DiscoverReportagem
Reportagem
Claim Ownership

Reportagem

Author: RFI Português

Subscribed: 1Played: 15
Share

Description

Acompanhe os repórteres da RFI em conteúdos que ilustram o pulsar do mundo na sua diversidade.

240 Episodes
Reverse
A cidade de Marselha está na moda. Numerosos rankings colocam-na nos lugares cimeiros das melhores cidades para viver e visitar na Europa, mas os habitantes locais continuam a confrontar-se com a realidade do dia a dia que inclui dificuldades na habitação, criminalidade e pobreza. Após 2.600 anos de história, Marselha continua rebelde, resistente e solidária. Em 2022, e depois da vitória da esquerda em Marselha 2020, apelidado de Primavera Marselhesa, Paris constata o estado das infra-estruturas em Marselha e põe em marcha um plano apoiado pelo Presidente Emmanuel Macron chamado Marselha em Grande. Este plano dá à cidade cinco mil milhões euros adicionais para investimento em escolas, transportes, segurança e habitação. Para isto contribuíram tragédias como os desmoronamentos de dois prédios da rue d’Aubagne em 2018, no centro da cidade, que fizeram oito mortos e deixaram dezenas de famílias na rua, mas também os ajustes de contas constantes entre gangues especialmente nos bairros Norte da cidade que levaram à morte de várias pessoas, incluindo adolescentes. Este foi um projecto que coincidiu com a realização dos Jogos Olímpicos em Paris, com as provas de vela e alguns jogos de futebol a serem realizados em Marselha. A prioridade para a utilização destes fundos foi desde logo as escolas, como conta Jorge Mendes, advogado franco-português instalado em Marselha e que apoia Benoit Payan, o candidato socialista. Mas com a revitalização da cidade, veio também um facto incontornável, Marselha está na moda. “Os bairros dessas escolas, também mudam com a nova escola, porque temos de relembrar que em 2020 as escolas aqui eram a vergonha da República. Era assim que se falava das escolas de Marselha. Nos jornais, na comunicação social, isso mudou. Claro que muda pouco a pouco, o projecto vai até 2039, portanto haverá muitos anos ainda pela frente. Estamos a falar de 460 escolas a refazer ou a construir totalmente. Portanto, as escolas mudaram e também houve um grande investimento no centro da cidade. Houve um investimento que permitiu à cidade de se abrir. Há esplanadas, há bares que abriram, há mais vida nocturna, há uma vida cultural, há saídas e há também uma moda. É preciso dizer que Marselha está na moda, em França e na Europa. É claro que isto também deu um sentimento de que é melhor viver aqui e isso é importante. Vê-se que as grandes avenidas mudaram, os apartamentos estão a ser reabilitados. O transporte mudou porque as linhas que existiam foram aumentadas. Portanto, são as mesmas linhas de metro e eléctrico, mas foram aumentadas. Está mais fácil hoje ir do norte ao centro já existe essa linha. Do Sul ao Norte também é possível ir de eléctrico do Sul ao Norte em 40 minutos. Mas isso é uma maravilha. Coisas que não existiam, portanto. As pessoas sentem que nada é como antes”, explicou. A partir de 2020, parisienses e os chamados nómadas digitais descobriram Marselha. Depois de anos de uma má reputação, que afastava habitantes das classes mais altas e investimento, Marselha brilha agora nos rankings de melhores destinos europeus. Depois dos gregos, dos romanos, dos visigodos, dos francos, dos italianos, dos corsos ou dos argelinos, chegaram agora os turistas à cidade. Se isto contribui para a revitalização especialmente do centro da cidade, há também um combate activo por parte da autarquia aos abusos cometidos no alojamento local que leva a que muitos marselheses não consigam alugar ou comprar casa na sua própria cidade. “Marselha tem a lei mais dura de França. É muito simples. Todos podem fazer Airbnb, alugar a casa se for a residência principal deles. E podem fazer 90 noites por ano, não mais. Há 6.000 pessoas que não respeitam a lei. E a Câmara Municipal está a atacar 6000 pessoas. Portanto, não é pouca coisa. Todas as semanas vamos a tribunal para fazer condenar as pessoas a uma multa de 100.000 € por apartamento. E é assim que se vai conseguir. É claro, sobre o porto, os cruzeiros, trata-se de uma economia para Marselha. É importante, mas temos de construir aqui hotéis, investir em hoteis e construir, como noutras cidades, um acolhimento turístico. E o Estado sobre isso também tem que vir ajudar. Sobre as grandes infraestruturas, fizemos um novo porto com os Jogos Olímpicos que houve em Marselha, mas parou aí. Então, sobre este novo porto, precisamos de hotéis, de bares, de tudo. Nós temos 57 quilómetros de mar em Marselha. Há quatro entradas de praia no centro da cidade. Isto tudo é preciso refazer. Portanto, há praias a construir, há hoteis a construir, há tudo a fazer e todos são bem vindos. Claro que é uma cidade específica, é uma cidade que foi criada por entidades estrangeiras que foram chegando como os italianos, os portugueses, os espanhóis, os argelinos, os marroquinos. E hoje a cidade tem essa especificidade. É uma cidade única. Nenhuma teve este acesso ao mar. Mas acho que também é o que faz a riqueza desta cidade. É a única em França. Se calhar nem na Europa”, disse o advogado. Este novo sopro em Marselha está também a atrair empresas e ajuda a fixar startups, argumentos utilizados por Franck Araújo, que dirige o Acelerador M, para convencer os CEO a escolherem a cidade. “As vantagens são várias. Uma delas é que há um porto. É uma cidade aberta no Mar Mediterrâneo. Essa é a primeira coisa. A segunda coisa é que também é um pólo universitário muito importante, com muitos pesquisadores. E outra coisa é também o facto de termos não sei quantos cabos agora porque já nem sei quantos são, mas temos aqueles cabos submarinos que nos ligam a mais de 3 mil mihões de pessoas. Isso faz com que Marselha seja um hub de telecomunicações e de dados, e sabemos muito bem que a economia de amanhã é uma economia baseada nos dados. Por isso é uma coisa. Só que há um facto também que foi relevante para levantar, pôr em pé essa cidade que estava mesmo até fins dos anos 90, está muito, muito empobrecida, muito criticada, etc. Foi a chegada do TGV em 2000, pôs Marselha a três horas e poucos minutos de Paris. Muito menos de Lyon e de várias outras cidades. Ora bem, há muitos parisienses e há muitas pessoas que moram nos arredores de Paris que decidiram vir para o Sul”, detalhou Franck Araújo. O Acelerador M já criou 250 postos de trabalho e atrai empresas dos dois lados do Mar Mediterrâneo. No entanto, e mesmo perante esta nova onda de interesse pela cidade, os problemas de Marselha persistem e é por isso que Bruna Ramos Alfama se lançou numa das listas candidatas à Câmara Municipal, a lista de Erwan Davoux, um dissidente de direita. “O essencial é ver as dificuldades de toda a gente aqui. Há drogas, há jovens que deixam os estudos aos 15, alguns mesmo aos 13 anos, temos de tentar que os jovens continuem a estudar e que tenham um futuro melhor e que todos tenhamos um trabalho digno. Eu estudei, em Portugal fiz gestão industrial e aqui não dão oportunidades”, declarou a candidata. O tráfico de droga continua a dominar os bairros Norte da cidade, tendo havido recentemente a detenção de cerca de 40 membros da máfia DZ, que lidera muitos dos pontos de tráfico na cidade. Em Novembro, uma morte em Marselha chocou a França. O irmão do activista Amine Kessaci, que lançou um livro a denunciar os meandros do tráfico de droga, foi morto por um atirador que passava de mota. Para combater a insegurança na cidade, aumentou o número de polícias municipais em Marselha, mas Jorge Mendes explica que há limitações em relação ao que a autarquia pode fazer. “É um problema da competência do Estado. Um presidente de Câmara Municipal não tem nenhum poder de polícia, judiciário, portanto, não tem a polícia na mão dele. Só tem a Polícia Municipal. Ou seja, que é normalmente a tranquilidade da segurança pública de todos os dias. Tudo o que é esse problema da insegurança de narcotráfico claro que é um problema de Estado e precisamos de reforço evidente. Mas acho que há aqui um acto simbólico. Amine Kessaci é o número três nesta desta campanha. E com um poder muito importante, que será o do acompanhamento das famílias das vítimas em bairros onde há tráfico de droga. E, portanto, ele vai ter aqui uma capacidade de acompanhamento social na luta contra o narcotráfico. Mas claro que o presidente Câmara Municipal não vai ter os poderes de meter um fim a esta guerra contra o tráfico de droga. É evidente", explicou Jorge Mendes. Mas, ao mesmo tempo, para quem vive nos bairros Norte e para quem é controlado constantemente pela polícia nacional ou municipal, a vida tornou-se mais difícil na cidade. Rachid, jovem acompanhado pela associação ARS, questiona se a polícia existe para proteger verdadeiramente a população. "Os jovens estão fartos de serem discriminados. Na verdade, estamos fartos porque, quando saímos à rua, são sempre os mesmo que são controlados e somos controlados todos os dias pela polícia, às vezes várias vezes por dia. É o nosso quotidiano. Esta é uma guerra deles, não é uma guerra nossa. A polícia devia proteger-nos, mas quando se cria uma força policial como fez Benoit Payan nos bairros do Norte é para quê? É para impedir as pessoas de saírem de lá. Claro que se a polícia vai para lá para fazer números, vai constatar infrações e impedir as pessoas de viver. E eles vão para lá para controlar árabes e negros. Quando eu era pequeno havia uma verdadeira polícia de proximidade, hoje a polícia municipal está armada. Antes falávamos de uma polícia que estava lá para nos proteger", argumentou Rachid. E a pobreza também não desapareceu. "Marselha não é a França. Quando vou a Bordéus eu vejo a França, quando vou a Bayonne eu vejo a França, quando vou a Biarritz, eu vejo a França. Quando eu digo isto é porque fui a esses sítios e não estou a falar dos imigrantes, porque só quem sofre muito deixa o seu país de origem para vir para aqui, e eu nunca serei contra imigrantes. O que eu quero dizer é que todas essas cidades têm trabalho, há menos problemas do que em Marselha. Nem todos os bairros são pobres, como acontece aqui em Marselha. Até no centro da c
Os jovens adultos constituem uma parte importante da população de Marselha, mas também a mais afectada pelos problemas da cidade como a dificuldade em encontrar casa, a limitação dos transportes públicos e ainda a pobreza. Face a estes problemas, os jovens parecem afastados da vida política, com a abstenção a crescer, mas estão atentos aos candidatos e às suas propostas, esperando agora acção no terreno. Em França, mais de metade dos jovens não vota. Uma realidade que oscila consoante o tipo de eleição, mas, por exemplo, nas eleições legislativas de 2022,  quase 70% dos jovens entre os 18 e os 24 anos decidiram abster-se. Este é um fenómeno que ocorre em todo o território francês, mas em Marselha, onde os jovens acumulam problemas como a dificuldade de encontrar casa, uma taxa de desemprego elevado e uma precariedade sistémica, as eleições municipais não estão no topo das prioridades. Rachid, um jovem marselhês, explicou à RFI as razões deste desinteresse. “Já viu algum dos candidatos a Marselha a falar sobre os jovens? Eles estão apenas a tomar conta dos seus próprios interesses e nós, os jovens, sofremos. Somos uma geração que já entendeu que é preciso trabalhar para economizar. É só isso que nos vai salvar, porque sem trabalho não temos casa nem recursos, nem umas calças de ganga a 10 euros podemos comprar. Percebemos muito rápido que no fim da escola, quando acabamos os nossos estudos, estamos por nossa conta. E mesmo se tivermos um contrato, vimos dos bairros Norte de Marselha, outros vêm de África, outros da Líbia, outros do Afeganistão, e não vemos qualquer mudança. O que queríamos é que trabalhássemos todos juntos. Vocês, os jornalistas, nós, os jovens, os políticos, de forma a avançar. Por exemplo, avançar habitação e, depois, aqui não é como diz o Macron, não atravessamos a estrada e encontramos um trabalho, muitos de nós trabalhamos fora da cidade de Marselha”, explicou Rachid. Rachid é acompanhado há sete anos pela ARS, uma associação em Marselha que apoia cerca de 60 jovens no processo de readaptação social, especialmente entre os 18 e os 25 anos. A ajuda vai desde alojamento, até mostrar como se preenche a primeira declaração de impostos. Mas mais do que isso, a ARS permite a estes jovens, muitos vindos dos bairros mais pobres de Marselha ou imigrantes que chegaram ainda menores de idade à cidade, de não ficarem sozinhos, como explica Kingoma, também acompanhado pela ARS. “Quando cheguei, não sabia bem o que era a ARS. Estava um pouco perdido em relação a como fazer os meus papéis. Aos poucos, fui descobrindo todas as actividades aqui e encontrei o meu caminho, porque me envolvi aqui na associação e comecei a sentir-me capaz de ver as coisas com mais clareza e a projectar como será a minha vida depois. Nós vivemos muitas dificuldades aqui e eu estava a falar com um amigo no outro dia sobre como vamos fazer depois, porque aqui temos alojamento durante algum tempo, mas temos de ser nós a fazer esforços para nos prepararmos psicologicamente para a próxima fase da nossa vida e isso não é fácil”, disse o jovem. Marselha está dividida em 16 bairros, havendo uma distinção muito forte entre os bairros do Sul, mais ricos e onde vive a população mais abastada, e os bairros do Norte, onde nalguns quase 40% dos habitantes vivem abaixo do limiar da pobreza. Para os jovens de Marselha, a política é feita longe das ruas que percorrem todos os dias e há um grande sentimento de abandono.  “Eu não me interesso por aí além pela política, mas às vezes é preciso ser político para progredir na vida, porque as pessoas que votam somos nós, somos nós os cidadãos, caso contrário, eles falam e nós só ouvimos, mas nós temos que ser ouvidos. Só que às vezes parece que eles vivem num mundo paralelo, como se nós vivêssemos em Marselha e eles noutra cidade qualquer. Eles não veem a realidade das coisas. Não é a mesma coisa alguém que está fechado num escritório o dia todo e alguém que circula na cidade. Por isso, nós sentimo-nos abandonados. E não é que não nos esforcemos para encontrar trabalho, mas não é a mesma coisa”, indicou Rachid. Para dar mais informação aos jovens sobre as eleições e também mais poder de decisão em momentos chave como as eleições municipais que se aproximam, Alexandre Pastor, também marselhês, criou em 2022 a associação Melting Pot que tem como missão dar as ferramentas cívicas necessárias para que os jovens sintam que a sua intervenção na cidade e no país conta. “Partimos da observação de que a abstenção só aumenta a cada eleição, seja ela local, nacional ou europeia. Achamos que há dois motivos para isso: a desconfiança dos jovens em relação às instituições e aos representantes eleitos e, acima de tudo, a falta de conhecimento dessas instituições. Porque sempre que conversei com jovens da minha idade ou mais jovens, eles não sabiam a diferença entre o conselho distrital, o conselho regional, a câmara municipal e, portanto, tudo se confunde. Quando eu era mais jovem, se eu não entendia alguma coisa, era difícil envolver-me ou interessar-me por isso. Por isso, na associação partimos da premissa de que dando a todos um nível básico de informações e todos ficamos em pé de igualdade, de modo a que todos pudéssemos dizer: OK, agora eu entendi, então posso envolver-me ou não, e assim lutar contra a abstenção”, detalhou Alexandre Pastor. Rachid, tal como a maior parte dos jovens acompanhados pela ARS, trabalha, mas é muito difícil para estes jovens encontrar casa devido ao aumento das rendas na cidade e são também muitas vezes discriminados devido à cor da pele e ao facto de não terem famílias que ajudem nas garantias pedidas pelos senhorios. Quanto ao trabalho, muitos só encontram emprego fora do centro da cidade em sectores precários. Franck Araújo dirige o Acelerador M, um acelerador de startups no centro da cidade e admite que a criação de empregos em Marselha é difícil, sobretudo porque as empresas precisam de capital disponível quando querem crescer na cidade. “Claro que a taxa de desemprego é a mais importante aqui do que noutros sítios do território metropolitano. Mas fazendo a média do território não é assim tão diferente em relação a outras regiões francesas. Mas pronto, a situação é essa. Em Marselha é verdade que é mais complicado porque há uma espécie de separação entre sul e norte da cidade. Não se passa a mesma coisa a sul e a norte da cidade. No entanto, o que precisariam as startups para se fixarem aqui? Primeiro, temos falta de capital de risco. Precisam de pessoas bem formadas. Isso também há aqui e noutros sítios. Porque hoje é muito fácil recrutar. Agora, o gás, o dinheiro e as participações e os mercados não estão aqui. Não estão cá. Não estão em Marselha, nem aqui na região. Então é worldwide. Ou então em Paris ou em Berlim, ou então em Londres, ou então na América do Norte e por aí fora. E então torna-se muito difícil conseguir metê-las cá”, detalhou. Também os transportes tornam difícil os trajectos diários. Alguns dos jovens da associação contaram à RFI que demoram entre duas a três horas para chegar ao trabalho, acabando muitas vezes por voltar a pé quando se trata de empregos no sector da restauração já que os turnos acabam tarde. Jorge Mendes, advogado que apoia o actual autarca e recandidato à sua eleição, o socialista Benoit Payan, reconhece que os transportes são um grande problema da cidade, mas que, até agora, não dependiam só do autarca, já que os subsídios vêm de outras instâncias regionais, muitas vezes lideradas por forças políticas antagónicas. “De facto, o problema dos transportes em Marselha é uma vergonha. A segunda cidade francesa tem um metro que acaba às 21:30, tem uma população jovem e é preciso quarenta quilómetros para vir do Norte da cidade até ao centro da cidade. São quarenta quilómetros, portanto é preciso ver o que é uma cidade desta dimensão, com duas linhas de metro e com poucos autocarros de dia e que param à meia noite. Claro que é uma situação que nunca se vê numa cidade cosmopolita e moderna em França, mas Marselha sofre disso. É uma competência de metrópole. Mas é preciso saber que esta campanha eleitoral não é só uma campanha de presidência da Câmara Municipal. Quem ganhará a Marselha vai também ganhar a metrópole e, portanto, vai recuperar a competência dos transportes. O Estado permitiu, de facto, agora investimento estes três últimos anos para o transporte. Mas o que é que foi feito? Foi feito um eléctrico e que tem exactamente a mesma linha que o metro, portanto é só um metro. Os jovens não conseguem sair dos bairros onde eles estão, não conseguem vir trabalhar para o centro da cidade, onde há trabalho e também não conseguem sair à noite porque não consegue voltar para casa, não consegue ter acesso à cultura. É uma situação que não se deve admitir numa cidade como Marselha”, disse o advogado. Para além do problema dos horários dos transportes, muitos jovens da ARS que precisam destes meios de locomoção para começar a sua vida profissional, vêm os seus salários penhorados devido a multas por no primeiro mês em que vão trabalhar não terem dinheiro para comprar o passe dos transportes. Muitos candidatos prometem a gratuidade dos transportes até aos 26 anos de forma a resolver esta questão. Mesmo se Rachid diz que a política está longe do seu quotidiano, este jovem marselhês diz votar em branco e conhece os percurso dos vários candidatos. Pede é acção concreta para a vida de todos os marselheses. “Nós dizemos fora a quem não vier fazer coisas concretas por nós. Isto aqui não é o cinema. Eu voto em branco porque essa é a minha escolha, porque desde que estou em Marselha, não vejo nenhuma mudança, só vejo os interesses das pessoas. Se eu vir uma ideia sincera, eu vou votar por essa pessoa. Vamos falar sobre os três principais candidatos. Ora, não posso votar Martine Vassal porque ela reduziu as ajudas às crianças e reduziu os transportes e temos enfermeiras que têm que voltar a pé dos hospitais de madrugada. Não vou votar Benoit Payan porque ele div
