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Logon Podcast

Logon Podcast
Author: Rosacruz Áurea
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© 2020
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Logon é a revista online da Escola da Rosacruz Áurea. LOGON explora uma nova perspectiva do desenvolvimento do ser humano e das mudanças na sociedade do século 21, que emergem na arte, na ciência e na religião. Visite nosso site: www.logon.media/pt-br
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A garça refletida na águaA pessoa em quem o Tao reside conhece a unidade de todas as coisas. Ela permite que a vida a envolva, dando-lhe espaço em seu coração.Os antigos sábios taoístas faziam uma distinção clara entre a consciência cotidiana de uma pessoa e a consciência imbuída do Tao. Eles tinham uma imagem simples, mas muito marcante, para isso:Uma garça sobrevoa um lago. Por um instante, seu reflexo na água é perfeito, em toda a sua glória.A cena descreve um estado muito especial do coração. Os taoístas partiam do princípio de que a pessoa comum não está ocupada pelo seu ‘centro’, o seu coração. Isso significa que o seu coração não está livre para a atuação do Tao. O coração está repleto de desejos, objetivos, hábitos e reações.Contudo, se o coração de uma pessoa estiver livre, ou seja, se for um centro aberto e receptivo onde não há vontade própria, a situação de vida presente no momento pode ser refletida no Tao. Isso pode, em princípio, acontecer num momento de contemplação interior ou de devoção altruísta ao Tao. Os desejos e anseios pessoais ficam de lado, dando lugar a uma eficácia muito maior. Então, a garça se reflete plenamente no lago.A garça pode ser interpretada como representação da vida, sua unidade no Tao. Podemos vê-la claramente como toda a diversidade de uma situação, com seus problemas, relações e interdependências, fundindo-se em uma única percepção, em uma única impressão na quietude do coração. O incompleto foi refletido no Tao, foi tornado reconhecível pelo Tao, foi absorvido pelo Tao. Assim, o Tao foi posto em ação efetiva. Novos pensamentos e sentimentos podem ter surgido; uma solução pode ter aparecido repentinamente em uma situação aparentemente sem esperança; um livro ou uma passagem pode ter nos dado uma pista decisiva, ou um encontro inesperado pode ter ocorrido. Pode ser também que uma força ou alegria tenha surgido para encarar e aceitar uma situação fatídica como ela é.Normalmente, em qualquer situação, reage-se tentando fazer algo para moldá-la, mudá-la ou classificá-la de acordo com nossas ideias e vontade. Na maioria das vezes, queremos nos livrar de algo ou se apegar a algo.A pessoa em quem o Tao atua, por outro lado, inicialmente não faz nada. Ela pratica o não-agir. Não intervém no nível das “dez mil coisas”, como Lao Tzu as chama. Ela não quer pegar o pássaro, espantá-lo ou correr atrás dele com um espelho ou uma câmera. Em vez disso, deixa o “grou livre” e não faz nenhum julgamento sobre qualquer aspecto de seu comportamento. Ela remove completamente sua própria vontade da situação e permite que o que está acontecendo, aconteça.Uma pessoa assim não tira nada e não acrescenta nada. Ela conhece a unidade do Tao. Dentro de si, experimenta que a vida aparentemente fragmentada é, na verdade, uma unidade. Ela permite que a situação a envolva da forma mais plena e completa possível e, em seu coração, dá espaço para que ela se integre completamente ao Tao. Ao fazer isso, permite que o profundo anseio pela conexão curativa com o Tao flua para a sua realidade vivenciada.Essa atitude de deixar as coisas acontecerem, baseada na disposição de não resistir ao curso natural das coisas, é expressa na literatura chinesa por outra imagem: o pinheiro e o salgueiro na neve.O galho de pinheiro é rígido e quebra sob o peso, enquanto o galho de salgueiro cede, permitindo que a neve deslize. O pinheiro representa a consciência egoísta e inflexível, que age com resistência e luta.O salgueiro, por outro lado, cede e se adapta com flexibilidade. Ele representa a pessoa taoísta, que observa a si mesma e à sua vida da forma mais neutra e objetiva possível. É alguém que permite que as coisas se desenrolem e se revelem a partir de sua essência interior. Aceita as aparentes derrotas tanto quanto os sucessos, pois sabe que os dois polos pertencem um ao outro. Yin e yang são interdependentes. Por saber que está conectado à unidade do Tao, ele vive a alegria da liberdade interior, independentemente do que aconteça em sua vida exterior.Contudo, essa ação interior por meio da ‘não intervenção’ não necessariamente parece sublime. Muitas vezes, é precisamente nessa situação que os medos, a tristeza, a raiva e a própria inadequação se tornam tangíveis. Mas ao sentir-se impotente e ao reconhecer a própria insignificância é que a entrega à sabedoria e ao poder do Tao pode ocorrer. Agora, os poderes do Tao podem fluir. Ocorre uma mudança do centro interior da ação, do ego para o Tao.A vontade e a inteligência do Tao permitem que a possível solução brilhe. E não só isso. No coração da pessoa em quem o Tao atua, as coisas se reconectam com sua própria fonte interior. O impulso para uma profunda transformação interior pode se tornar efetivo. É por isso que os taoístas na China antiga eram conhecidos por serem particularmente alegres e serenos. Eles não se levavam muito a sério, desapegavam-se até de si mesmos.Wu-Wei não significa simplesmente sentar e esperar que o Tao resolva todas as situações. É claro que o ‘mundo das dez mil coisas’ também exige ação externa. No entanto, está alinhado com um significado de vida mais elevado, com os impulsos do Tao. É a arte de estar no lugar certo, no momento certo, para fazer a coisa certa. Isso não pode ser desejado ou forçado. Em vez disso, acontece naturalmente quando uma pessoa está em ‘movimento’ com o seu centro livre.O Tao, criador de toda a vida, e a situação perceptível da vida se tocam mutuamente. A profundidade insondável do ser-criador-origem, encontra a criação, a manifestação no coração humano. Ocorre uma fusão, um despertar mútuo. O significado transparece. Fortes impulsos transformadores e evolutivos são desencadeados, muito significativos tanto para o indivíduo quanto para a humanidade e a natureza como um todo.Nossa consciência cotidiana é como um lago cheio de águas inquietas e turbulentas. Ela só consegue refletir a garça de forma fragmentada, como “dez mil coisas”. Aqui não encontramos paz, nenhuma compreensão mais profunda das inter-relações, nenhuma unidade.O caminho para a unidade é o caminho do coração. Libertar nosso centro ocupado para trilhar esse caminho significa ser verdadeiramente humano.‘Crie em ti o vazio em seu grau máximo!Mantenha a serenidade em sua plenitude!Então, tudo pode elevar-se simultaneamente.Observe como elas se transformam.Todas as coisas, em sua diversidade,retornam à sua raiz.Retornar à raiz significa quietude.’Lao Tzu – Tao Te King, capítulo 16Foto: Selfcreated_Dreams_Ruth_Alice_Kosnick CCO
A PAZ É UMA EXPERIÊNCIA HUMANA?Há alguns anos, foi publicado um atlas diferente dos tradicionais. Ao invés de lugares, ele situa a imaginação, pensamentos e sentimentos em 23 mapas de experiências (1). É o Atlas da Experiência Humana– Cartografia do Mundo Interior. À primeira vista, parecem mapas comuns, com geografia, cidades, florestas, rios, mares, estradas, ferrovias, ruas, pontes e também construções importantes. Porém, ao explorarmos a cidade chamada Caos, por exemplo, encontramos o lago Águas Agitadas, uma Válvula de Escape situada no cume da Exasperação, Ervas Daninhas e Pânico Descontrolado na área Proliferação, a Torre de Babel, os territórios Miscelânia, Estrago, Confusão, Lixo, Cacos etc... É um retrato da experiência de caos que conhecemos bem. Eu estava muito interessado na paz por causa do cenário de tantos conflitos no mundo e, por isso, tirei o livro da estante e procurei pela paz. Não achei. Será que a paz não é uma experiência humana?A Paz no TaoA despeito de não encontrar um mapa da paz, há uma referência a ela no capítulo do Atlas que trata do Vácuo. A compreensão da paz como uma experiência que ultrapassa o comum está em um poema do Tao Te Ching. Eis o que diz:Leve o vazio ao seu limite extremo, Mantenha a paz no caminho. As dez mil coisas lado a lado aparecem E por meio disso eu as vejo retornar. Cada qual retorna às suas origens. A isso se chama paz. Paz: isto significa retomar o seu destino. Retomar o seu destino é ser eterno. Conhecer a eternidade é ter sabedoria. Não conhecer a eternidade é ser selvagem e imprudente. Quando você é selvagem e imprudente, seus atos o levarão à ruína.Ele orienta a levarmos “o vazio ao seu limite extremo” e a “manter a paz no caminho”. O vazio, aqui, é espaço aberto, receptividade total. É onde não há nada mais a tirar. É o estado interior em que cessam as distrações, os apegos e as turbulências. Nele é possível permanecer em paz sem esforço, como modo de estar em sintonia com o fluxo da vida. É diferente de quando eu sou eu, você é você, e há um vácuo, um vazio entre nós. Aqui o espaço separa.Na receptividade total somos ligados a tudo, não há conflito. Cada um existe no vazio de si mesmo e como relacionamento com os outros, com o planeta, com o todo.Há multiplicidade na existência. Todos