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A Semana na Imprensa

Author: RFI Brasil

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Uma leitura dos assuntos que mais interessaram as revistas semanais da França. Os destaques da atualidade do ponto de vista das principais publicações do país.

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Os Estados Unidos dominam as páginas das principais revistas francesas nesta semana. As publicações semanais se concentram em três principais assuntos: os novos documentos do caso do financista e criminoso sexual Jeffrey Epstein, as truculentas operações dos agentes federais do ICE e a parceria abalada entre os serviços de Inteligência europeus e americanos. A revista Le Point aborda os vínculos do presidente americano, Donald Trump, com Jeffrey Epstein, que morreu na prisão em 2019. "O caso que faz os Estados Unidos tremerem" é a manchete na capa estampada com uma antiga foto de Epstein ao lado de Trump.  O pesadelo recomeçou há pouco mais de uma semana, quando o procurador-geral adjunto, Todd Blanche, anunciou a publicação de três milhões de novos documentos relativos ao caso Epstein, entre eles, dois mil vídeos e 180 mil fotografias. No entanto, todos os elementos de pornografia infantil, os conteúdos ligados a investigações federais em andamento e os documentos protegidos por sigilo profissional foram retirados. Ainda assim, Blanche garante que nenhum elemento que pudesse ter relação com Trump foi ocultado por seus serviços.  "Anomalia significativa e sintomática da era Trump", diz a Le Point, que lembra que antes de ingressar no Departamento de Justiça, em 2024, o procurador-geral adjunto era advogado do presidente americano. Durante muito tempo próximo de Jeffrey Epstein, o líder republicano, nega há anos ter tido conhecimento das ações pedófilas de Epstein, "contra toda coerência", reitera a matéria.  Em uma nova tentativa de abafar o caso, o presidente americano sugeriu na terça-feira (3) virar a página do escândalo. “Não saiu nada sobre mim, exceto que foi uma conspiração contra mim, literalmente, por parte de Epstein e outras pessoas. Mas acho que já está na hora de o país, talvez, pensar em outra coisa, como a saúde, ou algo que importe às pessoas”, disse.  Segundo o jornal New York Times, o nome de Trump, sua residência em Mar‑a‑Lago, na Flórida, e outras referências ao líder republicano são mencionados 38 mil vezes nos arquivos do Departamento de Justiça divulgados em 30 de janeiro. Mas, o bilionário alega que a nova leva de documentos “o absolve de qualquer irregularidade”, insistindo que sua relação com Epstein terminou há mais de 20 anos.  Minneapolis no olho do furacão Além do "terremoto" do caso Epstein, os Estados Unidos são palco de um outro fenônemo: a revolta contra as violentas operações da polícia de imigração. A revista Le Nouvel Obs publica uma reportagem de sua enviada especial a Minneapolis, no "olho do furacão" após a morte de dois cidadãos em janeiro que enfrentaram membros do ICE, "o símbolo do inexorável mergulho dos Estados Unidos no autoritarismo".  Com a perseguição dos imigrantes, muitos deles com status legal, a política de imigração de Trump "semeia o terror" e se espalha pelas grandes cidades do país com prisões cruéis e arbitrárias. De acordo com a revista, foi a morte a tiros de Renee Nicole Good e Alex Pretti que revelaram ao mundo "a selvageria e o amadorismo desta polícia fora da lei". Entrevistados pela reportagem da Nouvel Obs, especialistas em Direito destacam a ilegalidade destas operações. "O governo ultrapassa os limites do Estado de Direito", diz Julia Decker, diretora de política do Centro dos Diretos dos Imigrantes do Minnesota. Para a revista, a confusão que Trump faz entre imigração e terrorismo legitima seus métodos criminosos.  Parceria abalada entre EUA e Europa "CIA: os espiões de Trump que preocupam a Europa" é a manchete da revista L'Express desta semana. A publicação questiona se com o líder republicano embaralhando a geopolítica, os países europeus manterão sua cooperação com os Estados Unidos na área da Inteligência.  "Como viver sem a CIA?", questiona a revista, ressaltando a dependência europeia dos serviços secretos americanos. Segundo a L'Express, até recentemente, "espiões americanos abasteciam amplamente a Direção de Inteligência Militar francesa".  A semanal apurou que operações conjuntas entre os Estados Unidos e a Europa continuam sendo realizadas atualmente. A França e os Estados Unidos chegam até mesmo a compartilhar nomes de espiões que arriscam suas vidas em países perigosos em nome da segurança, garante. Mas, diante do conchavo entre Trump e o presidente russo, Vladimir Putin, além das ambições territoriais americanas na Groenlândia, "a Europa terá de acabar com a parceria?", pergunta a L'Express. O questionamento foi levantado pela revista a cerca de 40 responsáveis dos serviços de Inteligência de países europeus e a resposta foi unânime: a Europa precisa aprender a trabalhar sem a CIA e considerar Washington como "um antigo aliado" ou até como "um potencial inimigo".
Segundo os semanários franceses Le Point e L’Express, Minneapolis, cidade do estado de Minnesota nos Estados Unidos marcada pela morte de George Floyd em 2020, enfrenta uma grave crise: de um lado, moradores organizam resistência à ICE, agência de imigração que caça imigrantes sem documentação; de outro, a agência se tornou um negócio bilionário para aliados de Donald Trump. Le Point destaca a mobilização cidadã, enquanto L’Express mostra a politização e a impunidade da ICE. Minneapolis, cidade do estado de Minnesota conhecida mundialmente após a morte de George Floyd em 2020, vive hoje uma crise intensa envolvendo a ICE, agência federal de imigração e alfândega dos Estados Unidos. Moradores se mobilizam para resistir às ações de agentes que perseguem imigrantes sem documentação, enquanto, segundo Le Point e L’Express, a mesma agência se tornou um negócio bilionário para aliados do ex-presidente Donald Trump. Em reportagens detalhadas, Le Point descreve a rotina de moradores como Juan, que se organiza para vigiar e seguir veículos da ICE pelas ruas da cidade. Armados com apitos e redes de comunicação, grupos comunitários alertam vizinhos, levam comida a quem não se sente seguro para sair de casa e registram abusos cometidos pelos agentes. A mobilização acontece pouco depois do assassinato de Renee Good, mãe de família de 37 anos, morta por um agente da ICE em janeiro, e tem como objetivo evitar novos abusos. Segundo Le Point, Juan se tornou “patrulheiro”, dedicando parte de suas semanas a monitorar operações da agência. Ele mantém binóculos e anotações à mão, observa padrões de ação da ICE e registra qualquer tentativa de intimidação, mas reforça que não realiza ações ilegais. A cidade também adotou medidas como aulas online temporárias em alguns bairros, reforço de redes comunitárias e vigilância coletiva, buscando proteger residentes vulneráveis e manter a mobilização organizada. Leia tambémO jogo virou? Influenciador próximo de Trump compara ICE à polícia política da Alemanha nazista Máquina de lucro para aliados de Trump Já a revista L’Express enfatiza a dimensão financeira e política da ICE. A agência se transformou em uma verdadeira máquina de lucro para aliados de Trump, com contratos e consultorias bilionárias gerando ganhos privados a partir de políticas de expulsão em massa. Um exemplo citado é o de Tom Homan, ex-diretor da ICE, que, segundo investigação do FBI, ofereceu contratos federais prometendo lucros a clientes ligados ao governo caso Trump retornasse à presidência. Além disso, L’Express relata que a promulgação da lei One Big Beautiful Bill Act (OBBBA), em julho de 2025, triplicou o orçamento da ICE para US$ 27,7 bilhões por ano, tornando a agência a primeira força federal do país em termos de recursos financeiros. A lei permitiu que a ICE atuasse com métodos muitas vezes questionáveis, com agentes protegidos por imunidade praticamente absoluta, enquanto operações de deportação atingem tanto imigrantes quanto cidadãos norte-americanos, como no caso de Renee Good. Leia tambémTrump ameaça usar Forças Armadas contra 'ataques' à polícia de imigração em Minneapolis A polarização em Minneapolis reflete o contraste entre resistência comunitária e poder da agência. Le Point mostra que moradores, apesar do frio intenso e do clima tenso, mantêm disciplina e método. O monitoramento da ICE é feito com cuidado: sinalizações por apitos, acompanhamento visual, registro de veículos e denúncias às autoridades quando há abuso. A cidade tenta impedir que a violência se espalhe e proteger a população mais vulnerável. Por outro lado, L’Express evidencia que o aparato da ICE funciona quase como um sistema paralelo, politizado e lucrativo, apoiado por aliados do governo e empresas privadas de segurança. Firmas como Constellis Holdings, resultado da fusão de antigas empresas militares privadas, recebem milhões de dólares e se beneficiam diretamente da estrutura de deportações em massa, sem que exista responsabilidade clara sobre abusos cometidos.