Marselha tem quase nove vezes mais população do que Perpinhã e as duas cidades têm trajectórias muito diferentes na História de França. No entanto, esta eleição aproxima-as com disputas acesas por parte dos candidatos de extrema-direita e problemas partilhados como criminalidade, alojamento e pobreza. Louis Aliot é recandidato à Câmara de Perpinhã. Tem face a ele um candidato de direita, Bruno Nougayrède, e três candidaturas de esquerda, uma de Mathias Blanc, socialista que não recebeu o apoio do partido, Agnes Langevine, socialista com o apoio do PS e ainda Mickael Idrac, candidato da França Insubmissa. Na corrida está também uma lista do partido Luta dos Trabalhadores. Segundo as sondagens, na primeira volta, Louis Aliot deve conseguir posicionar-se entre os 43 ou 44%, algo considerado normal para um autarca que se estreou nas lides locais. No entanto, Louis Aliot vai a eleições com um potencial novo mandato já em risco. O candidato de extrema-direita foi condenado em Março de 2025 a três anos de inelegibilidade e 18 meses de prisão, de entre os quais 12 de pena suspensa, no caso dos assistentes parlamentares fantasma que o seu partido empregou durante uma década no Parlamento Europeu. Aliot está acusado de ter contratado um assistente com o qual trocou uma chamada telefónica e oito e-mails durante 11 meses. O autarca de Perpinhã não perdeu logo o seu mandato autárquico em 2025 porque fez um recurso, tal como Marine le Pen, e o resultado deve ser conhecido no dia 7 de Julho. Mesmo com estes problemas na justiça, Louis Aliot continua a recolher apoios e aliou-se mesmo a uma parte da direita da cidade. E como mostram as sondagens, também os seus eleitores parecem não se importar com a situação, como explica o politólogo Domique Sistach. “Ele tem realmente hipótese de ganhar novamente. No segundo mandato de um autarca eleito há quase automaticamente um bónus para cabeça de lista. Isto é muito específico às eleições autárquicas. E, acima de tudo, tal aconteceu em 2020, a esquerda está totalmente dividida e a direita está a ser absorvida pela extrema-direita, havendo assim poucos candidatos ou propostas ideológicas para uma oferta política que possa enfrentar a máquina Aliot. E no caso de Louis Aliot ser definitivamente condenado em recurso, estou convicto de que os eleitores da União Nacional não se importam, porque eles dizem que, de qualquer forma, o presidente da Câmara colocará alguém de sua confiança e a cidade será bem administrada. É como um cheque em branco”, explicou o académico. E tal como o próprio Louis Aliot já disse, e o seu colaborador próximo, Anthony Guerreiro repete, o líder da extrema-direita nunca estará muito longe. "Caso esse processo tenha como decisão final que Louis Aliot não possa ser presidente da Câmara, ele vai continuar a servir a cidade. Caso ele não possa exercer o mandato, se não for ele, será alguém da equipa dele e eles não podem tirar essa forma de ajudar, mesmo que seja nos bastidores. Louis Aliot vai ficar em Perpinhã, vai ajudar Perpinhã e vai continuar a servir a cidade porque ele gosta desta cidade, é uma cidade que ele respeita, respeita a sua história e é por isso que ele vai ajudar Perpinhã até ao fim", garantiu Anthony Guerreiro. Para quem intervém no meio social e da solidariedade, a cidade precisa nos próximos anos de um diálogo profundo de forma a recriar um entendimento e uma partilha que se perderam nas últimas décadas. Magalie Grand, que preside a associação Entrai’des Roussillon, gostava que as associações tivessem maior intervenção já que conhecem os problemas das pessoas da cidade. “Que a solidariedade não seja só uma palavra vã, esvaziada de conteúdo, que sejamos apoiados porque sem as associações cria-se um círculo vicioso na cidade. A questão da segurança é bastante urgente na cidade, mas as coisas poderiam ser muito piores se nós não estivéssemos aqui, as associações, para ajudar. Uma parte da delinquência surge porque as pessoas não têm nada para comer. Quem é que me diz que caso me faltasse comida, eu não faria a mesma coisa? Então as pessoas veem um modelo de sociedade que é baseado em ter e consumir mais, mas onde se faz muito pouco para ajudar o indivíduo. E nós, as associações, olhamos para o indivíduo e queremos fazer parte da vida da cidade, das discussões e tentar melhorar a vida das pessoas”, explicou. E como uma cidade não se faz sem jovens, o estudante de Sociologia, Hidad Ashraf, também gostava de ver uma mudança efectiva em Perpinhã. “Vamos começar com algumas coisas muito simples e muito básicas: a atractividade da própria região. Não há muito para manter os jovens aqui. É uma questão de ajudas muito simples. Por exemplo, no centro da cidade não temos onde comprar roupa, só vai a certas lojas quem tem carta de condução e nem todos têm carro. Em Paris ou noutras cidades, há muito mais mobilidade através dos transportes públicos, com comboios, eléctricos, autocarros. Aqui não há ajudas para os passes e os transportes terminam muito cedo. E isto são desigualdades. Também deveria ser alargada a oferta de cursos na universidade e precisamos de representantes eleitos que realmente nos representem e que não correspondam só ao estereótipo do homem branco. Precisamos de maior representação da diversidade cultural em Perpinhã”, disse. Com a extrema-direita em destaque, a direita a aliar-se à extrema-direita e a esquerda dividida, Perpinhã é um laboratório para as ideias da União Nacional, mas também um espelho do país, já que as sondagens mostram Marine Le Pen, ou o seu sucessor Jordan Bardella destacados, ficando apenas Jean-Luc Melenchon, líder da extrema-esquerda, em posição de combater pelas presidenciais de 2027. Nos últimos dias, as maiores figuras da política francesa passaram por Perpinhã e esta vinda não é por acaso. “Estamos a ver que a cidade de Perpinhã é um laboratório político, porque estamos a demonstrar na prática que não se trata apenas de sugar os votos das classes mais baixas que até aqui votavam à direita e à esquerda. Como podemos ver aqui em Perpinhã, os bairros de classe média, da classe trabalhadora, os bairros residenciais, votam da mesma forma que os bairros mais ricos e gentrificados do Leste da cidade. E sim, sendo uma cidade com assimetrias, representa de uma certa forma a França. Uma França mais pobre do que aquela que temos actualmente. Perpinhã é um laboratório para uma França mais pobre e mais dividida. Numa eleição nacional, há sempre três, quatro ou cinco cidades que serão os testes para as forças políticas e Perpinhã é uma delas”, considerou Dominique Sistach. Tempo então de partirmos para Marselha, mais uma das cidades teste destas autárquicas... Aqui, na segunda maior cidade de França, a luta trava-se entre a esquerda, no poder nos últimos seis anos, e a extrema-direita que sobe nas sondagens. Também aqui os temas como a segurança, habitação e pobreza são chave para os habitantes, no entanto, o duelo com a extrema-direita torna-se mais surpreendente já que Marselha sempre foi conhecida como uma cidade aberta ao Mundo e, sobretudo, uma cidade rebelde. Para Jorge Mendes, advogado franco-português e apoiante do actual presidente da Câmara e recandidato, Benoit Payan, a cidade tornou-se nos últimos anos um alvo da extrema-direita. “A segunda cidade francesa foi escolhida para esta luta, Benoit Payan não escolheu esta luta. Só que a direita aqui foi uma direita que não compreendeu que não podia imitar à extrema direita, senão não havia qualquer diferença entre as duas. E os eleitores iam preferir então não a cópia, mas o original, ou seja, a extrema-direita. E, portanto, de facto, esta eleição é uma eleição que vai ter uma segunda volta entre dois candidatos: entre o socialismo e a esquerda e a extrema direita. Claro que é um exemplo, especialmente a um ano da próxima eleição presidencial. Sabendo que falamos de 1 milhão de habitantes, é um exemplo do que se vai passar daqui a um ano nas presidenciais. Mas acho também que é uma sorte, não é? Também é uma sorte para ganhar esta luta. Acho que todos podem aderir a esta luta contra a extrema-direita, que nesta cidade que é tão cosmopolita, tão diversa, com uma história totalmente rebelde, de pessoas que vêm de vários países, seria totalmente impossível ter a extrema direita no poder na Câmara Municipal de Marselha. Acho que esta luta vai começar segunda-feira, depois da primeira volta que vai unir muitas pessoas de Marselha, mesmo se não votam à esquerda, porque a direita desapareceu. Portanto, essas pessoas de direita que são contra o racismo vão votar connosco. Tenho a certeza disso. Marselha, nos anos 80, foi a primeira, foi daqui que começou a marcha contra o racismo de Marselha, que eles começaram a andar até Paris contra o racismo. E tenho a certeza que vai recomeçar a mesma coisa na segunda-feira”, mostrou-se confiante Jorge Mendes. Mesmo numa cidade aberta, virada para o Mediterrâneo e cujo porto há mais de 2 mil anos serve de abrigo a quem atravessa tormentas, o diálogo inter-cultural está cada vez mais difícil, como relata Sandra Lima Rocha, franco-cabo-verdiana e presidente da associação Cap Vert l’Avenir que presta apoio aos cabo-verdianos instalados em Marselha. “O mais importante é voltar à atmosfera que existiu em Marselha. Porque em Marselha, seja nas relações entre judeus, muçulmanos ou cristãos, elas sempre foram muito boas. Quero dizer, nosso bispo em particular, Monsenhor Aveline, trabalha muito com o diálogo inter-religioso. Acho que o problema no momento é realmente a falta de diálogo entre as várias comunidades. E em Marselha, até agora, isso não tem sido muito perceptível. O mesmo acontece noutras cidades, sei que em Lyon há divisões muito grandes. Mas aqui nunca tinha acontecido”, declarou a líder associativa. Para Erwan Davoux, candidato às eleições de uma lista dissidente de direita, é necessário relembrar a todos os marselheses que independentemente das origens, todos são cidadãos da cidade. “Como em Marselha não houve uma boa governação, há
Nos dias 15 e 22 de Março, os franceses vão às urnas para as eleições municipais. Há seis anos, e após várias tentativas, Louis Aliot tornou-se presidente da Câmara de Perpinhã. Os seus partidários defendem que a cidade está mais segura e mais limpa, enquanto os seus opositores denunciam uma cidade abandonada e a tentativa de imprimir na cidade uma ideologia de extrema-direita. Em 2020, as eleições autárquicas em França aconteceram em circunstâncias extraordinárias devido à pandemia de covid-19. Esta é uma eleição com duas voltas, em que passam à segunda volta os candidatos que conseguem mais de 10% dos votos. Ou seja, entre as duas voltas há acordos, mais ou menos surpreendentes, de forma a permitir vitórias mais alargadas ou duelos entre múltiplas linhas políticas. Ora em 2020, a primeira volta aconteceu no dia 15 de Março, já envolta em polémica devido ao perigo da pandemia, e logo no dia 17 de Março, a França decidiu iniciar um confinamento muito rigoroso que durou até à Primavera. Logo, a segunda volta só aconteceu em Junho desse ano. As eleições foram então marcadas por uma grande abstenção. Em Perpinhã, mais de 60% da população não votou na primeira volta e cerca de 52% também se absteve na segunda, o que para Kevin Courtois, membro da representação local da organização SOS Racismo, explica o resultado da extrema-direita. “Acho que a eleição de Louis Aliot em 2020 ocorreu num contexto muito especial. Em primeiro lugar, havia a Covid-19 na época, que era uma questão importante e complicada naquele momento. E ele venceu porque havia um sistema em vigor há muito tempo com o antigo autarca, Jean-Marc Pujol. E, de facto, as pessoas votaram contra Jean-Marc Pujol porque isso deveria significar o fim de um reinado, o fim da estagnação e de um período sem projectos estruturantes para a cidade. Por isso, as pessoas preferiram votar contra Jean-Marc Pujol. Essa é a tragédia desta história”, lamentou o activista. No entanto, há duas décadas que Louis Aliot, originário de Toulouse, tentava ganhar destaque em Perpignan, tendo já concorrido em eleições autárquicas passadas. Aliot é actualmente vice-presidente da União Nacional e já foi deputado, assim como deputado europeu. Foi também uma figura próxima de Jean-Marie Le Pen, tendo desempenhado funções como seu secretário. Esta proximidade à cúpula do partido e o investimento feito localmente, fez com que a sua eleição em 2020 não fosse uma surpresa para o politólogo Dominique Sistach. “Não foi uma surpresa porque Louis Aliot estava a tentar ganhar Perpinhã há vários anos e as suas raízes na cidade estavam cada vez mais profundas. E, acima de tudo, não foi uma surpresa devido à falta de resposta da direita e da esquerda aos problemas da cidade. Em outras palavras, não foi tanto Louis Aliot que conquistou esta cidade, mas esta cidade ofereceu-se a Louis Aliot. É a lógica inversa e um forte declínio da direita e da esquerda em Perpinhã que levou ao sucesso de Aliot”, detalhou Dominique Sistach. Ao implementar-se na cidade, Louis Aliot começou a ganhar apoiantes. Anthony Guerreiro é um jovem franco-português que apoiou o homem forte da extrema-direita desde o início. “Comecei a apoiar Louis Aliot devido a um interesse pessoal na política, mas também porque os meus pais têm um restaurante e Louis Aliot não conseguia encontrar nenhum comércio para organizar uma conferência de imprensa e os primeiros a dizer sim foram os meus pais. As pessoas não se queriam associar a ele porque ele tem uma etiqueta de extrema direita. Como para os meus pais todos são iguais e temos que ajudar todos, eu comecei a entrar nesse mundo da política muito jovem, a ver o Louis Aliot e depois a aprender essas coisas”, explicou Anthony Guerreiro, que trabalha com o autarca. Se a União Nacional, antigo Frente Nacional, foi marcada por declarações extremas ligadas ao racismo, xenofobia ou antisemismo proferidas por Jean-Marie Le Pen durante décadas, a passagem de testemunho para a filha, Marine Le Pen, levou a uma suavização do discurso. Um dos arquitectos desta normalização do partido foi exactamente Louis Aliot. “Pode-se dizer que ele é mais um homem de direita num partido de extrema-direita. Esse é um ponto positivo, podemos dizer assim, mas claro que ele sempre foi um homem de extrema direita. Ele foi secretário particular de Jean-Marie Le Pen e sempre foi membro de um partido cujo principal objetivo é excluir os estrangeiros. Portanto, ele é um personagem bastante complexo na política e, de qualquer forma, um de seus pontos fortes é que ele pode falar tão bem com a extrema-direita, da qual ele faz parte, quanto com a direita republicana e tradicional”, analisou o politólogo. Para a organização SOS Racismo, o mandato de Louis Aliot não trouxe nada de positivo à cidade. As idas frequentes até Paris, a cerca de cinco horas de comboio, e a dificuldade em combater a pobreza e a desigualdade na cidade levam Kevin Courtois, que figura numa das listas de esquerda que concorrem à Câmara Municipal, a afirmar que Perpinhã precisa de um plano Marshall. “Sim, as diferenças entre ricos e pobres aumentaram na cidade. É quase como se a cidade não tivesse tido ninguém a dirigi-la porque o presidente da Câmara nunca cá está. E as suas acções são o resultado da sua inacção. E assim, é claro, Perpinhã afunda-se. Temos o bairro de Bas-Vernet, um dos mais pobres da Europa, temos índices de desigualdade enormes nesta cidade. Precisamos de uma espécie de Plano Marshall para a cidade. O que nós precisamos fazer é produzir riqueza e ter uma acção municipal efectiva, para que os negócios se instalem aqui, é preciso dinamismo. E essa é a melhor forma de combater a insegurança que aumenta na cidade, tendo lojas e uma economia dinâmica”, defendeu. Para Anthony Guerreiro, cuja família está instalada em Perpinhã há duas gerações, a mudança na cidade desde 2020 é óbvia, desde logo passando pela limpeza da cidade, mas também a segurança, já que Louis Aliot aumentou para 200 o número de polícias municipais - uma polícia de proximidade, sem as mesmas competências do que a polícia nacional, usada por muitos autarcas para reforçar o cumprimento de regras nas cidades, já que cabe ao Estado central a distribuição da polícia nacional e da polícia militar no território. “Aqui, nestes seis anos de cidade, mudaram muitas coisas já, como a segurança, ele aumentou o número de polícias municipais. Ele fez seis esquadras de polícia abertas 24 por dia. Isso antigamente não tinha. Para uma vila de 120.000 habitantes é muito importante. Ele fez a mediateca. Até a nível de limpeza, ele investiu mais de um milhão para renovar o material todo, porque estava tudo avariado. Meteu mais empregos para o centro, vilas, os bares fora. Ele ajudou muito também a nível nacional, porque ele é conhecido e tem o poder de mudar as coisas”, explicou. Após seis anos a viver sob o jugo da extrema-direita, a SOS Racismo contesta o facto que mais polícia signifique mais segurança, até porque os dados mostram um aumento de 10% da delinquência na cidade, especialmente no que diz respeito ao tráfico de droga. Deste mandato, para Kevin Courtois, ficam as tentativas de estender à cidade a ideologia da extrema-direita.  “Observámos vários indicadores de extrema-direita, mesmo se como presidente da Câmara não há grande balanço a fazer. Foi organizado um festival chamado ‘Primavera da Liberdade de Expressão’ que trouxe à cidade várias figuras nacionais de extrema-direita e isso foi financiado com o nosso dinheiro. Também tentou dar o nome de uma praça da cidade de Pierre Sergent, um ex-membro do departamento de Oise, responsável por actos terroristas na França e por mais de 50 mortes, portanto são ataques que visam perturbar da ordem pública e isso poderia gerar uma ofensa à sensibilidade da memória viva, ou seja, às pessoas que foram vítimas desse homem, desses actos terroristas”, declarou. Pierre Sergent nasceu em Perpinhã começou por integrar a resistência francesa durante a II Guerra Mundial, mas integrou depois a guerra da Argélia tendo-se depois desvinculado do Exército francês e integrando organizações subversivas que defendiam a manutenção da Argélia sob domínio francês e que levaram a cabo vários actos terroristas.  Outra mudança na cidade, foi a mudança da sua divisa. Devido à proximidade geográfica, à língua e à partilha de tradições com a vizinha Catalunha, Perpinhã era conhecida como a catalã. Desde a chegada de Louis Aliot, o autarca decidiu que a cidade deveria passar a ser designada como a radiante. Para Kevin Courtois este é também um sinal da vontade da extrema-direita de apagar a histórica multicultural de Perpinhã. “É profundamente chocante porque Perpinhã, a radiante, foi construída sobre nada. Ao passo que Perpinhã, a catalã, faz parte de uma memória e história compartilhadas. E tudo isto custou dinheiro, porque houve um investimento na mudança da imagem e do logotipo da cidade. Quer dizer, é uma loucura. Temos os bairros mais pobres de França. Acho que esse dinheiro poderia ser usado de outra forma”, defendeu o activista. Para Dominique Sistach houve várias tentativas de acção simbólica de extrema-direita, mas que não foram eficazes. “Em Perpinhã, isso não foi feito em grande escala, porque cada vez que a União Nacional tem o poder, tenta levar a cabo uma ação simbólica a favor ou em linha com a ideologia extremista. Foi feita essa tentativa da Praça Pierre Sergent,um ativista de extrema-direita e o tribunal administrativo pediu que fosse retirado. Portanto, houve uma acção, mas ela foi imediatamente frustrada pelo que chamamos as instituições republicanas, logo, falamos de acções não tão fortes como costumava ser quando o partido era dirigido por Jean-Marie Le Pen. Mas essa acção ainda está presente e ainda tem alguma eficácia”, concluiu.