os seres, movimentos e transformações do mundo - as “dez mil coisas” que aparecem lado a lado - tudo faz parte de mim. Tudo faz parte de todos. E tudo retorna ao seu ponto de origem, apesar das diferenças. O retorno – retomarmos nosso próprio destino, nos conectarmos com a eternidade – é o que se chama paz. Ao conhecer essa eternidade, o ser humano age em harmonia, não contra o fluxo. Alinha-se ao Tao e encontra a sabedoria que preserva a vida.Nesse sentido, paz é reconciliação com a vida. É a consciência de que cada coisa segue o seu curso e, ao final, retorna ao mesmo mistério do qual brotou. Paz, portanto, é aceitar esse ciclo, compreender que o destino de tudo é voltar ao Todo.Nesse ensinamento, a paz é tanto experiência interior quanto lei universal. É serenidade pessoal e, ao mesmo tempo, princípio que sustenta todas as coisasMas, será que isso ainda está no limite de uma experiência humana?Palavras da PazEm teste nada científico, um grupo de trabalho foi provocado a pensar quais são as palavras e termos que se relacionam com a paz. A proposta tocou profundamente os participantes. A resposta foi uma chuva torrencial de palavras que descrevem um lugar que ninguém experimentou, mas mora na intuição ou em uma memória coletiva. Criou-se um lugar em que todos queriam viver.Não parece mero acaso que a paz não conste no Atlas da Experiência Humana. Esta falta insinua que a verdadeira paz dorme em um vazio cujo acesso é uma experiência supra-humana. O caminho da paz não é um mapa externo, mas interno, onde uma essência profunda nos aponta o norte verdadeiro.Referência: [1] Swaaij, Louise Van; KLARE, Jea; [tradução Celso de Campos Júnior e Isa Mara Landol]. Atlas da Experiência Humana - Cartografia do mundo interior.. São Paulo: Publifolha, 2004.Basel, Switzerland de Luca Upper (@lucaupper) unsplash.com
SEMENTES AO SOL"Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; cada ser humano é uma parte do continente, uma parte de um todo" - John Donne (1572-1631) Às vezes acordo com ideias na cabeça. Vêm em forma de uma palavra só, de uma frase, de uma imagem. Hoje, vi um campo de trigo dourado, dançando ao vento, sob o sol.Uma centelha de pensar-sentir brotou com a palavra “semente”. Fiquei com a sensação de que, por mais frágeis que sejam, como toda semente brota buscando a luz do sol, elas centuplicam suas forças quando se expõem juntas a essa luz. Visualizando a dança tão harmoniosa das hastes de trigo, senti que aquela multidão de sementes sabia de sua força.Fico imaginando que o núcleo do nosso ser somente sobrevive quando busca sua energia transcendente de modo harmonioso, quando se conecta com o núcleo do ser das pessoas que encontramos em nosso dia a dia. “Namasté!” assim o Deus-em-mim saúda o Deus-em-você.Como disse o poeta metafísico John Donne, “nenhum homem é uma ilha!” Seu contemporâneo, William Shakespeare (1564-1616) nos coloca em xeque quando em “Hamlet” proclama: “Ser ou não ser! Eis a questão”.Então compreendi que somos de verdade quando percebemos nossa interação transcendente com outros seres. Trata-se de uma conexão essencial: um intercâmbio que faz crescer a Luz de nossa essência.Trazendo esse sentir-pensar para o aqui e agora, nestes tempos de redes sociais e contatos interpessoais leves e rápidos, imagino que o motorista do Uber, com quem tenho um contato brevíssimo, contém uma essência que conversa com a minha. Juntos, somos sementes ao Sol. E, ao Sol, nossas essências – brilhantes – crescem, felizes, trocando fagulhas que nos enriquecem a cada palavra ou silêncio. Nesses momentos, somos realmente Seres Humanos.Imagem: thophilong (Pixabay)
JOÃO BATISTA: O CAMINHO NO DESERTO RUMO AO DESPERTAR DO FILHO DE DEUSJoão Batista é aquele que, apesar de obstáculos inimagináveis, não cessa em seu trabalho constante de aprimoramento pessoal.Naqueles dias apareceu João Batista, pregando no deserto da Judéia e dizendo:“Arrependam-se, pois o Reino dos Céus está próximo”. Dele é que tinha falado o profeta Isaías: Um mensageiro faz ressoar no deserto: “Preparai o caminho do Senhor, retificai suas estradas”. (Mateus 3:1-3)Quem é esse servo extraordinário chamado João? Essa nobre personalidade terrena que, por um esforço sobre-humano, empenha-se em se tornar um 'homem de humildade', a fim de preparar um lugar para o Deus-Homem? Aquele que se sacrifica, que entrega a si mesmo, para cooperar plenamente no processo de despertar o verdadeiro Filho de Deus de seu sono terreno?Eu vos declaro esta verdade: nunca surgiu entre os homens alguém maior do que João Batista. E, no entanto, o menor no Reino dos céus é maior do que ele. (Mateus 11:11)João Batista é aquele que, apesar de obstáculos inimagináveis, não cessa seu trabalho constante de aprimoramento pessoal. Ele supera todos os obstáculos um a um, passo a passo, aproximando-se do objetivo. E o objetivo não é para si mesmo, nem para o aperfeiçoamento de sua própria personalidade. João trabalha pelo Outro dentro de si, por Jesus. É necessário que ele cresça e que eu diminua. (João 3:30)João Batista trabalha só, sem olhar para trás ou para os outros, pois no deserto, onde as almas humanas estão imersas em letargia, poucos trilham esse caminho. De qualquer modo, ninguém poderia fazer esse trabalho por ele: João deve realizá-lo pessoalmente. Deve se dedicar inteiramente ao trabalho.Nem mesmo os Irmãos Sublimes que trilharam este caminho antes dele e lhe servem de apoio insubstituível podem realizar esta obra sagrada por João Batista, e ele sabe disso. Vivenciou muito no ciclo do nascimento e morte para se iludir. Segue em frente, sem esperar elogios nem recompensas.João usava uma roupa feita com pelo de camelos e um cinturão de couro. Ele se alimentava de gafanhotos e mel silvestre. (Marcos 1:6)João também sabe que não há espaço para concessões nesse caminho. A verdade não tem sombras. Não existem meias-verdades, verdades incompletas ou verdades alternativas. João é, portanto, intransigente na busca de seu objetivo. Não temerá nem mesmo Herodes, e o confrontará diretamente com a evidência de que o mesmo age contra a Lei de Deus.Pois João havia dito a Herodes: “Não te é permitido viver com a mulher de teu irmão. (Marcos 6:18)João repreende Herodes (aquele que inspirou tanto temor que ninguém ousa sequer insinuar suas perversidades), pois reconhece Herodes em si próprio. João Batista sabe o que significa tentar fazer concessões ao mundo da transitoriedade. Ele sabe que 'matar crianças' significa extinguir os raios de Luz que emergem em seu interior.João é um homem de ação libertadora. Pois é precisamente por meio da ação e da experiência que ele adquire o conhecimento de como trilhar o Caminho, e qual o próximo passo a dar. Sua consciência natural comum não consegue compreender aquilo que coroa este caminho.Ora, João Batista estando preso, ouviu falar das obras de Cristo. Mandou que seus discípulos fossem lhe perguntar: “És tu aquele que há de vir ou devemos esperar or outro? (Mateus 11:2-3)A mente humana comum não consegue compreender essa vibração sublime. Há muito tempo, João deixou de se iludir, acreditando que poderia apreendê-la com sua mente natural. Essa ação libertadora libera o conhecimento que flui da Gnose, o que o assegura e fortalece na busca de seu objetivo.Este magnífico trabalhador da vinha do Senhor já sabe que endireitar os caminhos do Senhor é um árduo trabalho de purificação e de preparação de um lugar para o Senhor. Primeiro, é preciso purificar o ser interior de todas as influências astrais e mentais impróprias, a fim de criar um espaço interior de silêncio, onde os sussurros de Deus se tornem cada vez mais audíveis e a transformação do homem seja realizada pela Luz.Eu vos batizo somente com água em vista da conversão, mas aquele que há de vir depois de mim é mais poderoso do que eu, e eu não sou digno de carregar suas sandálias. Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo. (Mateus 3:11)João sabe que o homem natural não pode se transformar – ele só pode entregar tudo o que é e, com total confiança, dizer: “Não a minha vontade, mas a tua seja feita”. E assim, gradualmente, o Outro, Jesus, se revela no momento apropriado, a quem João se entrega completamente, sem hesitar.Então Jesus veio da Galileia ao Jordão para ser batizado por João. Mas João o impediu, dizendo: Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim? Respondeu-lhe Jesus: Deixa estar assim por agora, porque assim é que convém cumprirmos toda a justiça. Diante disso, João consentiu. (Mateus 3:13-15)Então, resta apenas o passo final, quando João voluntariamente coloca sua cabeça, seu "eu", sobre o machado. Ele faz isso com plena convicção de que, após todo esse árduo trabalho, o verdadeiro Filho de Deus ressuscitará em toda a sua plenitude e unidade.Logo que foi batizado, Jesus saiu da água. Eis que os céus se abriram para ele. Viu o Espírito de Deus descer como pomba e vir sobre ele. E eis que uma voz, vinda dos céus, dizia: “Este é o meu Filho predileto, no qual encontro toda a minha satisfação. (Mateus 3:16-17)Não há recompensa maior para o esforço no deserto do que este exato momento!Você já trilhou o caminho de João?Imagem de Joanna Cesarz-Krzystanek
