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Cemitério dos Infinitos
Cemitério dos Infinitos
Author: Cemitério dos Infinitos
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© Cemitério dos Infinitos
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Um podcast de poesias melancólicas e de somenos, dificilmente, você achará aqui um amor correspondido. Eu falo muito de laços perdidos, esperanças nunca alcançadas, fantasmas do passado, traumas. O Cemitério dos Infinitos é o meu autorretrato lírico, desbotado. Todas as obras poéticas apresentadas são originais de Thiago Lucarini.
"Existem sentimentos
Enterrados na carne do dia.
À espreita
Quase vivos
Quase mortos
Eternos."
"Existem sentimentos
Enterrados na carne do dia.
À espreita
Quase vivos
Quase mortos
Eternos."
42 Episodes
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Neste episódio, vocês ouvirão o texto de minha autoria, A Raposa e o Beija-flor.
Segue o poema de minha autoria, Telefone Público.
Oie, publicando aqui a poesia de minha autoria, O Jacinto e o Rouxinol, que originalmente, publiquei pelo meu outro podcast o, Siga a Luz. Feliz Natal!
HOMEM AO MAR
Thiago Lucarini
Como eu deveria saber nadar
Se eu nunca toquei as águas?
A total proibição era clara.
Agora sou jogado do barco
Sem bote salva-vidas
Sem o básico de estabilidade
Para manter-me sobre as ondas.
Pedir-me para não me afogar
É um crime muito maior
Do que me abandonar à deriva
Dos sonhos de uma naufragada utopia.
OLHOS DE FACAS
Thiago Lucarini
Eu não consigo dormir,
Pois os olhos da noite têm facas
Que me cortam na escuridão.
No silêncio de mim
As noites matam o meu sono.
Rolando entre lençóis
Eu sangro estrelas frias
Que se espalham pelo chão.
É um quarto iluminado,
É sinal de um crime,
De sonhos assassinados.
Anzol de todos
Thiago Lucarini
Tenho um sonho de trevas feito o soluço de um peixe sufocado por suas bolhas de sensível isolamento, quando fecho os olhos tudo é escuro, não temo, pois sempre tive algo de preto, escamas inseparáveis, imbricadas de noite, de subestimado e inferiorizado mesmo quando senhor de algo brilhante no firmamento de sorrisos amanhecidos em reflexos sobre a água. Fui feito desde a raiz de breu e de me acender dentro disto por pouco e de ascender por menos ainda, tive poucas estrelas por contas no céu rotineiro, talvez, por isso, seja-me tão fácil iluminar-me do suspeito sombrio das correntezas. Aprendi a entrever pelas sombras, pela penumbra dos olhos sem pálpebras, achar significado além da suspensão, do afiado fio da faca que anseia abri-me a barriga lisa. Daquilo que me limitaram, a saber, pela tela do aquário. Ignoro o anzol de todos não sendo acessível refeição, fujo das claras redes de pesca e contenção dos ingênuos cardumes indefesos. Essencialmente, prefiro ser este alguém atípico da escuridão, das profundezas, não a escuridão do mal, mas o negrume calmo da noite para descanso, tinta de caneta, carvão do lápis. A minha escuridade é um fósforo no infinito do universo, é particularidade, potestade original, é parte primeva e estrutural da nossa noturna gênese de eternidades e silêncios, que criam mundos e estrelas apenas por diversão.
