assessora de Informação Estratégica da ONU-Sida em Angola, explicou o funcionamento deste novo medicamente e as vantagens que representa para os cerca de 370 mil angolanos actualmente diagnosticados com o vírus.  RFI: Quais são os dados actuais sobre o VIH/SIDA em Angola? Isabel Daniel: As estimativas da ONU-SIDA em Angola para 2024 são de cerca de 370.000 pessoas que vivem com VIH, ou seja, uma prevalência de 1,6%. Deste grupo, 70% são mulheres, e cerca de 10% são crianças abaixo de 14 anos. No país, a prevalência é maior em algumas zonas.  RFI: Por exemplo? Angola tem 21 províncias. Lunda Sul, Lunda Norte, Cunene, Cubango, Moxico, todas estas províncias do Leste e Sul, têm uma maior prevalência do que o resto das outras províncias. RFI: Como se explica este facto? São províncias que fazem fronteira com países que têm uma prevalência maior que a nossa. Há também grupos mais vulneráveis em termos de comportamento e risco. Por serem províncias, por exemplo, com actividade de mineração, há então muita troca de bens e maior actividade sexual, o que aumenta o risco e os números. RFI: Relembremos como é que se transmite o vírus da SIDA? A principal transmissão é pela via sexual. Uma pessoa que vive com o vírus do VIH e que não faz tratamento, contém um alto número de vírus. Se tiver uma relação sexual desprotegida, pode então passar o vírus para outra pessoa. Pode ser também a contaminação de mãe para filho, durante a gestação, se não tiver a fazer o tratamento, a mãe pode transmitir o vírus através da placenta.  RFI: O que se sabe sobre este novo medicamento, o Lenacapavir, que vai entrar no mercado angolano? De acordo com o Instituto Nacional de Luta Contra a Sida (INLS), trata-se de um medicamento injectável recentemente lançado pela farmacêutica norte americana Gilead e aprovado na União Europeia para o tratamento de pacientes com o vírus. Sim, é uma inovação. Trata-se de um medicamento de acção prolongada. Funciona com duas injeções por ano. Para a prevenção do VIH é muito importante, porque é mais fácil de modo geral. Os grupos de maior risco conseguem então se proteger melhor. RFI: Quem é que são os grupos de maior risco? São os adolescentes, meninas e mulheres entre 15 a 24 anos, trabalhadores de sexo - pela actividade económica que exercem, têm maior risco - Homens que têm relações sexuais com outros homens também apresentam uma prevalência maior, pessoas transgénero e também pessoas em prisões, por falta de higiene e outros comportamentos associados, como o uso de droga, e o acesso mais limitado aos serviços de saúde. RFI: Como é que será assumido o custo do medicamento para cada beneficiário? De acordo com os documentos nacionais disponíveis e as avaliações, sabemos que o Estado angolano custeia cerca de 80% dos custos no combate contra a propagação do VIH. Há depois um certo suporte dos parceiros. RFI: Mas se formos até ao fim da cadeia para chegarmos ao utente. Quanto irá custar para, por exemplo, uma mulher com VIH comprar o medicamento?  Tem havido muita advocacia para que o preço inicial fosse reduzido. As últimas informações são de 28.000 dólares por ano e por pessoa. Então este seria um novo custo que o governo teria que incrementar dentro do plano estratégico para o combate do VIH. Lembrando sempre que um investimento agora é uma poupança no futuro. RFI: De acordo com o Plano Estratégico de Resposta ao VIH 2023-2026, Angola dispõe actualmente de 35 milhões de dólares. A ONU alerta que seriam preciso 145 milhões de dólares.  Exacto. O plano estratégico do VIH de Angola para os três anos de 2023 a 2026 estima que sejam necessários cerca de 580 milhões de dólares para fazer face à doença. Ou seja, anualmente, seriam 145 milhões de dólares. O Grupo Técnico de Monitoria de Angola fez então a análise em 2024 de quanto conseguimos alocar para esta resposta, e foi reportado que são 35 milhões de dólares. RFI: O que quer dizer que é preciso um investimento muito maior ainda? Exacto. Não só para prevenir e tratar, mas também para combater as discriminações. Uma em três pessoas vivendo com VIH não procura ajuda e cuidados devido ao estigma. De forma geral, em Angola houve muito progresso nos últimos dez anos, mas em termos de tratamento, apenas 50% das pessoas que vivem com VIH recebem tratamento. Esse número é muito inferior à meta da ONU de 95% de pessoas com tratamento. 