As eleições autárquicas em França, nos dias 15 e 22 de Março, são o último grande escrutínio antes das muito antecipadas eleições presidenciais de 2027, às quais Emmanuel Macron não se vai poder candidatar. Estas eleições locais ganham assim uma importância nacional, mostrando muitas das tendências políticas no país, assim como as preocupações dos franceses e as soluções locais possíveis face aos desafios globais. A RFI esteve no Sul da França para perceber como as eleições se vão desenrolar em duas cidades diferentes. A primeira paragem da RFI foi Perpinhã, uma cidade junto à fronteira com a Espanha, no Sul da França, onde desde 2020 é o partido de extrema-direita, a União Nacional, que detém a Câmara Muncipal, fazendo desta cidade de 120 mil habitantes, a maior metrópole controlada pelas forças de Marine Le Pen. No entanto, segundo o politólogo Dominique Sistach, autor do livro “Perpignan, déclassement et droitisation”, algo como desclassificação e alinhamento à direita em português, esta adesão da cidade às ideias de direita começou há mais de 60 anos, aquando o fim da guerra na Argélia e acentuou-se mais tarde com o fim das indústrias locais e a falta de emprego qualificado. “Perpinhã foi uma cidade da Resistência, uma cidade comunista, uma cidade de esquerda até 1958, até ao início da descolonização na Argélia. É por isso que falar sobre o movimento de direita não é apenas uma palavra vazia, é um facto real. Passámos de uma sociedade de classe trabalhadora, uma sociedade radical, socialista e comunista, para uma sociedade que gradualmente se tornou de direita e centro-direita e agora extrema direita”, explicou Dominique Sistach. Apesar de uma posição geográfica privilegiada, a poucos minutos de algumas das mais belas praias de França e o pico do Canigó, uma montanha com quase 3 mil metros de altitude, Perpinhã está entre as cidades mais pobres do país e o Observatório das Desigualdades classificou em 2024 três bairros da cidade, Bas-Vernet Ancien, Rois De Majorque e Champs De Mars, como os mais pobres de França. Estima-se que 33% da população desta cidade do Sul viva abaixo do limiar da pobreza. Esta é uma realidade bem conhecida pelas associações solidárias da cidade, como a Entrai’des Roussillon, uma associação criada há 30 anos e que detém duas lojas solidárias onde roupas e objectos usados são vendidos a preços simbólicos, contribuindo para a criação de postos de trabalho e inserção social, mas também para a inter-ajuda entre os que mais precisam. A presidente da associação, Magalie Grand, diz que as necessidades na cidade são grandes. “Infelizmente, o empobrecimento da população é óbvia, já que somos o segundo distrito mais pobre de França. Temos uma taxa de desemprego bastante alta. Podemos ver que as necessidades são realmente grandes. A habitação em Perpinhã é um grande problema, há filas de espera para ter um alojamento social, e pode demorar entre dois a três anos. Muitas casas são insalubres, portanto também há essa questão que, claro, leva a problemas de saúde, porque não se pode viver de forma digna numa casa com humidade. Felizmente há associações como a nossa que estão presentes, mas podemos ver que com a redução das ajudas públicas, algumas pequenas associações estão a fechar portas e muitas delas têm utilidade social para a população. Nós resistimos porque estamos quase a completar 30 anos de existência, o que não é pouca coisa, mas sentimos um aperto no peito, já que a nossa associação tem funcionários, temos de pagar os salários e as contribuições sociais ao Estado, pagamos rendas. Temos muitas despesas”, explicou a líder associativa. A taxa de desemprego em Perpinhã chega quase aos 22%, o que torna difícil mesmo para os jovens que estudam na cidade - há cerca de 10 mil estudantes na universidade de Perpinhã - de se fixarem. Hidad Ashraf tem 21 anos, está no terceiro ano de Sociologia, e tal como muitos dos seus colegas pensa deixar a cidade assim que terminar a sua licenciatura. “Francamente, Perpinhã é uma cidade muito virada para as pessoas que já estão na reforma. Eu, como jovem estudante, sei que não há realmente nenhuma perspectiva de futuro em Perpinhã, a não ser para as pessoas que querem ir para a agricultura e outros sectores muito específicos. Tanto eu, como os meus colegas, como inquéritos que levei a cabo durante os meus estudos mostram que os estudantes estão só à espera de poderem terminar os estudos para deixar a cidade. E esse é o meu caso. Quem quer ficar é porque vem de famílias onde há negócios ou heranças que permitem uma certa estabilidade. Para quem quer ter um futuro aqui é complicado”, detalhou o estudante. Aos poucos, e devido às escolhas políticas dos últimos 30 anos, com presidentes da Câmara que permaneceram no poder durante vários anos enquanto acumulavam cargos de poder nacionais como deputados ou senadores - algo actualmente proibido pela lei -, as zonas comerciais, tal como noutras cidades médias em França, foram saindo do centro da cidade e os comércios foram sofrendo. Uma tendência alimentada pelo esvaziamento da cidade, como constata Dominique Sistach. “A cidade foi esvaziada de lojas e habitantes. E, como sempre, quando uma cidade perde a sua diversidade social, tudo o que resta são os moradores mais pobres, aqueles com menos recursos para se locomover. E a cidade é visivelmente mais pobre hoje do que era em 2020. Por outro lado, esta cidade também precisa de uma identidade colectiva que seria algo ligado a uma maior actividade industrial, ao turismo, mas não há uma actividade dominante. Não há nenhuma atividade dominante. Assim, para aqueles que vivem aqui, além da pobreza que é consensual, não há nada de positivo para a dar à cidade. E acredito que esse seja um dos principais problemas do mandato de Aliot, mas também do mandato do anterior, Jean-Marc Pujol”, detalhou o académico. A RFI deslocou-se ao bairro de Saint-Jacques, um bairro muito próximo do centro da cidade, mas conhecido por albergar pessoas com dificuldades sociais e marcado pela insegurança. Os comerciantes preferiram não fazer quaisquer declarações gravadas, mas garantem que há décadas sentem uma diferença de tratamento por servirem comunidades maioritariamente magrebinas, lamentando a falta de policiamento, o desinteresse e a pouca presença das autoridades locais.  As desigualdades acentuam-se ainda mais consoante as origens da população, sendo uma cidade onde 13% da população não é francesa. Entre as principais origens está a Argélia e também Portugal. Para Hidad Ashraf, que veio da Bélgica e tem origens marroquinas e paquistanesas, a desigualdade da cidade chocou-o profundamente. “Na verdade, estas desigualdades doem porque não estamos à espera. Sei que quando cheguei a Perpihã, a primeira coisa que notei foi a enorme quantidade de diáspora que há na cidade. Temos todos os tipos de pessoas: espanhóis, ciganos, norte-africanos, todos os tipos de pessoas do continente africano, e foi surpreendente ver isso. Eu achava que seria uma cidade feita para, entre aspas, acolher os imigrantes. E, de facto, no final, deparei-me com muitas desigualdades, em termos de acesso à educação, não necessariamente para mim, mas noutros casos. Discriminaçõa em relação a outros colegas de curso também, ou  dos seus pais que tiveram de lidar com discriminação racial. Então, na verdade, tudo se resume a desigualdades. Então, são coisas com as quais temos que lidar todos os dias. E até mesmo nos discursos de alguns políticos de Perpignan, que, por exemplo, dizem que o povo de Perpignan não sofre discriminação. É extremamente violento dizer coisas desse tipo, quando nós mesmos que somos discriminados, não conseguimos entender isso. E generalizar essa frase deslegitima as desigualdades e as pessoas que são discriminadas”, disse o estudante. Para Dominique Sistach foi o quadro de empobrecimento e de desigualdade da cidade que permitiu a subida da União Nacional e a vitória de Louis Aliot nas eleições municipais de 2020. “Uma das chaves para entender a relação entre o extremismo de direita é o empobrecimento generalizado, ou seja, a União Nacional só pode estabelecer-se se o nível de pobreza for constante. Assim que o nível de riqueza se torna muito alto, a União Nacional torna-se um partido muito menos apelativo”, concluiu.
As pessoas com deficiência visual enfrentam desafios no processo de aprendizagem e comunicação pela linguagem braille em Moçambique.  A constatação é do Presidente da Associação dos Cegos e Amblíopes de Moçambique, (ACAMO) Domingos Neves para quem muito ainda precisa ser feito para que o seguimento populacional nesta condição se sinta incluída e não discriminada.  Nem sempre frequentar uma sala de aulas nestas condições em Moçambique , onde a interacção: o professor e o aluno estão em perfeita harmonia, diz em nome de muitos, Baptista Avelino de 27 anos que iniciou os estudos primários em 2009, graças ao suporte de um missionário brasileiro.  Eu puder começar a estudar foi graças ao suporte ou ao apoio de um pastor, missionário brasileiro chamado Elias. Então, comecei a estudar, em 2009 e tive logo a chance de passar para a primeira, no mesmo ano, e em 2010 também tive mais uma passagem automática isso já de segunda para a terceira classe então, foi mesmo um período de sucesso para mim. O desempenho e o esforço assume Baptista Avelino, factores que jogaram um papel decisivo para o alcance do sucesso escolar ao nível primário, secundário e universitário onde na frequência da licenciatura em filosofia na Universidade Eduardo mondlane recorreu aos livros electrónicos para a sua aprendizagem ainda assim , nada foi facil é que era igualmente difícil aceder a estes manuais adaptados à sua condição.  A própria leitura. há livros que eu não podia conseguir ler e por causa do formato, há livros que para eu ler de forma independente teria que deixar o livro, ler página por página até alcançar aquela informação que eu quisesse. então são esses desafios mas mesmo assim, fiz esforço , foi um momento marcante , foi a partir daqui, da filosofia mesmo que consegui sair para estudar na Polónia, em uma mobilidade e, foi a partir desse curso que depois comecei a estagiar no WFP, PMA (PAM) nesse caso, foi interessante o estágio então, valeu a pena. O braille para mim é bastante importante, bastante interessante porque ele permite o individuo ter contacto com as letras.  As massificação do braille para as pessoas cegas e com baixa visão é uma necessidade urgente mas muitas vezes ignorada diz o  presidente da Associacao dos cegos e amblíopes de Moçambique, Domingos Neves, por aqueles que tem o dever de prover.   O braille não é só para as pessoas com deficiência visual. Aliós como se chama em Mocambique, o braille tem sido dado nos institutos de formação dos professores, isto é para permitir exactamente que os professores formados possam também quando forem encontrar crianças com deficiência  visual nas suas escolas possam exactamente atender para que nao haja estigma , para que nao haja discriminação. O braille é para todos, o braille não é só para as pessoas com deficiência visual. As necessidade no campo do ensino e aprendizagem diz Domingos Neves são imensas a começar pela insuficiência de material didáctico.    Estou a falar dos computadores em formato de aúdio NVDA, estou a falar também das pautas com sons , máquinas braille  ou Perkins , dos orbites readers entre outros. Veja que este tipo de meios , este tipo de materiais não estão disponíveis no país. Sempre que alguém de boa vontade, um doador queira nos ajudar recorremos ao mercado internacional este que é o grande problema.  Um problema que agrava ainda mais a situação é o fim do contrato ocorrido a 31 de dezembro do ano passado entre as associações dos cegos e amblíopes de Mocambique e da Noruega.  Esta associação ajudou a ACAMO desde 1995 data em que a ACAMO foi criada até este momento . Ajudou-nos bastante, fizemos muitas coisas , refiro-me exactamente a promoção dos direitos da pessoa com deficiência neste país e, tudo o que tem principio tem fim , e o contrato termina e, neste momento estamos sem doador, sem financiador, significa que tanta coisa que vai ficar sem a materialização, sem a concretização e, não teremos fundos para lutarmos para defendermos, para protegermos e para promovermos os direitos da pessoa com deficiência visual em Moçambique. Dificuldades acrescidas se esperam mas, diz Rafael José - formador de 27 anos e a três anos afecto ao Instituto de formação de professores de Chibata que pretende dar o seu contributo para que as pessoas com deficiência visual transponham a barreira na comunicação escrita.  E com muito prazer eu tenho aqui essa honra posso assim dizer de formar futuros professores com a ferramenta do braille lá inclusiva para poder servir as crianças que precisam da inclusão , as crianças com deficiência , talvez algumas que procuram por estes serviços mas também outras que se encontram talvez presas nos seus próprios destinos , presas nos seus próprios sonhos por não acreditar que podem estudar mesmo com a deficiência. E, falando do meu sonho , eu como pessoa também como formador , o meu maior sonho é ver Moçambique e o mundo mais inclusivo daquilo que ele é hoje. Estou a dizer que o acesso às oportunidades de emprego e em outras áreas da vida que seja acessível e que não olhem para a deficiência visual de forma concreta como impedimento nem para que a criança e o jovem adolescente possa sorrir e ser feliz com a vida. Então, eu auguro e almejo um Moçambique cada vez mais inclusivo.  O espírito de entre ajuda ganha cada vez mais intervenientes na sociedade moçambicana o que move o sonho de Baptista Avelino abrir uma escola de Braille, ainda no segredo dos deuses.   Futuramente gostaria de ajudar as pessoas com deficiência assim como sem deficiência com a escola do Braille. A escola do Braille ele é um outro sonho , esse sim , já é um projecto digamos assim, já está no papel já está a caminhar, já estou a procura de financiamentos para poder colocar esse sonho a funcionar porque eu gostaria que o braille fosse visto como uma caneta.  Todos para que possam ter a oportunidade de aprender . Eu acho que a inclusão só será possível quando todos nós, quer os indivíduos, toda a sociedade melhor dizendo tenha conhecimento da própria inclusão. Se toda ela tiver por exemplo conhecimento do braille isso vai ser muito importante para ajudar a pessoa com deficiência por exemplo que estiver nas zonas recônditas para que ele possa ter conhecimento do braille e , possa ingressar no ensino primário. Exemplo, mesmo os que perderem a visão para que não seja necessário sempre que o individuo possa ir para instituições longas, que estão a longa distancia aprender para se tornar alguma coisa. Eu acho que o estudo é bastante importante , ele possibilita ao individuo alcançar uma dignidade. O dia mundial do Braille assinala -se a 4 de janeiro de cada ano e, em Mocambique a Associação dos cegos e ambliopes de Mocambique, Acamo, com 21 mil membros inscritos recorda que são objectivos da agremiação a defesa e proteção dos direitos da pessoa com deficiência visual no país.
