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Padre Pedro Willemsens - Meditações
Padre Pedro Willemsens - Meditações
Author: Padre Pedro Willemsens
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© Padre Pedro Willemsens
Description
Meditações do padre Pedro Willemsens, do CEAC (Brasília - DF), sobre diversos temas (doutrina católica, temáticas da fé, virtudes, aspectos da vida humana, dentre outros).
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Quantas vezes Deus já esteve diante de nós sem que percebêssemos? Às vezes basta descobrir um detalhe para que tudo mude, como entrar numa casa comum e só depois perceber que se trata da residência oficial do prefeito. O lugar continua o mesmo, mas os olhos passam a enxergá-lo de outro modo. Assim também acontece na vida espiritual: Deus está presente na rotina, no trabalho, nos estudos, nas tarefas domésticas e nos encontros de cada dia. O grande desafio é aprender a reconhecê-Lo. Foi essa luz que São Josemaria recebeu em 2 de outubro de 1928: a santidade não está reservada a quem abandona o mundo, mas pode ser encontrada justamente no meio das ocupações mais comuns.“Senhor, que eu veja.” A oração de Bartimeu tornou-se também a súplica de São Josemaria antes de compreender a missão que Deus lhe confiava. A vida de oração abre os olhos para aquilo que antes permanecia escondido. Como os discípulos de Emaús, que finalmente reconheceram Jesus, e como a samaritana, que começou vendo apenas um judeu junto ao poço e terminou reconhecendo o Messias, o cristão aprende pouco a pouco a perceber a presença divina por trás das aparências. É como aqueles antigos livros de “olho mágico”: a imagem sempre esteve ali, mas era preciso aprender a olhar. “O Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória.” A glória de Deus pode ser encontrada justamente dentro da realidade mais concreta e cotidiana.Esse olhar sobrenatural produz uma liberdade nova. As coisas deste mundo deixam de ocupar um lugar absoluto, porque passam, enquanto a amizade com Deus permanece para a eternidade. Ao mesmo tempo, esse desprendimento não leva a fugir das realidades humanas, mas a amá-las ainda mais. O trabalho, a pesquisa, a política, a amizade, a arte, o esporte, a família e até uma pia cheia de louça podem transformar-se em caminhos para Deus. “Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus.” O cristão não despreza o mundo: procura descobrir nele aquele “algo divino” escondido, oferecendo cada tarefa e procurando realizá-la com amor e perfeição.Daí nasce a vida contemplativa no meio do mundo: chegar ao ponto de olhar para tudo e encontrar Deus. Como o ferro atraído pelo ímã, a alma começa a voltar-se continuamente para Ele durante o trabalho, pedindo ajuda, oferecendo uma tarefa, agradecendo, reparando, recomeçando. Quanto maior o amor, maior também a liberdade, porque o coração encontrou o Bem para o qual deseja caminhar. Na preparação para o centenário do Opus Dei, em 2 de outubro de 2028, esse convite ganha ainda mais força: começar pela vida interior, aprender a reconhecer a presença amorosa de Deus e permitir que essa descoberta transforme cada instante da existência._____________📚 ReferênciasG. K. Chesterton: OrtodoxiaSão Josemaria Escrivá, Entrevistas com Mons. Josemaria EscriváSão João Paulo II: homilia da canonização de São Josemaria Escrivá: http://www.vatican.va/content/john-pa...