O movimento de contestação ao regime iraniano e a violenta repressão aos protestos, nas últimas três semanas, ocupam as capas das principais revistas semanais francesas. As reportagens analisam as chances de queda do aiatolá Ali Khamenei, que comanda o país com mãos de ferro desde a Revolução Iraniana, em 1979. Em entrevista à revista Le Point, um dos especialistas mais respeitados do mundo em mudanças sociais, o americano Jack A. Goldstone, da George Mason University, afirmou que “as cinco condições para o sucesso de uma revolução estão postas” no Irã. Situação econômica preocupante, protestos generalizados pelo país, apoio crescente da elite, descrença na capacidade do governo de superar as dificuldades e ambiente internacional favorável fazem com que, pela primeira vez desde que assumiram o poder, os mulás iranianos possam ser derrubados, indicou o pesquisador. Não foi o que ocorreu no Irã em 2009, 2018 ou 2022, quando o regime conseguiu sufocar grandes protestos nas ruas. Nas três ocasiões precedentes, os manifestantes visavam reivindicações sociais precisas, mas não o fim do governo islamita, como agora. A possibilidade de retorno do exílio do príncipe herdeiro Reza Pahlavi, filho do último xá deposto pela Revolução Iraniana, é outro foco das reportagens. Um opositor de longa data do regime relata à L’Express que é a primeira vez que vê retratos de Pahlavi e gritos pedindo o seu retorno nas manifestações. “Ele parece ser a nossa única chance de voltarmos a um sistema político centrado na modernidade, que priorize os interesses nacionais dos iranianos, e não os ideológicos da República Islâmica”, disse a testemunha. L’Express salienta que, conforme o último levantamento do Grupo de Análise e Medição das Atitudes no Irã, baseado na Holanda, Reza Pahlavi seria a personalidade política preferida dos iranianos, com 31% dos votos em 2024, e 21% dos entrevistados defendiam a volta da monarquia no país. A confiabilidade da pesquisa em um país onde elas são proibidas, entretanto, é questionável. Reza Pahlavi e a extrema direita Em Teerã, muitos defendem um Irã “sem mulás, nem xás”. "O problema é que a oposição nunca conseguiu se estruturar no país, em meio à forte repressão", frisou o pesquisador iraniano Amir Kianpour, à revista Nouvel Obs. “O filho xá sonha em retomar o poder, ao mesmo tempo em que cultiva laços com a extrema direita do mundo inteiro”, afirma a publicação. Nas redes sociais, ele exalta Donald Trump e, sempre que pode, participa de eventos da ultradireita, como a Conferência de Ação Política Conservadora, grande encontro do qual já discursaram o britânico Nigel Farage, o argentino Javier Milei, a italiana Giorgia Meloni ou o empresário Elon Musk, além do próprio presidente americano. Em 2023, ele chegou a se encontrar com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, com quem posou para fotos.  “Muitos iranianos que nasceram depois revolução sequer sabem que Pahlavi não apoia a democracia, como diz. Ele é um oportunista”, criticou a refugiada política iraniana Mahtab Ghorbani, que vive na França, em entrevista à Nouvel Obs.
As revistas semanais francesas analisam a nova ordem mundial instaurada por Donald Trump. Captura de Maduro, ameaças a Cuba, Colômbia e Irã, interesse na Groenlândia: em 2026, o magnata redefine a ordem pela imposição. Para Le Nouvel Obs, o presidente americano "aplica a lei do mais forte"; Le Point vê pragmatismo imperialista visando recursos estratégicos, e L’Express alerta para a ascensão de "um novo predador hemisférico" que impõe os interesses norte-americanos ao resto do planeta.  Ao capturar o ditador Nicolás Maduro e assumir o controle da Venezuela, o presidente norte-americano, Donald Trump desrespeitou o direito dos Estados Unidos e internacional. Para a revista francesa Le Nouvel Obs, o gesto revive a tradição imperialista norte-americana e abre caminho para futuras ações em outras regiões estratégicas, como o Ártico, por meio da Groenlândia. O periódico lembra que a operação Resolução Absoluta (Absolute Resolve, no original em inglês) confirma que Trump, que se dizia pacificador, privilegia a diplomacia militar direta. O presidente segue a chamada “doutrina Trump”, concebida por seu vice J.D. Vance: primeiro, definir claramente o interesse nacional; segundo, esgotar a diplomacia; terceiro, recorrer à força esmagadora quando necessário, retirando-se rapidamente antes que o conflito se prolongue. A ação em Caracas, segundo o Le Nouvel Obs, seria "apenas a primeira de um plano mais amplo, que consolida o Ocidente sob a influência norte-americana, ignorando adversários como Rússia e China, e lembrando antigas operações secretas da CIA na América Latina". Leia tambémApetite de Trump pela Groenlândia pressiona Otan; EUA querem 'comprar' ilha, mas não descartam força militar A revista observa que a aparente obsessão de Trump pelo tráfico venezuelano contrasta com a clemência concedida ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, condenado a 45 anos de prisão por envio de mais de 400 toneladas de cocaína aos Estados Unidos. Para especialistas citados pela semanal, o presidente se guia unicamente pelo interesse estratégico norte-americano, visando a apropriação de recursos naturais — do petróleo venezuelano aos minerais da Groenlândia —, sob uma lógica de capitalismo agressivo e "predatório". Quem será o próximo? Para a revista Le Point, o sentimento que domina o início de 2026 é o da hybris, termo grego que significa o poder desmesurado, sem limites. Com Nicolás Maduro capturado, Donald Trump atira para todos os lados e o veículo questiona na capa: "Quem será o próximo?". A questão central levantada por Le Point é se Trump abriu uma brecha que outros atores tenderão a explorar. A revista caracteriza a postura de Trump como imperialista – e, em certos aspectos, colonial. Se houver um próximo alvo, ele provavelmente estará na América Latina, diz Le Point. O próprio presidente não esconde: “ninguém voltará a questionar a dominação norte-americana no hemisfério ocidental”. Quanto à Groenlândia, tema que preocupa governos europeus, Le Point arrisca uma hipótese: Trump fará tudo para adquirir o território – que, na visão norte-americana, também integra o “hemisfério ocidental” –, mas aposta que poderá “comprá-lo”, e não tomá-lo pela força. Resta o Irã. Para o líder republicano, seria mais vantajoso esperar um eventual colapso interno do regime do que arriscar a captura do aiatolá Ali Khamenei, mergulhando a região em um caos comparável ao do Iraque pós-2003. Leia também'Se o Brasil tivesse pressionado Maduro, cenário poderia ser outro', diz especialista No balanço de Le Point, esse início de ano reduz ainda mais as chances de Trump receber um dia o Prêmio Nobel da Paz. Em menos de 12 meses, ele autorizou mais ataques – com mísseis, bombas e drones – do que Joe Biden ao longo de todo o seu mandato. Nova ordem mundial para quem? Já a L’Express traz uma ilustração impactante: Trump como cowboy armado, com faixa estilo "Rambo", sob o título “A Nova Ordem Mundial”. Para a publicação, o sequestro de Maduro marca o advento da “lei do mais forte” e abre espaço para todas as possibilidades geopolíticas. A ação em Caracas, segundo a revista francesa, sinaliza que Trump não é mais apenas o candidato populista da campanha de 2016: ele se tornou um imperador pragmático e decidido, capaz de aplicar sua visão mesmo desorientando parte da base que esperava uma postura isolacionista. A revista destaca ainda que a Estratégia de Segurança Nacional divulgada em dezembro deixa claro o projeto do presidente: tornar os Estados Unidos a “nação mais poderosa e próspera da história” e reconquistar seu quintal histórico, a América Latina. A publicação cita a historiadora francovenezuelana Elizabeth Burgos, que observa a necessidade de Washington criar dissuasão na região para manter influência global. Medidas simbólicas, como rebatizar o Golfo do México de “Golfo da América”, reforçam essa lógica expansionista.