 Vamo-nos projectar para 2060. Esta é a data limite em que a China afirmou querer atingir a neutralidade carbono. Luis Mah, professor desenvolvimento global no Instituto Universitário de Lisboa, analisa connosco esta viragem do maior poluidor mundial, responsável por 80% do aumento global das emissões de gases com efeito de estufa nos últimos 10 anos. A China tem vindo a posicionar-se como líder da transição energética global, apesar de continuar dependente do carvão. Para Luis Mah, professor de desenvolvimento global no Instituto Universitário de Lisboa, “a China está a descarbonizar não só por questões ambientais, mas também por ambições geo-económicas”. De facto, ao investir em tecnologias verdes, como a energia solar e eólica, pretende exportá-las para o Sul Global. “A China já vende mais tecnologia verde ao Sul Global do que ao Norte mais rico”, afirma o professor, destacando o seu papel crescente em África. Embora continue a construir centrais a carvão : “Estamos talvez a assistir ao pico do consumo de carvão, um passo essencial para a transição”. No plano internacional, o afastamento dos Estados Unidos sob a presidência de Trump oferece uma oportunidade: “Pequim vê aqui uma janela para se afirmar como líder climático mundial”, defende o universitário.
A doença de Alzheimer continua a ser um dos grandes enigmas da medicina. Em Portugal, é já a patologia neurodegenerativa mais prevalente, impondo um encargo a famílias e ao Serviço Nacional de Saúde. Num avanço promissor, Tiago Gil Oliveira venceu o Prémio Bial de Medicina Clínica ao demonstrar que diferentes regiões cerebrais reagem de forma distinta às proteínas tóxicas do Alzheimer. A descoberta abre caminho a diagnósticos precoces e terapias mais eficazes. O médico e investigador português, Tiago Gil Oliveira, de 40 anos, acaba de vencer o Prémio Bial de Medicina Clínica com uma descoberta que pode mudar o rumo da investigação. A sua equipa demonstrou que diferentes regiões do cérebro não reagem da mesma forma às proteínas tóxicas associadas ao Alzheimer. Uma nova pista que pode abrir caminho para diagnósticos mais precoces e terapias mais eficazes. “O primeiro passo é compreender melhor a doença. Saber quais são as vias moleculares, os genes, as regiões cerebrais atingidas e como cada uma reage a estas alterações patológicas. É um trabalho de detalhe. Só assim poderemos avançar para tratamentos mais certeiros”, começa por explicar. Formado no Hospital de São João e investigador na Universidade do Minho, Tiago Gil Oliveira tem percorrido os dois mundos em simultâneo: o da clínica e o da investigação. Essa duplicidade não é acessória, é central. “Ver os doentes todos os dias gera em mim um sentimento de urgência. Não podemos perder tempo. E, ao mesmo tempo, mostra-me a enorme diversidade da doença. Um doente com Alzheimer não tem só Alzheimer. Muitas vezes carrega outras patologias, que influenciam a evolução clínica. Essa observação clínica inspirou parte da minha investigação”, partilha. Não é de hoje que o investigador persegue estas pistas. Aos 26 anos, liderava projectos inovadores sobre os lípidos do cérebro e o seu papel na memória e no envelhecimento. Hoje, com uma equipa de vinte pessoas no Instituto de Investigação em Ciências da Vida e da Saúde, insiste em olhar o Alzheimer por