Carregando água para o marUma estadia à beira-mar me traz a paz que tanto desejo. Chega de correr de um compromisso para o outro. Alguns dias de espaço para contemplação e respirar fundo. O som das ondas durante um vento forte, das ondas quebrando nos dias após a tempestade de verão, do suave murmúrio quando não há vento, tudo isso leva embora os pensamentos inquietos e minha mente parece ficar mais clara.Há um século, o mar estava apenas começando a ser descoberto como um lugar de relaxamento, e somente para os ricos. Até o final do século XIX, o mar era visto como perigoso, uma massa de água que poderia se transformar em um monstro devorador a qualquer momento. Mas em algumas culturas antigas, o mar era reverenciado como a mãe primordial, da qual toda a vida na Terra foi criada. Para mim, a bela peça musical de Claude Debussy, “La mer”, une ambos os pontos de vista em uma melodia ondulante que soa ora calmante, ora estimulante, ora ameaçadora. Uma síntese de confiança, medo, cuidado e calma, tristeza e conforto. Mas o mar não é mais aquele mar de outrora.Há uma canção holandesa onírica de Boudewijn de Groot e Lennart Nijgh, de meados da década de 1960, que me impressionou na época com seu tom simples e melancólico. “De waterdrager” (O Carregador de Água) fala de um velho que carrega água para o mar todos os dias porque tem medo de que o sol evapore e seque o mar. Mesmo naquela época, era uma ideia completamente absurda, e agora, com a ameaça da elevação do nível do mar, é ainda mais. O título e a letra da música contêm uma referência à expressão “carregar água para o mar”, ou seja, fazer um trabalho desnecessário ou inútil. O velho aguadeiro está ocupado com isso o dia todo e quando chega a noite ele descansa contente, sabendo que perseverou mais um dia e “salvou o mar do sol”.Agora, porém, acho que reconheço uma camada mais profunda nisso, uma referência à divindade do mar.O grande mar primordial a que chamamos de Deus anseia por ser nutrido. Ele anseia por nosso amor, nossa atenção. Aguarda com paciência infinita o momento de nos voltarmos para ele, em nossa busca incessante por uma paz profunda e duradoura, um amor eterno, uma unidade eterna. Algo que jamais encontraremos enquanto buscarmos fora de nós mesmos. Somente quando nos voltarmos para o nosso ser interior mais profundo, quando começarmos a nutrir a rosa sedenta dentro de nós com a água do nosso amor atento diário, somente então iniciaremos a jornada rumo à unidade e à paz duradouras. Então, o carregador de água desta era, Aquário, virá nos auxiliar com a água viva, para nos refrescar de maneira muito direta.O ser humano industrializado do século XXI preocupa-se primordialmente com a busca de conforto e prazer. Além disso, soluções práticas precisam ser encontradas para os problemas e desafios cotidianos que a vida terrena nos apresenta. Sem percebermos, nós, como humanidade, nos afastamos muito do nosso destino. Temos subjugado cada vez mais a criação natural à nossa própria vontade, chegando ao ponto de recorrermos à fissão atômica e à manipulação genética. E agora, com a Inteligência Artificial, criamos uma força que não dá para parar e que pode acabar nos atrapalhando mais do que nos ajudando. A cada nova invenção, nos deparamos com o oposto da ajuda: grandes desvantagens e obstáculos, muitas vezes imprevisíveis. Para estes, por sua vez, é preciso criar uma nova solução, e assim forjamos uma enorme corrente que nos prende cada vez mais ao mundo terreno. Será que Nijgh e De Groot tiveram um momento de inspiração quando escreveram sobre o carregador de água? Percebo aqui uma hipérbole que delineia o pensamento e o comportamento do mundo industrializado — cada invenção parece ser motivo para maior arrogância. “A tecnologia não vale nada”, ouvi muitas vezes no passado. Parecia um slogan. Mas o texto também mostra o solitário que pensa poder agir contra essa forma de pensar. Nijgh e De Groot enxergaram a arrogância infantil na pessoa que pensa que deve controlar a Terra e seu maior organismo vivo. E também salvá-la do sol, quando o mar e o sol normalmente trabalham juntos de forma otimizada. Mas não somos todos, na verdade, esse ansioso carregador de água? Não temos todos a tendência de querer controlar a vida? Para qual mar carregamos nossa água todos os dias?É uma manhã tranquila à beira-mar. Caminho descalço pelas ondas suaves da maré vazante. Crianças pequenas brincam com baldes e pás perto de um castelo de areia em ruínas do dia anterior. Elas se apressam para manter o nível da água que sai do fosso, agora que a maré está baixando. Talvez a canção tenha sido escrita simplesmente para uma criança que vivenciou esse fenômeno pela primeira vez e pensou que precisava repor a água do mar que recua. Mesmo assim, resultou em uma bela canção.Foto: by Chris Thomson on Unsplash CC0
O TOQUE DO AMORAo sermos tocados pela vibração do Amor, permitimo-nos ser elevados pela bela energia da Unidade.Passamos a olhar para as pessoas de uma maneira completamente diferente: livres da ideia de separação, daquela separação que divide o que é meu do que é seu, o que é nosso do que é deles, o masculino do feminino. Passamos a enxergar com visão divina, com o coração, vendo que tudo é uma emanação do Ser Único, que tudo é Unidade manifestando-se em inúmeras formas.É bonito quando percebemos as pessoas como aglomerados de faíscas que emanam de uma única chama. Fazem parte dessa chama e, ainda assim, cintilam de inúmeras maneiras, como se vivessem suas próprias vidas separadamente. É um espetáculo repleto de brilho. É belo o desígnio do Criador de revelar a Unidade na diversidade de formas.Isso poderia continuar indefinidamente se estas “faíscas” não tivessem se fixado e se embriagado por sua própria forma, esquecendo-se de que são parte de um todo magnífico… Esquecendo-se de que são meramente atores em um maravilhoso espetáculo de luz. Por esquecerem sua origem, confundem-se, acreditam na autossuficiência, na separação. Assim, o Ser Humano original, que receberia e irradiaria a Luz Divina em sua totalidade, torna-se egocêntrico e focado em si mesmo, percebendo os outros como ameaças ao seu “eu” distinto. Esse “eu”, apesar de ilusório, é reforçado até atingir o limite do sofrimento. Porém, ali reside uma oportunidade de buscar ajuda para retornar conscientemente à Unidade.Multidões de pessoas estão oscilantes. Cada uma delas, cada um de nós, passa freneticamente, absorto no frenesi de seus próprios afazeres, como em um sonho, em letargia. E assim, por gerações, séculos, milênios, giramos em círculos, aprisionados na ilusão de que somos separados uns dos outros e do Todo. Os tempos e as formas mudam, mas tal ideia permanece intacta.Se compreendemos essas coisas, em momentos como esses, poderíamos gritar, com o coração transbordando de Amor:“Minha querida irmã, meu querido irmão, libertem-se de tal ilusão! Somos uma só expressão do mesmo Ser! Não há separação entre nós!”Ao cruzarmos com outro ser humano, ao olharmos em seus olhos e percebermos a confusão de seus pensamentos, a dor que carrega em si, nós nos reconheceríamos, pois também experimentamos a mesma dor. Sob a influência da sublime vibração do Amor, poderíamos sentir o impulso de acolhê-lo em nosso coração, como se disséssemos:“Está tudo bem, pare de se preocupar. Sua dor é criação do pensamento. A única Realidade é Deus — o maravilhoso Pai-Mãe, Amor, Unidade, o Todo. A Realidade é repleta de Amor e Unidade.”Quando levados pela vibração do Amor, a sensação do “eu” desaparece. Nem por um instante nos ocorre pensar de forma dividida.Entretanto, os efeitos desse toque maravilhoso não duram para sempre e, lentamente, mergulhamos novamente no sono. Ainda não estamos suficientemente vazios, puros ou tranquilos interiormente para manter esse estado por muito tempo. Mas chegará o dia em que nossa quietude interior permitirá que a Luz habite em nós para sempre. Chegará o momento em que a Graça descerá sobre nós, e a ação por meio da não-ação nos enobrecerá, de modo que, não mais como indivíduos isolados, possamos mais uma vez nos tornar irmanados.Que esse dia não demore!Photo-by-Aaron-Lee-on-Unsplash
Você já parou para pensar se existe algo em comum entre a matemática… e a espiritualidade?De um lado, a lógica, o rigor, a experimentação científica.Do outro, a fé, a intuição e a experiência interior — aquela que ninguém mais pode medir ou repetir.Enquanto a matemática opera com linguagem clara, precisa e reprodutível…a espiritualidade vive no território do indizível, daquilo que não cabe em palavras.Mas será que esses dois mundos são mesmo tão distantes?No nosso novo artigo, exploramos como a matemática — essa ciência do finito, das provas, dos limites — às vezes aponta para algo que ultrapassa tudo isso: o infinito, o imensurável, o que não cabe no nosso espaço e no nosso tempo.E como a espiritualidade, por sua vez, nos convida a olhar para uma Verdade que não depende de experimentos, mas que insiste em se manifestar dentro de cada um de nós.Se essa conversa mexe com você, te convido a mergulhar no texto completo.Talvez você descubra que, entre o rigor da razão e o mistério da fé… existe um ponto de encontro inesperado.Foto: HeckiMG - Pixabay