Com seus hotéis de luxo, a rede de metrô e uma localização estratégica, Paris se tornou um epicentro da espionagem, revela a revista francesa L’Express. A reportagem narra casos curiosos e aborda a “sexpionagem”, onde a sedução vira arma em operações secretas. Segundo a L'Express, Paris consolidou-se como o grande palco das operações secretas globais. Hotéis de luxo como o Península e o Royal Monceau tornaram-se verdadeiros quartéis-generais para encontros discretos de agentes de potências rivais.  Recentemente, representantes da CIA, do Mossad e de países árabes se reuniram em Paris para negociar sobre a guerra em Gaza, aproveitando a neutralidade diplomática e a infraestrutura sofisticada que a cidade oferece. A reportagem revela episódios curiosos que reforçam o caráter singular da espionagem parisiense. O fundador do Telegram, Pavel Durov, por exemplo, foi recebido como um chefe de Estado no hotel Crillon, símbolo da importância estratégica desses palácios. Até cruzeiros pelo Sena e jantares refinados entram no jogo, usados para criar confiança e garantir negociações longe dos holofotes. Bastidores glamorosos e 'sexpionagem' Entre as práticas mais intrigantes está a 'sexpionagem', técnica que marcou a profissão até os anos 1970 e ainda resiste em versões modernas. A sedução deliberada para extrair informações confidenciais era comum em áreas como os Invalides, segundo a L’Express. Hoje, o método é associado à tecnologia: antes das reuniões, equipes realizam uma varredura do local para eliminar microfones e instalar seus próprios dispositivos. Com uma estimativa de até 15 mil agentes estrangeiros circulando pela cidade, Paris é descrita como um “tabuleiro de xadrez” para serviços secretos. Desde os anos 1960, pelo menos 16 assassinatos ligados à espionagem ocorreram na capital, reforçando sua reputação sombria. Entre glamour e intriga, a capital francesa segue sendo o coração pulsante da diplomacia oculta e das operações clandestinas. Espionagem em família A revista Le Point revela a história de Isabelle Pâques, filha do ex-espião francês Georges Pâques, que durante 20 anos trabalhou para a União Soviética enquanto ocupava cargos estratégicos no Ministério da Defesa e na Otan.  Isabelle e seu filho Dimitri emigraram recentemente para São Petersburgo e receberam a cidadania russa por decreto assinado por Vladimir Putin, em uma cerimônia conduzida pelo chefe do Serviço de Inteligência Exterior da Rússia (SVR), Sergueï Narychkine. O gesto, carregado de simbolismo, reforça os laços históricos entre a família e Moscou. Segundo a reportagem, Isabelle, que já foi candidata pelo partido de extrema direita Reunião Nacional, de Marine Le Pen, e manteve posições nacionalistas e antivacinação nas redes sociais, tornou-se uma defensora aberta da Rússia desde o início da guerra na Ucrânia.  Ao deixar a França, ela levou na mala os arquivos pessoais do pai, com planos de criar um museu da espionagem onde Georges Pâques será homenageado.  A matéria mostra como as memórias da Guerra Fria e as lealdades ideológicas continuam a influenciar escolhas familiares e políticas, misturando passado e presente em meio às tensões geopolíticas atuais.
No fim do ano em que Donald Trump buscou aniquilar o multilateralismo, o gigante asiático se apresenta como moderador da estabilidade. Duas das principais revistas semanais francesas, a Le Point e a Le Nouvel Obs, publicam esta semana edições especiais sobre a China, com dezenas de páginas de reportagens e análises. Ficou para trás o tempo em que Pequim “abastecia o mundo de roupas descartáveis, brinquedos de plástico ruim e aspiradores que estragam em dois meses”. Depois de “tanto copiar” o melhor da engenharia americana e europeia, o país “hoje é potência nos setores-chave do século 21”, constata o editorial da Nouvel Obs. A Le Point traz uma longa entrevista com o escritor sino-canadense Dan Wang, especialista em novas tecnologias e na China contemporânea. À semanal, ele adverte: “O Ocidente se encontra na posição em que a China estava 30 anos atrás”. O acadêmico, que trabalhou na Universidade de Yale antes de se tornar pesquisador associado na Hoover Institution da Universidade de Stanford, compilou milhares de dados para mostrar de onde veio e, principalmente, para onde vai a China de hoje. Em editorial, a revista lembra que, “enquanto isso, o debate político na Europa gira em como retroceder no tempo, como se isso pudesse restaurar a antiga preeminência” do Velho Continente. 'Quando a China despertar, o mundo tremerá' A Nouvel Obs relembra as palavras “proféticas” de um best-seller de 1973, do diplomata e escritor francês Alain Peyrefitte: “Quando a China despertar, o mundo tremerá". Chegamos nesse ponto, e não apenas economicamente”, indica o editorial. “Diante de um presidente americano febril e errático, obcecado por acordos imediatistas, Xi Jinping tem fortes argumentos para projetar sua força discreta e apresentar seu 'Império do Meio' como um pilar de estabilidade na nova desordem internacional”, afirma o texto. A edição especial da revista recapitula a História para demonstrar o quanto o “imperialismo chinês vem de longe, muito longe”. “O novo imperador da China, que reina desde 2012, está cada vez mais entronizado como senhor do mundo do futuro”, avalia a Le Nouvel Obs.