Tom Holland, autor de Dominion, percebeu que aquilo que mais valorizava no mundo moderno tinha raízes cristãs: o valor de cada vida, inclusive a dos fracos. Chesterton também enxergava no cristianismo uma união única entre verdade, beleza e combate. São Paulo resume esse caminho: “Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé”.São Gabriel representa a luz que nos ajuda a compreender a vida. A lembrança de Henrique Elfes, professor falecido nestes dias, mostra a beleza de uma inteligência capaz de unir conhecimentos e enxergar além do óbvio. Ele dizia que algumas de suas melhores sínteses não estavam escritas em um único lugar, mas nasciam da união de muitas leituras. Nosso Anjo da Guarda também nos ajuda a interpretar a vida à luz de Deus.São Miguel recorda que existe uma batalha pela verdade dentro de nós. Como em A Origem, certas ideias tentam entrar silenciosamente no coração: julgamentos, vaidade, raiva, sensualidade, desânimo. É como receber uma mensagem e conferir quem a enviou antes de aceitá-la. Nem todo pensamento merece permanecer no templo interior.São Rafael mostra que a vida cristã é caminho. Assim como acompanhou Tobias, nosso Anjo da Guarda nos ajuda a seguir na direção certa, oferecendo luz, força e orientação. Gabriel recorda a verdade, Miguel o combate e Rafael o caminho. E Nossa Senhora, Rainha dos Anjos, ensina a receber a Palavra, permanecer firme na prova e seguir até o fim o caminho preparado por Deus.____________Referências citadas:📔 Dominion - Tom Holland.📔 O Homem Eterno - G. K. Chesterton.📔 Filocalia (referência aos 40 Capítulos Népticos) - São Filoteu do Sinai.🎬 O Ritual - David Bruckner 🎬 A Origem - Cristopher Nolan
Quem vive dominado pelo medo acaba vivendo pela metade. O medo pode nos paralisar, limitar nossas escolhas e até nos impedir de realizar o bem que Deus espera de nós. A coragem cristã, porém, não consiste em nunca sentir medo, mas em continuar caminhando apesar dele.Nesta meditação, vemos dois caminhos para vencer o medo: a fé e o amor. A fé nos ajuda a olhar para as dificuldades a partir de Deus, reconhecendo que estamos em suas mãos. Por isso, tantas vezes a oração se torna simplesmente um ato de confiança e abandono: “Não temas, apenas crê”. Mas há ainda algo mais profundo: o amor. Quando sabemos que Deus está conosco, deixamos de enfrentar os desafios apenas para nos proteger e começamos a enfrentá-los para corresponder ao seu amor. A vida interior, a oração e a união com Deus dão aquela segurança de quem sabe que não caminha sozinho. Sentir medo não é o problema. O problema é deixar que ele decida por nós. A graça muitas vezes aparece justamente quando damos, mesmo com os joelhos tremendo, o primeiro passo. “Não tenhais medo!”
A Cruz aparece na vida como uma encruzilhada. Diante da dor, podemos nos fechar ou continuar acreditando que Deus permanece sendo Pai. Demétrio de Faleros, depois de conhecer poder, prestígio e queda, passou a enxergar a existência sob o domínio da Fortuna, capaz de frustrar todos os nossos cálculos. O sofrimento pode provocar em nós a mesma pergunta: a vida ainda tem sentido?Rejeitar a cruz pode agir como um buraco negro, sugando as coisas boas da vida e tornando o coração menor e amargurado. Foi o que aquele pai percebeu em Torreciudad: revoltado com Deus pela doença do filho, descobriu, através da oração inocente do menino diante de Nossa Senhora, que também ele precisava ser curado. Abraçar a Cruz pela fé produz o movimento contrário: abre o coração. Como uma árvore que estende seus galhos e dá frutos, a Cruz pode transformar sofrimento em fecundidade. A pergunta decisiva passa a ser: continuo acreditando que Deus me ama, quer o meu bem e é meu Pai?Essa confiança chega ao seu ponto mais profundo em Jesus. Hebreus apresenta Cristo aprendendo a obediência através do sofrimento; São Lucas mostra Jesus crucificado continuando a chamar Deus de Pai; São João contempla a Cruz como fonte da água viva do Espírito Santo; e São Paulo ensina que recebemos o Espírito de filhos, pelo qual clamamos: "Abbá, Pai". São Josemaria experimentou essa realidade em meio a uma grande amargura, quando as palavras "tu és meu filho" fizeram brotar repetidamente de seu coração: "Abba, Pater!". A Cruz não é simplesmente a exaltação da dor, mas um caminho para