É POSSÍVEL UMA PAZ PERMANENTE?Um olhar sobre a história do mundo revela uma série interminável de conflitos entre comunidades, cidades, povos e países, que resultaram em guerras, violência, sofrimento e desprezo pela vida. Externamente, muitos desses conflitos são travados em nome de interesses políticos e econômicos, nacionalismos, ideologias, religiões e preconceitos.Até mesmo em nome da paz e do desenvolvimento, vastos impérios foram construídos por meio de uma força central dominante, mas que sempre resultaram em uma paz efêmera. Inauguram-se monumentos à paz e, no entanto, os mesmos conflitos ressurgem alguns anos depois.Freud, em sua carta a Einstein, em 1932, afirmava que o principal impulso que leva o homem à guerra é o seu desejo natural de agressão. Segundo ele, a inclinação à hostilidade entre os homens — que se manifesta em todo lugar e constitui o maior obstáculo à civilização — é um fato psicológico fundamental. Mesmo que todas as dificuldades políticas e econômicas fossem resolvidas, ainda assim subsistiria essa tendência humana a se destruir e a se humilhar mutuamente. Freud dizia que esses dois instintos — o de vida (Eros) e o de morte ou destruição (Thanatos) — estão em perpétuo conflito e entrelaçamento.Nesse contexto, Krishnamurti afirmava que era fundamental não apenas promover uma mudança no mundo exterior, mas também realizar uma revolução psicológica total, interiormente. Esse conflito interior é muito mais complexo — e é a raiz dos conflitos exteriores. Tal transformação traria, de modo natural e inevitável, uma mudança na estrutura social, em nossos relacionamentos, em toda a nossa atividade.A pergunta inicial que propomos conecta duas tradições filosóficas profundas: o pensamento hermético e o pensamento de Heráclito, que tratam do conflito entre opostos, mas de maneiras diferentes.Freud se aproxima da visão de Heráclito, que dizia que o mundo é feito de conflito — e que esse conflito é necessário e eterno. Assim, não há criação sem destruição, nem saúde sem doença, nem justiça sem injustiça.Para Heráclito, os opostos não são um problema a ser superado, mas a própria realidade da vida.Krishnamurti converge para a ideia hermética, que valoriza a unidade essencial do Ser — liberto dos opostos — e que retorna à consciência divina, onde tudo é um.Enquanto, para Heráclito, sem conflito não há movimento; sem oposição, não há identidade. O conflito é, para ele, a origem da realidade. É o que move o mundo, gera transformação. As coisas se definem pelo seu oposto.O pensamento hermético, por sua vez, aponta para a possibilidade do fim de todo conflito, uma vez que vê o mundo dual (luz/sombra, bem/mal, eu/outro) como um estado caído da consciência.Para essa tradição, o mundo material — cheio de conflito, morte, limitação e oposição — é visto como uma ilusão ou prisão espiritual. E o objetivo da alma é, portanto, retornar à Unidade, transcendendo os opostos.Diante dessas visões, somos levados a reconsiderar a própria noção de paz. Seria ela a ausência de conflito — como deseja o pensamento hermético — ou a aceitação consciente de sua inevitabilidade — como propõe Heráclito?Se Freud nos alerta para a força dos instintos destrutivos, e Krishnamurti aponta para a urgência de uma transformação interior, talvez a resposta não esteja em uma utopia externa, mas em um caminho de autoconhecimento, no qual reconhecemos os opostos em nós mesmos.A paz permanente, então, pode não ser um estado definitivo, mas um processo dinâmico de integração entre os contrários — uma busca contínua por equilíbrio entre Eros e Thanatos, entre luz e sombra, entre o mundo como ele é e o mundo como poderia ser.Assim, a pergunta “É possível uma paz permanente?” permanece em aberto — não como um desafio a ser solucionado definitivamente, mas como um convite à construção de uma consciência que transcenda o conflito, sem negar sua presença no coração da existência.Imagem: sanfengshan Pixabay
DO CONFLITO AO CENTROA ausência de conflito é uma impossibilidade para a consciência egocêntrica.No convívio entre pessoas, é comum nos depararmos com o choque de vontades — seja por diferença de interesses, seja pela luta pelo mesmo objeto —, estando sempre presente uma tensão.A consciência egocêntrica quer o melhor para si e, assim, frequentemente está em disputa com os demais. Esse comportamento é inconsciente, automático.O conceito budista de vacuidade pode nos ajudar a lançar luz sobre essa questão. Vacuidade significa que as coisas são vazias de existência intrínseca — ou seja, não existem como entidades próprias e separadas de todo o resto. Mas isso não quer dizer que o vazio seja um nada. Quando se fala de vazio, queremos dizer que um objeto é vazio de algo.Tomemos o exemplo de uma árvore. Podemos dizer que a árvore é vazia de luz, se ela é banhada pelo sol? Podemos dizer que ela é vazia do ar que a envolve? Seria ela vazia do solo, dos minerais e da água da chuva? Seria a árvore vazia de tudo o que a cerca, se ela existe como uma manifestação intimamente interdependente do próprio cosmo?Do que, então, a árvore está vazia?Ela está vazia de uma existência separada de todo o resto.Da mesma forma, uma pessoa e seu mundo interior — seus pensamentos, sentimentos, desejos e ações — não existem de forma independente no mundo. No entanto, o ser humano acredita possuir uma existência própria e cria uma barreira mental em relação aos outros e a tudo o que o cerca. A consciência egocêntrica é a raiz dessa separatividade e, portanto, dos nossos preconceitos, condicionamentos e automatismos que geram incontáveis conflitos interiores e exteriores.Mas o eu não tem uma existência por si só. Por isso, Krishnamurti nos diz que não há um observador fora do que é observado, nem um pensador separado do pensamento. Quando evitamos, por exemplo, um sentimento que nos aflige, criamos uma máscara do que realmente somos — e fugimos do autoconhecimento.O que normalmente chamamos de quietude são apenas momentos ou horas de repouso. Somos dominados por uma luta diária entre forças opostas, ansiedade, preocupação e medo — movidos pela separatividade da consciência egocêntrica.Mas é possível uma paz permanente?Como colocado por Dzongsar Khyentse no livro O que não faz de você budista, ao compreender e vivenciar a vacuidade, continuamos a apreciar tudo o que aparentemente existe — mas sem nos agarrarmos às ilusões como se fossem reais. Nossa visão penetra as aparências e percebemos que elas são, antes de mais nada, criações do eu. A vida ainda pode nos emocionar: podemos sentir tristeza, ira ou paixão, mas, aos poucos, deixamos de buscar uma validação externa do nosso eu e abandonamos a busca incessante por uma felicidade que nunca chega.Por meio das experiências da vida — que nos levam à fadiga dessa luta interminável — começamos a perceber que nosso ser essencial, como a fonte no deserto de que nos fala Exupéry, nos oferece um alento de paz ao renunciarmos à luta externa.O ser real transcende as barreiras da separatividade e as ilusões do eu.Para o ser real, não há limites: tudo o que existe é Um.Podemos, assim, começar a quebrar as barreiras de separação no nosso coração e fazer escolhas impessoais, livres de luta, mesmo diante de dificuldades e conflitos — numa nova atitude de vida. E assim, cada qual no seu caminho, pode alcançar uma paz permanente — não no tempo, mas no presente vivo, neste instante, onde a eternidade toca nosso coração.Imaginemos a roda de samsara: no exterior, os conflitos são inevitáveis, pela impermanência — mas, ao nos movermos para o centro, através dos raios (como um caminho interior), essas tensões se reduzem, até que, no ponto mais profundo, o conflito cessa, pelo reconhecimento da dualidade autocriada da consciência egocêntrica.Só o centro da roda cósmica é imóvel: é o vazio do cubo que a faz girar (Tao).O centro é o motor imóvel, o eixo do movimento — dele tudo depende, embora ele mesmo não participe do giro. É silêncio em meio ao ruído, é presença em meio ao fluxo.A roda é a própria vida. Mas para onde devemos seguir?Permanecer na periferia, girando com as tensões do mundo, ou trilhar o caminho de volta ao centro — onde habita a paz, onde o Ser é pleno, livre e indiviso?Foto: João Castro - Islândia