As principais revistas francesas desta semana se debruçam sobre a política interna do país. Em uma longa entrevista exclusiva para a Le Point, Nicolas Sarkozy, presidente da França entre 2007 e 2012, alerta para o risco de ruptura na política da Quinta República. Já a L’Express foca no malabarismo econômico feito pela extrema direita francesa – representada na capa do periódico por Jordan Bardella e Marine Le Pen do partido Reunião Nacional (RN) – na tentativa de agradar tanto sua base popular quanto a ganhar apoio do setor empresarial.  Na Le Point, Sarkozy fala em clima pré-revolucionário e prevê a possibilidade de mudança de regime, lembrando que na França isso nunca ocorreu sem violência. “A situação é grave, pois, há quase 70 anos, as condições para uma insurreição raramente estiveram tão reunidas em nosso país.”  O ex-presidente, recentemente preso durante algumas semanas em Paris após condenação por um esquema de financiamento ilegal de sua campanha presidencial de 2007 pelo ex-líder líbio Khadafi, faz críticas à esquerda francesa. Para ele, “a esquerda traiu todas as suas lutas de outrora em favor dos direitos humanos.”   Nicolas Sarkozy reconhece na entrevista a Le Point o crescimento e a força da extrema direita. No entanto, descarta, como vem sendo cogitado nos bastidores do seu partido Os Republicanos, ser o candidato de uma aliança conservadora das eleições presidenciais de 2027.  Mas, o ex-presidente deixa claro que não está nos seus planos abandonar a vida política. Ele não quer repetir o passado e diz que prefere desempenhar um novo papel.  Leia tambémFrança: Ex-presidente Sarkozy é indiciado por financiamento ilegal de campanha com fundos líbios Extrema direita tenta se fortalecer na França A L’Express destaca que o RN entra 2026 em um “mistura explosiva”. De um lado, algumas figuras do partido de extrema direita buscam a credibilidade nos meios empresariais, enquanto o outro lado segue firme na linha populista.   Segundo a revista, a aproximação com o patronato é nítida. Empresários antes relutantes agora aceitam dialogar com o Reunião Nacional, e abrem portas para reuniões com Marine Le Pen e Jordan Bardella, buscando influenciar a linha econômica do partido, descreve o texto. Para a L’Express o objetivo é “melonizar” o RN, ou seja, torná-lo mais pragmático e liberal, à semelhança de Giorgia Meloni na Itália.  A popularidade do jovem Jordan Bardella, presidente da sigla, também é abordada na reportagem. Com a filha do fundador do partido, Marine Le Pen, fora da corrida presidencial por conta de um processo judicial e queda nas pesquisas, Bardella desponta como sucessor. A dúvida atual do RN é se Bardella é forte o suficiente para ser candidato em uma disputa presidencial.   Além das dúvidas que pairam e na incerteza sobre quem será o nome da extrema direita na corrida eleitoral, a revista ressalta o risco estratégico de misturar discursos populistas e liberais que podem gerar cacofonia econômica. Sem clareza, o RN corre risco de perder credibilidade tanto com empresários quanto com sua base popular, conclui L’Express. 
O movimento americano Make America Great Again (MAGA) atua muito além das fronteiras dos Estados Unidos – e tem intensificado a rede de influências na Europa. Enviados do presidente Donald Trump à Europa trabalham para resgatar o modelo de sociedade “branca e cristã” no continente. A revista francesa L’Express desta semana publica uma série de reportagens sobre o quanto a presença da rede MAGA se acelerou nos países mais poderosos da União Europeia, de olho nas futuras eleições. A corrida presidencial francesa, por exemplo, tem o partido de extrema direita Reunião Nacional mais próximo do que nunca de uma vitória, em 2027. Para o MAGA americano, a Europa representa uma etapa fundamental da “guerra de civilizações” encampada nos Estados Unidos, aponta a revista. No topo dessa mobilização, estão sete aliados de Trump que se instalaram no continente ou têm repetido viagens às capitais mais estratégicas, como Berlim, Bruxelas, Londres ou Paris. Enviados de Trump O embaixador americano na capital francesa, Charles Kushner, é um deles. O jornalista Rod Dreher, um dos mentores do movimento e íntimo do vice de Trump, J.D. Vance, é outro. Ele mudou-se em 2022 para a Hungria e tem viajado pelos países do bloco para impulsionar as candidaturas dos nomes mais proeminentes da extrema direita europeia. Em Bruxelas, o embaixador americano junto à União Europeia, Andrew Puzder, tem servido para além dos interesses dos Estados Unidos no bloco: ele participa do movimento político que prega o nacionalismo e o reforço das fronteiras, aponta L’Express. Além disso, ONGs cristãs, fundações, think tanks e escritórios de advocacia favoráveis às causas ultraconservadoras foram mobilizados. O resultado é que, “sob pressão americanas, diversos projetos de lei foram adiados ou enterrados” no bloco, como o recente projeto europeu de enquadramento do uso da inteligência artificial, indica a publicação. “O combate final do MAGA é convencer as pessoas além da extrema direita, romper o cordão sanitário” dos partidos extremistas, constata uma das reportagens.
A imprensa semanal francesa trata sobre os variados efeitos da Inteligência Artificial (IA) sobre a sociedade, a economia, a política e a arte. Adotando uma perspectiva política e social, a revista Nouvel Obs destaca os riscos para a Wikipédia, com a criação de uma concorrente, a Grokipedia, alimentada por Inteligência Artificial e lançada por Elon Musk. O objetivo parece ser distorcer a realidade, como no caso do aquecimento global, que é tratado como uma "teoria". A revista francesa critica essa ofensiva tecnológica por desprezar a deliberação, o respeito aos fatos e o voluntariado, pilares fundamentais da Wikipédia. Sob o ponto de vista econômico, a revista examina as consequências da IA no e-commerce, com assistentes como o ChatGPT ou o Perplexity oferecendo recomendações adaptadas, ameaçando e competindo com grandes empresas como Amazon ou Zalando.  IA é novo petróleo No plano geopolítico, a Nouvel Obs se concentra no Oriente Médio, com países como os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita vendo a IA como um novo "petróleo", investindo bilhões de dólares para fortalecer sua soberania digital por meio do controle de dados e da revitalização dos setores estratégicos, como a defesa ou a cibersegurança. A revista Le Point discute a IA enquanto motor econômico, ferramenta cultural e tema controverso na política. Em termos econômicos, o texto menciona o posicionamento de algumas das big techs como Meta e Google para se apropriar do crescimento da IA. Em termos culturais, aponta o uso da IA na arqueologia, para ajudar na reconstrução dos hinos babilônicos e dos afrescos de Pompeia, entre outros exemplos. Na política, cita a IA, em nível local, como aconteceu na candidatura de Virginie Joron (RN), que utilizou imagens geradas por IA para ilustrar a sua campanha em Estrasburgo, no leste da França. Finalmente, L'Express concentra seu ponto de vista no impacto econômico da IA no mercado de trabalho. O especialista James Pethokoukis, em entrevista à L'Express, contesta as previsões de um "banho de sangue" do mercado de trabalho, argumentando que, apesar da automação, novas tecnologias tendem a criar mais empregos do que a eliminar. Ele ataca, ainda, a proposta de criação de uma renda universal básica e defende que os trabalhadores "devem se adaptar" ao novo mercado.
