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Author: Mariana Cobuci e Rodrigo Moretti

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Description

Cartas ouvidas por quem não as recebeu,
desde que lidas por quem não as escreveu
42 Episodes
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1942. João Cabral estava apavorado com a ideia de lançar o seu primeiro livro, "Pedra do sono". "Sinto que não é esta a poesia que eu gostaria de escrever", afirmara em carta a Drummond, que lhe responde estimulando-o a publicar os poemas mesmo assim.
Carta-poema de Ricardo Domeneck, em que o escritor elabora sua paixão pela família Tarkóvski, à luz da memória de sua própria família. "Compramos com poemas              e filmes nossa memorabília, a nossa e de nossa família,        nas lojas de lembranças                        da História,               essa madame retroativa,     inimiga das notas-de-rodapé?                              Eu – aqui, vivo – obceco-me por familiares mortos        nem sequer meus,       mas sem ter os seus dons e suas dádivas, hesito, não sei, duvido                 que terei a força para descrever     e lançar no colo da madame                   dos efeitos retroativos          a adoração expectante                 que eu anônimo sentia     quando minha própria mãe anônima                 emergia do quarto em sua camisola     – azul-marinho, pontilhada de branco –"
Nietzsche (1844-1900) escreve ao compositor e amigo Peter Gast (apelido de Heinrich Köselitz, ganho de Nietzsche), quando teve a visão do Eterno Retorno ("Ewige Wiederkunft") — um de seus principais pensamentos, divisor de águas em sua obra e em sua vida. "Gosto dessa carta porque Nietzsche narra seu entusiasmo físico, sua inspiração corporal, ao mesmo tempo em que faz as pazes com seu passado e reconhece sua missão futura", diz Fernando Velasco, leitor e tradutor da carta. "É como se a visão do Eterno Retorno de todos os instantes da vida, em um tempo circular, tornasse seu corpo forte o bastante para superar dores antigas e encarar provações futuras: uma redenção terrena, por assim dizer." No entanto, a carta não nomeia vez alguma o Eterno Retorno. "Nietzsche faz questão de esconder o jogo", comenta Velasco, "como se estivesse se esforçando para manter a calma".
O que Vovó Adelaide quer dizer para Adelaide? "Adelaide de Queiroz e Silva nasceu muitos anos atrás, no agreste pernambucano, teve 16 filhos com vovô Raimundo, que era pequeno agricultor e organizador comunitário em Gravatá do Jaburu. Vovó é costureira aposentada e, apesar de só ter frequentado a escola até a quarta série, é uma das leitoras mais vorazes que conheço." — Adelaide Ivánova, ativista, poeta e autora do retrato de Vovó.
O filho que não dá notícias à mãe. Há perto de quarenta dias não lhe escreve uma linha. Mas uma história de Bismarck e um fidalgo italiano ajuda a explicar.
Em 1957, ao amigo Mário Carneiro, que está na Europa, o pintor e gravurista Iberê Camargo fala da dificuldade de compor, do quanto lhe custou sua última pintura: "Sinto-me só e ignorante diante da tela, como um estudante de belas-artes". Menciona ainda uma gripe asiática que o acometeu, e as últimas novas do Brasil, como o almirante Pena Boto, militar alucinado que preside a "Cruzada Brasileira Anticomunista".
"Fallei-te sempre e sempre com a mão no coração — se algum dia eu morresse moço ainda [...] ha em algumas das minhas cartas a ti uma historia inteira de dous annos, uma lenda". O poeta Álvares de Azevedo (1831-1852), dois anos antes de partir, escreve ao seu amor, Luiz Antonio da Silva Nunes (1830-1911), uma parte mais da história, uma parte mais da lenda.
Em 1971, a estilista e oponente pública da ditadura brasileira Zuzu Angel recebe a notícia da tortura, execução e desaparecimento do filho, Stuart Angel Jones. Esta carta é sua resposta a Terezinha Leal de Meirelles (esposa de Homero Leal de Meirelles, general comandante à época), que também perdera um filho (naturalmente, não executado) e escreveu a Zuzu Angel para prestar condolências, embebidas da mais bem-intencionada ruminação sobre os insondáveis "desígnios de Deus".
Filósofo, sociólogo, historiador e co-fundador do Partido Comunista Italiano, Antonio Gramsci foi preso pelo Fascismo no final de 1926, aos 35 anos. Esta carta, de 1929, em que evoca Giulia Schucht (sua esposa) e Giuliano (seu caçula), endereça ao primogênito, Delio. Acantonado da família e dos amigos, Gramsci está prisioneiro em Turi (província de Bari) e recém começou a redigir aqueles que virão a ser os históricos "Cadernos do Cárcere". 
Como narrar uma viagem? Que cenas, anedotas, que postais eleger? Quanto fica na paisagem da memória daquele que viaja e, portanto, não permanece? Tudo isso comparece nesta carta em duas partes, que Cortázar escreve ao casal de amigos Eduardo e María de Jonquières, em 1952. A Eduardo conta de Paris. Para María fala de Roma.