Estamos todos trancadosPrisioneiros desde o nascimentoTodos nós nascemos em um corpo em busca de liberdade.Na maioria das vezes, não temos consciência disso, mas, se buscarmos profundamente dentro de nós mesmos, encontraremos vestígios disso ao longo de toda a nossa vida.Como nos momentos de suposta felicidade e alegria que, de repente, se transformam em desespero, tristeza e decepção se as coisas não saem como planejado.Ou quando queremos desistir ou recomeçar do zero e nos perguntamos: “Por quê?” “O que está acontecendo?”O oposto também acontece: estamos imersos em tristeza, inquietação, falta de alegria e, de repente, de algum lugar, surge uma pequena faísca de contentamento, completamente alheia às circunstâncias que estávamos vivenciando naquele momento. Novamente nos perguntamos: “Por quê?” “O que está acontecendo?”Mas a vida continua. Voltamos à chamada normalidade e seguimos em frente. Isso acontece muitas vezes, mas a própria vida é tão avassaladora — feliz ou triste — que logo nos esquecemos desses vislumbres. Mas será que os esquecemos mesmo?Será que essas experiências não retornam, mesmo que brevemente, de uma forma ou de outra, como lembretes?Lembretes de que estamos indo pelo caminho errado, na direção errada — de que talvez haja outro caminho?A doença também serve como um lembrete, quando longos ou curtos períodos de inatividade proporcionam a oportunidade (se soubermos aproveitá-los) de refletir sobre a vida — muitas vezes, sobre um fragmento importante dela.Será que, em todas essas experiências, estamos sendo lembrados de outro estado que pode penetrar nossa realidade atual e nos fazer recordar que somos prisioneiros deste mundo — dentro do nosso próprio mundo, dentro de nós mesmos?Encapsulados em uma realidade na qual nascemos, sobre a qual construímos nossa vida?Conforme a vida continua e as coisas se tornam cada vez mais sombrias ao nosso redor, talvez comecemos a nos perguntar, com mais clareza e frequência: será que existe outro caminho?Existe outra maneira?Talvez possamos começar a perceber o quão presos estamos quando somos lembrados periodicamente por esses fragmentos, vislumbres de outra realidade. Começamos a desejar não apenas os fragmentos, mas o que eles representam, o que nos convidam a buscar.Podemos começar a perceber que existe uma saída, outra oportunidade… uma maneira diferente de encarar a vida, de dentro para fora.Nossas atitudes, nossos sentimentos, nossos pensamentos. Nosso mundo e o que estamos fazendo com ele.Uma “saída de emergência”, bem aqui dentro de nós, dentro da nossa vida atual.Uma saída de emergência para uma realidade muito diferente, divina, que só pode ser aberta e acessada pelo nosso anseio.Nosso anseio por algo totalmente novo.Esse anseio está dentro de cada um de nós, profundamente escondido, apenas esperando.Olhe para dentro.Procure quando estiver pronto — e você encontrará.Foto: By Mirjam Aigner
A vida é sempre uma jornada para dentro de você mesmo. É uma aventura porque sempre nos confronta com o inesperado, o inusitado e, muitas vezes, o indesejado - com desafios que somente podemos vencer superando a nós mesmos. Se dermos uma olhada mais profunda em nossa vida, surge a questão: Quem é que vai nesta jornada?A jornada do imortalA maioria das pessoas gostaria de ter algumas experiências interessantes. No entanto, elas também anseiam por segurança. Crescimento e desenvolvimento, tudo bem – mas dentro de nossa zona de conforto, por favor. Desta maneira, estamos prontos para nos desenvolver e pôr à prova nós mesmos. Portanto, aquelas aventuras que parecem controláveis fornecem emoção. Há uma grande seleção delas, e cada um escolhe seu próprio grau de intensidade. Você prefere escalar uma montanha (o que não é muito difícil) ou prefere saltar de bungee jump? Uma viagem no deserto ou férias na praia com uma noite de música popular? Você prefere ler um suspense ou uma história de amor? Ou você gostaria de viver uma história de amor?Temos experiências, mas normalmente elas não passam de um conjunto de momentos interessantes, que são eliminados pouco tempo depois, já que não havia nada que realmente nos enriquecesse, apenas um pouco de tinta que ganhou vida e desbotou novamente. Será a nossa “normalidade” que cria essas crises?Fica mais interessante se olharmos o que está acontecendo no mundo. Podemos ver crises em todos os lugares. Há a crise climática, a crise ambiental, a crise dos refugiados, agressões crescentes entre Estados, Estados colapsando, alianças que estão se desintegrando. O que elas querem nos dizer? Será a nossa “normalidade” que cria essas crises? É possível que muitas vezes sejamos indiferentes às consequências da forma como vivemos, do que causamos devido aos nossos medos, desejos e ambições? Os problemas que não podemos perceber e resolver em nossa vida privada seriam refletidos em grande escala? Nossa vida privada muitas vezes não oscila entre interesses opostos? Nossos próprios objetivos conflitantes não nos levam a um estado de estagnação? Uma “crise” é uma situação decisiva que pode, se tomarmos a decisão certa no momento certo, ser um ponto de virada.A humanidade só pode agir de forma diferente em escala global se muitas pessoas estiverem prontas para se conhecerem e encontrarem os problemas em si próprias. Podemos chegar ao fundo de nosso ego? Precisamos perceber que, apesar da nossa inteligência, há muitas coisas que não queremos ver. Nossos corações estão muitas vezes blindados e indiferentes. Medos inconscientes causam muitos de nossos comportamentos e nos impedem de enfrentar as mudanças necessárias positivamente. Não nos conhecemos suficientemente e essa ignorância é mais profunda do que a que vemos em nossa vida exterior perceptível.O conhecimento de que algo está faltando só pode se desenvolver quando o que é temporal dentro de nós pode ser levado a um encontro com o eterno.Nossa vida em uma pequena escala pode nos ensinar muitas coisas necessárias. Muitas vezes é pelas dificuldades que superamos, ou mesmo pelas perdas que sofremos, que podemos emergir com mais força. Podemos ficar aliviados quando jogamos outra ilusão ao mar, mesmo que de início isso não tenha sido feito voluntariamente. Podemos ser fortalecidos porque experimentamos que uma perda não tirou nada de essencial de nós. Experimentamos uma liberdade inesperada, o começo de uma independência de coisas e circunstâncias, de desejos, medos e necessidades. Sobre o rio da vidaSempre que realmente nos envolvemos com pessoas e situações, isso pode ser iluminador e libertador. Aqueles que se atrevem a seguir uma situação de forma espontânea e rejeitam seus próprios planos de vida, ou mesmo deixam um caminho aparentemente bem planejado, irão descobrir novos lados dentro de si mesmos. Por meio de sua devoção, essas pessoas encontrarão em si mesmas uma profundidade da qual nada sabiam. Elas descobrirão que esculpir-se foi menos conveniente do que o que o rio da vida tornou visível. Então, alguma liberdade pode se desenvolver, por exemplo, o livrar-se da auto representação, de papéis pré-concebidos. Então, pode-se perguntar se o eu é definível e delimitável. A maior verdade não estaria no esquecimento de si mesmo, em cooperar com os outros?Nossa visão de vida é aguçada por meio de todas as nossas experiências. Estamos agora em busca de plenitude, amor, perfeição. A partir de agora fica difícil, pois a experiência de plenitude não pode ser mantida. Se tentarmos nos agarrar a ela, experimentaremos estagnação. Buscamos por amor verdadeiro e percebemos que estabelecemos condições e que cobramos de forma cruzada o dar e o receber. Queremos recuperar o primeiro grande avanço de sentimentos que transmitimos. É normal pensar que a vida (e os outros) nos deve algo. Mas será este o caso?Se buscarmos a perfeição, teremos que ser honestos conosco. Podemos fazer isso percebendo que somos um com nós mesmos em nosso pensamento, sentimento e ação. No entanto, existem muitos objetivos conflitantes dentro de nós. Gostaríamos de ter a segurança do nosso bem-estar e a liberdade de levar uma bagagem leve. Queremos ser um com todas as almas lá fora, mas permanecendo dentro de nossas quatro paredes… Gostamos de ajudar, mas baseado em quê e com quanto compromisso? Podemos ser verdadeiros, podemos ser bons? Um ser humano pode ser bom em tudo? “Ninguém é bom, nem um sequer”, disse Jesus. Essa frase soa como um alerta vermelho, que não vai, no entanto, impedir as almas de buscar.A vida sempre nos dá nossas aventuras em encontros inesperados, em relacionamentos que estabelecemos, em conflitos que aceitamos e por meio de experiências. As falhas podem, de repente, revelar um tesouro interior inesperado, que nos mostra um lugar no centro, no qual meu e seu, errado e certo se fundem em algo novo. Abre-se um caminho onde há confiança, onde se torna possível perder-se “a nós próprios” sem expectativas e onde somos transportados pelo desconhecido que nos espera no fim do caminho.O eterno em nós está viajando através do espaço e tempoComo seria a nossa jornada de vida se pudéssemos vê-la da perspectiva do eterno dentro de nós? Procuramos por “nós mesmos”; o eterno em nós quer se mostrar como o verdadeiro eu. Somos refletidos em pessoas e coisas; o eterno se reflete em nós – mas será que o entendemos? Buscamos a perfeição nas coisas efêmeras, mas elas são “apenas uma parábola” do eterno.Procuramos a unidade e nos deixamos acorrentar. Mas existe o imortal dentro de nós, que está conectado a tudo e quer se livrar de seus grilhões temporais. Temos um período de cerca de oitenta anos à nossa disposição; o eterno tem viajado pelo espaço e tempo desde tempos imemoriais. Estamos em separação. O eterno, entretanto, é uma parte integrante do universo divino; é um microcosmo, um pequeno universo, que quer chegar ao destino de sua jornada com a nossa ajuda. Isso significa que o microcosmo nos acompanha em todas as experiências que vivemos. Experimentamos uma vida de aventuras – mas a aventura do microcosmo, do eterno em nós – é o que realmente somos.Frequentemente, quando superamos perdas ou dificuldades, ou vivenciamos algo belo ou comovente, podemos ter um momento instantâneo de liberdade. Então, agimos sem medo, nos soltamos sem temer as consequências. No início é um processo de maturidade da alma. A partir daí, se desenvolve uma consciência da alma e há crescente abertura para o insondável, o eterno em nosso centro (e dentro de todos os outros!). Aprendemos a ouvir interiormente. O amor e a devoção ao eu divino podem crescer naqueles que prosseguem. Pela primeira vez, há percepção de que o eterno precisa do temporal, que passa por um desenvolvimento com a nossa ajuda. Um encontro consciente ainda não é possível, no entanto.Mas algo estranho está acontecendo. Todos os incidentes se tornaram um portão aberto. Se passarmos por ele, aproximamo-nos do eterno em nós, através de tudo o que constitui a nossa vida. Então, parece que tudo o que acontece quer se canalizar dessa forma.Ao mesmo tempo uma grande transformação começou em nossa consciência, em nosso pensamento e sentimento. Limites são abolidos. Medos, hostilidade e polaridade tornam-se mais fracos; a unidade em tudo se torna visível. Além do mais, essa unidade se torna a base de nosso pensamento e sentimento. Este é o início de uma transformação. Uma nova vontade vai crescer dentro daqueles que, consequentemente, seguem este caminho. Eles vão superar os velhos laços materiais. Essa nova vontade se torna uma fonte de forças vitais que nunca secará; será a porta para uma vida imperecível. Novas forças fluirão para todo o ser e o transformarão. Para o ego temporal, é uma forma de deixar ir, de se separar, de “perecer” e “elevar-se” no Novo que se aproxima. No final, é um renascimento do eterno em nós. Aqueles que seguem esse caminho tornam-se habitantes conscientes de dois mundos, ou seja, do eterno e do temporal. Existe aventura maior do que essa jornada?Foto: JL G via Pixabay