O Salão da Agricultura está de volta a Paris e transforma a capital francesa num grande palco do mundo rural. A edição deste ano conta com uma particularidade inédita: pela primeira vez, os visitantes não encontrarão as emblemáticas vacas que costumam ser as estrelas do evento. A razão principal prende-se com a dermatose nodular contagiosa, uma doença que, este ano, afectou muito o gado bovino em várias regiões do país.     Por essa mesma razão, as 28 organizações que representam as raças bovinas decidiram não levar os seus animais ao salão para proteger a saúde dos rebanhos e evitar qualquer risco de contágio. A presença das vacas mobiliza todos os anos milhares de pessoas e esta ausência de peso já está a ter consequências. Os organizadores da Feira destacaram que, nos primeiros quatro dias de evento, existiu uma queda acentuada no número de visitantes, na ordem dos 25%. Ainda assim, há quase 3.500 animais presentes, entre ovinos, caprinos ou até mesmo animais de companhia, como é o caso de cães e gatos. Pastéis de nata e enchidos portugueses fazem as delícias dos visitantes No certame, participam duas empresas portuguesas, desde logo o Fumeiro Artesanal de Seia. Aqui, os produtos fazem lembrar a "receita da avó". Francisco Mendes, director de vendas, falou-nos sobre a edição deste ano e recordou que já estão presentes no salão há 15 anos. "Este ano está a correr relativamente bem, mas existe menos gente a visitar o salão, este ano", começou por confessar Francisco Mendes, que aponta várias razões para esta diminuição da afluência, desde logo o facto de terem mudado de pavilhão, mas também "pelo poder de compra" ou "pelas notícias de não haver as vacas este ano". Este ano, como não poderia deixar de ser, os pastéis de nata portugueses estão novamente a fazer sucesso no Salão da Agricultura, conforme nos dá conta Bernardo Amaral, vendedor nesta empresa, já está presente no evento há mais de uma década. "Nós aqui vendemos o típico pastel de nata, típico de Portugal, de Lisboa, acompanhado pelo café português, pela ginginha e pelo vinho do Porto. O pastel de nata é conhecido a nível internacional e o povo francês, habituado à típica patisserie française gosta muito deste papel e adere bem à compra", explicou-nos o vendedor, que espera uma maior afluência de clientes nos últimos dias do evento. Pouco tempo depois desta conversa, encontrámos Fabian, um jovem de 23 anos, de origem portuguesa, que não resistiu a vir provar os pastéis de nata. "Por agora, ainda só vi os pasteis de Nata. Vim directamente porque é um produto fantástico de Portugal. Tenho muitas saudades de Portugal. É um conforto para os portugueses ter estes produtos cá", garantiu, este jovem lusodescendente, ao microfone da RFI. A poucos metros dali, a presença lusófona continua a fazer-se representar. Encontrámos o restaurante "Delícia do Brasil", empresa que participa em 10 feiras por ano e que surgiu da ideia de um casal internacional, conforme nos contou Emília dos Santos, recepcionista neste local. "É um brasileiro que é casado com uma francesa que teve esta ideia e dão oportunidade a brasileiros e portugueses que trabalham aqui connosco", disse Emília, lamentando depois que este ano, o espaço tenha passado do pavilhão 5 para o 7.1 porque as pessoas não estão familiarizadas com esta mudança. Este evento incontornável do mundo da agricultura decorre até ao próximo domingo, 01 de março, na Porte de Versailles, em Paris.
O actual Seleccionador de Futebol de Cabo Verde, Pedro Leitão Brito, conhecido por Bubista, é um dos ex-jogadores da selecção cabo-verdiana que, todos os fins-de-semana, ministra aulas de futebol a crianças e adolescentes na ilha de São Vicente. Todos os sábados, das 9h00 às 10h30, e aos domingos, das 8h00 às 9h00, o seleccionador da equipa de futebol cabo-verdiana, Bubista, orienta mais de 150 crianças e adolescentes que frequentam a Academia do Sporting de São Vicente. A escola de futebol é um projecto do antigo jogador da selecção cabo-verdiana, em conjunto com outros seis ex-colegas: Viriss, Dário, Bisquite, Bocsh, Abel e Finga. Pedro Leitão Brito, um dos responsáveis pela qualificação de Cabo Verde para o Mundial de futebol pela primeira vez na história, explicou que o propósito da academia é contribuir para a educação das crianças e dos adolescentes. “A primeira intenção é fazer com que os miúdos se integrem desde cedo no mundo desportivo e no mundo da educação. A nossa escola tem, intencionalmente, o objectivo de fazer com que os miúdos entendam primeiro como devem estar em grupo, com educação, e possam, aos fins-de-semana -quando estamos sempre aqui- interagir com os colegas e com alunos de outras escolas. Como viste, temos uma equipa a jogar de um lado e outra a treinar do outro. Aqueles que tiverem condições, no futuro, poderão estar nos grandes palcos.” Reacção das crianças Questionado sobre a forma como as crianças e adolescentes reagem à sua presença enquanto seleccionador nacional, Bubista afirmou que “a primeira reacção, principalmente depois de nos termos apurado para o Mundial e de eu ter sido distinguido como melhor treinador de África, tem sido de muita alegria”, sublinhando que é “gratificante, sobretudo quando estamos na rua com os pais, sentir uma criança de cinco ou seis anos a gritar: ‘Lá está o meu professor, o meu treinador.’” O técnico cabo-verdiano reconhece que “a nossa primeira luta é educacional. Queremos que as crianças mantenham essa base de educação onde quer que estejam; depois vem a parte desportiva. Temos equipas de competição, mas privilegiamos sempre o treino e a formação acima da competição. Competir não é a nossa primeira intenção. Os miúdos que saem daqui com 14, 15 ou 16 anos são encaminhados para clubes de São Vicente, mas a intenção principal é sempre educar.” As crianças não escondem a alegria de serem preparadas pelo melhor treinador de África em 2025 e pelo seleccionador nacional de futebol, responsável por levar Cabo Verde ao Mundial de 2026. A alegria é também partilhada pelos pais e encarregados de educação que, todos os sábados e domingos, permanecem nas bancadas do campo do Centro de Estágio da Federação Cabo-verdiana de Futebol, apoiando os pequenos jogadores orientados pelo treinador da selecção nacional e por antigas estrelas do futebol cabo-verdiano. O testemunho dos pais Clara Spencer, mãe de um dos alunos, acompanha o filho todos os fins-de-semana e destaca a disciplina transmitida às crianças e adolescentes pelo treinador Bubista. “O meu filho fica eufórico para se levantar da cama e vir aos treinos. É um momento de partilha e um sentimento de pertença à escola, desde logo pela disciplina imposta pela equipa técnica -a maioria dos treinadores já foi jogador da Selecção de Cabo Verde -e agora temos também o Bubista como ídolo. Isso é óptimo para a escola e para os pais, sobretudo pela disciplina dos miúdos.” Clara Spencer acrescenta que as crianças sabem que Bubista é rigoroso e que Cabo Verde não chegou onde está por “brincadeira”. “Foram anos de muito trabalho. Sabemos da importância que ele teve e continua a ter e, sobretudo, do exemplo que deixa às crianças. Houve momentos de festa quando ganhámos e ele trouxe o prémio, todos adoraram. Mas, quando está aqui, como puderam ver hoje, há muita disciplina.” Preparação para o Mundial 2026 Entretanto, a selecção cabo-verdiana de futebol viaja em Março para a Nova Zelândia, onde vai defrontar as congéneres do Chile e da Finlândia, no âmbito do torneio FIFA Series 2026. Ambos os jogos de preparação para o Mundial de 2026 dos “Tubarões Azuis” serão disputados no Estádio Eden Park, em Auckland. Bubista considera que a participação no torneio será muito importante para Cabo Verde, que se estreia no Mundial a 15 de Junho frente à Espanha: “Temos jogos marcados com o Chile e com a Finlândia, que são equipas diferentes. O Chile será uma boa preparação, por ser uma equipa da América do Sul, com dinâmicas semelhantes às do Uruguai, uma das selecções que vamos defrontar no Mundial. A Finlândia é diferente, mas precisamos dessas experiências para nos prepararmos da melhor forma e afirmarmos a nossa identidade no Mundial. Precisamos de outros ambientes para ganhar mais experiência.” O seleccionador admite as dificuldades na marcação de jogos com selecções de topo, mas constata que a Federação tem feito um esforço nesse sentido. “Sabemos que não é fácil conseguir jogar com determinadas selecções. Há a questão dos cachês e não temos condições para pagar os valores exigidos pelas selecções mais evoluídas. Ainda assim, a Federação tem feito um grande esforço e, na medida do possível, conseguiremos marcar jogos que permitam aos nossos jogadores ganhar experiência e perceber o que vão encontrar no Mundial. Sabemos que é o nível mais alto do futebol de selecções, mas temos a nossa identidade e confiança. Queremos, acima de tudo, mostrar o nosso país ao mundo.” O primeiro teste dos “Tubarões Azuis” no torneio FIFA Series 2026 está agendado para 25 de Março, frente ao Chile. Cinco dias depois, a 30 de Março, Cabo Verde defronta a Finlândia.   Antes de Junho, a selecção nacional realizará ainda alguns jogos-treino com selecções de três ou quatro ilhas, como forma de aproximar o combinado nacional das restantes ilhas do arquipélago e não o manter apenas entre Santiago e São Vicente. “O que queremos é que a selecção esteja o mais próximo possível das ilhas, para que o nosso povo também se aproxime mais da equipa. Durante todo este percurso, muitas pessoas não estiveram nos campos, mas demonstraram um grande engajamento, com atitude e espírito positivo. Isso ajudou-nos muito ao longo da campanha. Se conseguirmos estar em três ou quatro ilhas antes de irmos para o Mundial, ficaremos bastante satisfeitos. Sabemos que não é possível chegar a todas as ilhas, mas queremos proporcionar aos jogadores- tanto os residentes como os que actuam no estrangeiro -a possibilidade de confraternizar entre si e, principalmente, com o nosso povo, que tanto tem apoiado a selecção.” Cabo Verde integra o Grupo H da fase final do Campeonato do Mundo, juntamente com as selecções de Espanha, Arábia Saudita e Uruguai. A estreia absoluta da selecção nacional na maior montra do futebol mundial acontece a 15 de Junho, frente à Espanha, em Atlanta, nos Estados Unidos da América. O calendário dos “Tubarões Azuis” prossegue a 21 de Junho, em Miami, diante do Uruguai, encerrando a fase de grupos a 26 de Junho, em Houston, frente à Arábia Saudita.
Mario Soares viveu exilado em Paris durante quatro anos e foi a partir da capital francesa que orquestrou a fundação do Partido Socialista português. Aqui escreveu, falou e lutou contra a ditadura portuguesa, guardando uma grande admiração e reconhecimento para com a França, terra de acolhimento. 52 anos após a sua partida de Paris para Portugal, logo a seguir ao 25 de Abril, a cidade de Paris rendeu-lhe uma homenagem sentida dando o seu nome a um jardim da capital. Poucos dias antes do 25 de Abril de 1974, Mário Soares, a viver há quatro anos em França, dizia a um canal de televisão suíço que a ditadura em Portugal estava prestes a cair e que isso aconteceria a partir de uma revolta militar. Tal como noutros momentos-chave da vida política portuguesa, não se enganou e no fim desse mesmo mês voltaria para Portugal, exaltado como uma das maiores esperanças da democracia portuguesa. Na capital francesa, o exilado português português viveu, trabalhou e ajudou a fundar o Partido Socialista português. Mais de 50 anos depois, a cidade de Paris reconheceu a passagem deste político fundador da democracia portuguesa e concedeu o seu nome a um jardim no 20º bairro, onde no passado fim de semana acorreram as mais altas autoridades da cidade, como a autarca Anne Hidalgo, mas também o embaixador de Portugal em França, Francisco Ribeiro de Menezes, assim como a família de Mário Soares e ainda figuras de destaque da imigração portuguesa em França. Aos jornalistas, o filho de Mário Soares, João Soares descreveu esta homenagem como "um momento de grande ternura". "Do ponto de vista simbólico, é um momento de grande ternura, porque é a memória do nosso pai que viveu quatro anos exilado em França e é o reconhecimento do papel que ele teve. A Isabel e eu, como jovens adultos, acompanhámos a saída dele de Portugal. Ele tinha estado preso 12 vezes e depois esteve deportado em São Tomé. Voltou e depois foi ameaçado a seguir à morte do nosso avô. Tínhamos ido ter com ele a Itália e ele decidiu imediatamente voltar quando soube da morte do pai. E nós voltámos com ele de Roma para Lisboa e estávamos convencidos que ele ia ser preso à entrada, Mas eles não o prenderam. Deixaram-no ir ao funeral e depois, um dia ou dois depois, chamaram-no à PIDE para dizer que ele saía do país até à noite ou ia preso outra vez e ele decidiu não ser preso pela 13.ª vez", explicou. Foi assim que Mário Soares e a sua mulher e também fundadora do Partido Socialista português, Maria Barroso, rumaram a Paris, tendo chegado de comboio em 1970. Mário Soares veio com dois objectivos na cabeça, numa altura em que a guerra colonial decorria há quase uma década e que Salazar tinha acabado de morrer, tendo sido substituído por Marcelo Caetano. "Ele tinha duas coisas na cabeça. Uma era acabar o Portugal Amordaçado, que foi editado em França, foi editado em França, saiu em francês muito antes de sair em português. Só saiu em português depois do 25 de Abril. A Isabel e eu fomos muitas vezes buscar provas e levar provas do livro e ele queria também fundar o Partido Socialista. Digamos que toda a manobra à volta da criação do Partido Socialista foi feita a partir de Paris, onde ele vivia. O François Mitterrand ainda não estava no poder em França e havia o Willy Brandt na Alemanha, que era um tipo fantástico. Eles decidiram, por razões logísticas e que é justo reconhecer e graças ao Willy Brandt, fazer o partido foi feito na Alemanha", detalhou João Soares. Em Paris, Mário Soares vivia num estúdio no Boulevard Garibaldi, tendo aberto a primeira livraria de livros portugueses na capital francesa e dando aulas em várias universidades. Apesar de prosseguir o trabalho político pelo fim da ditadura, Mário Soares havia de recordar para sempre com entusiasmo os quatro anos que viveu em Paris, como descreveu a filha Isabel Soares. "Foi alguém que lutou sempre pela liberdade antes e depois do 25 de Abril. E esta homenagem de Paris é particularmente importante porque é, no fundo, uma cidade a partir do qual se desenhou a revolução e um outro regime em Portugal. E para nós é particularmente comovente, porque o meu pai era tinha um amor pela França, que achava que era a terra da liberdade e da cultura pela cultura francesa. E passou nos isso desde sempre, a nós, enquanto crianças. Portanto, adorava os escritores franceses. Os pintores franceses adorava a vida em Paris. E ele disse sempre. E disse isso no livro com a Maria João Avillez, que aprendeu muito com a vida dele em Paris. Só o facto de estar passear nas ruas, ir às livrarias, ouvir a televisão, os debates, enfim, tudo o que se passava era o mundo. Tudo era aquilo que nós não tínhamos em Portugal, porque havia a censura, havia a polícia política. Portanto, isso foi, portanto, lembrá lo aqui e, sobretudo, dar o nome a um jardim. Ele, que era um homem que amava a terra, amava jardins, amava as árvores. Acho que é uma homenagem que nos toca muito enquanto filhos. Quando ele decidiu vir para o exílio, ele reuniu se com a família e com os amigos mais próximos para saber se iria para a prisão, porque a PIDE tinha posto um ultimato ou saía para o exílio. E eu acho que a decisão dele foi a certa, porque a partir de ele achou que era muito mais útil ao seu país. No exílio e a partir daí, como o meu irmão disse, teceu uma teia de amizades e de cumplicidades com os líderes socialistas e sociais democratas. Muitos deles estavam no poder na Europa, que foram cruciais para a defesa da democracia e depois para o reconhecimento da Junta e da Revolução dos Cravos", disse a filha Isabel Soares. Nesta passagem por Paris, Mário Soares fez muitos amigos, incluindo um amigo especial, François Miterrand, ou mon ami Miterrand, como o político português o apelidava. Estes amigos ajudaram os portugueses no exílio, ampliando a difusão dos seus argumentos para o fim da ditadura em Portugal, e, como lembra o antigo deputado e companheiro de luta de Mário Soares, Rodolfo Crespo, a despertar e alimentar a sede de liberdade dos jovens. "Eu sinto-me confortável com esta homenagem que se faz aqui assim ao Mário Soares. Porque quando eu cheguei a Paris, vindo de Lisboa. Eu era jovem e o sentia-me abafado e senti uma liberdade em Paris ver as pessoas discutirem, terem opinião, terem diferenças e ninguém ter medo da PIDE. Foi uma coisa extraordinária. E rever isso depois, em Portugal, depois do 25 de Abril, foi a maior alegria da minha vida", disse Rodolfo Crespo. Foi a partir de Paris que Mário Soares voltou a Portugal, chegando a 28 de Abril e sendo o primeiro dos exilados com grande influência polítíca a chegar a Lisboa. Rodolfo Crespo lembrou esses momentos. "No 25 de Abril aqui eu estava a trabalhar, portanto saí do trabalho e ouvi na rádio Abril em Portugal e falou se da revolução. E então, telefonámos imediatamente ao Mário Soares. Ele estava na Alemanha e ele disse: 'Eu vou já para aí'. E então depois, no estúdio dele é que falámos, discutimos, vimos, telefonámos, fizemos os contactos todos. Foi uma luz que nos apareceu ao fundo do túnel", descreveu. Esta era uma homenagem há muito preparada pela Câmara Municipal de Paris, pensada para coincidir em 2024 com os 50 anos do 25 de Abril e o centenário do nascimento de Mário Soares. Veio um pouco mais tarde, mas o agora jardim Mário Soares fica no meio de um bairro vivo, popular e agitado, que o conselheiro municipal de Paris, Hermano Sanches Ruivo, pensa coincidir com o espírito do político português. "Há aqui uma associação portuguesa que é "A memória viva". A coordenação das associações esteve aqui também a sua sede. O vigésimo bairro de Paris é, por definição, um bairro popular de esquerda. Sempre votou à esquerda. E faz sentido porque é um jardim onde as crianças vêm, onde os pais vêm, onde os jovens vêm, dos seniores vêm. E, portanto, onde se vai colocar sempre a pergunta sobre quem é a personagem e porque é que o jardim se chama assim? Portanto, fazia muito, muito sentido. Em vez de fechar Mário Soares num bairro se calhar muito mais requintado para nós fazia mais sentido fazer a associação entre Mário Soares e o povo. E de facto, é uma parte do povo português. E é isso que é importante, porque de facto, há muitos portugueses a viverem aqui. Sempre houve. Há muitos cabo verdianos, agora também brasileiros e portanto, é uma forma também de inscrever essa parte portuguesa e lusófona na história de Paris", concluiu o conselheiro municipal franco-português. O jardim Mário Soares pode ser visitado no número 46 da rua Pixérécourt, no 20o bairro de Paris. Numa data ainda a anunciar será descerrada uma homenagem junto ao número 17 da Boulevard Garibaldi, no 15o bairro, onde Mário Soares viveu.