dentro. Nos últimos anos, alguns países aprovaram medicamentos capazes de remover as placas de amiloide, as fibrilas que se acumulam no cérebro e que marcam a doença. Se chegarem a Portugal, diz Tiago Gil Oliveira, o impacto será profundo: “Vai ser uma revolução. Até agora não havia terapêuticas que alterassem a evolução da doença. Mas nem todos os doentes vão ser elegíveis. Haverá um processo de selecção rigorosa para perceber quem beneficia mais e quem tem menos risco de efeitos adversos. Isso vai exigir uma reorganização profunda do SNS. É um desafio imenso”. Além da reorganização, haverá também um novo paradigma de acompanhamento. O doente deixará de ser visto apenas como portador de uma doença única, e passará a ser avaliado em toda a sua complexidade, “tal como na hipertensão, o futuro passará por terapias combinadas, adaptadas a cada pessoa, onde entram dieta, lípidos cerebrais e outras estratégias. Só assim chegaremos a uma medicina de precisão” acrescenta. A investigação internacional traz, de tempos a tempos, surpresas que desafiam as investigações em curso. Recentemente, investigadores de Harvard mostraram que uma deficiência de lítio pode estar na origem de maior vulnerabilidade ao Alzheimer. “Foi um avanço notável. Percebeu-se que a deficiência de lítio aumentava a toxicidade cerebral e diminuía a capacidade de remover as placas. Mas também que a reposição com um tipo específico de lítio conseguia proteger o cérebro. Não o lítio usado como estabilizador do humor, mas uma forma especial. Isso abre novas possibilidades não só para a doença, mas também para alterações associadas ao envelhecimento. Agora é preciso tempo: anos de ensaios clínicos para sabermos se a hipótese se confirma”, sublinha. Entre promessas e prudência, o investigador lembra o essencial: a ciência não avança por saltos milagrosos, mas por passos sucessivos. Cada pista abre um caminho que leva a outro, até que, um dia, se chegue a uma resposta sólida. No laboratório de Braga, a equipa de Tiago Gil Oliveira aposta num terreno menos explorado: os lípidos cerebrais: “Sabemos que variantes genéticas associadas ao Alzheimer afectam genes ligados à sinalização lipídica do cérebro. E os lípidos são constituintes essenciais do tecido cerebral. Se conseguirmos manipular a sua composição no sentido certo, talvez possamos proteger os neurónios ou torná-los mais resistentes à toxicidade das placas”. E a equipa já testou isso em modelos animais, “Se manipularmos a composição lipídica, podemos tornar as células mais eficientes na remoção das placas ou mais resistentes ao seu impacto. Esse é um dos nossos focos actuais”. No fundo, o percurso de Tiago Gil Oliveira é atravessado por um fio que liga o microscópio ao olhar do médico junto do doente. É essa ponte que lhe dá a energia para prosseguir. “Estar no hospital dá-me a medida da urgência. No laboratório, tento transformar essa urgência em hipóteses de trabalho", compara. No silêncio da investigação, entre os ratos de laboratório e microscópios, o que está em jogo é sempre a mesma coisa: um futuro em que a memória não se apague depressa. “O nosso objectivo é simples na formulação, mas imenso na ambição: travar a progressão do Alzheimer. Não sabemos quando conseguiremos lá chegar. Mas sabemos que cada passo é necessário”, concluiu.
