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Antes de Morrer
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No último episódio da primeira temporada, Francisco Mota Saraiva e João Dinis (de pantufas Paez) enveredam pelo labirinto existencial kafkiano à procura de respostas para o sentido da vida, antes que seja tarde demais e acabem por morrer ou, pior!, se vejam transformados numa espécie monstruosa de insetos.Gregor Samsa, o protagonista de “A Metamorfose” (1915), de Franz Kafka, é a representação de um mundo alienado e mecânico, debruçado sobre a sua violência inane, expressão do Homem abandonado na sociedade moderna, dependente da sua vileza, indiferença e crueldade. E, também assim, os nossos anfitriões, tal como todos nós…Esta é uma obra sobre a reflexão do absurdo que permeia a nossa existência, mas que pode ganhar mais sentido com um Aleixo, um vinho branco, da Bairrada, de 2022, um autêntico bouquet aromático que, a fechar o programa, despertou uma conversa, digamos, muito floral.“Antes de Morrer” volta em breve com uma nova temporada que será mais um convite à morte e aos bons livros e aos bons vinhos. Até lá, se puderem, evitem a trágica consequência de perderem a vida.
Entre os esconsos das gavetas, Francisco Mota Saraiva e João Dinis descobrem um velho álbum de fotografias que contém nele os cheiros, as cores e os sons de um afluente do Mékong que transborda o relato de um desejo clandestino e que comporta em si um amor impossível e transgressor que ficou por cumprir.De cariz marcadamente autobiográfico, “O Amante”, de Marguerite Duras, publicado em 1984 e Prémio Goncourt, é a expressão de um “rosto destruído”. Este exercício de memória e de beleza, entre a ficção e factos nunca revelados, abre-se como uma passagem, como um abismo que nos seduz em que cada palavra, em cada parágrafo; um convite a descobrimos todos os rasgos que percorrem as nossas vidas como feridas insaráveis.Para celebrarem o aniversário do João Dinis, os anfitreões deste podcast decidiram abrir um PGA, da Bairrada, tinto, de 2022. Não sabemos se pelo livro ou se pelo vinho, ficaram de rastos e entregaram-se à morte misteriosa dos amantes das artes literárias e vinícolas.
Neste episódio, imbuídos pelo espírito do Romantismo, Francisco Mota Saraiva e João Dinis, abanados por vendavais capazes de torcer a mais insuspeita árvore genealógica, vagueiam pela paisagem desoladora e agreste das charnecas do Yorkshire, e acabam a celebrar a vida e o amor com uma música no coração e debaixo de uma chuva de estrelas.Publicado em 1847, um ano antes da morte da sua autora, Emily Brontë, “O Monte dos Vendavais” recria o perfeito paraíso dos misantropos e oferece-nos a antítese dos contos de fadas imortalizados pela Disney, aqui destruídos pela vingança de Heathcliff e pelo seu amor impossível por Catherine. A escritora Charlotte Brontë terá dito que Emily, sua irmã, não saberia o que estava a fazer ao criar tais criaturas, sequer se esse género de “coisas” seriam certas ou aconselháveis. Pois bem que o fez.À mesa da bisbilhoteira Mrs. Nelly Dean, a vingança é um prato que se serve frio, tal como este Hugo Mendes, rosé, de 2022, que tem nele o mesmo “poder e fogo secreto” de um livro que é, claro está!, um vendaval.
Partindo da máxima que diz que é pecado matar uma cotovia, Francisco Mota Saraiva e João Dinis põem de lado as armas e a sua genial pontaria, propondo-se, contudo, a serem precisos a derrubar o preconceito e a salvarem todas essas aves que têm apenas por propósito cantarem-nos belas melodias.Narrado com a singularidade da voz de uma criança, “Mataram a Cotovia” (1960), de Harper Lee, livro frequentemente alvo de censura, seja pela sua abordagem ao racismo e aos direitos civis, à violência sexual, à desigualdades sociais, ou pelo uso de calão e expressões cruéis, faz-nos regressar ao tempo anterior à formação do conceito – à infância, à inocência, à pureza; ao que está precisamente no início do caminho percorrido desde o conceito até ao preconceito.Infelizmente, quando a injustiça acontece – quando essas coisas más acontecem! – parece que só as crianças é que choram e que os adjectivos não são suficientes para amenizar a dureza dos substantivos.De chorar por mais é também o pipiar inadjectivável do espumante servido neste episódio: um Murganheira, Grande Reserva, bruto, de 2006, impossível de qualquer juízo de censura.