A ciência como motor para os desafios do futuro e o controle da energia como fator de desigualdade social são alguns dos temas abordados pela imprensa semanal francesa.  O fórum "Futurapolis Planète 2025", organizado pela revista Le Point, destacou o papel central da ciência na resposta aos desafios de amanhã. Durante o evento, ficou claro que, diante das crises, a ciência não é pano de fundo, mas sim um fio condutor, e que o conhecimento deve estar no centro da tomada de decisões públicas. A discussão sobre energia evidenciou a necessidade de repensar a capacidade das redes para absorver o aumento da demanda resultante de aparelhos cada vez mais dependentes da eletricidade, da chegada dos veículos elétricos e da exigência de supercomputadores para a Inteligência Artificial. O uso crescente de sistemas algorítmicos também gera um “custo invisível” relacionado à água: grandes quantidades são utilizadas para o resfriamento de data centers. Energia e domínio A questão do controle da energia e sua ligação intrínseca ao poder é o foco do economista Lucas Chancel em seu livro Énergie et inégalités (Energia e desigualdades, em português), analisado pela revista Nouvel Obs. Chancel, que codirige o laboratório sobre desigualdades globais da Paris School of Economics, argumenta que a energia está no centro dos interesses das sociedades desde os primeiros homens na Terra. Historicamente, o progresso técnico — com o uso da máquina a vapor e dos moinhos — permitiu economizar força física e liberar tempo para os humanos. Essa energia, que concede poder (em inglês, power significa ambos), é, simultaneamente, um meio de emancipação e um instrumento de alienação e dominação. Desde o período neolítico, o excedente calórico foi apropriado por minorias e utilizado como “vetor de dominação”. O desafio central, portanto, reside na propriedade e no controle de quem detém a energia. O autor mostra que a história está repleta de intervenções públicas bem-sucedidas — como a nacionalização do setor na França do pós-guerra ou as cooperativas nos Estados Unidos — que provam não existir uma “lei natural” conduzindo à oligopolização do setor, e que o voluntarismo do poder público é fundamental.
Depois de um ano preso na Argélia, o escritor franco-argelino Boualem Sansal foi liberado e transferido, na última semana, para a Alemanha, onde recebe cuidados médicos. A libertação, anunciada pelo governo argelino no dia 12 de novembro, aconteceu após a intervenção do presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, que disse “expressar profunda gratidão (ao escritor) pelos serviços prestados ao país”. As revistas francesas desta semana detalharam o caso, que colocou em xeque o governo da França. Com uma reportagem de capa, a revista L’Express destacou, na manchete, que Boualem Sansal era “o prisioneiro de Argel” e detalhou as negociações diplomáticas realizadas ao longo do último ano. Num dos títulos da matéria, o semanário foi bastante crítico, afirmando que a Argélia estava manipulando a França há um ano. “Por várias vezes, o Eliseu acreditou na libertação próxima do escritor, refém do regime de Argel”, destacou a publicação, dizendo que os argelinos pareciam brincar com “os nervos” dos franceses. Já a revista Nouvel Obs afirmou que Sansal, de 81 anos, nunca parou de denunciar uma tendência totalitária do governo da Argélia. Para a publicação, o escritor enfrentou a prisão com uma coragem inabalável. A reportagem lembrou ainda que o autor de livros como 2084: o fim do mundo e A aldeia da Alemanha, explora, em suas obras, o totalitarismo, como o nazismo do passado e o islamismo dos dias de hoje. A prisão A revista L’Express destaca que, no ano passado, muitos amigos estavam preocupados com a ida de Sansal, que acabara de obter nacionalidade francesa, à Argélia. Eles se preocupavam especialmente devido à hostilidade de Argel visando escritores críticos do governo. Ele foi preso no aeroporto da capital argelina no dia 16 de novembro de 2024, com a embaixada da França sendo informada somente no dia 19 daquele mês.   Para Nouvel Obs, há muitas hipóteses que tentam explicar sua prisão. Alguns opositores do regime argelino dizem que o governo queria ouvir Sansal antes da sua partida definitiva para a França, já que ele conheceria muitos dissidentes, diplomatas e figuras consideradas por Argel como hostis. A libertação do escritor põe fim à preocupação e revolta de amigos e admiradores de Boualem Sansal, mas mantém a já delicada relação entre a França e a Argélia.
Enquanto a COP30 começa nesta segunda-feira (10) no Brasil, com o objetivo de discutir medidas e compromissos para limitar o aumento médio da temperatura do planeta a 1,5 °C, revistas semanais francesas destacam uma realidade inquietante: o mundo continua mais dependente do petróleo do que nunca. “Mas até quando?”, questiona a L'Express. Já a revista Le Nouvel Obs desta semana discute o papel da Europa, dez anos após o Acordo de Paris, no momento em que Estados Unidos e China emergem como impérios energéticos. De um lado a América pró-petróleo de Trump, do outro o “Estado elétrico” chinês, caracteriza Le Nouvel Obs. Em meio a tantos debates sobre o futuro energético mundial, a imprensa semanal francesa indica a eclosão de uma profunda tensão entre compromissos climáticos e interesses geopolíticos.   L’Express aponta que enquanto a Agência Internacional de Energia (AIE), com sede em Paris, prevê um pico da demanda de petróleo por volta de 2029, potências como os Estados Unidos e a OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) projetam esse marco apenas para 2050, mantendo investimentos em combustíveis fósseis.   Segundo a revista, as mudanças em prol da transição energética, embora necessárias, não estão acontecendo tão rapidamente quanto se esperava. “O retorno do cético climático Donald Trump é prova disso”, justifica. A publicação critica ainda o fato de que países emergentes como o “Brasil, anfitrião da COP30 que começa em 10 de novembro, acaba de autorizar uma nova exploração petrolífera na costa amazônica”.  Leia tambémSede da COP30, Brasil 'sabota' o evento ao apostar em petróleo na Amazônia e põe em risco liderança climática Ao mesmo tempo, a China se posiciona como um “Estado elétrico”, acelerando sua transição com energias renováveis, aponta a edição da Le Nouvel Obs. A revista observa uma disputa de influência global que se desenha, além de uma batalha decisiva pelas terras raras.   Papel da Europa nesse cenário  “O que pode fazer a Europa nesse novo grande jogo da energia?”, pergunta Le Nouvel Obs. A revista acredita que o continente vive uma descarbonização forçada, mas enfrenta o risco de dependência tecnológica. A disputa entre “o império do petróleo e gás americano e o modelo chinês de eletrificação” evidencia que a transição energética está longe de ser apenas uma preocupação com o meio-ambiente: trata-se também de uma batalha pelo poder global.  “O petróleo moldou toda a geopolítica do século 20. Já o início do século 21 é marcado pela corrida pelos metais, como lítio, cobalto e terras raras, essenciais para tecnologias de baixo carbono. A China, que domina o refino e boa parte da extração desses minerais, usa essa vantagem para pressionar os Estados Unidos e a Europa na guerra comercial. E também utiliza sua liderança para atrair o 'Sul Global' aos seus interesses”, sintetiza Le Nouvel Obs.  No centro desse novo “grande jogo” da energia, a transição energética deixa de ser apenas uma questão ambiental e se revela como uma disputa geopolítica estratégica. Leia tambémEuropa x China: quem vai vencer a corrida pelo mercado de veículos elétricos?