As chuvas extremas continuam a assolar o continente africano. No Sudão, um deslizamento em Darfur matou mais de 1.000 pessoas no final do mês de Agosto, expondo inúmeras fragilidades. Em Sofala, as autoridades moçambicanas reforçam medidas de prevenção e reassentamento antes da época chuvosa. O delegado do INGD em Sofala, Aristides Armando, sublinha que a prevenção e cooperação internacional são cruciais perante os riscos e alterações climáticas. As chuvas extremas continuam a marcar o continente africano. No Sudão, um deslizamento provocado por precipitações torrenciais arrasou a aldeia de Tarazã, em Darfur, e fez mais de mil mortos no final do mês de Agosto. A tragédia expôs a vulnerabilidade de comunidades inteiras perante as mudanças climáticas e a fragilidade das instituições. Em Moçambique, na província de Sofala, o cenário é diferente. As autoridades locais e os parceiros humanitários intensificam medidas de prevenção, reforço de infra-estruturas e realojamento de populações, preparando-se para a época chuvosa de 2025/26. O delegado do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastre em Sofala, Aristides Armando, sublinha que a província já está pronta. “Estamos numa fase inicial da próxima época chuvosa e temos uma série de acções em curso”, afirmou. “Participamos na conferência de prontidão urbana para garantir que a cidade da Beira, sendo uma das mais vulneráveis, possa reforçar a sua resiliência e capacidade de resposta face aos impactos”. O responsável explica, ainda, que as acções não se limitam ao perímetro urbano. “Estamos a realizar simulações em distritos como Nhamatanda, Gorongosa e Marromeu e a reforçar os comités locais de gestão de risco. No total, já contamos com 258 comités comunitários e 30 comités escolares”, detalhou, acrescentando que “o envolvimento das crianças e da juventude é fundamental, porque são elas que podem garantir a resposta imediata em caso de desastre”. Entre as medidas em curso está também o reassentamento de famílias que vivem em zonas de risco. No entanto, “o maior desafio continua a ser orçamental, porque precisamos de mais recursos para reforçar tanto a prevenção como a mitigação”. Questionado sobre as lições a tirar da tragédia no Sudão, Aristides Armando recorda a experiência amarga de Sofala com o ciclone Idai, em 2019. “Ainda temos na memória o impacto devastador do Idai”, afirmou. “O que aconteceu em Darfur lembra-nos que não podemos baixar a guarda. No início do mês de Setembro, o Presidente da República entregou mais de 800 casas resilientes em bairros de reassentamento, o que mostra que estamos a avançar numa estratégia de longo prazo”. Para o delegado, a aposta em tecnologia é decisiva: “Hoje temos o radar meteorológico da Beira, inaugurado há um ano, que já nos permite análises mais rápidas”, disse. “Reduzimos o tempo de aviso prévio de quatro dias para poucas horas, o que aumenta a capacidade de salvar vidas”. Além disso, “os drones ajudam-nos a mapear zonas críticas e recolher informação em tempo real, facilitando o processo de resposta e prevenção”. A cooperação internacional também merece destaque. “Trabalhamos com a UNICEF, com a Fundação SIMA e com várias organizações não-governamentais para garantir que as comunidades tenham informação atempada e consigam actuar rapidamente”, frisando que “as parcerias têm sido fundamentais para criar uma cultura de prevenção”. Porém, o delegado adverte que o contexto climático exige vigilância constante. “Na época passada tivemos, no mesmo distrito, situações de seca e a passagem do ciclone Jude”, recordou. “É a prova de que enfrentamos riscos múltiplos e que temos de reforçar a capacidade de resposta em todas as frentes". Aristides Armando conclui com um alerta: “Os fenómenos extremos vão continuar a surpreender-nos. Mas quanto mais cedo prepararmos as nossas comunidades, menor será o impacto humano e social. A prevenção é hoje a nossa maior arma contra as alterações climáticas”.