TERMINAL DE NÓS
Thiago Lucarini
Na parada, à espera, observo aqueles cotidianamente iguais atados à hora símile, mesmo uniforme, mesma expectativa de aguardo. Dependendo da graça maior, logo o ônibus chega, embarcamos rumo a lugares diferentes, porém com um pedaço de trajeto semelhante, estrada da vida. Dentro do veículo de inseguranças e desconforto noto outros rotineiros indo para onde não sei, mas que subversivamente imagino. Dou nomes, vidas completas, penso que sonham apesar da indiferença que mutuamente cultivamos, são desconhecidos quase afetivos apesar de nenhuma palavra trocada, só empurrão e odores, muitos odores: mijo, merda, fumo, ranço, cachaça, bafo, perfume barato, são estes puros aspectos da sinceridade humana enlatada às seis da manhã, meras agressões simbólicas. Sem janelas abertas sem iluminação cresce a claustrofobia das emoções amanhecidas, repulsa e simpatia, desolação. Pedante caminho, sono, desgaste antes do abate da labuta, uma luta que jamais será vencida, pressa, prensa de carne, presos, tantos pedindo aos gritos, outros mudos, nenhum ganhando. Somos mundos em forçado choque de aceitação pela necessidade. Sentados estão os mais espertos e rápidos, os primeiros do ato de embarque, ficam de pé aqueles sem oportunidade, mas igualmente cansados, operários, sustentação da parede interna da barriga deste rastejante verme público. Num delírio lúdico e otimista, o ônibus longe do asco, é semente carente de sacolejo e aperto, se porventura, algum broto some, pergunto-me se este se mudou, perdeu o horário ou apenas contrariou a casca de ferro e germinou transporte próprio. Com a vaga aberta surge outro alheio das sombras, somos todos suspeitos, e fica a dúvida se este será mais um repetitivo sujeito sem expressão ou ladrão extrativista do quinto salarial ou celulares da lotação. Sigo jornada diária, a vida adiante da janela é cheia de promessas vazias. Ali, faço amigos que nunca me conhecerão, desejo alguns, tenho aversão a outros e sinto falta de tantos, vamos indo todos embalados ao terminal de nós, estação final da viagem, mas não do eu, pois este só se encerrará na lápide. Além das imaginárias ligações estabelecidas, cada parada é sonho de descida, sonho de ninguém é a subida, todavia a boca do ônibus tem fome contínua, sua barriga jamais está suficientemente cheia mesmo transbordando de trabalhadores. Ao desembarcar, de tudo esqueço, na manhã seguinte é recomeço, refaço tudo outra vez, acalentando a fé de não ser digerido eternamente por este verme ou de ser milagroso rebento em fuga. Cíclico.
Distopia matrimonial
Thiago Lucarini
Ela não sabia exatamente quando o seu casamento azedou. O tempo não tem piedade nem os homens. No pueril início, não havia flor que murchasse, sorriso que não se abrisse, desejo que não ardesse, estrela que não brilhasse. Ele mudou. Esqueceu-se das rotinas do amor e caiu nas rotinas lodosas diárias, daquelas que matam possibilidades e afetos. Desapareceram os beijos de bom dia, ligações ao meio-dia, o toque espontâneo, a procura a partir da necessidade da carne, casualidades. Em vã tentativa, ainda dividiam “eu te amos” ditos ao vento mais por convenção que convicção. Ela se viu acorrentada a uma união de um só, e insistiu até dar-se por vencida e render-se a mesmice. Acabou presa à rede da rotina corroída por dentro, envenenando-se ao tentar entender o porquê da mudança, nunca soube.
Não a traia, nem por sorte era gay, assim saberia o motivo. Só era um homem de plástico, estéril nas relações.
A vida tornou-se dilatada, feita de compromissos obrigatórios e enfadonhos. Não existia felicidade, apenas comodismo, desgraçada estabilidade. Ele a renegou à castidade de mãe, negou-lhe a puta entre quatros paredes. Beijava-a feito filha e estendia-lhe a mão em público pelas aparências menores, mas em casa, a esquecia, nada de cuidados maiores. Por sua vez, ela já não se importava em tirar o cheiro de cebola ou de outros suados condimentos, pois por mais temperada que estivesse, ele quase não a comia, e quando, pela obrigatoriedade nupcial mensal cedia o pau à boceta, gozava rápido, já que estava sempre cansado e precisava trabalhar cedo no outro dia. Era trabalhador, de fato. Este era um dos maiores erros dele: acreditar que ter a mesa cheia era o suficiente, prover o básico não alicerça cumplicidade, confiança, loucura abissal. Existem outras fomes, tão maiores e violentas, quanto à fome do estômago. Esquecia ele que um coração relegado ao vazio igualmente derrubava um lar.