PazSe bebo da água frescado rio da vida —sem pressa,sem medo,em total ausência de conflito,na presença do sagrado —ali estou em paz.Mas…seria isso apenas um devaneio?Sem o silêncio,sem uma reflexão,sem um olhar atento,sem estender a mão,deixa-se escapar a vidana luta sem fim de todos os dias.É possível ir além?Existe saída?Uma voz tímidadiz: sim.É a voz da pura inquietação.E, por ela,e após longa jornada,chega-se à fonte da vida.E o seu frutoé a paz.Photo by Cristiane - Tocantins River, Amazon, Brazil
PONTO DE ATENÇÃOQual é o foco de minha atenção?Geralmente, a atenção surge como um ponto que gira em torno de si mesmo. É como se ela só pudesse se focar em um único por cada vez: em algo que eu vejo ou sinto, um pensamento, uma memória. É por isso que ela gira em círculos em torno de si mesma, caoticamente, em um turbilhão de pensamentos e sentimentos. Na verdade, meus olhos só conseguem ver claramente uma pequena parte do meu campo de visão. Como sempre examino tudo ao meu redor com os olhos, tenho a ilusão de que consigo ver tudo claramente, como se percebesse a totalidade. Mas, efetivamente, só tenho uma ideia do Todo - não estou vendo o Todo em realidade.É semelhante ao que acontece com os pensamentos. Em minha cabeça, só cabe um pensamento de cada vez - assim como quando eu leio ou escrevo. Minha atenção envolve um pensamento, algumas palavras ou conceitos. Quando falo, pronuncio palavra por palavra. Minha atenção está sempre limitada a um pensamento, uma memória, um sentimento: a uma parte muito pequena de toda a realidade.A partir disso, o cérebro tenta construir um Todo. Ele faz uma representação do Todo com a ajuda de minha memória, para que eu possa agir de forma razoavelmente significativa neste mundo do qual tenho uma representação, uma ideia. A representação se expande por meio da experiência e é assim que “aprendemos”.Com isso, meu ponto de atenção é muito caótico, não é mesmo? Ele se determina a partir de uma lasca, umafração de tudo - e até da realidade daquilo que “sou eu mesmo”. É como se eu quase nunca estivesse completamente comigo mesmo. Sim, que tagarelice é essa dentro da minha cabeça? Não seria um estreitamento da consciência, uma limitação? Esse pequeno ponto de atenção é espiral! Será que tenho controle sobre ele? Isso me faz feliz? Afinal, qual é o núcleo de meu ser? Quais são suas principais forças determinantes? Minha atenção não seria determinada pelos objetivos de todos os meus desejos e necessidades? Aspiro a alguns objetivos futuros e quero tentar alcançá-los com pensamentos e ações. Meu ponto de atenção fica sempre examinando ao redor para determinar sua posição - e também sua oposição. Nos animais, reconhecemos esse ponto que precisa estar constantemente vigilante para sentir se está seguro ou para descobrir onde há comida. Nesta vida natural, observamos um processo de desenvolvimento da consciência tanto nas plantas como em animais e seres humanos. Foi assim que a consciência se desenvolveu na consciência do eu que sou agora.Minha atenção sempre reflete um fragmento do Todo. Mas, que tal se agora eu tentar não fixar minha atenção em um pensamento, em uma palavra ou em uma outra coisa qualquer, e apenas ouvir o silêncio interior e perceber que tudo é, que eu sou? O que acham de eu fazer isso sem nada saber, sem nada entender, e permanecer imóvel, maravilhado, em plena quietude, voltando meu olhar para dentro - para a fonte de minha consciência, para todas as consciências e todas as vidas?Prestar atenção no Todo! Só assim a consciência conseguirá despertar a partir da centelha divina, una com a fonte de tudo. Os rosa-cruzes clássicos chamam essa centelha de “átomo primordial”. Em seu livro sobre a Pistis Sophia, J. van Rijckenborgh descreve uma atividade muito especial, no capítulo sobre o átomo primordial e o que acontece quando somos capazes de focar continuamente nossa atenção nesse átomo primordial. Quando nossa consciência se concentra na centelha divina que reside em nosso coração, aquela pepita de ouro que é a fonte de tudo, que é nossa conexão com o Todo e com todos, então vai crescendo em nós a compreensão de que tudo está simultaneamente em todos os lugares.É por isso que todo pensamento ou interpretação de nosso ego perturba essa compreensão. Então, somos tocados e vivenciamos algo que não pode ser expresso em palavras - algo que surge de um profundo anseio no qual nossa atenção já pode mergulhar, para que possamos crescer e nos tornar mais fortes. É aí que a centelha se transforma em puro fogo!Agora percebo que tenho de me render, deixar tudo para trás, para desaparecer nessa fonte. A fonte se apresenta como o próprio Amor! Assim, nos vemos diante do portão onde o Eu desaparece e tudo o mais se revela - sentindo o imenso anseio pelo Uno, por esse Uno que reconhecemos em um amoroso abraço. Agora, nossa consciência consegue se transformar em um lago sem ondulações, onde a Luz pode se refletir. Então, a Luz nos toca e nos tornamos unos com ela. Aspirem ao Amor, entreguem-se ao Amor - como se fosse uma inspiração e uma expiração! Lentamente, haverão de se tornar conscientes de um duplo fluir de energia. “Tudo receber, tudo ofertar”. Essa consciência florescente, que percebe que “tudo é ao mesmo tempo e está simultaneamente em todos os lugares”, é o Amor!Muitos testemunhos místicos de várias tradições falam de um “sair do tempo”. Por exemplo: Krishnamurti frequentemente fala do “fim do tempo”. Ele vê isso como um futuro para a humanidade. O Eu percebe sua limitação e sabe que precisa morrer - sair da limitação do ponto solitário e giratório de sua atenção. Agora, ele observa que está no limiar da “plenitude”, na rendição. Trata-se da reversão da consciência, o ponto de virada. No livro O Verbo Vivente, de Catharose de Petri, lemos a história dos peregrinos de Emaús, após a crucificação de Cristo e de sua ressurreição. A consciência solitária e abandonada não consegue compreender, não consegue entender que não há mais forma e que a consciência-eu já não tem qualquer controle. Mas Ele, “o ressuscitado”, é reconhecido interiormente pelo Amor, pelo partir do pão, pelo ato de dar. Portanto, a única bússola que possuímos é o reconhecimento da centelha do Espírito, que é o Amor. Deixem que ela cresça a partir de sua própria atenção, a partir da fonte do próprio Amor! Dessa forma, o sentimento do Eu se desfaz e a gota se dissolve no oceano. Deixem tudo para trás e mantenham apenas o Amor.Imagem: Rochelle-Lee-on-Unsplash CC0
SILÊNCIOMomento em que tudo vai desaparecendo aos poucos– quando até eu me desvaneço –e uma quietude pacífica vai chegando,oculta por tantas eras.É o momento em que o corpo dói– tecido por lágrimas no caos do mundo –e a alma emerge, em busca da Luz.As formas vão se desfazendo com a respiração.A mãe já não é mãe,o pai já não é pai.Seus filhos já não são seus.Os papéis sociais vão ficando transparentes como vidro.Passos ressoam no vazio.O chão de pedra debaixo de seus pés perde o significado, suaviza-se.Quando seu corpo sente como se fosse parte de todos os oceanos domundo,o conforto se manifesta a partir de dentro, como uma prece de despertar.Só então você pode fechar suavemente os olhose sentir a vida — o chamado divino dentro do Silêncio.Photo: ameera on Unsplash CC0
UM DESEJOPegue um desejo e queime-o,o Universo sussurrou suavemente.Qualquer um? — ela perguntou.Sim, basta escolher; você não precisa saber qual. Do fundo de sua alma, ela tirou um pequeno pedaço,pequeno, verde, quase invisível.Ela o incendiou e o observou desaparecer.Ele encontrará alguém que dele precise? Se isso acalma seu coração - respondeu o Universo.Posso queimar todos os meus desejos?Você pode queimar todos - ele respondeu calmamente.E o que restará de mim? O momento em que você está,inteira e completa, aqui e agora.Só um momento?Sim, só um — mas dura para sempre. O agora dura para sempre, ela sussurrou,enquanto as cinzas se dissolviam no ar.Oh, como a neve cheira divinamente,ela pensou, tornando-se neve. Photo: Clint McKoy on Unsplash CC0