Francisco Mota Saraiva e João Dinis, quais Narciso diante do espelho, vendem a sua alma ao diabo para nos falarem novamente sobre o que mais gostam: livros, vinho e morte; e “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde, publicado em 1891, dá o mote neste dia de nevoeiro em que ficamos a conhecer o extraordinário e belo jovem Dorian Gray que, influenciado por um homem mais velho e imoral, Lord Henry Wotton, se predispõe a uma ideia de arte e sensualidade. Num esconso quarto de sótão, um quadro envelhece, revelando cada um dos pecados de Dorian enquanto este se mantém jovem e bonito. Até quando? Os nossos anfitriões não estão para censuras e julgamentos e servem-nos um belíssimo Lupucinus, do Douro, de 2021, e que entra muito bem com um cozido à portuguesa. Como disse Oscar Wilde, no leito da sua morte, estamos a «viver acima das nossas possibilidades».
Francisco Mota Saraiva e João Dinis (irritado!) são assaltados, numa tarde de chuva, com sabor a castanhas, pela fera na selva.Publicada em 1903, “A Fera na Selva”, do escritor norte-americano Henry James, é a história de um segredo, de uma fatalidade, o prodigioso relato de um homem a quem nada neste mundo havia de acontecer embora toda a vida se tenha preparado para isso. Um livro em que nada de relevante sucede até sermos finalmente tomados pelo fechar da última página e nos darmos conta que já não somos iguais e que a literatura fez algo de extraordinário connosco quando menos esperávamos. Isso ou um belíssimo Pontual – Grande Reserva, do Alentejo, de 2021(um Alicante Bouschet que, devemos dizer, é tanto para homens como para mulheres).
Bom Ano! Francisco Mota Saraiva e João Dinis, perante a ausência completa de adultos, entram em 2026 ligeiramente tocados pela soturnidade e pela melancolia do regresso à infância, à procura de um Deus qualquer que lhes cale o medo e lhe acalente a esperança, não apenas para o novo ano, mas também para Humanidade.Depois da recusa de mais de 20 editoras, William Golding, veterano da II Guerra Mundial e pessimista assumido, publicou, em 1954, “O Deus das Moscas” – um retrato fortíssimo, inteligente e acutilante sobre a ordem e o poder e a decadência das sociedades modernas.Uma parábola construída a partir de um conjunto de crianças rapazes que se encontram sozinhos numa ilha e que lutam pela sua sobrevivência e sentido de existência.Para este episódio, convidaram Hitler, John Locke e um rapazinho chamado Piggy, à roda de um clássico vinícola, um Esporão, branco, reserva, de 2024, e servido nuns copos magníficos oferecidos pela sua amiga Sofia.
Francisco Mota Saraiva e João Dinis preparam-se, antes de morrer, para a distopia “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, obra maior do autor inglês, originalmente publicada em 1932, e visão quase profética. Partindo de uma passagem de “A Tempestade”, de William Shakespeare, esta é uma das grandes parábolas do nosso tempo sobre a desumanização em que o progresso da biologia, da fisiologia e da psicologia tomam conta do Homem, subjugando-O. Qual o preço a pagar? Soma, sucedâneos de paixão violenta, ácidos, LSD e um Eddies Blend, tinto, do Douro, de 2021, cuja escolha ficou a cargo de Eurico (não confundir com Euriolando). Ah! Substituíram-se as Paez por botas Timberland.