“Desenhar o Lugar: Percursos de Permanência e Trânsito” é a exposição que Emerson Quinda, emergente artista são-tomense, apresenta em Lisboa. O trabalho resulta de uma residência artística em Loulé onde, com a curadoria de João Serrão e Ricardo Vicente, Emerson Quinda se lançou em novas explorações sobre questões de identidade, deslocamento e memória. É do cruzamento entre as práticas tradicionais e a arte contemporânea que avança na direcção de processos de criação partilhada. A RFI falou com o artista são-tomense na capital portuguesa, Emerson Quinda começa por contar como nasceu a exposição que tem patente no Instituto Camões, em Lisboa “Desenhar o Lugar: Percursos de Permanência e Trânsito”. Emerson Quinda, artista plástico são-tomense: Essa exposição nasceu de um projecto de uma residência que foi proposto por Ricardo Vicente e João Serão em Loulé. Até agora, o Emerson tinha desenvolvido um trabalho essencialmente de pintura. Durante esta residência houve a hipótese de trabalhar em outros suportes, inclusive utilizando o barro e a madeira. Como é que foi esse processo? Foi um processo de desafio muito bom, tive a oportunidade de experimentar outras técnicas. Foi a primeira vez que experimentei técnicas sobre argila, mas já tinha tido a oportunidade de experimentar técnicas em superfície de madeira na residência de Paris. O que é que o trabalhar com argila permitiu ao Emerson que até agora ainda não tinha realizado? A argila permitiu ter uma oportunidade de ter contato com barro, que é uma coisa fantástica. Tive a oportunidade de construir e desconstruir sobre argila. Foi uma oportunidade única e também tive a oportunidade de pegar essa argila e transformar em faces caras de máscara africana, umas pintadas, outras não pintadas. Foi uma coisa fantástica. Foi uma argila que ficou cingida ao processo da criação da máscara? Não só fiz máscara com argila, mas também trabalhei com essa argila no processo da pintura na tela. Quando construí o castelo de Loulé, que é um castelo simbólico, tive a oportunidade de envelhecer a parede do castelo no desenho na tela, e usei a técnica da argila, foi uma coisa fantástica. Também utilizei a técnica da argila na madeira, na escultura da madeira, como um processo fantástico, porque colei a argila na madeira, que me deu a oportunidade fantástica de ter esse contato argila-madeira e desenho. O trabalho do Emerson apresenta uma forte componente pictórica, com cores intensas, fortes. O meu trabalho, em toda exposição, é carregado de cor. A cor traz muita emoção e muita liberdade. Eu acho que a cor simboliza já a minha identidade ao nível de pintura. Quando se olha o meu trabalho, é carregado de muita cor. Vai-se identificar com a pintura de Emerson Quinda. Então, a cor simboliza muito essa coisa de paz, tranquilidade e alegria. É um pouco de África, um pouco de São Tomé e Príncipe, que o Emerson Quinda traz com essa cor? Sim, porque quando subo no avião, para fazer a viagem até Loulé, no Algarve. Quando eu olho para baixo do avião, em São Tomé ainda, eu vejo aquela paisagem de São Tomé toda verde. Não vejo nenhuma casa, eu vejo tudo verde no país. Então, trago também esse percurso desse verde para a tela. Esse verde carrega muita cor forte na tela e também traz um pouco dessa identidade da cultura de São Tomé. São Tomé foi considerado biosfera mundial da UNESCO, todo o país. Trago essa cor como património cultural, não só de São Tomé e Príncipe, porque África também é carregada muito de cor. Traz também para a escultura, algumas esculturas pintadas com a cor quente e chamativa. O Emerson Quinda teve uma residência de três semanas em Loulé. O que é que agarrou de Loulé? - já falou do castelo - O que mais é que agarrou de Lolé que tem reflexo agora nesta exposição? É o banho islâmico. Foi o que me tocou quando tive uma visita guiada em Loulé. O banho islâmico é uma coisa histórica para Loulé. E tive a oportunidade de transmitir esse banho islâmico para a tela e vai estar representado na exposição. O traço, a maneira do Emerson Quinda manifestar o seu sentido artístico, está muito próximo da pintura naive? Sim, a minha forma de pintar nunca foge. Eu tenho a minha forma já bem definida, eu já tenho a minha própria linha, o meu próprio estilo. Basicamente tento transmitir isso para a minha exposição. Também tento inovar de uma forma muito prática, como inovo com uma escultura e argila para essa exposição. Um dos elementos que representa essa inovação é um painel formado por seis placas, com as quais o Emerson Quinda desenvolveu uma espécie de jogo, um puzzle. Sim, são peças de quebra-cabeça. Foi uma experiência também fantástica. Eu já tinha desenvolvido a madeira na residência em Paris. Em Loulé, tive uma conversa curatorial com o João Serão sobre a minha forma de trabalho. E o João Serão me propôs:  há aqui alguns platex, vou trazer para ti, vamos ver se podes trabalhar neles. E foi uma coisa fantástica, porque com o platex não só se desenvolve a pintura, como se desenvolve o desenho e também a técnica de argila, tudo nesse painel. É uma experiência fantástica, porque o painel carrega todo esse tipo de técnica apresentada na exposição.  A exposição, para já, está em Lisboa. E depois, qual é o futuro desta exposição? Por onde é que vai andar? Sim, para já em Lisboa, no (Instituto) Camões. Depois, vai para Loulé. Depois, vai para São Tomé e Príncipe em 2027 para a Bienal de São Tomé. O João Serrão foi co-curador da exposição e é director das galerias municipais de Loulé. João Serrão, como surge esta residência artística que o Emerson Quinda realizou em Loulé? Como entende o resultado deste projecto? A residência do artista Emerson Quinda, que decorreu em Loulé durante as três semanas de dezembro, nasce de uma afinidade muito clara com o modo como eu entendo o trabalho das galerias municipais de Loulé, ou seja, com espaços de tempo, de escuta e de criação para a arte contemporânea. Desde o início que esta residência teve como ponto de partida o desejo de reforçar as redes culturais no espaço lusófono e ao mesmo tempo de criar um diálogo real entre práticas artísticas contemporâneas e os saberes tradicionais do território louletano, em particular ligados a questões de cerâmica e do desenho. Mais do que uma ideia fechada no início desta residência, interessava-me criar as condições para que o trabalho pudesse surgir do contacto directo do artista com o lugar. Durante as três semanas que o Emerson desenvolveu (o trabalho em residência), desenvolveu um processo muito intenso de investigação sobre o território louletano, cruzou a sua prática no estúdio, no atelier, com o património histórico e etnográfico de Loulé. Essa relação e esse exercício de escuta foi muito importante para que o território deixasse de ser apenas um contexto onde a residência estava a decorrer e a passasse a integrar, de forma muito concreta, o resultado que daí saía. Então, esse resultado acabou por superar as expectativas iniciais. O território foi apropriado, não apenas como tema, mas como matéria. A incorporação do barro e da pintura introduziu uma nova camada no trabalho do artista, onde a terra e o pigmento se fundem, criando texturas quase imateriais e narrativas que convocam memória, identidade, deslocamento. No fundo, este projecto de residência-exposição afirma a arte contemporânea como um espaço de escuta, um espaço de relação e de criação partilhada, e também demonstra que existe uma vontade e uma disponibilidade concreta, seja institucional ou curatorial, de trabalhar, através da arte, as relações e as memórias comuns entre os diversos países de língua portuguesa.
A cerca de um ano e meio das eleições presidenciais em Angola, a UNITA denuncia "problemas sociais gravíssimos" no país, aliados à "criminalização" dos direitos constitucionais dos angolanos como a possibilidade de se manifestarem. O partido do Galo Negro está preocupado com o processo eleitoral de 2027, com Adalberto Costa Júnior a defender mais democracia e transparência. Adalberto Costa Júnior, líder da UNITA, está em Paris para participar numa conferência sobre África da organização Internacional Democrata Centro, ou IDC, da qual faz parte o seu partido e para apresentar o seu livro “Juntos por Angola – Outro passo para a liberdade”. Adalberto Costa Júnior criticou as celebrações organizadas pelo MPLA para os 50 anos da independência de Angola e a falta de sensibilidade face à situação social que se vive no país, nomeadamente com a organização de um jogo de futebol entre a selecção de Angola e a selecção da Argentina que terá custado vários milhões de dólares. "Quando quisemos dar algum tipo de sugestões, não havia espaço. E, portanto, as cerimónias de condecoração que foram feitas, foram feitas perante uma realidade que nega as conquistas de anos. Angola hoje não é um país de liberdades. Angola não é um país, infelizmente, da assunção ao desenvolvimento. Nós temos problemas sociais gravíssimos, nós temos uma pobreza extrema que está galopante, nós temos uma quantidade de crianças fora do sistema de ensino, portanto, nós temos um manancial de razões prioritárias que não justificam este tipo de jogos da selecção da Argentina com milhões de dólares envolvidos que resolveriam um pouco dos problemas. Então, há um problema da sensibilidade perante os desafios da dignidade, os desafios sociais", explicou o líder da UNITA. Recentemente reeleito como presidente da UNITA com 91% dos votos, Adalberto Costa Júnior está preocupado com o estado do sistema democrático em Angola e com a transparência nas eleições presidenciais de 2027. João Lourenço não será novamente candidato e o líder do UNITA diz esperar que o MPLA leve a cabo um processo inclusivo para a escolha do próximo candidato à presidência, já que até agora só se viu "uma criminalização da alternativa e da alternância" no país. "Não é o candidato que nos preocupa. O que nos preocupa são as garantias de termos um sistema democrático e transparente, de termos um tratamento igual para todos. Nós temos um distanciamento enorme entre aquilo que é uma convicta prática democrática na UNITA e de uma fuga às reformas democráticas no nosso principal adversário, com a responsabilidade de estar a governar o país. Nós, de facto, não podemos ter uma democracia partilhada no país se os partidos que têm a responsabilidade de governar não forem democráticos e o nosso adversário nunca, nunca teve uma eleição plural para a sua liderança. A UNITA nisto tem sido um exemplo. E nós estamos a acompanhar as dificuldades que vêm dali. Os maus exemplos, a exclusão de candidatos. Cada um que se anuncie candidato fica sob a criminalização da sua vida pessoal. Nós hoje estamos a acompanhar todo um processo de criminalização da alternativa à alternância no país", denunciou. Nos últimos meses várias marchas e manifestações têm sido proibidas e reprimidas em Angola. Recentemente, duas marchas que visavam alertar para a luta contra as violências feitas contra as mulheres e meninas no país a partir do caso de um adolescente abusada e cujos vídeos foram difundidos na internet, foram impedidas pela polícia em Luanda. O líder da UNITA diz que se está a operar a criminalização dos direitos dos cidadãos em Angola "Hoje o regime mostrou que fazer o recurso ao direito de manifestação que é protegido constitucionalmente está considerado praticamente como um crime contra o Estado. Permite, inclusive, a acusação de terrorismo. Há uma série de mexidas nas leis que, de forma escandalosa, estão a levar à limitação das liberdades, à perda das liberdades várias dos cidadãos. Este caso, por exemplo, é um caso gravíssimo. Nós acompanhámos com uma grande preocupação o caso que é público, de uma violação de uma menina, violação que levou a actos de denúncia da sociedade de solidariedade e do apelo às autoridades. As manifestações não têm que ser autorizadas no âmbito da lei. Têm que ser apenas informadas. Feita a informação, nós acompanhámos duas circunstâncias: na primeira semana um impedimento absoluto, houve um cuidado acrescido na informação a seguir e, mais uma vez, uma proibição, apesar do cumprimento da lei e do Direito", detalhou. Para juntar a isto, Adalberto Costa Júnior denuncia que as cadeias "estão cheias de presos de consciência, de presos políticos". Mesmo no seu caso, líder do maior partido da oposição e deputado, o líder da UNITA disse também sofrer com este clima de perseguição, tendo visto nesta viagem não só os seus documentos pessoais difundidos a larga escala, mas também os seus cartões de embarque, colocando a sua segurança em questão.  Em Paris para falar numa conferência da Internacional Democrata Centrista sobre a democracia em África, o líder da UNITA diz que esperava mais da presidência rotativa da União Africana levada a cabo por Angola e que se termina já em Fevereiro. "Angola tem tido a dignidade de estar a presidir à União Africana. Eu esperava mais do meu país. Eu tenho muito orgulho de ser angolano. De ser africano. Eu vi o silenciamento às violações vindas inclusive de uma presidência que tem o Presidente de Angola sentado neste espaço de responsabilidade. Quantos golpes de Estado vimos ocorrer este ano e quantos foram alvo de crítica? Apenas aqueles que foram militares. Os golpes institucionais foram silenciados e provocaram mais mortes do que os militares", indignou-se. Quanto ao actual estado do Mundo, com muitos focos de tensão, conflitos e assimetrias, Adalberto Costa Júnior mostra-se preocupado com a falta de poder de intervenção das Nações Unidas, com o fim dos líderes que construíram a paz no século XX e ainda substituição de líderes não-democráticos, deixando no poder os sistemas que permitiram a sua ascensão. "Eu acho que hoje todo o cidadão neste mundo que temos não está tranquilo. E o primeiro elemento que lhe posso partilhar é a absoluta degradação do que representam hoje as Nações Unidas. As Nações Unidas hoje não são mais uma organização respeitada. Não é o espaço comum onde os interesses e os direitos são garantidos. É um espaço em que quase virou uma privatização do meu interesse em detrimento dos mais fracos. E, portanto, isto preocupa muito. E depois nós estamos a acompanhar efectivamente a quase o desaparecimento daqueles grandes líderes mundiais que são garante de uma postura, diria ética ou moral, de uma grande partilha solidária dos direitos universais, onde não importa se eu sou Presidente de um país poderoso. Eu olho para os outros países e partilho elementos de estabilidade. Os grandes construtores dos acordos mundiais, que trouxeram alguma estabilidade e o fim dos conflitos, hoje quase estão a desaparecer e, por isso, preocupa-me o que ocorreu na Venezuela. Nós acompanhámos a intervenção americana, acompanhámos a captura do Maduro e eu esperei que este espaço trouxesse a oportunidade ao retorno da legitimidade. Todos sabem que as eleições da Venezuela têm um vencedor, mas esta intervenção não deu espaço à estabilidade democrática genuína, não deu espaço a uma oportunidade daqueles que foram efectivamente escolhidos e são legítimos representantes do povo soberano de retornarem e reassumir a legitimidade no âmbito da governação. Isto a mim preocupa-me muito", concluiu.
O livro “50 anos de independências africanas vistos pelos seus cidadãos” apresentado esta sexta-feira, 9 de Janeiro, analisa o percurso das independências, o legado político e cultural, as transições democráticas e os actuais desafios económicos e sociais. Coordenada por Rui Verde e Eugénio da Costa Almeida, a obra reúne visões diversas sobre os caminhos seguidos até hoje. A RFI entrevistou Eugénio da Costa Almeida, em Lisboa. RFI: Olhando para esta publicação, qual é o grande contributo para a análise destes 50 anos de independências? Eugénio da Costa Almeida: Falando do livro, falando desta obra, há muitos bons contributos. Há aqueles que sinteticamente escreveram muito e uma pessoa faz uma análise, digamos quase que é uma escrita biográfica curta; e há aqueles que fizeram autênticos ensaios que são espetaculares. Há os que dão a sua visão, e é a visão de cada um que acho que faz esta obra, que são 440 páginas, que tornam isto, na minha opinião, apelativo. Há os contributos de políticos, há contributos de chefes de Estado, dois chefes de governo. Há contributos de várias áreas culturais, contributos do jornalismo, áreas técnicas, tudo isso ajuda a compreender aquilo que foi os 50 anos das independências dos países. Uma ressalva que eu devo fazer é que Guiné-Bissau não fez 50, faz 52 anos, mas está dentro disto, até porque Portugal só reconheceu a independência quase um ano depois e, portanto, era da nossa intenção que a Guiné-Bissau também fizesse parte desta obra. Uma parte considerável dos textos faz uma leitura crítica daquilo que foram os 50 anos de independência. Ainda bem, ainda bem. Assim vê-se que as pessoas não estão paradas, têm expectativas muito maiores. Portanto, algumas fazem críticas, talvez políticas, por razões políticas, passe a redundância, outras, por razões sociais, outras por expectativas que ficaram aquém do que desejavam, mas outras fazem no sentido, para mim, de que esperam que os 50 anos que vêm agora sejam sempre melhores. Como nós todos esperamos, na própria vida, que os 50 anos que vêm agora sejam sempre muito melhores. Pelo menos, que o pior dessa parte seja o melhor dos anos anteriores. E, portanto, acho que sim, é bom que tenha havido essas críticas. Porque também era a nossa intenção, era essa, não era termos, digamos, textos, se me é permitido, bajuladores ou textos de “isto é um paraíso” em que ninguém conhece o paraíso. Portanto, cada vez menos a Terra é um paraíso e é bom que todos eles tenham tido a sua análise crítica. Há crítica negativa e há crítica positiva. Esta publicação pode ser encarada como um elemento inspirador para uma auto-crítica a realizar futuramente pelos governos dos PALOP? Não acredito. Não acredito que façam isso, até porque, como sabe, os nossos governantes não são muito dados à auto-crítica e, por isso, é um bocadinho difícil que isso aconteça. Haverá talvez, quer dizer, não diria que são todos nesse sentido, mas haverá alguns que são mais auto-críticos, até porque os seus sistemas políticos a isso o exigem. Há outros que serão menos auto-críticos porque a crítica interna não é suficientemente forte para levá-los a ter essa própria autocrítica. Ainda que cada um, para si, faça a respectiva auto-crítica. Provavelmente, essa auto-crítica é sempre abaixo das nossas expectativas. Mas eu espero que o livro possa ajudá-los, aqueles que não puderam participar ou que não quiseram participar, possa ajudar a rever algumas situações que aqui são colocadas, porque há aqui, dos próprios partidos cujos líderes não participaram, mas que estão cá, possam ver que, e alguns até, com alguma força política ou intelectual dentro dos partidos, que possam ter algum aproveitamento, é a nossa esperança. Na análise que é feita nos diferentes textos sobre os 50 anos de independências, há aqueles que lançam uma ponte para o futuro. Que ponte, enquanto coordenador, encontrou aqui? Muito difícil dizer, com toda sinceridade. A ponte vem na sequência da resposta anterior. É a chamada “crítica positiva” que nos possa levar a que aquilo que possa ter sido bem seja melhorado. E agora vou utilizar uma frase de 2017 da tomada de posse de João Lourenço: "fazer bem o que estava a ser bem e fazer melhor o que estava a fazer mal". - É isto que aqui, mais ou menos foram estas palavras. A nossa vontade é sempre que o melhor dos 50 anos que houve seja o pior dos próximos 50 anos. E a ponte é essa mesmo. É servir de passagem, que eu considero que deve ser mesmo feita, levemente. Por vezes as passagens abruptas, depois provocam quedas abruptas. No sentido de melhorar o que não está bem e, se possível, mais do que melhorar, fazer bem. E continuar a fazer bem ou fazer ainda mais bem, passe a imagem, não direi melhor, mas mais bem, aquilo que foi feito bem. Mas que fica sempre aquém das nossas expectativas ou daquilo que nós próprios gostávamos. Evidentemente, estou satisfeito com isto, mas gostaria de ter mais do que foi isto. Gostaria que, em vez de 400 páginas, tivesse 500. Não sei se o nosso editor iria gostar muito disso, mas enfim. E também os defensores de que não se deve utilizar o papel eram capazes de não gostarem, mas era a nossa expectativa. É esse o sentido. Eu acho que sim, deve haver essa ponte, no sentido de melhorar sempre. Irmos atravessar a ponte à procura de algo sempre mais e melhor. Qual é que acha que pode ser o contributo, ou como é que este livro pode ser agarrado pelas gerações futuras para dar mais força aos alicerces dos PALOP? Por um lado, pode servir para verem o que é que estava nos 50 anos anteriores, o que é que estava menos bem e o que estava mal. As duas situações são bem descritas nos referidos contributos de cada um dos autores. Por um lado, serve em termos históricos. Por outro, serve também para não se por aquilo que um certo autor, um certo autor que diz que a história não se repete. Para mim é mentira. A História repete-se, pode-se é melhorá-la, no sentido de evitar cair nos mesmos lapsos, nos mesmos erros, nos mesmos absurdos que houveram anteriormente. Esta é a nossa expectativa. Dos 40 autores que estão aqui, há alguns textos que possam vir a ser desenvolvidos e dar azo a um trabalho ainda mais aprofundado? Isso caberá a cada autor. Honestamente, nem vou dar palpites. No caso dos ensaios, há dois ou três autores, não vou nomeá-los, as pessoas que leiam o livro, que de certa forma dão pistas excelentes para futuras gerações. Apresentam críticas, dão as suas críticas e apresentam conclusões e soluções. Nos casos dos textos em geral, alguns são mini-ensaios onde essa situação também está prevista. Acho que devem ser os leitores a lerem o livro, tirarem as suas conclusões, e dos próprios autores, aqueles que tiverem a ouvir esta entrevista, ou que possam vir a ouvir, que terem essas relações, que devem ou não avançar para projectos, para trabalhos, ou para textos mais desenvolvidos, em termos científicos, ou em termos de jornais, e em termos de revistas, porque há revistas que também têm conteúdos que, de certa forma, são alguns ensaios. Houve surpresas? Sim, não em termos de qualidade, que essa estava à espera, mas em termos de conteúdo. Alguns foram além do que eu estava à espera, e por isso mesmo é que eu acho que é uma das razões para lerem o livro, a obra. Porque há análises críticas, nomeadamente, que pessoalmente esperava que elas ocorressem, mas que fossem discretas ou subtis. Alguns não usaram subtileza. Foram diretos, foram crús, e foram objetivos. Por isso é que eu acho que as pessoas devem ler, e a comunidade política dos cinco países deveriam ler. Há pouco eu falei que eram, erradamente, dois antigos chefes de governo, mas não, foram três, um dos quais infelizmente está detido, que é o Domingos Simões Pereira, que além de ter sido chefe de governo da Guiné-Bissau, também foi secretário-geral da CPLP. Portanto, foi Carlos Veiga,  antigo chefe de governo e o primeiro chefe de governo de Cabo Verde democrático. Foi o Joaquim Rafael Branco, que foi chefe de governo em São Tomé e Príncipe, e Domingos Simões Pereira, que foi chefe de governo da Guiné-Bissau. Foi um dos que, logo à partida disse que iria escrever e escreveu. Infelizmente não sei quando é que o livro poderá chegar às mãos dele, um exemplar, porque continua detido em situações que a própria comunidade internacional parece não estar a se preocupar muito em querer saber como é que ele está a sua detenção.