A ALEGRIA VIVEA alegria viveporque a vida insiste na alegria —a que vem de dentro,da fagulha divinaque arde no coração.A alegria sussurra —Canta baixinho,às vezes só no peito,como um segredoentre o coração e o tempo. Ela se escondeNas frestas da manhã,no cheiro do pão,na xícara quente,na risada que escapa sem pedir licença. É tímida, agora.Mas não foi embora.Anda descalça por entre os escombros,recolhendo pedaços de belezaque o mundo esqueceu. Ela mora no toque leve —na palavra certa,no abraço sem pressa,no olhar que diz:“eu te vejo”. E quem a cultiva...mesmo cansado, mesmo ferido,faz do mundo um lugaronde a vidaé uma teimosia feliz. E em cada canto onde ela passa,acende uma luzpequena,mas viva!Foto: klimkin in Pixabay
CAMINHANDO DESCALÇO, AO ENCONTRO DO SOLQuem procura, acha! “Quando o mundo já tiver despertado de seu sono de embriaguez por ter bebido da taça envenenada, o ser humano irá ao encontro do Sol Nascente, ao raiar do dia, com o coração aberto, a cabeça descoberta e os pés nus, jubilante e transbordante de alegria”. [1].Este grito de júbilo na profissão de fé dos rosa-cruzes alemães do século 17 (in Confessio Fraternitatis, 1615) é a expressão da superação total do sentimento de sermos estrangeiros neste mundo tão marcado pela indiferença, pelo ódio e pela inveja. Como chegamos a essa afirmação? O mundo atualVamos dar uma olhada em nosso mundo.A Terra e sua atmosfera estão sendo cada vez mais exploradas pelo ser humano. Qual o resultado? Catástrofes, tempestades e perdas dos meios de subsistência. Por que parecemos ser incapazes de mudar fundamentalmente nosso comportamento? Será que a humanidade se embriagou com uma taça cheia de substâncias tóxicas e entorpecentes e está difícil acordar dessa embriaguez? Ou o ser humano é um corpo estranho nesta Terra, alguém que não consegue se encontrar e por isso causa danos e prejuízos?Essas perguntas ocuparam a mente de gerações de filósofos, políticos e pessoas comuns – e continuam a ocupar até hoje. E, a cada dia que passa, elas exigem uma resposta cada vez mais urgente. Muitos sábios e fundadores de religiões apontaram caminhos, encontraram e divulgaram suas explicações. Agora, novas teorias tentam dar uma resposta para elas. Estudiosos ainda disputam a autoria da “resposta certa” e vivem se debatendo sobre esse assunto. Em toda a História mundial, inúmeros pensadores testemunharam a questão da existência humana aqui na Terra, mas, mesmo assim, não chegaram a um consenso.Será que precisamos encontrar a solução dentro de nós mesmos? Gostaria de tentar descrever como lidei e ainda lido com meu sentimento de ser “estrangeiro” levando a vida em diversos continentes. Durante minha juventude, fiz minha formação e completei meus estudos na Alemanha. Já me sentia um estranho com minha família e meus amigos. Isso se intensificou durante algumas estadias no exterior. Nos anos 60, fui confrontado com os traumas ainda presentes do Terceiro Reich, sentindo parte de uma culpa coletiva pelo fato de ser alemão.Eu até conseguia entender e compreender isso. Mas a pergunta “Por quê?” foi ganhando força em minha consciência. Por que camadas inteiras da população se sentiam seduzidas por governantes demagógicos? Por que havia guerras e desigualdade no mundo? Por que havia opressão contra as culturas e as populações do chamado “Terceiro Mundo”? Tanto os discursos da sociedade como também os ensinamentos da Igreja na qual fui criado não me davam respostas satisfatórias para essas perguntas. A Teosofia e Antropologia também não satisfaziam minha busca interior e minhas perguntas. Minha busca no OrienteFoi assim que meu caminho me direcionou para as filosofias e religiões orientais. Mas ainda restava uma pergunta: Como é que filosofias tão elevadas e sábias, especialmente na Índia e na China, não foram capazes de superar a miséria, a fome e a opressão, mantendo, por exemplo, o sistema de castas? Por que esses mecanismos sociais foram e são dominantes e determinantes, tanto no passado como no presente?Logo comecei a estudar o Bhagavad Gita, a praticar ioga e meditação, a estudar o budismo etc.. Tudo isso despertou em mim a necessidade de conhecer e vivenciar diretamente a realidade da Índia – não como turista ou hippie, mas utilizando todos os conhecimentos e possibilidades profissionais que adquiri, além de concretizar meu desejo de contribuir para aliviar o sofrimento e cumprir minha vontade de encontrar autoconhecimento e dar respostas para minhas perguntas internas.Tive a oportunidade de trabalhar e viver no Nepal. Uma imersão profunda na cultura, nos costumes, nos comportamentos e na língua me ajudou a superar meu sentimento de “ser estrangeiro”, pelo menos no contexto exterior desse ambiente. No entanto, durante muito tempo não consegui encontrar uma resposta para as questões fundamentais sobre o que significa “ser estrangeiro neste mundo”. No que diz respeito às circunstâncias externas da vida, sentia-me cada vez menos “estrangeiro” e apenas mais “diferente”. Mas só consegui encontrar uma resposta para minhas perguntas mais íntimas depois de uma longa busca: uma busca que se deslocou para o meu interior.Durante esse período, pude observar manifestações exteriores do colapso das normas, dos comportamentos e da religiosidade. Muitas tradições seculares foram questionadas e rejeitadas em nome do “progresso”. Era evidente que as pessoas estavam buscando algo novo. Aconteceram – e ainda continuam a acontecer – os conflitos sociais, o desmoronamento das famílias, as transformações estruturais da sociedade. Como contramovimento, agora muitos se agarram ao que é tradicional. No entanto, eles se deparam com a questão: “Será que estamos seguindo formalidades e aparências enquanto o conteúdo espiritual interior está se tornando cada vez mais raro?” Isso coincide com as declarações de Krishna em sua conversa com Arjuna, que ocorreu há alguns milhares de anos e é relatada no Bhagavad Gita:“Os insensatos se apegam aos Vedas por causa do que podem usufruir a partir das cerimônias que ali estão descritas. Por isso dizem: ´Não há nada mais perfeito do que os Vedas!´. Mas eles conhecem somente uma série de rituais que lhes proporcionam riquezas e uma reencarnação feliz. O fato é que eles não têm um conhecimento firme a respeito da alma e são pouco inclinados a fazer meditação. Portanto, liberta-te dos pares de opostos! Livra-te da ansiedade mundana e do desejo de preservar teus bens atuais!” [2] Essa afirmação de Krishna não é idêntica ao que a Bíblia nos pede?(...) “e, quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de orar em pé e nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelas pessoas. Em verdade vos digo que eles já receberam plenamente sua recompensa. Mas tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará. E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque pensam que pelo seu muito falar serão ouvidos. Não vos assemelheis, pois, a eles; porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes de vós lho pedirdes ”. [3].O intercâmbio com amigos nepaleses, indianos, europeus e americanos intensificou minha busca espiritual. Nessa época, tive acesso aos sutras de meditação do budismo Mahayana. O Sutra do Coração e o “Sutra do Sexto Patriarca” exerceram uma forte atração espiritual sobre mim. Têm uma força que vai além das pujas e rituais normais dos templos. De volta à EuropaAlém disso, entrei em contato com a filosofia, o modo de vida e os ideais dos cátaros do sul da França e com os manifestos da Fraternidade Rosa-Cruz do início do século 17. Foram os cátaros que redirecionaram meu interesse para a Europa. O estudo desses manifestos e de outros escritos sobre o impulso da Rosa-Cruz tornou-se para mim uma orientação duradoura para o resto da minha vida. A confrontação com as circunstâncias externas da vida no Nepal, na Alemanha e em outros países onde morei tornou-se secundária diante do caminho espiritual. O fato de me sentir “estrangeiro” no dia a dia, em termos sociais, culturais, políticos e outros, perdeu seu significado. O foco nos processos de transformação da alma descritos na Fama Fraternitatis, na Confessio Fraternitatis e nas Núpcias Alquímicas de Cristão Rosa-Cruz levou cada vez mais a um reconhecimento do que “não é deste mundo”. A crescente conexão com o “Outro” dentro de mim, a fonte criativa que age a partir das profundezas, substituiu meu sentimento de ser “estrangeiro neste mundo”. Em seu lugar, surgiram a paz interior e o silêncio: um “retorno ao lar”.O conhecimento interior tornou-se uma imensa alegria e um forte impulso para ajudar as pessoas que ainda estão em seu caminho de busca. O Conhecimento (Gnosis), que foi crescendo aos poucos, também me conduziu a uma alegria e felicidade cada vez maiores. O sentimento de “ser um estrangeiro no mundo” abriu-me a porta para o caminho de volta para casa. E a busca de décadas permitiu-me ir ao encontro de um Sol que brota de meu íntimo “com o coração aberto, a cabeça descoberta e os pés nus”, tal como os rosa-cruzes clássicos expressaram em seu grito de júbilo, na Confessio Fraternitatis.Photo: foot-Bild-von-Cinthya-Liang-auf-Pixabay CCO
