DiscoverNo escuro
No escuro
Claim Ownership

No escuro

Author: PÚBLICO

Subscribed: 115Played: 1,419
Share

Description

Vamos falar de cinema e de outras coisas também. Para entender o mundo através dos filmes, com Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara.

38 Episodes
Reverse
Um homem mata uma ex-namorada. Uma amiga da vítima pede que se averigue o que falhou, uma vez que ele já antes matara uma ex-namorada, cumprira pena de prisão e estava ainda em liberdade condicional. O que falhou? O Homem Que Matou Duas Vezes é uma investigação de Ana Cristina Pereira, que escreveu os guiões e faz a narração, com produção de Inês Rocha, revisão de Inês Rocha e Sara de Melo Rocha, sonoplastia de Margarida Adão, música do genérico de Tiago Orato, ilustrações de José Carvalheiro e produção executiva de Amílcar Correia. A série narrativa, de sete episódios, vai além da reconstrução dos crimes cometidos por João Pedro Oliveira. Recupera a história das vítimas e do homem que as matou ao mesmo tempo que escrutina o sistema. Para conhecer a história toda, ouça os próximos seis episódios.  Se precisa de ajuda, ligue para o Serviço de Informação às Vítimas de Violência Doméstica da CIG: 800 202 148. Ou para a linha de Apoio à Vítima da APAV: 116 006. Outros créditos: som recolhido em manifestação em Lisboa, em 2024, de grupo de mulheres a cantar Canción Sin Miedo, com música e letra de Vivir Quintana; trailer Retrato de Dorian Gray, filme de 2009, realizado por Oliver Parker, com guião de Toby Finlay, a partir da obra homónima de Oscar Wilde.  See omnystudio.com/listener for privacy information.
Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma é título de filme de terror. O cartaz, com as duas protagonistas cobertas de sangue, também aponta nessa direcção. Mas não nos precipitemos, porque quem não gosta de terror pode ter a tentação de o evitar e seria uma pena. Há sangue a jorrar e algumas cabeças a voar apenas porque Jane Schoenbrun, cineasta, presta aqui homenagem ao género slasher. Mas depois transcende-o para fazer um filme que é, afinal, muito mais sobre sexo e como encontrar um lugar seguro no medo, por paradoxal que possa parecer. A personagem principal, Kris (Hannah Einbinder, que não anda longe de ser um alter ego de Schoenbrun), foi convidada a recuperar a série de filmes sobre o Acampamento Miasma, voltando ao espírito original depois de várias tentativas para manter o entusiasmo dos fãs vivo. Para isso, quer ter no filme a "última rapariga" do episódio original. Ela é Billy (Gillian Anderson) e vive, reclusa, no acampamento isolado onde foi filmado o primeiro Miasma. É uma espécie de Norma Desmond, a diva de Sunset Boulevard, a olhar para o passado, mas leva-se bastante menos a sério. Até porque aprendeu — e esse será o segredo que fascina Kris — que "se as coisas forem demasiado reais, podem-se sempre desligar". O medo e o prazer são aqui uma aprendizagem, com a ajuda da Pequena Morte (não é por acaso que assim se chama ao orgasmo), jovem vítima de transfobia, que quando quer matar de novo sai do fundo do lago onde vive. O lago, esse sítio "de onde vêm os filmes" — leia-se o lugar dos traumas passados — para fazer jorrar o sangue. Mas, afinal, é no meio de frango frito e de gomas cheias de açúcar que Kris se reconcilia com o sexo e o desejo, e é tudo isto que faz deste filme queer um objecto vindo mais do corpo do que da cabeça. Ao contrário do que acontece com outra estreia da semana, Natal Amargo, de Pedro Almodóvar, que já foi, ele também, mais sensual e menos cerebral. Agora, a urgência de filmar transforma-se numa obra que se perde na teia (demasiado) intricada da auto-ficção. Andamos por aqui, entre o corpo e a cabeça, neste episódio do No Escuro, onde até cabem Clint Eastwood e Nanni Moretti (ouçam, para perceber porquê) e o Psico de Hitchcock, referência fundamental para as questões de identidade de género centrais na obra de Jane Schoenbrun. Aliás, quando ainda não tinha abandonado as suas preocupações woke, Kris, a personagem da realizadora, fizera "o Psico do ponto de vista da cortina do chuveiro". Mas isso, claro, foi antes de experimentar o orgasmo. No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso lema, o nosso apelo, é: #levantemoraboevaoaocinema.See omnystudio.com/listener for privacy information.