Nesta edição da resenha semanal da imprensa francesa, Le Nouvel Observateur e L’Express revelam duas fraturas profundas na sociedade francesa atual: o afastamento entre judeus e partidos de esquerda após os ataques do Hamas de 2023, e a crescente tensão em torno da exibição de bandeiras palestinas - e israelenses - em prédios e espaços públicos na França. Os relatos expõem dilemas políticos, identitários e simbólicos que atravessam o país em pleno 2025.   Dois anos após os atentados de 7 de outubro de 2023, que reacenderam o conflito Israel-Palestina, judeus franceses que historicamente se identificaram com a esquerda vivem um momento de ruptura. Segundo a revista Le Nouvel Observateur, o mal-estar ficou evidente em um evento na prefeitura de Paris, onde a senadora socialista Laurence Rossignol foi criticada por não endossar o gesto de seu partido de "hastear a bandeira palestina". Rossignol tentou lembrar que a luta contra o antissemitismo sempre foi uma bandeira da esquerda, citando Léon Blum. Mas foi interrompida por vozes da plateia do Parlamento que afirmaram: “Isso é passado!”. Uma participante resumiu o sentimento, entrevistada pelo veículo: “Nós, judeus de esquerda, estamos um pouco órfãos. Pela primeira vez, não sei em quem votar”. A revista destaca que o vínculo histórico entre judeus e esquerda está em crise. O presidente do Crif — Conselho Representativo das Instituições Judaicas da França —, Yonathan Arfi, afirmou que o ataque do Hamas não foi apenas contra Israel, mas contra os judeus do mundo inteiro. “Nosso cotidiano mudou, vivemos com medo e solidão, e a esquerda não soube ouvir isso.” Para o historiador Jonas Pardo, o antissemitismo na esquerda representa uma "regressão inaceitável". O deputado Boris Vallaud reforçou à reportagem: “Ser socialista é ter o antissemitismo como inimigo”. A revista também ouviu intelectuais e militantes judeus que relatam dilemas íntimos entre identidade, história familiar e engajamento político. O advogado Arié Alimi, próximo da esquerda radical francesa, afirmou que sua militância não compreende "o vínculo entre identidade judaica e Israel". “Esse vínculo é parte da nossa identidade”, disse ele à L'Obs. Alimi estudou em Jerusalém e tem família no país, sublinha a revista. Leia tambémFrança: prefeituras içam bandeiras palestinas ou israelenses, desafiando neutralidade do serviço público Combate identitário Já L’Express aborda a tensão em torno da exibição de bandeiras em espaços públicos e privados. Após os ataques de 2023, algumas prefeituras hastearam a bandeira de Israel; outras, a da Palestina. Ambas as ações foram contestadas judicialmente. Em setembro de 2025, 86 cidades desafiaram a ordem do governo e exibiram a bandeira palestina no dia em que Macron reconheceu o Estado da Palestina. A revista relata o caso de Maria, jovem franco-libanesa que foi pressionada a retirar bandeiras do Líbano e da Palestina de seu apartamento em Paris. “Queria demonstrar apoio às vítimas civis dos bombardeios em Gaza e no sul do Líbano”, disse ela à revista. Segundo o cientista político François Foret, há um “retorno do uso simbólico das bandeiras”, mas a questão Israel-Palestina "é muito mais polarizada que outras". No cotidiano, o uso de bandeiras também gera hostilidade. Em Paris, pichações acusaram um morador de ser ligado ao Hamas. Um comerciante foi ameaçado por exibir uma bandeira israelense em sua loja. Arfi relata que muitos judeus escondem símbolos religiosos ou mudam seus nomes nas caixas de correio para evitar problemas. “Há uma vontade de discrição”, afirmou à L'Express. A revista publica que mesmo os síndicos evitam o tema em "reuniões de condomínio". Um gestor contou à revista que pediu a retirada imediata de uma faixa pró-Gaza em um prédio. “Não podemos correr o risco de conflitos.” Até mesmo a bandeira francesa pode gerar desconforto, em diversoso casos, relata L'Express. Em Plessis-Robinson, uma moradora reclamou da bandeira tricolor nacional. A tensão simbólica revela "feridas profundas e desafios democráticos", conclui o semanário.  
O roubo cinematográfico das joias da Coroa Francesa no museu do Louvre, em 19 de outubro de 2025, ganha uma grande cobertura na imprensa semanal francesa. As revistas Le Point e Télérama desta semana mergulharam nos aspectos históricos, simbólicos e operacionais do crime, revelando não apenas o que foi levado, mas o que esse ataque representa para a memória nacional e para a segurança dos museus. Paris amanheceu tranquila naquele domingo, mas terminou com um dos episódios mais audaciosos da história recente dos museus europeus. Um grupo de quatro homens invadiu a Galeria de Apolo do Louvre, quebrando vitrines e roubando oito joias da Coroa Francesa em apenas sete minutos. A operação, descrita como “cinematográfica” pela revista Le Point, envolveu o uso de serras elétricas e fuga em scooters. Segundo Le Point, o furto visou principalmente as joias da imperatriz Eugênia, esposa de Napoleão III. Entre os itens levados estão sua diadema, um broche relicário e um laço de corpete. A coroa, embora danificada, foi abandonada na fuga dos criminosos. A publicação destaca que, ao lado das peças da imperatriz Maria Luísa e da rainha Maria Amélia, o roubo abrange boa parte das joias das soberanas do século XIX, marcando uma perda irreparável para o patrimônio francês. A reportagem traça uma linha entre o esplendor do Segundo Império e a ostentação joalheira que marcou o período. Napoleão III, em busca de legitimidade, investiu em joias como forma de rivalizar com a monarquia britânica. Os joalheiros Lemonnier, Bapst e Kramer foram encarregados de criar peças que exaltassem o savoir-faire francês, como o laço de corpete de Eugênia, composto por 4.720 diamantes da Coroa e 70 pedras adicionais. Leia tambémApós 'roubo do século', diretora do Louvre quer delegacia no meio do museu mais visitado do mundo Alta rastreabilidade A Télérama, por sua vez, adota um tom mais crítico e reflexivo. A revista questiona o valor comercial das peças roubadas, destacando que, se os ladrões buscavam lucro, teriam feito melhor em atacar vitrines de grandes joalherias contemporâneas. As joias da Coroa, embora de valor histórico e simbólico inestimável, dificilmente serão revendidas no mercado clandestino — justamente por serem únicas e rastreáveis. A historiadora Capucine Juncker, especialista em joalheria, expressa forte preocupação com o destino das joias, em entrevista à Télérama. Para ela, o roubo não parece ter sido encomendado por um colecionador bilionário. Juncker teme que os ladrões desmontem as peças e vendam as pedras separadamente, apagando sua origem e valor patrimonial. “Essas joias não são apenas objetos de luxo. Elas contam a história da França, da Europa e da arte joalheira do século XIX”, afirmou. Ambas as revistas convergem em um ponto: o roubo não é apenas um ataque ao patrimônio, mas uma ferida aberta na memória nacional francesa. A Galeria de Apolo, palco do crime, é o mesmo cômodo por onde Eugênia fugiu em 1870, durante a queda do Império, na época em que o Louvre era um palácio. A ironia histórica não passou despercebida pela revista. Como conclui Le Point, “nada se perdia, tudo se transformava. Mas agora, quase tudo se perdeu.”