OLHAR DA CONSCIÊNCIAUm novo olhar para si mesmo, para a humanidade e o mundo à sua volta Pela perspectiva temporal, no grande filme de toda existência, a vida de cada indivíduo é apenas uma breve cena. Tudo é sempre renovado. A cada instante, nosso corpo muda, tudo ao nosso redor muda – e são mudanças que, na maioria das vezes, não percebemos de imediato.Talvez você já tenha se perguntado: “Será que esse processo de constantes mudanças está me fazendo evoluir?” A resposta para essa pergunta é quase desconcertante: para evoluirmos realmente, precisamos perceber que há um abismo entre o estado humano natural e sua meta de transformação — o estado humano-divino. Afinal, olhando de cima, de fora do tempo, observamos que o ser humano é um pensamento divino, sem começo nem fim.Porém, nosso estado humano natural é marcado pelo egocentrismo — e a condição egocêntrica é fechada em si mesma. Para evoluir de forma real, mais do que as mudanças externas advindas dos intermináveis ciclos naturais, precisamos observar nossos automatismos egocêntricos em um processo diário de autoconhecimento, até que eles se dissolvam aos poucos. Sem isso, apesar das aparentes mudanças, apenas repetiremos velhas cenas. A despeito das constantes mudanças em tudo e em todos, algo em nós é permanente e nos dá a sensação de sermos os mesmos durante toda a vida. Talvez você já tenha se perguntado: “O que em mim é permanente?” A resposta pode surpreender: o núcleo da consciência – ou seja, a faculdade de perceber a si mesmo e o mundo ao redor - é algo que sempre está presente.No entanto, há uma confusão comum a todos nós: frequentemente, tomamos como nossa identidade o produto de nossas faculdades criadoras naturais – e, com isso, deixamos de notar que aquilo que realmente nos identifica, e é permanente, é a própria faculdade de percepção e sua contraparte: um núcleo supra-humano em nosso coração.E quais são essas faculdades naturais que dirigem nossas vidas cotidianas? Nosso pensar, querer, sentir, desejar, reagir e agir. Seus produtos — nossos pensamentos, intenções, sentimentos, desejos, ações e reações — passam a ser confundidos com quem somos. Dessa identificação nasce a falsa ideia de que a nossa identidade, que muda constantemente, é que determina todo o nosso estado de vida. Assim, perdemos o presente vivo e nos prendemos ao passado ou ao temer do futuro.Por um momento, olhemos para nossa faculdade de percepção: quem ou o que a dirige? Se formos honestos, reconheceremos que ela está aprisionada aos produtos das faculdades internas criadoras (pensar, querer, sentir, desejar, reagir e agir), e não se deixa conduzir por seu polo universal, a centelha supra-humana que é nosso verdadeiro Eu.Como mudar essa situação? Como permitir que a vontade supra-humana nos conduza, ao invés da velha vontade autocentrada? A resposta está em um processo de desconstrução e reconstrução. Precisamos mudar o núcleo de nossa consciência, dissolvendo pouco a pouco todos os nossos apegos centrados em nós mesmos. Em resumo:é necessário permitir que a nova consciência, límpida como uma superfície cristalina, receba livremente as influências cósmicas, sempre renovadas e transcendentes, do Espírito. Afinal, apesar de muitos ainda desconhecerem, o ser humano carrega em si uma centelha do Espírito divino. Ativar esse núcleo, essa semente no coração, e pautar sua vida por ela, é o início de uma verdadeira evolução. Esse é o caminho da evolução que nos transforma de seres humanos naturais em seres realmente humanos-divinos. Por isso podemos dizer, sem risco de engano: o primeiro passo desse caminho é reorientar nosso olhar, elevando nossos olhos para o Espírito. Toda a mudança virá a partir desse momento, mas não acontece em um piscar de olhos. Essa reorientação é cotidiana: é um processo que dura toda uma vida.Se o processo dura a vida inteira, então cada instante é uma oportunidade. Não se trata de uma espera passiva, mas de um despertar ativo — um convite a estar presente, a observar-se sem ilusões e a agir a partir do que é verdadeiro. No silêncio entre um pensamento e outro, na pausa entre uma ação e a próxima, lá está ela: a centelha. Paciente. Chamando. Cabe a nós ouvir. A jornada da consciência não é uma linha reta, mas uma espiral: revisitamos os mesmos desafios, porém em níveis cada vez mais profundos. O que antes era apenas um vislumbre do divino em nós pode, com persistência e entrega, tornar-se o centro gravitacional de nossa existência. Não há "chegada", mas há transformação. E nela, o paradoxo: ao nos esvaziarmos do que é transitório, encontramos o que permanece; ao nos perdermos do falso eu, reencontramos nossa essência. No fim — que não é um fim, mas um recomeço — restará apenas o essencial: o olhar da consciência, límpido e livre, refletindo a luz que nunca se apaga.Imagem: mailanmaik Pixabay
ONDE MORA A FELICIDADE“A felicidade mora num mundo pequeno seu e não naquele grande que faz você se perder demais” (Fernanda Mello)A felicidade tem muitas formas e aparências. Existem felicidades grandes e pequenas, suaves e arrebatadoras. Muitos consideram que a felicidade é o principal objetivo da vida e que todos têm direito a ela.As felicidades que existem neste mundo moram em casas suntuosas e em casebres, e às vezes, não tem onde morar. Andam a pé, de ônibus, nos trens apertados e em jatos particulares. Podem vestir roupas finas ou simples andrajos, comer bem ou se contentar com apenas um pedaço de pão. No entanto, todas essas felicidades são, em sua essência, absolutamente iguais, independente da condição social ou econômica. As felicidades andam de braços dados com diversos parceiros, como um trabalho desafiador, um casamento feliz, fama ou poder. Alguns dizem que elas gostam particularmente de dinheiro, apesar de muitas pessoas assegurarem que isso não é verdade. As felicidades tendem a ser passageiras e duram tanto quanto permanecerem os motivos de suas existências. Quando o dinheiro acaba, o emprego é perdido, desaparecem a fama e o amor, as felicidades entristecem de imediato. A felicidade que utilizava um carro último tipo será completamente infeliz ao andar de ônibus. Mesmo as felicidades duradouras acabam por encontrar um adversário poderoso, a rotina, que leva ao tédio e as consome lentamente. Assim, as felicidades nunca estão satisfeitas consigo mesmas e sempre almejam a grandeza e a sofisticação. As felicidades andam sempre com suas irmãs, as infelicidades, com as quais compartilham a essência do que é transitório e perecível. Rodopiam pelas nossas vidas, planejando ilusões e desilusões, e construindo castelos de cartas e de areia que, desde o princípio, estão destinados ao desmoronamento. Nós seguimos os caminhos sinuosos e os altos e baixos que as felicidades e as tristezas nos reservam, até um momento de saturação em que nos perguntamos se não existiria uma Felicidade verdadeira e duradoura, que não dependesse de valores externos e fosse plena e completa em si mesma.Quando ansiamos por essa invulgar Felicidade, ela pode surgir em nossas vidas como uma lembrança ou uma voz interior, que nos convida a silenciar o turbilhão de nossos pensamentos e desejos, e conectar nossa essência mais profunda. E então, no âmago de nosso coração, encontraremos a morada dessa verdadeira e singular Felicidade que jamais nos abandonará.Foto: By Chikilino - Pixabay
Chegou o momento de reconhecermos, aceitarmos e integrarmos um aspecto muito frutífero de nossa realidade.DUAS CONSCIÊNCIAS - OU SERÃO TRÊS?Talvez todos nós saibamos que temos duas consciências. É comum dizer “Tenho duas opiniões sobre isso” ou “Não tenho certeza ou não estou convencido”. Nesses momentos, parece que há duas linhas em ação. Uma delas opera no presente. A outra questiona, discorda ou oferece uma alternativa. Traz outra perspectiva, seja ela positiva ou negativa, que podemos seguir, considerar ou simplesmente ignorar.Podemos vê-las como expressões do consciente e do subconsciente. A mente consciente é dedicada à realidade de agora. Já a mente subconsciente, geralmente, está relacionada a memórias passadas, preocupações e ansiedades.Carregamos ambas, aprimorando-as ou prejudicando-as ao longo da vida, muitas vezes sem percebermos.Mas, de vez em quando, e todos nós passamos por isso, em meio a esse caos de pensamentos, vivenciamos uma terceira compreensão se insinuando, talvez alertando-nos ou convidando-nos para um passo adiante. Ela pode se manifestar como uma impressão que surge do nada, uma ideia repentina ou mesmo como uma lembrança.Há a sensação de uma desconexão, como se tal compreensão não pertencesse nem ao presente, nem ao futuro ou ao passado. Talvez possamos relacionar isso com algo proveniente do “in"consciente, ou “super"consciente. Ou como uma intuição. Algo que parece não nos pertencer, mas que sempre esteve lá para nos guiar, orientar e garantir nossa segurança. Uma influência que permeia as outras consciências, mas tem origem diferente.No caminho espiritual, esse conceito é bem compreendido – uma influência que não provém dos reinos terrenos, mas está muito envolvida com estes. Um conceito ou realidade divina original que interpenetra outras. Uma possibilidade sempre presente.Chegou o momento de reconhecermos, aceitarmos e integrarmos essa terceira consciência como um aspecto frutífero e essencial de nossa realidade.Que possamos permitir que essa transformação aconteça!Imagem: by Steve Johnson on Unsplash CC0



