Neste magazine 'Ciência', abordamos os desafios colocados pelo uso das tecnologias informáticas e pela internet na Guiné-Bissau com um jovem engenheiro, Jeremias Nicolau Fernandes, que acaba de lançar em Agosto, juntamente com uma equipa de informáticos, a ONG 'Jovens Embaixadores da Segurança Digital'. Esta iniciativa educativa e comunitária sem fins lucrativos tem por intuito promover o uso ético da internet e habilitar os jovens face a práticas como o ódio em linha, fraudes como o 'phishing' ou ainda as 'fake news', numa altura em que segundo dados da ONU, quase 60% dos utentes da internet, a nível mundial, estão preocupados com a questão da desinformação. Apaixonado pela informática, Jeremias Nicolau Fernandes cedo se apercebeu que existe ainda alguma reticência geral em usar os meios informáticos nomeadamente para guardar e classificar dados. Ele também refere ter percebido as vantagens que a internet oferece, mas igualmente os perigos a que podem ficar expostos os seus utentes. "As pessoas não estão a usar esse sistema, principalmente o governo. As pessoas têm medo de ser controladas pelo sistema. Há muitas coisas que devem ser informatizadas, que não estão a ser informatizadas, porque as pessoas têm medo de usar internet. Nesse momento, a Guiné-Bissau devia estar noutro nível, porque até agora, a maioria das instituições da Guiné-Bissau não têm banco de dados, não tem um sistema para guardar dados", começa por referir o engenheiro informático. "Tive o privilégio de estudar e lidar com um computador muito cedo, desde 2010. E aí eu fiquei apaixonado. Eu fiz informática básica, depois intermédia. Isso me levou a fazer engenharia informática. E quanto a essa associação, eu estava fazendo pesquisa sobre um outro assunto e deparei-me com esse problema de que não existe nenhuma organização aqui em Guiné-Bissau que lida com esse assunto de segurança digital. É um problema muito sério, mas nos outros países já se trata isso como se fosse um tipo de droga. Aí pensei com a situação que estamos a passar aqui em Guiné-Bissau, vi que é necessário criar essa ONG para sensibilizar, conscientizar a sociedade, dar formação sobre o uso da internet, porque as pessoas são analfabetas sobre o assunto digital. Mesmo as pessoas que se formaram e se tornaram hoje doutores, são analfabetos em assuntos digitais. Não têm noção de que estão a fazer na internet", constata o líder associativo. "A internet hoje está a propagar o discurso de ódio, 'cyberbullying' e está a acontecer neste momento o 'phishing'. As pessoas que estão por trás criam uma conta falsa para atrair outras pessoas. Isso está a afectar as pessoas aqui em Guiné-Bissau, porque há muito desemprego. As pessoas criam uma conta ou um 'site' falso. Eles postam esse anúncio para atrair as pessoas, enquanto têm uma outra intenção", refere Jeremias Nicolau Fernandes. É neste contexto que surge a ideia de criar a ONG 'Jovens Embaixadores da Segurança Digital', o engenheiro informático referindo ter uma equipa à volta dele, com o projecto de trabalhar em todo o país e "não exclusivamente em Bissau". Apesar de não beneficiar ainda de apoios, por "estar ainda a criar esse movimento", o coordenador desta associação que pretende, para já, dar formações de dois dias por cada grupo, mostra-se convicto de que "esse projecto será uma ponte". "Vamos começar com a formação de jovens como multiplicadores, porque vamos formar esses jovens líderes que vão poder multiplicar para formar outros jovens também nas comunidades. Logo, vamos começar com pequenos grupos de jovens nas comunidades, dar uma formação, pode ser também em escolas", refere ainda o engenheiro informático ao indicar estar em contacto com o Ministério da Educação neste âmbito. "O meu sonho é de de formar, de mudar a sociedade, porque esse é o objectivo, de fazer com que as pessoas entendam realmente o que é a internet. Espero que isso mais tarde, possa impactar a sociedade, possa educar, porque é um assunto muito importante", remata Jeremias Nicolau Fernandes.