Em algumas noites em orações frias, mas não de todo mentira, ela suplicava aos bons anjos que mandassem a morte a ele, e desse-lhe liberdade, quem sabe, nova vida. Ambiguamente, já não sabia viver sem ele e nem o suportava, mas como boa senhora e cristã, o respeitava, uma vez feitos os votos perpétuos. Achava indigno até tocar-se sozinha tendo um homem. Via as manhãs e tardes passarem tendo por companhia a solidão, durante a noite, lá também estava à solidão entre eles na cama, lugar de repouso e silêncio e não de amor.
Miúda, ela foi murchando à sua sombra ausente e ainda onipresente. Infalivelmente, ela era dele. Ele não dava sinais de compreensão da situação ou fez-se entender, ela orgulhosa não perguntaria ou confessaria a dor da intocabilidade. Nunca reclamou em sociedade nem a sós. Este fora seu erro. Ao outro, o silêncio pode significar paz e regularidade, aceitação.
Ele a amou pouco, ela ansiou demais. Eram planetas em órbitas opostas em que o alinhamento ocorre por poucas horas apenas uma única vez, e depois, seguem trajetórias separadas sem se lembrarem da gravidade de atração inicial.
Ela desejava que ambos não pertencessem ao mesmo Céu, queria um Paraíso livre para si, sem ele, só ela. Refeita. Renascida sob outros signos mais alegres.
Covarde, viveu fiel ao seu tédio e amargor até o fim, por azar, se foram juntos, não se sabe se para lugares distintos ou iguais. O destino não permitiria tamanha afabilidade em irem desconexos como foram em vida.
Que Deus possa ceder no além grata separação aos infelizes.
Parte de mim não presta
Thiago Lucarini
Uma parte de mim não presta, pois tem pensamentos sujos e oblíquos, esta é a metade em elipse deste eu, tragicamente barulhenta, problemática, vulgar, obscena, ácida, de orações duvidosas, que fala mal, se contradiz, pragueja e amaldiçoa, por vezes é preconceituosa, cheia de barreiras, palavras tortas, asneiras e loucuras. Deformada trata-se de uma flor malcheirosa, de sentidos e sensações desagradáveis. Sou aquele que mais sofre com seu odor de asco e ultraje, é flor imortal, minha Medusa cultivada, enquanto eu vivo. De combate diário, rego-a com bons adubos de líquida esperança, há dias em que o fedor diminui, porém há dias insuportáveis de pura carniça, tais situações dependem, obviamente, da qualidade da terra do pensamento, do seu estágio de decomposição ou salvação, naquele período. Abutres negativos fazem-me cerco, espreita. Uma parte de mim não presta, é fato, e não se compensa esse déficit com o bom perfume de outras retidões imprecisas a ponto de tornar tudo inodoro, neutro. Travo batalha cotidiana e ferrenha, lutas invisíveis, contudo, de dantesco desgaste, que vão pendendo a balança do meu e de outros narizes ao redor. Sempre haverá dias em que cheiro mais ou menos bem e outros em que estarei horrivelmente e miseravelmente podre ao ponto de compor um funesto jardim de pedra, pois parte de mim não presta.
Cadeia alimentar
Thiago Lucarini
Estava eu com vontade de comer peixe. Cansado dos mercados e seus frescos ou enlatados prontos para consumo, fui a uma venda de peixes vivos. No tanque, escolhi do cativeiro aquele que mais me agradou, o vendedor, um rapazote, o pegou com uma rede e rapidamente lhe deu um golpe com uma ferramenta de claro uso em abate, da qual, desconheço o nome. Naquele instante, pensei que meu jantar tinha ido por água abaixo, pois um grande remorso me invadiu. De forma planejada, contribuí com a morte de um ser. Silenciosos, peguei meu pacote e fui embora. O peixe nos seus últimos suspiros pulava na sacola, movimentos involuntários de resistência, porém não existia firme linha para se segurar, se livrar da panela. Meu coração igualmente pulava, eu sabia da necessidade, um só haveria de viver.