A crise política francesa atinge novo patamar, segundo as revistas semanais Le Nouvel Obs e Le Point. Para a primeira, a suspensão da reforma da Previdência não basta para sustentar o governo Lecornu 2, que opera sem maioria e sob tensão orçamentária. Já a Le Point defende que Emmanuel Macron antecipe sua saída em 2026, apesar do primeiro-ministro francês ter sobrevivido, na quinta-feira (16), a duas moções de censura no Parlamento, dias após propor a suspensão dessa reforma crucial de Macron. A crise política francesa ganhou novos contornos nesta semana, com as revistas Le Nouvel Obs e Le Point apontando o esgotamento do governo Lecornu 2 e o isolamento crescente do presidente Emmanuel Macron. Para os semanários, a "arquitetura do sistema político" do país estaria comprometida, apesar do premiê francês Sébastien Lecornu ter conseguido superar a moção de censura – por apenas 18 votos – na Assembleia Nacional dos deputados. Segundo Le Nouvel Obs, “a suspensão da reforma da Previdência, arrancada pelo Partido Socialista, talvez não seja suficiente para manter vivo o frágil governo Lecornu 2”. Sem o respaldo do artigo constitucional 49.3 – que permite aprovar leis sem votação parlamentar – e diante de uma Assembleia fragmentada, o Executivo tenta sobreviver em meio a tensões orçamentárias e disputas ideológicas. O chefe de governo anunciou medidas como a tributação de holdings utilizadas por ultrarricos e a suspensão da idade mínima para aposentadoria aos 64 anos até a próxima eleição presidencial. Mas, como alerta Le Nouvel Obs, “todos os temas em pauta; orçamento, taxação dos mais ricos, cortes na seguridade; são inflamáveis”. A presidência também enfrenta desgaste. Macron, segundo a mesma revista, “continuou a agir como um presidente todo-poderoso entre 2022 e 2024, mesmo sem ter mais os instrumentos para impor sua vontade — ou seja, a maioria absoluta no Parlamento”. A esquerda, fora do poder há quase uma década, ainda não conseguiu se consolidar como alternativa, e as alianças progressistas se fragmentam diante da ascensão da extrema direita. Saída antecipada de Macron? Já a revista Le Point vai além e sugere que Macron deveria organizar sua saída antecipada em 2026, um ano antes do final de seu segundo mandato. “O impasse político se tornou perigoso, para a economia e para as instituições”, afirma a publicação. A dificuldade de aprovar o orçamento e a sucessão de sete ministros da Educação em apenas três anos são sinais de um sistema em colapso. E mais: ao longo de seus dois mandatos, Macron nomeou sete primeiros-ministros, "um recorde sob a Quinta República", pontua. A revista questiona: “É razoável deixar esse fardo para o próximo presidente? E como fazer campanha nessas condições, apenas para permanecer alguns meses a mais no poder?”. Citando o economista francês que acaba de ganhar o Nobel, Philippe Aghion, Le Point propõe: “Se é preciso parar o relógio da reforma, por que não adiantar o da eleição presidencial?” A decisão, como disse De Gaulle após sua renúncia, pode ser “uma boa saída”, relembra Le Point. "Cabe a Emmanuel Macron escolher qual é a melhor para ele, e sobretudo para o país", conclui a revista.
Em meio ao aumento dos casos de câncer entre menores de 40 anos, a revista Nouvel Obs desta semana traz como matéria de capa a história do velejador francês Charlie Dalin, vencedor da competição de vela em solitário ao redor do mundo Vendée Globe, que revelou, em um livro, que estava em tratamento contra um câncer de intestino. Aos 40 anos, em fevereiro de 2025, Dalin venceu a competição conhecida como o “Everest dos mares”, devido à sua dificuldade, estabelecendo um recorde de 64 dias, 19 horas, 22 minutos e 49 segundos. Na época, “todos ignoravam que a façanha era ainda mais impressionante”, escreve a Nouvel Obs. “Porque, ao mesmo tempo em que enfrentava tempestades e depressões austrais no fim do mundo, ele lutava contra um câncer.” Durante a Vendée Globe, Dalin realizava tratamento imunoterápico contra um tumor gastrointestinal raro. Com a publicação de seu livro “La force du destin” (A força do destino, em tradução livre), o navegador pretende mudar o olhar do público sobre a doença. A revista também traz uma entrevista com Elie Rassy, médico responsável pelo programa de pesquisa do hospital de referência no tratamento do câncer na França, Gustave Roussy. Ele estuda as causas que favorecem o aparecimento da doença em pessoas na faixa dos 30 anos. O programa tem ainda o objetivo de desenvolver estratégias de prevenção e tratamentos personalizados. Isso porque, nessa faixa etária, como explica o especialista, os cânceres tendem a ser mais agressivos e menos sensíveis à medicação. O contexto de vida também é diferente: trata-se de “um momento em que construímos uma carreira, um percurso acadêmico ou pensamos em formar uma família”, diz Rassy. Além disso, o câncer nessa etapa costuma ser diagnosticado, na maioria dos casos, em estágio avançado, já que não há exames obrigatórios nessa idade — com exceção do de colo do útero. O British Medical Journal, citado pela Nouvel Obs, aponta um aumento de 79,1% no número de casos entre pessoas com menos de 50 anos, bem como de 27,7% nas mortes. O meio-campista do Bahia Éverton Ribeiro, que revelou nesta semana ter sido diagnosticado com câncer de tireoide, é um exemplo recente. Causas ambientais Rassy observa que nossos hábitos mudaram muito nos últimos 40 anos. “As hipóteses [para explicar o aumento dos casos] apontam para modificações no expossoma — o conjunto de fatores ambientais aos quais uma pessoa é exposta ao longo da vida: o ar que respira, os alimentos que consome, os produtos químicos, os micróbios, o estresse”, destaca. Entre os jovens adultos — como são chamados os pacientes entre 30 e 40 anos —, os cânceres mais comuns são os de mama, tireoide, pulmão, trato digestivo e rins. Embora muitos avanços tenham sido feitos nos tratamentos, ainda há muito a ser aprimorado para que deixem menos sequelas nos pacientes. A pesquisa desenvolvida no hospital Gustave Roussy também investiga os poluentes aos quais os pacientes foram expostos — como microplásticos, substâncias químicas e até metais pesados.
Na semana que antecede os dois anos do ataque do Hamas a Israel, as revistas semanais francesas abordam as feridas abertas na comunidade judaica, o luto coletivo em Israel e os bastidores da cooperação entre os serviços secretos dos dois países. A grande rabina da França, Delphine Horvilleur, denuncia o silêncio imposto aos judeus críticos da guerra na Le Nouvel Obs. A filósofa Élisabeth Badinter alerta para o avanço do antissemitismo na Le Point, enquanto a L’Express revela segredos do Mossad, o serviço secreto de inteligência e operações especiais de Israel. Dois anos após o ataque do Hamas a Israel, a revista Le Nouvel Observateur publica uma entrevista com a rabina Delphine Horvilleur, que reflete sobre o trauma persistente entre judeus na França e em Israel. Ela denuncia a escalada do antissemitismo e a radicalização interna da comunidade judaica, além de criticar a resposta militar israelense. Horvilleur relata o impacto emocional do 7 de Outubro de 2023, que despertou nela memórias da Shoah, como é conhecido o Holocausto na França. Em meio ao luto e à perplexidade, ela afirma que o sonho de Israel como refúgio não pode se concretizar à custa da destruição de outro povo. A rabina também destaca o silêncio imposto a intelectuais judeus que se posicionam contra a guerra. Na entrevista à Nouvel Obs, ela relembra o gesto simbólico de convidar uma palestina para rezar ao seu lado no Yom Kippur. Horvilleur defende que o diálogo é essencial, mesmo em tempos de polarização extrema, e alerta para os riscos de uma sociedade que só se comunica por meio de slogans e agressões. Leia também“Antissemitismo surge com crise da virilidade”, diz rabina Delphine Horvilleur, best seller na França O legado de Robert Badinter e o luto israelense A revista Le Point homenageia Robert Badinter, que será incluído no Panteão francês no dia 9 de outubro, data da abolição da pena de morte, orquestrada por ele na França. Em entrevista, Élisabeth Badinter relembra os combates do marido e lamenta o clima atual na França. “Tudo parece ter que recomeçar, nossos valores se tornaram inaudíveis”, afirma. Ela denuncia a traição da esquerda francesa, que segundo ela passou a ocupar o lugar da extrema direita no debate sobre o antissemitismo. Badinter, que perdeu familiares em Auschwitz, temia o ressurgimento do ódio. “Pouco antes de morrer, ele disse: ‘É preciso estar pronto para partir na hora certa’”, revela Élisabeth. Na mesma edição, Le Point publica uma reportagem sobre o luto coletivo em Israel, uma "sociedade traumatizada". A comunidade vive em estado de espera pela libertação dos reféns e pelo fim da guerra, segundo o veículo, que reporta ainda que manifestações semanais em Tel Aviv exigem um acordo de paz. Enquanto isso, o número de mortos em Gaza ultrapassa 62 mil pessoas, e o cemitério militar israelense precisa ser ampliado pela quarta vez. Leia tambémMorre Robert Badinter, ícone dos direitos humanos e promotor do fim da pena de morte na França Espiões, tensão diplomática e cooperação estratégica A revista L’Express revela os bastidores da relação entre os serviços secretos de Israel e da França. Após o ataque do Hamas, o chefe da inteligência militar israelense buscou apoio da DGSE (Direção-Geral da Segurança Externa) em Paris. A França, com informantes em Gaza, tornou-se peça-chave na coleta de dados, enquanto Israel se vê fragilizado por depender da tecnologia. Apesar das tensões políticas, como a exclusão de empresas israelenses da feira Eurosatory e o reconhecimento do Estado palestino pelo presidente Emmanuel Macron, os laços de segurança entre os dois países permanecem sólidos. “O diálogo entre os serviços nunca foi interrompido”, afirma um especialista ouvido pela L’Express. A revista confirma que os diretores do Mossad e da DGSE se reuniram diversas vezes nos últimos meses, em Paris e Tel Aviv. Mesmo com ameaças diplomáticas, como o possível fechamento do consulado francês em Jerusalém, os dois países seguem trocando informações estratégicas sobre o Oriente Médio, o Hezbollah e o Irã. Entre o luto coletivo, os dilemas morais e os bastidores da segurança, as revistas nas bancas mostram que, dois anos após o ataque de 7 de Outubro, a questão israelo-palestina continua uma ferida aberta na França e no mundo, capaz de moldar o futuro político da região.