O desafio parece simples: construir um satélite do tamanho de uma lata de refrigerante. Mas, na prática, trata-se de um exercício exigente de engenharia, programação, aerodinâmica e trabalho de equipa. O CanSat, promovido em Portugal pela Ciência Viva em parceria com a Agência Espacial Europeia (ESA), já vai na 12.ª edição e continua a conquistar alunos e professores de todo o país. Cada equipa deve integrar num pequeno recipiente todos os componentes básicos de um satélite: sistema de energia, antenas, comunicações e sensores. O objectivo é lançar o dispositivo a mil metros de altitude, através de um foguete, e recolher dados durante a descida controlada por pára-quedas.  “É uma competição muito rica, porque obriga os alunos a lidar com várias áreas da engenharia e, ao mesmo tempo, a aprender a trabalhar em equipa”, explicou, ao microfone da RFI, Ana Noronha, directora executiva da Ciência Viva e coordenadora do programa eZero Portugal. Todas as escolas podem candidatar-se, mas o número de equipas é limitado. As escolhidas recebem acompanhamento de um júri que, além de avaliar, apoia os alunos na resolução de problemas técnicos. Antes do lançamento oficial, há voos de teste para assegurar que os satélites resistem à aceleração do foguete e que o pára-quedas funciona correctamente. Só os projectos estruturalmente sólidos avançam para a fase final. Depois do voo, as equipas têm de analisar os dados e fazer uma apresentação em inglês perante o júri. “Queremos que os alunos sejam capazes de comunicar o seu trabalho num contexto internacional, como terão de fazer no futuro”, sublinha Ana Noronha. Apesar do espírito competitivo, o ambiente é de partilha: “Eles estão todos a competir, mas entreajudam-se. Se há uma peça que queima, há logo outra equipa que empresta, que tem uma suplente ou que empresta a antena, o que é muito interessante observar”, nota a responsável. Mais do que uma competição de engenharia, desvcreve o CanSat como uma experiência inesquecível, onde os participantes aprendem competências que levarão consigo para a vida.
Pesquisas arqueológicas em Moçambique estão a mostrar que o país foi uma “zona de charneira” nas movimentaçoes de populações entre a África Austral e a África Oriental na Pré-História. O trabalho está a ser orientado pelo arqueólogo Nuno Bicho que contou à RFI ter encontrado entre “300 ou 400 jazidas arqueológicas com vários períodos”, as mais importantes no Vale do Limpopo, no Vale do Save e junto ao ao Lago Niassa. Nuno Bicho começou as pesquisas arqueológicas em Moçambique há 15 anos. Desde então, o arquólogo da Universidade do Algarve encontrou entre “300 ou 400 jazidas arqueológicas com vários períodos”, nomeadamente no Vale do Limpopo, no Vale do Save e junto ao ao Lago Niassa. “Nós temos várias jazidas arqueológicas que são, digamos, dos últimos 100 mil anos”, ou seja, na Idade da Pedra Lascada, explica o investigador, acrescentando que há um “conjunto alargado de ocupações de várias Idades”. Moçambique é uma peça central para compreender a mobilidade das populações dentro de África e assim ir percebendo melhor o puzzle da evolução humana. Nuno Bicho explica porquê: “A nossa espécie Homo Sapiens aparece há cerca de 300 mil anos em África e move-se no continente africano e, por vezes, saiu do continente africano. Mas do ponto de vista genético, nunca teve resultados evidentes e apenas uma saída de África, da África Oriental, há cerca talvez de 80 mil anos, entre 80 e  60 mil anos, deu resultado para aquilo que somos hoje e espalhou a nossa espécie por todo o mundo. Aquilo que eu, neste momento, estou a tentar perceber, é como é que dentro de África, dentro do espaço do continente africano, se deram essas movimentações que permitiram a saída desse grupo, há cerca de 80 mil anos, para fora de África. Nós sabemos que há principalmente duas áreas muito importantes do ponto de vista de desenvolvimento cultural: uma é a África Austral e a outra é a África Oriental. Nós não sabemos ainda