Em casa, me apressei a arrumá-lo, escamar, estripar e todo o restante do processo. Eu sentia-me um pleno maníaco assassino com a mão num corpo de água tão frio. A vida rápida e pronta do cotidiano dos açougues e ilhas de congelados nos tiraram o horror da morte de outros seres com intuito de sobrevivência própria. O peixe com seus espasmos involuntários insistia em algo que não tinha mais volta, já estava morto, e contraditoriamente, o corpo recusava-se de algum jeito a deixar a alma ir totalmente. Sem eu perceber, levei meu dedo à boca espasmódica do falecido que muito do vingativo me mordeu. Quase xinguei, contudo, não o fiz, pois sentia-me merecedor de tal punição do morto.
Em meio a dor e frustração, percebi o quanto sou grato pelo tempo em que vivo. Deus me livre ser preciso eu matar uma vaca, um porco, uma galinha ou outro peixe. Estou seguro, uma vez que não preciso sair à caça todos os dias, ter que matar consciente e regularmente. Gosto da morte que não suja as minhas mãos, da ilusão dos pedaços fatiados e pendurados em ganchos, que não confessam qualquer traço de vida escondida ou preexistente. Já abatidos é mais fácil ignorar sua história, sua dor, e isso, egoistamente, me basta, posto que asseguram a minha sensação de inocência. Matar para comer é necessidade, mas ter essa experiência, assim, nascida de um simples desejo para o jantar é amedrontador, é confirmar o que sabemos desde sempre: a vida sustenta-se sobre os ossos dos mortos. É questão de tempo até eu ser o abatido, ser comida da natureza. Parte do ciclo em contínuo processo.
De volta ao conforto e comodidade, meus incapacitantes naturais, olhei o peixe pronto na panela. Estava com uma cara maravilhosa. Se o comi? Claro! Custou caro. Em mim não restava qualquer lembrança do prévio remorso. Não há moralidade na fome. Acabou que o peixe rendeu não só um prato delicioso como uma crônica de brinde.
Mãos
Thiago Lucarini
Mil mãos não têm
O toque das tuas.
Minha pele tem claro sinal,
Caminho traçado, leitura habitual.
Outro toque não tem
A mesma ilusão ao seguir
O encanto já trilhado.
É a pele sedenta pelo ser criado,
A figura idealizada.
É a saudade em mim
Que me faz negar de antemão
Outras tantas mãos.
Ontem
Thiago Lucarini
Volto mais vezes do que gostaria
Às lembranças que foram nossas.
Desfeitas de nós as horas de agora
São solitárias, em casa não há riso
Fácil, o tempo está sempre fechado.
Busco fuga daquilo que sinto, e assim,
Fico repetindo o passado, o antes,
Na esperança de acordar ontem,
Onde o sol morava ao meu lado.
Cadáver
Thiago Lucarini
Como um coveiro avesso,
Às vezes, eu brinco de te desenterrar
Apenas para saber qual seu estado
Dentro de mim, depois de tanto tempo passado.
Encaro o cadáver sem vida, frio,
E percebo que não é muito diferente
De quando andava ao meu lado.
Verdade exposta à mesa
Thiago Lucarini
No prato branco de amores
Repousam os restos obsoletos
Das minhas verdades expostas.
Intragáveis permanecem neste mar flutuante,
Branco insensível, que não alimenta, nem causa coma,
Mas provoca fome ferrenha ferida e dolorosa.
Olho a cena posta no prato, cadáveres tão falhos.
Corto pequenos pedaços ultrajados embalsamados em lágrimas
Só eu posso engolir estas verdades preparadas, magras e amargas.
***
Música: https://www.purple-planet.com/
Afogados
Thiago Lucarini
Esqueça o que eu disse,
Pois era noite no céu da minha boca,
Noite de temporal quando a língua
Revolta-se feito mar e acaba por machucar
Com ondas de palavras sem qualquer ar
Vindas do fundo, de um mundo escuro,
Por favor, esqueça o que eu disse
Se eu não te afoguei.
Rigor Mortis
Thiago Lucarini
Sou de um tempo
Onde a carne é mais mole
A preguiça e o tédio são mais presentes.