Em Bissau, os autodenominados "Filhos de Tuga" nasceram há mais de cinquenta anos, fruto de relações entre combatentes portugueses e mulheres guineenses durante a época colonial. Hoje, a maior parte desconhece o pai, apesar de terem tentado procurá-los. Na independência (1973-1974), muitos dos militares portugueses que regressaram a Portugal deixaram na Guiné-Bissau mulher e filhos e nunca mais olharam para trás. Reunidos numa associação, Ivete, Anabela, Victor e os outros "filhos de portugueses" têm hoje apenas uma exigência: que o Estado português lhes atribua a nacionalidade.  A colonização portuguesa em terras africanas não pertence apenas ao passado, as suas consequências são por vezes concretas ainda hoje no dia à dia de certas pessoas. Durante décadas, forças coloniais e populações autóctones conviveram no mesmo espaço geográfico, ora coabitando ora lutando em guerras mais ou menos longas. A complexidade da história juntou pessoas de campos opostos, com origem e destinos diferentes, que num certo momento das suas vidas teceram uma conexão (voluntária, ou forçada). O fruto destas conexões perdurou, e por vezes ganhou vida. Na Guiné-Bissau, Victor, Fatima, Ivete e dezenas de outras pessoas nasceram destas relações. O pai: militar português, presente na Guiné-Bissau sob bandeira colonial. A mãe: guineense, geralmente trabalhadora doméstica ou vendedora, em contacto com as tropas coloniais. Mas com a independência e a saída das tropas portuguesas, que libertou a população do jugo colonial, começou para eles, os Filhos de Tuga, um longo caminho de desenraizamento.  Em muitos casos, os militares regressaram a Portugal sem que nunca mais houvesse qualquer contacto com a vida de antes. Fidju di Tuga: é o nome que se dá às crianças nascidas destas uniões entre combatentes portugueses e mulheres guineenses. Apelação quase pejorativa, atribuída pelos outros, os que não carregam um passado colonial na sua pele. Decidiram reapropriar-se do nome para vincar a sua luta, que hoje passa pelo reconhecimento das suas raízes portuguesas.    Reportagem: 
Identificam-se como SAS Orquestra de Rádios e há 13 anos que usam a liberdade criativa para dar corpo sonoro a antenas analógicas e pequenos rádios de bolso modificados. O colectivo, formado por Simão Costa, Ana Trincão e Sónia Moreira, usa os instrumentos inusitados que cria e toca para promover uma busca por novas linguagens que se traduzem em experiências sonoras. Como projecto precursor essencialmente experimental, cada apresentação da SAS Orquestra de Rádios é única e irrepetível. É neste momento da vida, que jamais voltará a acontecer, que artistas e público se podem encontrar e se convocam para desenhar uma estética sonora de música e ruído. O desafio proposto pela SAS Orquestra de Rádios pode, inicialmente, não ser dos mais apelativos, mas há quem reconheça como efeitos positivos o facto de poder ter qualidades de renovação do sistema auditivo e inspirar viagens imagéticas. Para comemorar mais de uma década de actividade, a SAS Orquestra de Rádios lançou recentemente o primeiro disco, o vinil Rosas. A RFI quis saber mais sobre a SAS Orquestra de Rádios e foi falar com o colectivo. Infelizmente Simão Costa não pode estar presente, a nossa conversa aconteceu com Sónia Moreira e Ana Trincão, que começa por contar como nasceu um dos colectivos artísticos mais ludicamente vanguardista em acção em Portugal. Ana Trincão, SAS Orquestra de Rádios: Juntámo-nos em 2013, fizemos uma residência artística no norte de Portugal, num lugar chamado São Pedro do Rio Seco. Nessa residência, era uma residência em que tinhas que interagir com a comunidade, nós pedimos à comunidade que nos entregasse antenas de televisão, que naquela altura deixavam de ser utilizadas, porque havia uma mudança no canal da televisão em Portugal, e que nos entregassem também rádios antigos. O nosso intuito era, com isso, começar a construir uns instrumentos que juntavam rádios ligados a antenas e fazíamos uns instrumentos de DIY (Do It Yoursef) que tinham uma espécie de lógica, a lógica mais ou menos do Theremin. E foi nessa residência que tudo começou. Nós não sabíamos muito bem o que é que ia acontecer, mas o SAS Orquestra de Rádios nasce precisamente da construção desses objectos e depois de concluirmos que estes objectos tinham sonoridades particulares. Ao descobrirmos estas sonoridades, começámos a ter uma vontade de os fazer tocar juntos. A ideia da orquestra nasce daí, de fazer tocar estes instrumentos que nós construímos nesta residência. Como é que fazem funcionar? Como é que retiram o som dessas antenas, desses rádios? Como é que interagem com os objectos para que produzam som? Sónia Moreira, SAS Orquestra de Rádios: Os rádios que nós requisitámos são aqueles rádios de bolso básicos, que têm duas pilhas, que têm três volts, e é imaginar um género de um círculo em que esse rádio, quando aberto o seu sistema, com fiozinhos e solda, ele depois é ligado à antena, que neste caso, algumas eram antenas de telhado. E então, na própria parte experimental e de criação dessa residência artística, eu, o Simão e a Ana, fomos tentando criar circuitos, até que com o toque, entre uma ponta e outra da antena, com o rádio ligado, com o volume ligado, produz som. Mas também produz som porque o corpo é condutor de energia, e é assim que eles funcionam. É um género daquilo que se chama um Circuito Bending, que é pensar num círculo que só funciona quando ele está fechado e deixa de funcionar quando está aberto. A nível do som que emite, não só emite um som mais agudo ou mais grave conforme vamos pressionando no objecto, conforme o toque, mas também emite rádio. Por isso, nós conseguimos sintonizar ao mesmo tempo que deixamos emergir essa rádio, esse eter, dependendo se é Am ou FM, mas também vamos interagindo com aquilo que vai acontecendo com o toque na antena. Esta vossa acção, esta vossa actividade, como é que podemos identificar? Música? Trabalho com som? Como é que pode ser identificado? Ana Trincão: Olha, acho que a gente pensa em música, pensa em som, pensa em todas essas nomenclaturas. E a ideia também é poder brincar com o que é que é a música, o que é que é tocar um instrumento, o que é que é composição, o que é que é experimentação. Eu acho que nós, na verdade, mesmo quando falamos do projecto, variamos. Dependendo daquilo que estamos a falar, vamos variando no nome que utilizamos para definir aquilo que estamos a fazer. Por isso, às vezes é música, às vezes é noise, às vezes é espaços sonoros. Então, eu acho que, na verdade, a SAS trabalha um pouco o universo do som, talvez, como um todo, sem querer ou ter pretensão nenhuma de se inserir em nenhuma dessas categorias ou particularidades. E eu acho que isso também nos permite ser livres criativamente e despreocupados em relação àquilo que estamos a fazer e a produzir. Eu acho que é muitíssimo lúdico e experimental para nós. É permitir que os adultos brinquem, de certa maneira. E isso dá-nos, acho que, uma enorme liberdade criativa. Portanto, respondendo à tua pergunta, acho que é tudo isso e qualquer coisa em específico cada vez que estamos a criar com os rádios. Olhando para a história da música, dos compositores, há alguma referência que possam indicar que tenha trabalhado algo idêntico? Sónia Moreira:  O Xenakis (Iannis Xenakis), não é que ele nos tivesse servido de referência, mas, para mim, a posteriori, é de todo uma referência. Porque, como a Ana disse, e bem, não é que a gente se insira em algo específico, mas há coisas específicas que nos vão acontecendo. O Simão trazia-nos o Ligeti (Gyorgy Sándor Ligeti) sempre, que é uma pauta, que é escrita, para mim é mais desenhada do que escrita, mas, lá está, talvez seja mesmo defeito de profissão, com, imagina, círculos que são puxados ou com linhas repetidas. Não estás a falar de uma escala normal, do Ré Mi Fá Sol Lá Si, com cinco linhas e com o Dó Cá Embaixo, com uma clave de Sol, uma clave de Fá, não estamos a falar disso. Estamos a falar de uma coisa que é escrita no abstracto, são formas abstractas. E o Simão trazia-nos muito esse Ligeti, que nós usávamos também depois para trabalhar os workshops que fazemos com todo o tipo de público, que é onde o público toca as antenas, mas também desenha um género de umas partituras imaginárias baseadas nesse compositor, no Ligeti, com formas, linhas, com cores, sem cores, e depois tinham que as interpretar sonoramente com as antenas. Por isso, também é uma das referências que nós usávamos. Agora, há uma coisa que a gente diz sempre, que não tem nada a ver, falamos sempre, sempre no Mike Patton, dos Faith No More. Há qualquer coisa que nos une aos três, e temos um desejo escondido que era enviar um vinil ao Mike Patton. Se alguém tiver o contacto, por favor. Ana Trincão: Acho que o Cage, a gente sempre falou muitas vezes do John Cage. A forma como se compõe, como se pensa a música, e como se pensa a ausência da música também, ou do som. E acho que ultimamente Einsturzende Neubaten, por exemplo, principalmente no início da carreira deles, quando eles tocavam debaixo das Pontes de Berlim, onde eles se rebentavam com metais. Acho que também são referências que nós sempre conversámos e até hoje nos inspiram. Sónia Moreira: E é um universo visual, linguístico e conceptual que nos diz muito. Quando acontece de fazerem uma apresentação ao vivo, qual a percentagem de aleatório que há ou não nessa apresentação ao vivo?  Ana Trincão: O que é que acontece? De facto, nós temos, diria, um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete instrumentos, que nós construímos. Para além desses instrumentos, em concerto nós usamos às vezes uma beatbox, e algumas vezes field recordings, sons gravados, ou um bocadinho de voz, ou uma música qualquer, outros apontamentos que usámos no disco, mas também já usámos em concerto. Nós sabemos, porque tocámos estas antenas há 13 anos, que elas têm particularidades a nível do som. Algumas são mais agudas, outras mais graves, umas apanham melhor o rádio, outras têm mais capacidade de criar ritmos, outros instrumentos têm uma qualidade mais solista, menos ritmado, é mais orgânico o som que produzem. Então, nós trabalhamos com este potencial. Mas, exatamente que som é que vai sair naquele momento daquelas antenas, nós não conseguimos controlar tão bem. Depende de quanto rádio se apanha, qual é a frequência que se apanha, a localização da sala, depende realmente de muita coisa. Portanto, a nossa prática faz com que a gente possa tentar organizar a dinâmica do concerto, o som, efetivamente, e as surpresas inúmeras que sempre nos acontecem, como feedbacks, retroalimentações. Coisas que nós não conseguimos controlar, também acontecem muitas vezes. Acho que aquilo que nós sabemos é como lidar com essas situações, ter sensibilidade para ouvir aquilo que estamos a produzir e trabalhar muito em tempo real. Há um universo, há um espectro, mas é irreprodutível, nós nunca fazemos concertos iguais. E nem é só a prática de que a cada vez que se toca, toca-se uma coisa diferente, é o facto de que o som que vai sair daqueles objetos, destes instrumentos, vai ser efetivamente diferente pela sua natureza. Esta conversa acontece inspirada pelo lançamento do primeiro disco, o vosso primeiro vinil, Rosas. Como é que foi a experiência de gravar? Sónia Moreira: Isto começa por um desejo de termos um disco, especialmente um disco vinil. Enquanto objecto, objecto artístico, é mesmo uma escolha definida. Que fosse um género de um objecto que, na verdade, é uma acumulação dos 10 anos do projecto. Nunca tínhamos ido os três para o estúdio, e decidimos que, com os dias do estúdio, que tínhamos que criar algumas metodologias para não ter demasiadas horas de gravação. Como tocamos há 10 anos, sabíamos mais ou menos o que é que cada objecto sonoro produz, e então ter que fazer algumas escolhas. Então, decidimos fazer, no tempo que estávamos em estúdio, uma curadoria específica de cada dia. Podermos trazer propostas artísticas de criação, e a partir delas tocávamos. Por exemplo, é uma prática que nós temos, que é tocar de segui
A economia azul é uma forte aposta de Cabo Verde. Um sector estratégico nomeadamente na ilha de São Vicente onde estêve a reportagem de Charlotte Cosset. Numa altura em que esta parcela do barlavento cabo-verdiano tenta ainda recompôr-se dos efeitos da tempestade Erin que assolou a área no mês de Agosto. As dificuldades do sector pesqueiro são inúmeras no arquipélago. Quem o diz é Suzano Vicente, Presidente da Associação dos armadores de pesca, entre dificuldades materiais e a emigração da mão-de-obra. Os stocks de peixe escasseiam, apesar da enorme zona económica exclusiva do país, composto de ilhas. A economia azul é, por isso, estratégica para o arquipélago. A Frescomar é uma das empresas que emprega mais mão-de-obra de Cabo Verde, na ilha de São Vicente, na área das conservas de peixe, e é detida por um grupo espanhol. Manuel Monteiro é gerente geral e apresenta a actividade da empresa. Uma empresa de conserva de peixe, a trabalhar, pois com pescado cabo-verdiano, mas sobretudo à escala global. Também na ilha de São Vicente, no Calhau, está sedeado o projecto de aquacultura "Fazenda de camarão". Nélson Atanásio é um dos responsáveis do empreendimento, ele apresenta os respectivos viveiros, duramente afectados pelos efeitos da tempestade Erin.  Instantâneos da reportagem de Charlotte Cosset a partir da ilha de São Vicente sobre quem dá corpo à economia do mar, um sector estratégico para Cabo Verde.