Neste episódio especial de Natal, Francisco Mota Saraiva e João Dinis trazem-nos um livro de contornos musicais, de poema, de canção em prosa – “A Christams Carol. In prose. A Ghost Story of Christmas.”, obra maior do escritor inglês Charles Dickens, escrito em 1843, em pouco menos de seis semanas, e que se espera que «assombre as casas dos leitores de forma agradável, e que ninguém deseje apaziguá-lo».Ebenezer Scrooge é «um velho pecador, extorsionista, falso, ganancioso, avaro, somítico, invejoso» e que odeia o Natal. Será possível a redenção? Quantas são as badaladas que tocam? Scrooge será visitado pelo seu antigo sócio, Jacob Marley, e três abençoados espíritos.Consta que aquando da morte de Dickens, uma vendedora de rua, incrédula e arrasada, terá perguntado na sua pura ingenuidade: «Morreu Dickens?... Mas… então… o Pai Natal também morrerá?». Para conheceremos a resposta, deixemo-nos levar por este episódio, servido com um Freixo, reserva, tinto, de 2021, à mesa destes dois amigos que prometem honrar o Natal para todo o sempre.«Bah! Humbug!»
Se o mundo acabasse à narigada, certamente que Francisco Mota Saraiva e João Dinis não teriam como derrotar Nikolai Gogol, o autor de “O Nariz”, pois, também este, era muito cioso do seu.Publicado em 1835, “O Nariz” é um conto satírico em que um assessor de colégio, o major Kovaliov, desperta uma manhã sem nariz e descobre, para espanto seu, que ele desenvolveu uma vida própria, passeando pela cidade de São Petersburgo, até se tornar Conselheiro de Estado. Impossível? Nascido no dia 1 de Abril, Nikolai Gogol terá dito: «Acreditem nas minhas palavras. Eu próprio não me atrevo a duvidar delas».Entre lógicas invertidas, cambalhotas mentais e bananas de Basquiat, os nossos anfitriões dançam ao som da valsa de Shostakovitch e servem-nos um tinto Beta, da Bairrada, de 2021. Como manda o figurino, antes de provar, há que cheirar!
Francisco Mota Saraiva e João Dinis descem ao “Coração das Trevas” no seu barco a vapor carregado de livros, vinhos e horror à morte. Publicado em 1899 (1902?), “O Coração das Trevas”, de Joseph Conrad, escritor ucraniano de pose inglesa, é um livro sobre o indizível, sobre o que não pode ser contado ao outro porque não é sobre dizer, é sobre sentir. Nas palavras de António Lobo Antunes, Conrad «limitou-se a escrever o que devia», num livro «cheio portas por onde entrar e nenhuma por onde sair». No fim das trevas, está Kurtz, a figura de Marlon Brando, no filme “Apocalypse Now”, de Francis Ford Coppola. Porque é que devemos ler isto livro antes de morrer? Porque cai muito bem com Pupa, um branco, do Alentejo, de 2023, e, convenhamos, não é caso para dizer «O horror! O horror!»
No segundo episódio de “Antes de Morrer”, Francisco Mota Saraiva e João Dinis voltam a piscar o olho à morte, aos livrose ao vinho. O protagonista de hoje é “O Estrangeiro”, de Albert Camus, Prémio Nobel da Literatura em 1957. Publicado em 1942, e classificado por Jean-Paul Sartre como ele próprio um «estrangeiro» no panorama literário de então, este livro é a história de um jovem vulgar, Mersault, perante a ideia de absurdo, talvez em busca do sentido da existência. Mais do que um livro (muito!) bem escrito, é sobretudo sobre o que está detrás das palavras, antes de nós e diante do nosso pensamento inexprimível. Traz à estampa palavras inusitadas como «palmar», o assassínio de um árabe pelos The Cure e acompanha muito bem com um Somnium, tinto, do Douro, de 2020.
Francisco Mota Saraiva e João Dinis estreiam o seu podcast “Antes de Morrer”, um convite à morte, aos livros e ao vinho. Tudo coisas para fazer antes de morrer (até a própria morte!). Neste primeiro episódio, trazem-nos “O Estranho Caso de Dr. Jekyll e de Mr. Hyde”, do escritor escocês Robert Louis Stevenson. Publicado em 1886, este livro é a história do benévolo Dr. Jekyll que, com a ajuda de uma poção, se transforma no perverso e hediondo Mr. Hyde, na pele do qual leva uma vida errática e marginal. R. L. Stevenson considerava o ofício de escrever «this childish task», uma tarefa infantil. Também estes dois anfitriões nos provam que assim pode ser o ofício próximo de ler. Para celebrarem trazem mexilhões, galinhas, Paez (alpergatas, se bem dito) e um espumante da Bairrada, Quinta do Poço do Lobo, branco (bruto!), de 2023.