A escritora portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen escreve ao amigo e poeta Miguel Torga. Fala "daqueles dois dias em que esteve no Porto" e manifesta esperança de que ele venha visitá-la, na Praia da Granja, "o sítio do mundo de que eu mais gosto".
1516. Thomas More, o autor da 'Utopia', queixa-se com seu amigo e editor Pieter Gillis. Conta do pouco tempo disponível para escrever o livro, porque "é preciso dar total atenção aos teus companheiros de vida, sejam os que a natureza proveio, sejam os que o acaso produziu, sejam os que escolheste, a quem tratas com a maior amabilidade, mas sem que teu companheirismo os corrompa". E com a obra pronta para ser editada por Gillis, More no entanto desconfia: "eu mesmo ainda não sei muito bem se ela será de fato publicada, porquanto são tão variados os gostos dos mortais, tão difíceis de contentar o caráter de alguns, tão desagradáveis os espíritos, tão absurdos os juízos [...] há a quem só agrade o que é antigo, e à maioria, apenas o que é seu. Este é tão severo que não admite brincadeiras; aquele, tão insulso que não suporta o sal." A carta viria a tornar-se prefácio de numerosas edições da 'Utopia' e surgiria já na primeira delas.
Junho de 1880. O pintor escreve a seu irmão Théo: "Meu Deus, como é belo Shakespeare. Quem é misterioso como ele? Mas é preciso aprender a ler, como é preciso aprender a ver e aprender a viver."
1917. Esta carta que você ouvirá, Rosa Luxemburgo a escreve da prisão para Sonia Liebknecht, sua amiga e irmã de Karl Liebknecht. Como ele, Rosa fora expulsa do Partido Social Democrata Alemão e, pouco depois, presa. Defendia o fim do financiamento da Primeira Guerra pelo governo alemão. Discursava a favor da desobediência civil dos militares contra o exército nacional. Custaram-lhe a liberdade. Rosa, no entanto, parece encontrar alguma serenidade interior e procura narrá-la a Sonia.
Em 1910, Stanislavski adoece. Então, seu parceiro de trabalho Nemirovich-Danchenko escreve a Maria Lilina, atriz do Teatro de Arte de Moscou e esposa de Stanislavski -- evocado nesta carta com seu nome de nascimento: Constantin Sergeevich. Danchenko fala de seu imenso vínculo, por vezes até hostil, com o diretor, e externa o dilema da trupe: será possível levar adiante uma encenação de "Hamlet" sem que o mestre esteja presente?
Em 76, Jorge Amado e Zélia Gattai estão vivendo na Inglaterra, quando chega esta carta de Dorival Caymmi, que está em Salvador e pede aos amigos, "quando vierem, me tragam um pano africano, para eu fazer uma túnica e ficar irresistível". E lamenta a saudade: "Não é inglês, nem nada, que faz em Londres? Um bom filho da puta é o que ele é, nosso irmãozinho."
Quando o compositor Erik Satie escreve a Fernand Le Monnier, parece nos lembrar de algo obliterado em nossa educação sentimental: só grandes amigos podem ofender-se com essa sofisticação.
Nora Barnacle está em Trieste, na Itália. Seu marido, James Joyce, lhe escreve de Dublin. Irá encontrá-la, mas antes, esta carta. Uma das mais salazes da História. Reproduzindo Caetano W. Galindo, ao referir-se à correspondência do casal, reunida em livro: esta é "uma via de acesso a um compartimento profundo e rico da vida sentimental de um grande reelaborador de sentimentos e vidas. É chegar mais perto da fonte."
Nise da Silveira dedicou sua vida a defrontar a desumanidade de tratamentos -- como o eletrochoque -- na psiquiatria tradicional. Foi reconhecida, inclusive por Jung, por examinar as possibilidades terapêuticas da expressão artística -- como a pintura. Além disso, investigou de que maneiras o convívio com bichos domésticos pode nos fazer um bem danado. Esta carta quem escreve é "seu" gatinho Leo -- para Beatrice, gata "de" Marcho Lucchesi. P.S.: O felino na foto não é Leo. É Carlinhos. Importante notar.
Pela primeira vez na vida, o professor de música, escritor e historiador de arte Mário de Andrade está no Rio. 1923, ano seguinte à Semana de Arte Moderna, da qual foi motor e fulcro. Agora perto do mar, declinará de cada compromisso -- veio pular o Carnaval. Mais tarde vai escrever a um amigo, Manuel Bandeira, precisa lhe falar do baque, da farra, de tudo que perdeu lá -- e pede perdão. Seria -- não pôde ser -- com Bandeira um de seus compromissos. No mesmo ano, Mário escreve "Carnaval Carioca", poema que dedica, naturalmente, ao amigo.
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