Portugal, a Espanha e a Itália serão os primeiros países europeus a estrear NAZA, o filme do quarteto israelo-palestiniano formado por jornalistas e activistas que recebeu o Prémio Especial do Júri na última edição do Festival de Veneza — dia 1 de Outubro nas salas portuguesas, distribuído pela Nitrato Filmes. Deram a cara por NAZA Yuval Abraham e Rachel Szor tal como pelo filme anterior, No Other Land, foram Abraham e Basel Adra que figuraram no genérico como realizadores e se deslocaram a Hollywood para receberem o Óscar do melhor documentário em 2025. Nenhum deles é estranho à polémica, mas com NAZA os israelitas Abraham e Szor enfrentam neste momento um dos períodos mais difíceis das suas vidas. Estão a ser acusados de traição pelos sectores conservadores de Israel, de se aproximarem do anti-semitismo, ou de serem mesmo anti-semitas, e o governo anunciou pôr em marcha um processo de revogação da cidadania. Nada que não tivessem previsto: durante a conferência de imprensa em Veneza, perguntavam-se já o que os esperaria no regresso ao país, algo que até aqui parecia ser exclusivo dos cineastas iranianos acusados de traírem a república islâmica fazendo os seus filmes. Ou como uma "democracia" se socorre, para se proteger, dos mesmos mecanismos de terror de uma teocracia. O "escândalo" de NAZA não é mais do que o resultado de uma investigação jornalística. Foi publicada em 2023 e desvenda, através do testemunho anónimo de 24 ex-operacionais do exército, um sistema de matança de palestinianos, no pós- 7 de Outubro de 2023, comandado à distância com ferramentas de Inteligência Artificial que autoriza a morte de civis em nome de se atingir um alvo em Gaza: um (suposto) terrorista do Hamas. Quando em NAZA um dos operacionais faz desenhos num papel a explicar em que é que se apoia esse sistema, limpo e tecnológico, não pode deixar de ser convocada a sequência em que Claude Lanzmann, no monumental Shoah (1985), com uma câmara escondida, filmava Franz Suchomel, um SS em Treblinka, um criminoso de guerra, a descrever de forma também fria a "coisificação" das vítimas da Solução Final. As anteriores vítimas são agora os carrascos? NAZA, filmado à noite em Telavive durante três anos, e nas alturas das torres da cidade, para proteger o anonimato das suas fontes, é por isso um filme sobre a sociedade israelita, fechada num silêncio cúmplice. Com isso o governo de Israel não está a conseguir lidar. No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso lema, o nosso apelo, é: #levantemoraboevaoaocinema.See omnystudio.com/listener for privacy information.
Monstros (mas o que são os monstros, afinal?) e humanos numa pequena cidade perto da zona desmilitarizada que separa as duas Coreias. Homens com armas nas mãos, sem saber como travar uma orgia de destruição inexplicável, descrições escatológicas detalhadas, gente estranha, a comédia humana em versão filme catástrofe, em versão filme de extraterrestres, em versão western. Seres que podem ter saído da saga Alien ou de Avatar. Hope, do coreano Na Hong-jin, é um alucinante divertimento, com uma primeira hora de uma perseguição que não vamos esquecer tão cedo. Em que momento os coreanos transformaram a influência norte-americana em algo muito próprio, com um humor que mistura crítica social e violência de desenhos