qual é a relação entre as duas e, aparentemente, do ponto de vista genético, parece haver informação que sugere que o grupo que saiu para fora da África veio da África Austral. Portanto, era fundamental perceber-se o que é que acontece entre as duas regiões. Ora, Moçambique é uma das áreas com potencial para se perceber como é que se deu esta mobilidade, esta migração interna ao continente africano e a ligação entre as duas regiões.” Assim, “Moçambique é uma zona de charneira” na conexão de populações que se movimentavam entre a África Austral e a África Oriental na Pré-História. Agora, é preciso perceber quando e como se cruzam. “Vamos proceder a um conjunto de análises, essencialmente de modelação matemática, que juntam os dados que vêm da África Austral com os da África Oriental e tentar perceber exactamente quando e como é que se deu esta passagem entre as duas áreas. Moçambique, naturalmente, estando no meio, é sem dúvida nenhuma, um elemento importante que nos vai permitir perceber esta movimentação e conexão”, acrescenta Nuno Bicho. Nas jazidas arqueológicas de Moçambique encontraram-se materiais dos nossos antepassados porque, geralmente, eram zonas com actividades diárias destes “caçadores-recolectores”. “Aquilo que nós podemos concluir é que muito devido às características dessa cultura material das ferramentas, parece haver uma diferença marcada entre a zona do Niassa e a zona do Save e do Limpopo e, portanto, significa que há áreas de influência cultural que são diferentes. Muito provavelmente do Niassa estão ligadas com Tanzânia e o Malawi (como regiões que se conhecem hoje politicamente), enquanto que as zonas do Save e do Limpopo se encontram mais relacionadas com a África Austral. Isso sabemos. Sabemos que eles utilizavam um conjunto alargado de espécies de animais, não sabemos quais ainda, mas saberemos no futuro através de várias análises. Sabemos que eles utilizavam um conjunto de outras espécies, nomeadamente espécies aquáticas, porque temos um conjunto alargado de conchas de várias espécies nalguns dos sítios arqueológicos. Também sabemos que eles utilizavam a casca dos ovos de avestruz essencialmente por motivos decorativos fazendo contas para colares, etc.” Há três anos o Conselho Europeu de Investigação concedeu uma bolsa de cinco anos ao arqueólogo que promete continuar as pesquisas e a procura de financiamento para prosseguir as pesquisas. Nuno Bicho tem trabalhado, no campo, com alunos de arqueologia da Universidade Eduardo Mondlane. Há artefactos que são tratados nos laboratórios do Departamento de Antropologia e Arqueologia dessa universidade moçambicana, mas há outros que são enviados para Portugal, analisados e depois retornados e depositados na Universidade Eduardo Mondlane. Por enquanto, ainda não é possível fazer tudo em Moçambique. “Não há capacidade financeira para investir em arqueologia, particularmente na Idade da Pedra. Esse é um aspecto. E segundo, a formação ainda é limitada na Universidade Eduardo Mondlane, que é a única universidade que tem arqueologia. Apesar de terem uma licenciatura e haver muitos alunos a terminar todos os anos felizmente - porque isso de facto promove o estudo do património arqueológico e possibilita uma defesa muito relevante - mas depois não tem formações avançadas após a licenciatura. São países externos como Portugal, como a Universidade do Algarve, que permitem fazer esse desenvolvimento. Neste momento, já há perto de meia dúzia de doutorados em Moçambique em Arqueologia. Há 15 anos, quando eu comecei, havia apenas uma pessoa. É muito relevante este trabalho. E não foi só a Universidade do Algarve a fazer isso, há universidades também na Suécia que promovem esse tipo de trabalho. Há vários doutorados na Suécia”, conta Nuno Bicho. O arqueólogo também esteve a pesquisar o mesmo período da evolução humana no Sudão, mas a investigação está, por enquanto, interrompida, no terreno, devido à guerra.
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