Yetuedu, junta “yetu”, que em suaili quer dizer “nossa”, com “edu”, de “educação”. Assim, Yetuedu é o nome da plataforma angolana que quer oferecer uma nova experiência de redes sociais. Direccionada para a educação contínua e para o desenvolvimento académico, pessoal e profissional de jovens e adultos africanos, a Yetuedu apresenta-se como uma plataforma de aprendizagem social.  Joel Armando Manuel, fundador e CEO da plataforma Yetuedu, esteve em Lisboa, falou com a RFI e, entre outras coisas, revelou como as grandes multinacionais estão atentas à plataforma angolana e como as dificuldades que enfrentou, enquanto estudante de medicina, o impulsionaram a criar a Yetuedu. Conectando usuários a conteúdos práticos, mentores e oportunidades de capacitação para promover crescimento sustentável e inclusão no mercado de trabalho, o fundador da Yetuedu ambiciona que esta se transforme na maior plataforma digital de África. Joel Armando Manuel: A Yetuedu é uma rede social para o desenvolvimento académico, pessoal e profissional. Surgiu na sequência das dificuldades pessoais que eu tive durante a universidade, e depois, à medida que eu ia superando isso, notei que muitos passavam por essa dificuldade. Então, foi como uma forma de conectar as pessoas, dar suporte a tudo o que eles precisavam. Porque, na altura, eu precisava de bolsa de estudo, mentoria e principalmente conteúdos académicos. Era difícil ter materiais de estudo, bolsa de estudo e mentoria. Então, sabendo que é um problema que afecta muitos jovens, foi ali que surgiu a ideia de construir uma plataforma onde as pessoas conseguem encontrar bolsa de estudo, mentoria, curso, formações, enfim, tudo o que eles precisam para o crescimento pessoal e profissional. Porque muita gente perde muitas oportunidades por falta de alguém que possa lhes auxiliar. Então é daí que vem a Yetuedu. A Yetuedu surgiu há pouco tempo, mas já está na Web Summit. Como é que foi esse crescimento, no fundo, rapidíssimo? Na realidade, a Yetuedu surgiu há muito pouco tempo. Já iniciámos desde 2020, desde o processo de ideação, prototipagem, pesquisa, mapeamento do mercado. Já há bastante tempo, mas só disponibilizamos a versão final, MVP (Minimum Viable Product) final, em Maio. E por que está aqui? Tendo em conta o longo período de preparo que nós tivemos para, justamente, o lançamento. Para criar um produto à medida que estivesse em condições de competir com os que já existem e responder às demandas. Conseguimos fazer isso, conseguimos responder as necessidades. Isso foi o resultado. Yetuedu nasceu em Angola. O público-alvo é Angola? É para ficar só em Angola? Como é que é a perspectiva de evolução? Yetuedu nasceu em Angola mas não é só para Angola, é para o mundo. A partir do momento em que está no ar, está acessível para todos. Dos 6 mil usuários que nós tínhamos, uma boa parte estão alocados em Portugal, Brasil, Estados Unidos e tantos outros países. O nosso objectivo é que se torne uma plataforma, não apenas da CPLP, mas do mundo todo. Quais é que têm sido os grandes obstáculos ao desenvolvimento da Yetuedu? Quais foram as grandes ajudas para, no fundo, conseguir avançar neste arranque? Bem, o grande desafio é justamente para o financiamento. Até ao momento, nós não tivemos nenhum financiamento. Foi mesmo de custos pessoais, e isso tem sido um grande desafio para nós, inclusive, a pôr-nos em risco de querer desistir com o produto. Mas, no entanto, principalmente os recursos humanos e a infra-estrutura para manter a plataforma no ar. Porque os usuários produzem dados e esses dados devem ser alojados. Onde nós estamos baseados, em Angola, custam muito caro esses serviços. Isso tem sido um grande obstáculo para nós. Conseguir financiamento onde nós nos encontramos. Mas, temos é de agradecer ao Inapem (Instituto Nacional de Apoio às Micro, Pequenas e Médias Empresas - Angola) e à IFC (International Finance Corporation – “braço” do Banco Mundial) pelo grande apoio que nós tivemos, e por estarmos aqui na WebSummit. Ao nível de multinacionais do mundo tecnológico, houve algum apoio? Felizmente, tivemos suporte de grandes empresas como a Microsoft, a Amazon e tantas outras. No suporte tecnológico em créditos para nós utilizarmos, para nós conseguirmos manter a plataforma no ar. Se não fosse por essas empresas, nós não teríamos construído. Tivemos a possibilidade de mais apoio mas teríamos de nos deslocar de Angola para um dos países em que estão baseados. Ou seja, houve um reconhecimento, neste caso da Microsoft e da Amazon, do vosso valor. Exactamente. Houve um reconhecimento dessas empresas. Mas, elas não podem dar muito enquanto a pessoa não está ainda lá. Então, tivemos os créditos de startups. Mas, para termos muito mais, nós temos de nos deslocar. E eu agradeço a essas empresas pela iniciativa que têm tido. Estar na Web Summit foi um passo importante? Digamos que foi um dos passos mais importantes para nós como startup. Houve muitos contactos muito valiosos. Muitas propostas que, para nós, serviram bastante para parcerias estratégicas e oportunidades para investimentos. Então, a WebSummit foi uma das maiores oportunidades que nós tivemos na vida. Quais é que foram os contactos mais sedutores? Estamos a falar de contactos com o pessoal de Dubai, com o pessoal da Câmara de Negócios de Portugal e alguns singulares. Falando agora dos utilizadores, o que é que se encontra na plataforma Yetuedu? Quando se entra no Yetuedu, encontra-se uma rede social com espaço para mentoria, bolsa de estudo, conteúdo focado para desenvolvimento académico, pessoal e profissional, uma loja onde a pessoa consegue comprar tudo o que ajuda para o desenvolvimento pessoal e profissional. Por exemplo, computador, laptop, pode encontrar cursos para desenvolvimento, cursos, por exemplo, da inteligência artificial e não só. Encontra série de recursos para desenvolvimento. Pode fazer amizades, conversar, interagir com a inteligência artificial, machine learning. São "N" recursos para o desenvolvimento das pessoas. Como rede social, qualquer um pode publicar o que entender? Ou há um olhar vosso sobre os conteúdos e aquilo que não tem lugar na Yetuedu? Há sim um olhar nosso. Os conteúdos que devem ser publicados são conteúdos que ajudam para o desenvolvimento pessoal e profissional dos estudantes. Isso é justamente para diferenciar das outras plataformas que existem. Além disso, a nossa plataforma consegue filtrar, por meio da machine learning e inteligência artificial, conteúdos que não são apropriados e bloquear. Mas nós não estamos apenas online. A nível on-site, também realizamos mentorias para estudantes finalistas das universidades e do ensino médio ou profissionais também, nas quais essas mentorias têm um acompanhamento completo e integral. No final de tudo, eles têm oportunidade para estágios e até oportunidade para emprego. E dentro de breve, iremos lançar o maior programa de mentoria de finanças, contabilidade e seguro do nosso país. Como é que vai funcionar esse programa? Neste programa, nós teremos mentores formados em finanças, contabilidade e seguro de diversos países, não apenas de Angola. No entanto, a pessoa, ao se inscrever, tem acesso à mentoria especializada. Além de mentoria especializada, ela vai ter consulta de psicologia, um mentor em psicologia, um treinamento com um mentor sobre tratamento de imagem e, depois, um acompanhamento de carreira. Como ele pode penetrar no mercado de trabalho, currículo. E nós também iremos levar o perfil desse pessoal, levar para as empresas, para que consigamos facilitar o mercado de sua integração. E para quem tem na veia empreender, iremos também ajudar no desenvolvimento das startups dos nossos mentores. Em relação aos mais jovens, adolescentes ou pré-adolescentes, há espaço na Yetuedu para pessoas dessa faixa etária? Sim, há espaço. Sabemos que se nós queremos transformação e mudança, devemos começar desde mais cedo. Daí que nós temos o programa Líderes do Futuro, também, dentro da Yetuedu, cujo objectivo é ensinar aos mais novos, adolescentes e mesmo crianças, com praticamente mentorias de áreas específicas e não só, de, mais ou menos, o que lhes espera no futuro. Qual é o produto que é "mais procurado" ? O que são mais procurados são mentorias. Dentro da plataforma estamos a falar de vídeos curtos, e fora da plataforma estamos a falar em mentorias. As pessoas têm vontade por mentorias porque muitos desses estão à procura de um emprego, muitos jovens estão perdidos. Os vídeos, os produtos que aparecem na Yetuedu, são produzidos por quem? São produzidos pelos usuários. Alguns, por exemplo, são usuários especialistas em áreas específicas. Eles aqui produzem os conteúdos e colocam lá. No caso, a nossa equipa está lá simplesmente para regulamentar. No entanto, tem também produtos específicos nossos. Agora, para o desenvolvimento da Yetuedu, qual é o grande desafio? O grande desafio é o ecossistema tecnológico. No caso, servidores, cloud, computadores, essencialmente, e um espaço para poder trabalhar. E também os recursos humanos, nós precisamos de programadores. Então, são os principais desafios que nós temos. Depois de tudo isso seria o marketing. Estamos a falar de equipamentos, capital humano e o marketing. São os grandes desafios que nós temos. Há uma perspectiva de crescimento? Há, sim. O nosso objectivo é nos tornarmos a principal plataforma. A nível de África, queremo-nos tornar a principal plataforma digital. A nível mundial, queremos competir com as grandes. Mas quando se sai do espaço lusófono, há o problema da língua? A plataforma é em português, mas ela é traduzível para todas as línguas. Como os conteúdos são produzidos pelo pessoal local, imaginemos, por exemplo, que vá para a África do Sul, quem vão produzir são usuários da África do Sul, com base na sua língua. Quer dizer que não teria essa dificuldade de penetração para outros mercados, porque não é ele que produz, são os usuários mesmo que produzem. Os profissionais de lá da África do Sul é que vão
Timor Leste acaba de assinalar 50 anos da invasão indonésia, a 7 de Dezembro, um acontecimento ocorrido logo a seguir à proclamação da independência a 28 de Novembro de 1975, após séculos de presença portuguesa. Juliette Chaignon deslocou-se a Timor Leste e falou com dirigentes que protagonizaram a luta de um povo independente apenas desde 2002. A reportagem de Juliette Chaignon leva-nos ao contacto de Carlos da Silva Lopes, resistente e fundador da Renetil, Resistência nacional dos estudantes de Timor Leste. Este foi formado na Indonésia e tentou alertar o mundo para a repressão do seu povo às mãos do exército de Jacarta. Ao microfone da enviada da RFI ele admite que também Portugal, antes da Indonésia, deixou um pesado legado em termos de repressão contra os timorenses sem nunca ter pedido desculpas a Timor Leste.   Eu, pessoalmente, tenho uma memória muito negativa de colonização portuguesa em Timor. Muitos dos meus familiares foram mortos na revolta de 1959. E muitos foram deportados para Angola e Moçambique. Alguns foram deportados para a ilha de Ataúro. Até agora, Portugal também não pediu desculpa ao povo de Timor. Também o deveria fazer porque cometeram também alguns crimes aqui em Timor durante 450 anos. Muitos foram mortos, muitos foram presos, deportados, fuzilados, massacrados. Também houve isso, mas muitas pessoas se calhar não sofreram isso. Por isso é que não sentiram. Claro que agora nós temos muita boa relação com Portugal e durante os 24 anos da ocupação indonésia também Portugal também fez muita coisa para libertar Timor. Se compararmos Portugal com a Espanha em relação ao caso de Sahara Ocidental, Portugal faz bem. Faz melhor do que a Espanha ao povo sarauí, o povo do Sahara Ocidental. Portanto, eu tenho as minhas críticas ao passado de Portugal, mas também aprecio, tenho uma grande apreciação ao povo português, ao Governo português que também apoiou muito a luta de libertação de Timor-Leste.   Qual a dependência económica de Timor Leste, precisamente, em relação à antiga potência colonial e ao ex ocupante, respectivamente Portugal e Indonésia ? Carlos da Silva alega que muitos dos produtos que abastecem o mercado local vêm da vizinha Indonésia. Eu não sei até que ponto é Timor economicamente dependente de Portugal e da Indonésia. O que sei é que nós estamos dependentes das nossas receitas do petróleo, que nós estamos a sustentar o nosso desenvolvimento. Mas Indonésia, como é o nosso país vizinho, com certeza que em termos económicos há muitos produtos que vieram da Indonésia e aí nós temos que reconhecer que, economicamente, principalmente em relação às produções das necessidades básicas, muitos vieram da Indonésia. Este fundador da Renetil afirma que Timor Leste mantém hoje relações estreitas com os demais países lusófonos à luz do apoio dado à resistência timorense durante a ocupação indonésia. Timor tem uma relação muito boa com os membros dos países de língua oficial portuguesa, principalmente os membros da CPLP [Comunidade dos países de língua portuguesa], como Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Brasil. E nós temos essa boa relação com os membros dos PALOPs, Países africanos de língua oficial portuguesa. Isso já construímos esta boa relação desde o tempo da resistência até agora. Porque esses países, enquanto outros países estavam ao lado dos indonésios, esses povos irmãos dos PALOPs estavam ao lado dos timorenses e a defender Timor-Leste nas Nações Unidas e nos fóruns internacionais. Portanto, com esses povos irmãos, nós temos uma relação muito boa. Alguns timorenses foram enviados a estudar em Cabo Verde. Isso é muito bom, porque Cabo Verde... Digamos que é um governo democrático tem uma gestão de administração que é muito transparente. Então também é bom para os timorenses estudar lá, aprender lá para trazer algumas coisas boas de lá, para implementar cá em Timor. Neste xadrez geopolítico qual seria o domínio da língua portuguesa, nomeadamente após todos os anos do regime indonésio ? Carlos da Silva admite haver fragilidades quanto ao respectivo domínio e também algumas resistências. Não é uma língua fácil, é uma língua muito complexa. Os timorenses têm a capacidade de aprender muitas línguas, porque em Timor Leste também existia mais de 30 dialetos. Mas cada pessoa tem a capacidade de falar ou de entender, mas três, quatro, cinco dialetos daqui. Além disso, eles também podem falar... Alguns falam português, inglês, espanhol, francês, português. Portanto, há muitos que falam uma língua estrangeira. Mas se falam bem, se calhar não são muitas pessoas, mas há muitos que entendem entendem bem a língua portuguesa. Houve alguma resistência aqui em Timor, principalmente os mais jovens que nunca passaram pelas escolas portuguesas ou aprenderam mais a língua indonésia do que o português. Então esses praticamente não falavam português. Esses têm grande dificuldade e esse sector é que às vezes resiste à língua portuguesa. Porque a língua é para facilitar a interacção entre as pessoas é mesmo para facilitar. Como é que uma pessoa pode obter um emprego? Portanto, a língua não pode dificultar as pessoas. Mas quem a tem? Alguns pensam que a adopção do português dificulta a vida deles porque eles não falam português. Por isso é que nós sempre apelamos ao governo português para investir mais aqui em Timor. Em relação à educação na aprendizagem da língua. Investimentos para formação dos professores, mesmo para os mais jovens, a partir do jardim infantil. Ensinos básicos ou secundários ou pré secundários. Isso é muito importante. Se investimos pouco depois a exigir muito para os timorenses para dominar essa língua, também não é justo, porque para exigir também precisamos de criar condições para eles poderem aprender. Se não há condições para eles poderem aprender como é que nós esperamos de um bom resultado ?   Por seu lado Mari Alkatiri, secretário geral da FRETILIN, Frente revolucionária para a independência de Timor Leste, emblemático movimento de emancipação, actualmente na oposição, admite as dificuldades com que se debate a língua portuguesa no seu país e denuncia o que considera de erros nesta trajectória. A língua portuguesa em Timor-Leste está a passar por fases difíceis. Mas para quem vê como eu que estive que teve 24 anos fora do país como eu, quando cheguei cá, a língua portuguesa praticamente só os mais idosos e pessoas da minha geração é que falavam e entendiam. E eram poucas. Eram poucas pessoas. E o tétum, mesmo tétum praça, era uma mistura com a língua indonésia. Agora já não. Agora já se vê que o tétum praça tem mais língua portuguesa, tem mais mistura. E os jovens se se falar português pausadamente. já entendem mais agora do que antes. Já entendem mais. Tem que se saber que não é a primeira língua deles. Tem que saber como se fala para eles em português. Mas já entendem. Infelizmente, não houve muito investimento no português. Houve um erro estratégico muito grande quando se optou por literacia e numeração em língua materna. Quando qualquer educação de carácter nacional tem que se preocupar com a continuidade deste problema, não é só literacia, enumeração. Problema é a capacidade de raciocinar numa língua, numa língua já desenvolvida, para poder algum dia dominar a ciência e a técnica. Isso não aconteceu por erro de políticas sucessivas de privilegiar literacia e não merecia e não privilegiar capacidade de raciocínio mais global. Figura emblemática da resistência, a nível diplomático, que viria a ser galardoada com o Prémio Nobel da paz e, depois, a ascender aos mais altos cargos políticos do novo país Ramos Horta continua, neste momento, na presidência da república. Acerca do sofrimento ao longo da luta pela independência de Timor Leste José Ramos Horta estima não ser necessário um tribunal internacional para garantir a reconciliação com a Indonésia, antigo ocupante do território, durante praticamente um quarto de século. A reconciliação vem do coração, não vem de discursos políticos, não vem de processos de tribunal internacional. Como? Porque os tribunais internacionais só são impostos pelos países vencedores. A Alemanha derrotada... criou-se um tribunal, o Tribunal de Nuremberga. O Japão derrotado, criou-se o Tribunal de Tóquio. O mesmo aconteceu nos Balcãs. O tribunal da ex-Jugoslávia. Para o Ruanda o Tribunal de Arusha para o Ruanda. Nós decidimos: Não. Não haverá tribunais internacionais especiais. Vamos... Não esquecemos. Porque uma coisa é perdoar internamente, intimamente, outra é esquecer. Não, não vamos esquecer as nossas mães, os nossos pais, irmãos mortos. Vamos sempre amá-los, guardar nos corações, honrá-los porque o que eles mais querem é, lá onde eles estão no céu, é ver Timor em paz, sem ódio. Instantâneos das reportagens em Timor Leste de Juliette Chaignon, um país que acaba de assinalar 50 anos da proclamação da sua independência e subsequente meio século também da invasão indonésia. Este país nos confins da Asia e da Oceania é um dos mais jovens do mundo, tendo-se tornado independente apenas em 2002.