animados? O que é certo é que o Governo coreano percebeu a força do <em>soft power</em> e a cultura está no centro da sua estratégia. Mas se a estreia de Hope nas salas portuguesas marca a rentrée, no Festival de Veneza, Vasco Câmara também se entusiasmou com um filme vindo da Coreia do Sul: Possible Love, de Lee Chang-dong, mais uma vez um olhar sobre a comédia humana, mas este mais melancólico. É a história de dois casais e de uma “​possibilidade” acontecer entre eles. "Não há uma moral da história, nem crime e castigo, nem espectáculo de '​filme de género' com os ricos e os pobres, aquilo que se generalizou cinematograficamente a partir do sucesso de Parasitas, de Bong Joon-ho (2019). Este é um filme, explicou o realizador, nascido do confronto de um tímido com as imparáveis mudanças nas sociedades", escreveu Vasco, a partir de Veneza. E também em Veneza foi mostrado aquele que prometia ser um dos filmes mais importantes do festival: NAZA, feito por uma dupla israelita, Yuval Abraham e Rachel Szor, parte de uma investigação de 2023 que pôs a falar ex-funcionários israelitas do sistema de morte em Gaza. É uma fria máquina de guerra, distante das suas vítimas e indiferente ao mal que causa que se revela neste filme impressionante. É da Coreia e dos seus monstros fictícios e de Gaza e do seu terror real que falamos neste episódio do No Escuro. No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso lema, o nosso apelo, é: #levantemoraboevaoaocinema.See omnystudio.com/listener for privacy information.
Rubaiyat Hossain é do Bangladesh e esteve em Portugal para a pós-produção do seu mais recente filme, A Noiva Difícil, que tem fotografia da portuguesa Leonor Teles, e que será apresentado no Festival de Veneza, que acaba de começar. Nessa passagem por Lisboa, encontrou uma comunidade triste e "de cabeça baixa" quando passeou pela Rua do Benformoso e percebeu que é com desconfiança que se olha para quem chega do Bangladesh - a indignação do Chega e de André Ventura, proclamando que "Isto Não É o Bangladesh" terá tido o seu efeito. Mas em Rubaiyat, cujo cinema denuncia desequilíbrios sociais, de género e de classe (veja-se Made In Bangladesh sobre um grupo de operárias de uma fábrica de roupa que querem fazer um sindicato), a campanha do Chega teve um efeito certamente contrário ao pretendido: a realizadora decidiu fazer um filme passado em Portugal. Quer mostrar como a história dos dois países se cruza desde há muito e, para isso, criou a personagem de uma empregada de limpeza de um museu de Lisboa que se confronta com esse passado comum. O Vasco Câmara já está em Veneza e vai ver como A Noiva Difícil será recebido, mas, para já, a notícia que deixou o festival em alvoroço foi dada à última hora (e não terá sido por acaso): Veneza vai mostrar NAZA, o novo filme de Yuval Abraham e Rachel Szor, a metade israelita do quarteto israelo-palestiniano (com Basel Adra e Hamdan Ballal) que realizou No Other Land, o documentário que venceu um Óscar no ano passado. NAZA é um acrónimo usado pelos serviços secretos israelitas que se refere aos civis mortos em operações militares - baixas que são assumidas como parte da estratégia adoptada contra a população palestiniana na sequência dos ataques de 7 de Outubro de 2023. É o Festival de Veneza a tomar uma clara posição política, mostrando que há vida mesmo quando os mais mediáticos filmes americanos não comparecem - primam pela ausência Digger, de Alejandro González Iñarritu ou The Adventures of Cliff Booth, de David Fincher, e os respectivos actores, Tom Cruise e Brad Pitt. Neste episódio vamos falar disto - e do Bangladesh em Portugal. No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso lema, o nosso apelo, é: #levantemoraboevaoaocinema.See omnystudio.com/listener for privacy information.
loading
Comments