Nascemos cozidos, tenros e insossos
Não endurecemos as linhas da luz
Somos terra quase infértil
De poucas intempéries,
Nossas plantas são rasteiras
Precisam de apoio baixo,
Pois têm a languidez de crescer pro alto.
Este tempo ocioso gera carne mole
Gado de fácil abate
Sequer temos na morte
Rigor mortis, afinal
Não houve em tempo algum
Rigor qualquer.
Fim de tarde
Thiago Lucarini
As construções da cidade
Bebem da tua silenciosa asfixia.
Nas cores evanescentes do crepúsculo
Tentam achar prometida calmaria,
Pois almejam dormir no embalo
Do calor das lâmpadas de mercúrio,
Recolher as falanges de concreto
Que tentam em vão arranhar o céu indiferente por ter verdadeiras estrelas.
O trânsito virulento cala-se aos poucos
As pessoas cansadas vão para suas casas.
A lua e as estrelas se levantam no eterno
E as construções da cidade no fim de tarde,
Assim como os peixes, embalam seus sonhos
De olhos arregalados, incapazes de dormir.
Fora do Éden
Thiago Lucarini
Fui posto fora do Éden
Quando me deixaste.
Tive minha queda decisória,
Tive a dissociação e dissolução
Desta alma una de amor
E da forma sólida deste coração.
Perdi meu Deus soberano
E percebi que um deus fabricado
Não opera milagres
Apenas produz as vontades
Daquele que o criou
Em sua crença infantil
Sem qualquer simetria.
Este não passando nunca
De um ridículo fósforo-sol,
Farol de míseros segundos
Que não salva do precipício.
Perdi-me de Deus. Vaguei
No sal das lágrimas de prata fria,
Pois demônios de falsa vulgata
Comeram as raízes de vidro da minha
Árvore da Ciência do Bem e do Mal
Não tive sua sombra nem seu alívio
Nem seu fruto de doce pecado, guardado
Latejante e febril pouco abaixo do umbigo.
Restou-me somente a incitante
Serpente ao meu lado vago
E a sabedoria dos passos solitários.
Ao estar com esta alma longe, tão longe
Da unidade deste ser Todo-Poderoso Amor
Pereço. Padeço. Ando em busca de uma
Nova crença, tentando achar uma ideologia
Própria, mais poderosa e justa, que não fabrique
Cacos, tristes corações quebrados e espalhados.
Talvez assim, abrace-me a onisciente, Verdade.
Agora que me fecharam as portas do Éden
Em último fiasco de vã tentativa eu rolarei
Na lama santa da Parusia onírica da apoteose
Apocalíptica da solidão eterna que se abre
Num ato tão somente dramático e sem anunciação.
Erguem-se as fundações, as barras de ferro desta prisão,
Desta gaiola aberta, porém sem fuga, inferno da carne.
Imagético das eternidades
Thiago Lucarini
Há algumas eternidades, das quais,
Não devemos nunca falar
Deixar de lado estas horas líquidas passadas
Depostas pelos relógios e atiradas goela abaixo.
Há um botão de roupa perdido
Há um botão de rosa ferido
Há o meu coração partido.
A graça do rei
Thiago Lucarini
O dia passa.
Quem é o rei das horas?
Das facas? Da graça? Do meu coração partido?
Que coroa tenho eu? Que pedaço de dádiva?
Como afiar meus dentes de enfeitado leão e rugir?
Como colar as feridas da guerra sem provocar
Uma dor imensamente maior ao filhote que sou?
Tenho um trono vazio, uma sarjeta preenchida,
Desgraça adquirida e uma faca para corte final.
Sou rei escravo do povo
Sou rei sem carne só osso
Sou rei deposto por mim antes de outro.
Estado frio
Thiago Lucarini
Estamos num período
Onde os mortos não valem
Sua última roupa
E vão à sepultura nus,
Mas vestidos de um tempo cruel.
Vão-se os mortos despidos
De dignidade, de empatia, dos seus.
E cá estamos nós de pele exposta
Também sem perceber a nossa nudez.