Na Guiné-Bissau, a instabilidade política instalada desde a tomada de poder pelos militares poderá comprometer o sector do turismo, até aqui considerado promissor. Restauradores, gestores e vendedores manifestam preocupação quanto ao futuro. Apreensão essa partilhada por economistas, que veem neste regime militar a ausência de condições para garantir a estabilidade e a segurança indispensáveis ao bom funcionamento das actividades turísticas. No centro de Bissau, o Hotel Coimbra é uma das casas mais antigas da cidade. Acolhe turtistas, viajantes, empresários e jornalistas de passagem. A sua localização privilegiada no coração da capital - entre a praça dos Heróis, onde se situa o Palácio Presidencial, e o porto de Bissau - numa das esquinas da Avenida Amilcar Cabral, confere ainda mais visibilidade a este local já muito conhecido de Bissau. Abriu as portas no início dos anos 2000, depois da guerra civil. A 26 de Novembro deste ano, no dia do alegado golpe de estado, ouviram-se os tiros junto ao palácio presidencial, a poucos metros, no final da rua. Como tantos outros guineenses, César, gerente do Hotel Coimbra, viveu estes acontecimentos com muita suspição. O que eu penso sobre isto tudo? Para mim, isto foi uma coisa bem organizada e não se trata de um golpe de Estado. Foi organizado para beneficiar alguns grupos de pessoas, principalmente quem estava no governo ou quem estava na presidência. Isto não é bem um golpe de Estado, não. Eu sempre nego isto. Parece mais uma forma de demonstrar que eles querem ficar no poder.   A situação é incerta, e os clientes fazem-se raros. A instabilidade política e a incerteza dos próximos dias afectam os negócios. Desde 26 de Novembro, regista-se uma baixa de 85% nas reservas do Hotel Coimbra, 25 pessoas anularam a sua estadia. Houve muitos cancelamentos... Em termos de economia, isto vai ter muitas consequências. Quase não temos ninguém no hotel. Todo o mundo foi embora. A economia do país pode ir abaixo porque não há nenhum financiamento. Os organismos internacionais vão embora. Isto é certo. E num pais que não tem recursos.... que vive da ajuda da comunidade internacional... Sem esta ajuda externa, como é que o país pode andar? Não pode. O famoso mercado artesanal de Bissau é um dos outros núcleos turísticos da capital. Com as suas ruas em terra batida, cobertas por árvores, deambula-se entre ateliers de artesanato local, compra-se ou admira-se as estátuas de madeira, os tecidos coloridos, os balafoms e outros instrumentos de música. Tidjane, vendedor, está sentado e olha para as ruelas meio-vazias do mercado. Está muito calmo neste momento. Naquele dia do conflito houve muito barulho, as pessoas foram se refugiar. Muitos foram para as suas aldeias. Não há muitos turistas neste momento, porque alguns se refugiaram, outros voltaram para a Europa. Mas penso que a situação vai normalizar. Já está mais calmo, mais controlado. No mercado há quem sirva comida. Augusta Gomes, cozinheira, é dona de um estabelecimento com cinco mesas onde os turistas costumavam almoçar, beber um sumo de cabaceira ou de veludo, especialidades de cá. Mas aqui também o espaço está meio-deserto. A cozinha também faz parte da arte local. Mas neste momento estamos a trabalhar a meio gás... Desde que começaram essas complicações quase tudo está parado. Não estamos a fazer nada. Estamos a vir aqui só porque temos que vir. Mas não estamos a ganhar nada. Desde o alegado golpe de Estado, e após dois dias de paralisação total — durante os quais comércios, restaurantes, instituições e tudo o resto receberam ordens para permanecer fechados —, a vida ainda não voltou à normalidade. Augusta Gomes admite sentir-se apreensiva quanto ao futuro.   Estou muito preocupada. Aqui na Guiné, vivemos daquilo que ganhamos diáriamente. Se tudo está parado, o que é que vamos fazer? Vivemos com menos de 1 dólar por dia. Temos crianças que já não vão à escola. O nosso negócio está estragado. Naquele dia em que se ouviram os tiros [no palácio presidencial], tivemos que sair depressa, deixámos tudo aqui e a comida estragou. Todos saíram fugindo. E nós, mulheres, estamos a batalhar no dia-a-dia para a nossa sobrevivência. Só posso pedir a Deus para que tranquilize o coração dos homens. E que olhe para nós, mulheres. Que os homens nos deixem um pouco tranquilas, que nos deixam trabalhar. Se não trabalharmos, não comemos, não sustentamos os nossos filhos. Está tudo perturbado, desde aquele dia que eles dispararam tiros no palácio presidencial? Começaram a assustar as pessoas. Ninguém sabe porquê. Até hoje ninguém tem explicação para o que aconteceu. Na universidade Colinas de Boé, no norte de Bissau, o economista José Nico Dju lecciona aulas em três turmas diferentes. As aulas retomaram, quatro dias depois do golpe de estado, e a situação do país é obviamente tema que se debate aqui na sala de aulas. Mas tanto os alunos como o professor se questionam sobre o futuro que a Guiné-Bissau tem pela frente. Isto é muito preocupante. O turismo representa uma grande vantagem para a Guiné-Bissau. Mas devido à situação, as expectativas certamente irão diminuir. O turismo representava, até agora cerca de 1% do Produto Interno Bruto da Guiné-Bissau, o que não representa uma grande fatia, mas era um sector promissor. E para o economista José Nico Dju, o turismo não resistirá a uma estadia prolongada dos militares no poder. Com os militares no poder, significa que estamos numa situação de emergência, num estado de sítio, numa situação da anormalidade. Não se pode falar em actividades turísticas num contexto em que o país está a ser governado por militares. As actividades turísticas precisam de estabilidade, e sobretudo de segurança, para atrair turistas. Enquanto o poder não for devolvido a actores políticos civis, o país continua em situação de desconforto. As relações com os parceiros económicos internacionais poderão deteriorar-se, afectando o volume de negócios, e consequentemente, a taxa de desemprego.
A peça “The Brotherhood”, da encenadora brasileira Carolina Bianchi, foi apresentada em Paris, no final de Novembro, no âmbito do Festival de Outono. Este é o segundo capítulo de uma trilogia teatral em torno dos feminicídios e violências sexuais e mostra como uma inquebrantável força masculina tem dominado a história da arte e do teatro, engendrando simultaneamente violência e amor quase incondicional pelos “grandes génios”. “The Brotherhood” é o segundo capítulo de uma obra sísmica, uma trilogia teatral em torno da violência contra as mulheres em que Carolina Bianchi e a sua companhia Cara de Cavalo mostram como o misterioso poder das alianças masculinas tem dominado a história da arte, do teatro e das próprias mulheres. Em 2023, no Festival de Avignon, a encenadora, actriz e escritora brasileira quebrou fronteiras e despertou o teatro europeu para a sua obra com o primeiro capítulo da trilogia “Cadela Força”, intitulado “A Noiva e o Boa Noite Cinderela”. Nessa peça, arrastava o público para o inferno dos feminicídios e violações, a partir da sua própria história, e ingeria a droga da violação, ficando inconsciente durante grande parte do espectáculo. Agora, em “The Brotherhood”, Carolina Bianchi volta a trazer consigo as 500 páginas da sua tese e expõe incontáveis histórias de violência contra as mulheres, glorificadas por Shakespeare, Tchekhov e também tantos dramaturgos e encenadores contemporâneos. Ao mesmo tempo que questiona toda a complexidade que gera a deificação dos “génios” masculinos na história da arte e no teatro, Carolina Bianchi demonstra, com brilhantes laivos de ironia, que os deuses têm pés de barro e que as musas têm uma espada numa mão, mas também uma mão atrás das costas porque - como ela - têm um amor incondicional pelos “mestres”. Este segundo capítulo volta a abrir com uma citação de “A Divina Comédia” de Dante, situando-nos no purgatório e antecipando o inferno. Talvez por isso, uma das primeiras questões colocadas pela actriz-escritora-encenadora é “o que fazemos com esse corpo que sobrevive a um estupro?”, a essa “morte em vida que é um estupro”? O teatro de Carolina Bianchi ajuda a pensar o impensável ao nomear a violência e ao apontar todos os paradoxos intrínsecos ao teatro e à arte: afinal, não é o próprio teatro quem perpetua a “brotherhood”, esse tal sistema que se autoalimenta de impunidade e violência, mas que também se mantém porque “somos todos brotherhood”? Em “A Noiva e o Boa Noite Cinderela”, a principal inspiração de Carolina Bianchi era a artista italiana Pippa Bacca, violada e assassinada. Em “The Brotherhood”, é a poetisa Sarah Kane quem mais a inspira pelo seu amor à poesia e à própria violência. Quase como uma fatalidade, Carolina recorda que Sarah Kane dizia que “não há amor sem violência”. Uma violência que atravessa toda a peça, como um tornado, porque “a violência é uma questão infinita para mim” - explica a encenadora à RFI. Resta saber quanto tempo as placas tectónicas da “brotherhood” no teatro vão conseguir resistir ao tornado Carolina Bianchi.   “The Brotherhood” foi apresentado no Festival de Outono de Paris, de 19 a 28 de Novembro, na Grande Halle de La Villette, onde conversámos com a artista.                                        “O que significa situar-se no teatro depois de voltar do inferno?” RFI: O que é “The Brotherhood” e porque é que lhe consagrou a segunda parte da trilogia “Cadela Força”? Carolina Bianchi, Autora de “The Brotherhood”: “‘Brotherhood’ vem de uma expressão da Rita Segato, que é uma antropóloga argentina, que quando eu estava estudando para o primeiro capítulo ‘A Noiva e o Boa Noite Cinderela’, eu cheguei a essa nomenclatura. Ela diz ‘brotherhood’ para essa essa fraternidade entre homens, em que o estupro é parte de uma linguagem, de uma língua falada entre esses pares. Então, ela coloca o estupro como algo que é uma questão da linguagem com que essa fraternidade conversa, é uma consequência dessa conversa e isso para mim foi muito interessante de pensar porque tem esses aspectos dessa protecção. Fazer parte dessa fraternidade tem coisas maravilhosas e tem coisas terríveis e também acho que o espectáculo revela isso. Essa fraternidade é extremamente nociva, extremamente daninha para os membros dessa fraternidade também, para aqueles que são excluídos da fraternidade, e para aqueles que também fazem parte ela pode ser muito cruel. Acho que a peça busca trazer essa complexidade, é uma situação complexa de como olhar para esse amor que nós temos por essas grandes figuras da arte que se manifestam nesses homens que foram importantes, que são influenciadores, por exemplo, do teatro e em toda parte. O que é que atribui essa fascinação, esse poder e a complexidade que isso tem, as coisas terríveis que isso traz. Acho que é um grande embate com todas as coisas e eu não estou excluída desse embate, dessa contradição. O amor que eu sinto por esses grandes génios também é colocado ali numa posição bastante complexa e vulnerável.” O que faz desse amor que tem pelos “grandes génios”? Como é que, enquanto artista mulher, o mostra e, ao mesmo tempo, o denuncia? Diz que a peça “não é uma denúncia”, mas o que é que se faz com todo esse amor? “Eu acho que essa é uma das grandes perguntas da peça. O que é que a gente faz com todo esse amor? Eu não sei porque continuo habitando esse ponto de sombra, de contradição que é um ponto que me interessa habitar dentro da arte, dentro do teatro. Para mim, é mais sobre essa grande pergunta. Eu não tenho essa resposta. Eu não sei o que a gente faz com esse amor, mas eu acho que poder nomear que esse amor existe e que ele é complexo e que é difícil e que tem consequências e coisas que são dolorosas a partir desse amor foi uma coisa importante para mim. Como eu digo em cena, não é uma peça de denúncia, não é esse o lugar da peça, mas levantar essas questões e olhar do que é feita também essa história da arte. A trilogia toda traz muito essa pergunta: como a arte tem representado ou tem sido um espelho de coisas que, de facto, acontecem na sociedade e mesmo a arte, com toda a sua história de vanguarda e com toda a sua liberdade de certos paradigmas, ela consegue também ainda se manter num lugar de prosseguir com certos tipos de violência.” Em 2023, quando falámos do primeiro capítulo, “A Noiva e o Boa Noite Cinderela”, disse que era “uma antecâmara do inferno, já com um pé no inferno”. Agora abre novamente com uma citação da Divina Comédia. Continuamos no inferno ou estamos antes no purgatório? “Sim. Nesta peça já estamos num purgatório, é acordar no purgatório. Tem uma frase da peça que é: “O que significa situar-se no teatro depois de voltar do inferno?”. Acho que essa frase resume um pouco essa busca de um posicionamento. Eu descreveria a peça como uma grande crise de identidade. Ela parte de uma crise de identidade, como uma jornada nesse purgatório, seguindo um mestre – como Dante segue Virgílio nesse purgatório. O mestre aqui seria um grande encenador de teatro, um grande artista, esses reconhecidos génios como a gente se refere. Acho que seria isso, seria uma jornada dessa tentativa de se situar num contexto do teatro. O teatro não é só um assunto da peça, o teatro é uma forma, é a linguagem como esta peça opera a sua discussão, a sua conversa.” Ao mesmo tempo que o teatro consegue pôr em palavras o que a Carolina descreve como a “fenda” que é a violação, o teatro também perpetua esse sistema de “brotherhood”, o qual alimenta a impunidade e a violência. Por que é que o teatro contribui para a continuação desse sistema e como é que se pode travá-lo? “Aí tem uma pergunta que eu não tenho resposta mesmo e que acho que nem existe: travar uma coisa dessas. Eu acho que sou pessimista demais para conseguir dizer que isso vai acabar. O facto de estar tão imersa nos estudos dessa trilogia vai mostrando que isso, para mim, está longe de terminar. Acho que a gente tem vivido transformações bastante importantes, contundentes, em termos de mudanças mesmo, mas acho que talvez a maior mudança que a gente tem aprendido, falando numa questão de corpos que não estão dentro dessa masculinidade que tem o poder, eu acho que é a questão da autodefesa que a escritora Elsa Dorlin aponta muito bem. Então, acho que uma das estratégias de autodefesa também é conseguir falar sobre certas coisas, é conseguir articular, talvez através da escrita, talvez através desta arte que é o teatro, nomear mesmo certas coisas, trazer esse problema para um lugar de debate. Para mim, a questão das respostas é impossível, é impossível, é impossível. Eu acho que o teatro tem essa história como parte de uma questão da própria sociedade. O teatro começa com esse actor que se destaca do coro, a gente tem a tragédia, a gente tem essa perpetuação dessa jornada heroica, os grandes encenadores, os grandes dramaturgos que eram parceiros dos grandes génios. A gente tem uma história que é feita muito por esses grandes mestres.” Mas, se calhar, as placas tectónicas do teatro podem começar a mudar, nomeadamente com o que a Carolina faz… Um dos intérpretes diz “Somos todos Brotherhood”. A peça e, por exemplo, a parte da entrevista que faz ao encenador “génio” não é a demonstração de que, afinal, não somos todos “brotherhood”? “Aí é que está. Eu acho que não. Eu acho que tem uma coisa que é menos purista nesse sentido do bem e do mal, do lado certo, do lado errado. Eu acho que é justamente isso. Tudo aqui neste trabalho está habitando esse lugar de complexidade, esse lugar de que as coisas são difíceis, é esse pathos que está manchado nesta peça. Então, a questão sobre o reconhecimento, sobre a empatia e também sobre a total distância de certas coisas, ela fica oscilando. Eu acho que a peça traz essa negociação para o público. A gente habita todos esses lugares de contradições. Eu acho que quando aparece esse texto, no final da peça, “tudo é brotherhood”, também se está dizendo muito de onde a sociedade tem as suas bases fincadas e como apenas o fact
Bissau acolhe, entre 17 de Novembro e 7 de Dezembro, o Festival Djintis – Festival Internacional de Artes Cénicas de Bissau. Serão apresentados vários espetáculos, oficinas e residências em diferentes espaços da cidade, transformando Bissau num verdadeiro palco XXL.A edição deste ano inspira-se nos elementos Terra e Fogo para orientar a programação, que assume uma dimensão panafricana e internacional, com o objetivo de reforçar os laços comunitários num contexto global marcado pela divisão. Os organizadores do Festival Djintis evocam a afirmação do escritor guineense Abdulai Sila: “há correntes que não se veem, mas movem barcos e pessoas”. Ismael Cassamá, jovem artista guineense, participa numa das oficinas do Festival orientada pelo encenador suíço Patrick Mohr. Reúnem-se diariamente para ensaiar no palco do Centro Cultural Francês de Bissau. Ismael, artista transdisciplinar, dança, escreve, canta e cria performances. “Parar e sentir-me impotente… é um dos meus maiores medos! Quando não faço nada, procuro fazer algo. Se estou sozinho em casa, procuro criar: uma coreografia... um texto, qualquer coisa, para não ficar parado”, explica, sentado no anfiteatro do Centro Cultural. Viver da cultura na Guiné-Bissau não é simples, admite o artista. “Aprendi que em nenhuma parte do mundo é fácil ser artista. Mas na Guiné-Bissau torna-se ainda mais difícil. As pessoas pensam que quem faz teatro faz comédia. És comediante. Mas o teatro também educa, sensibiliza e possui uma força capaz de transformar, tal como a dança. Aqui, quando alguém dança, pode ser visto de várias formas: pode ser considerado uma grande figura, um rei, ou… simplesmente um mendigo.” Em pleno período eleitoral, fala-se muito das divisões étnicas. Ismael, enquanto artista, interroga-se sobre a forma como o teatro enfrenta esta questão e sobre o significado da guineendade. “Não havia divisões étnicas quando conquistámos a independência; só depois começaram a surgir. Agora diz-se ‘sou Papel’ ou ‘sou Balanta’. Eu prefiro pensar que sou guineense, sou africano, sou do mundo. Não esqueço os meus ancestrais e quero tornar isso evidente em cada palco a que subo, em cada canção que canto, em cada palavra que lanço da boca. É isso, apenas isso. Quero transmitir essa força a mais pessoas.” Programação panafricana e internacional Os espetáculos decorrem em vários pontos de Bissau, nomeadamente no espaço Ur-GENTE — um centro de programação e formação em Artes Cénicas Transdisciplinares, que está na origem desta segunda edição do Festival Djintis. Carolina Rodrigues, coordenadora e diretora artística do projeto Ur-GENTE, explica: “Vamos receber companhias de vários países europeus e da América do Sul. Do continente africano, teremos espetáculos ou equipas do Benim, Senegal, Cabo Verde e uma companhia, a ‘Company’, composta por artistas da República do Congo, Burkina Faso e Martinica.” Na fachada colorida do centro Ur-GENTE destaca-se uma serpente multicolorida. Logo à entrada, encontra-se o café-teatro. Celeste Sanhá, responsável pelo espaço, conhece todos os que por ali passam. “Vêm estudantes, vêm curiosos, vêm embaixadores, vêm os moradores do bairro… Muitos chegam aqui a perguntar o que é este espaço. Depois entram, tiram fotografias e acabam a dançar!”, ri-se. Toda a programação do Festival Djintis é gratuita e acessível a todos. O encerramento está marcado para 7 de Dezembro.   O DJINTIS – Festival Internacional de Artes Cénicas de Bissau é uma iniciativa integrada no projeto "Ur-GENTE – Centro de Formação em Artes Cénicas Transdisciplinar de Bissau", promovido pela ONGD VIDA, em parceria com o Ministério da Cultura, Juventude e Desportos da Guiné-Bissau. É financiado pelo Camões, I.P., e cofinanciado pela Câmara Municipal de Almada, Organização de Estados Ibero-Americanos (OEI Portugal), Institut Français e PNUD (Guiné-Bissau). 
loading
Comments