descobrir mais profundamente nossa filiação divina.Nossa Senhora mostra como atravessar essa encruzilhada. Maria acreditou em Belém, na fuga de Herodes, durante a vida escondida de Jesus e permaneceu acreditando aos pés da Cruz. Ela não permitiu que as provações destruíssem sua confiança em Deus. Quando a Cruz chegar, o caminho cristão é permanecer junto de Maria, abrir os braços com Cristo e continuar dizendo, mesmo sem compreender tudo: Abbá, Pai. __________________Referências:Demétrio de Faleros: Περὶ Τύχης (Sobre a Fortuna)Genki Kawamura: Se os gatos desaparecessem do mundoApontamentos sobre a oração, Caderno 6, Cartuxos anônimosSão Josemaria Escrivá: experiência do "Abba, Pater!" e Caminho, ponto 208Sting: If I Ever Lose My Faith in You
Existe dentro de cada pessoa uma força que precisa aprender a rugir. Oséias apresenta a imagem do Senhor que ruge como um leão, e Sócrates ajuda a compreender algo parecido na alma humana: há o homenzinho da razão, a hidra dos prazeres e o leão do thymos, essa agressividade capaz de defender aquilo que reconhecemos como digno e bom. A razão pode apresentar mil motivos para abandonar um prazer desordenado, enquanto a hidra simplesmente responde: "mas eu quero". É então que o leão pode entrar na luta, dando à razão a força necessária para resistir ao mal e superar os obstáculos que nos afastam do verdadeiro bem.Um episódio vivido por um ex-fuzileiro mostra essa força em ação. Depois de dez semanas duríssimas de treinamento, ele decidiu passar uma noite comendo tudo o que havia evitado. Quando terminou sozinho um enorme pote de manteiga de amendoim e percebeu que ainda pretendia atacar o sorvete, algo dentro dele se revoltou: não queria continuar se comportando daquela maneira. Jogou o sorvete fora, calçou os tênis à meia-noite e correu quinze quilômetros. Não foi um cálculo frio que o fez reagir, mas uma indignação consigo mesmo que colocou todas as suas forças a serviço de uma decisão. São Tomás de Aquino explica que recebemos o apetite irascível justamente para enfrentar dificuldades e resistir ao mal. Às vezes, para vencer uma paixão quente, a razão fria precisa da ajuda de outra paixão bem direcionada.Essa garra pode ser conscientemente mobilizada. Michael Jordan chegou a inventar para si mesmo uma provocação de LaBradford Smith para entrar ainda mais determinado em uma partida. Na vida espiritual não precisamos fabricar inimigos, porque eles já existem: vícios, tentações, preguiça, medo e tudo aquilo que enfraquece nossa busca por Deus. Evágrio Pôntico convidava a imaginar os vícios como Golias diante de Davi, inimigos que precisam ser enfrentados com decisão. Também podemos olhar com franqueza para aquilo em que estamos nos tornando e recuperar o "olho do tigre" de Rocky: não desprezar quem somos, mas recusar com firmeza uma versão acomodada de nós mesmos. Há momentos em que uma queda repetida só começa a ser vencida quando finalmente ficamos inconformados com ela.Mas o thymos cristão não é explosão descontrolada, orgulho nem confiança cega nas próprias forças. Cristo é manso e humilde, mas também sabe falar com firmeza e expulsar os vendedores do Templo; São Paulo enfrenta adversidades, exige seus direitos e segue adiante movido por uma força maior: "Caritas Christi urget nos", o amor de Cristo nos impele. É a caridade que transforma a agressividade em fortaleza, colocando o leão sob a direção da razão e do amor. Ulisses pondera em sua mente e em seu thymos antes de agir; os samurais buscavam dominar a própria ira para canalizá-la com eficácia; São Paulo corre sem perder o rumo. O cristão não precisa necessariamente de menos agressividade, mas de uma agressividade dirigida contra o pecado e tudo aquilo que destrói o bem, começando pelo mal dentro de si. E quando o leão ameaçar escapar do controle, a lembrança de Nossa Senhora pode ser como a ovelha colocada junto ao cavalo bravo: presença mansa que acalma sem retirar a coragem, acompanhando-nos nesta verdadeira guerra de amor.___________Referências:Podcast citado a respeito do livro sobre a agressividade: https://www.artofmanliness.com/charac...Clóvis de Barros Filho sobre o brio: • Motivação para estudar (BRIO) | Clóvis de ... Homero, A odisséiaSobre a imagem do homem, a hidra e o leão: Platão, A república, Livro 9.