O tema do reconhecimento do Estado da Palestina por países ocidentais, liderados pela França, marca uma virada diplomática no conflito israelo-palestino. Segundo a revista francesa Le Nouvel Obs, Macron celebra uma “vitória histórica”. A L’Express vê o início de uma nova arquitetura regional. Já o filósofo francês Bernard-Henri Lévy, na semanal Le Point, alerta para o risco de legitimar o Hamas e aprofundar o isolamento de Israel. Três visões, um impasse. Segundo a revista semanal Le Nouvel Obs, o presidente francês, Emmanuel Macron, cumpriu a promessa de liderar um movimento coletivo de reconhecimento do Estado da Palestina à margem da Assembleia Geral da ONU, em Nova York. A publicação descreve o momento como "carregado de simbolismo", com aplausos vindos sobretudo de países árabes e a delegação saudita “de pé como uma só pessoa”. O assento israelense, por sua vez, permaneceu vazio em sinal de protesto, observa a Nouvel Obs. A revista destaca ainda que Paris buscou ampliar o apoio internacional à iniciativa, citando países como Reino Unido, Canadá, Austrália, Bélgica e Portugal, além de pequenos Estados europeus. Os Estados Unidos, por outro lado, endureceram sua posição: “suspenderam os vistos da Autoridade Palestina”, impedindo Mahmoud Abbas de viajar a Nova York, aponta o veículo. A publicação relata que, dias antes do discurso, uma comissão independente da ONU concluiu que Israel teria “intenção de destruir os palestinos em Gaza, conforme definido pela Convenção sobre o Genocídio”. Macron, ao ser questionado pela emissora CBS, respondeu que “cabe aos juízes ou aos historiadores qualificar um genocídio com base em provas e jurisprudência”. Para a Le Nouvel Obs, essa inflexão contrasta com a reação de setores que apoiam o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que rejeitam qualquer balanço de vítimas e se recusam a reconhecer que, para cada morto israelense, já há dezenas de palestinos sob os escombros. A revista francesa L’Express descreve o reconhecimento do Estado da Palestina como um ponto sem retorno. Uma fonte europeia ouvida pela publicação resumiu com ironia: “Reconhecer um Estado é como perder a virgindade, não há volta.” Para o semanário, o dia 22 de setembro marca uma virada no conflito israelo-palestino, com impactos diplomáticos imediatos. Israel cada vez mais isolado Segundo L’Express, Israel está “cada vez mais isolado” e conta apenas com o apoio dos Estados Unidos para manter sua ofensiva em Gaza. A revista aponta que esse novo cenário pode inaugurar um processo diplomático inédito. O ministro francês das Relações Exteriores, Jean-Noël Barrot, afirmou à publicação que o documento apresentado é “o mais ambicioso sobre o conflito desde os Acordos de Oslo, há 30 anos, ou a iniciativa árabe de paz, há 20”. Barrot também destacou que se trata da “primeira condenação oficial do Hamas pela comunidade internacional” e da “primeira manifestação clara do desejo dos países árabes de uma integração regional com Israel e com o futuro Estado da Palestina”. Para o ministro, “uma nova página começa a ser escrita” — e L’Express reforça que esse gesto diplomático pode redesenhar os equilíbrios no Oriente Médio. Um erro? No entanto, no editorial publicado pela revista Le Point, o filósofo francês Bernard-Henri Lévy afirma que o reconhecimento do Estado da Palestina neste momento é uma “ideia funesta”. Embora defenda há décadas a solução de dois Estados e tenha participado de fóruns de diálogo, ele considera que “se houve um único momento em que esse reconhecimento não deveria ocorrer, é agora”. Segundo Lévy, a decisão pode ser interpretada como uma vitória política do grupo Hamas, mesmo diante das atrocidades cometidas em 7 de outubro. Ele alerta que, para muitos palestinos, o gesto internacional pode parecer “um milagre” que legitima “um movimento radical e sem concessões”, eclipsando a Autoridade Palestina, descrita como “envelhecida e corrupta”. A Le Point destaca ainda que Lévy vê duas urgências reais: libertar os 48 reféns ainda mantidos em túneis e interromper a guerra. Ele argumenta que, após o reconhecimento, “não há mais incentivo para negociação” por parte dos sequestradores, e que Israel, “traído por seus aliados e tomado pela vertigem do isolamento”, pode intensificar sua ofensiva. “Aspiro à paz com toda minha alma”, conclui o filósofo, “mas não a essa paz. Não desse jeito”.
Referência entre o público francês para análises políticas e sociais, a revista semanal Le Nouvel Obs traz nesta semana um perfil do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Figura central no julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, Moraes é retratado como "um magistrado inflexível", cuja atuação se tornou símbolo da resistência institucional à erosão democrática no Brasil, um verdadeiro "xerife da democracia" no país. O Nouvel Obs traça, em dez pontos, o perfil do ministro Alexandre de Moraes, destacando sua atuação no julgamento de Jair Bolsonaro. Segundo a revista, o magistrado brasileiro “descreveu, durante cinco horas e sem consultar suas anotações, a organização criminosa liderada por Bolsonaro e seus aliados”. Apelidado de “Batman” nas redes sociais, Moraes é apresentado como o juiz mais visível — e também o mais criticado — do país, diz a revista. A semanal relembra episódios emblemáticos, como o bloqueio do aplicativo Telegram em 2021, e a ofensiva verbal de Elon Musk, que o classificou como um “ditador diabólico”. A publicação francesa ressalta que Moraes ingressou na magistratura aos 23 anos e, desde os anos 2000, passou a ser notado e cortejado pelas elites paulistanas. “Jurista renomado, suas ideias alinhadas à direita fizeram dele um líder pronto para a política”, afirma o veículo. O perfil também recorda sua passagem pelo Ministério da Justiça, entre 2016 e 2017, durante o governo Michel Temer. À época, era visto como uma “pedra no sapato da esquerda” — imagem que se transformou com a chegada de Bolsonaro ao poder, em 2019, quando Moraes passou a ser considerado um “super-herói” pelos progressistas. "Ombros de lutador" Com “maxilar definido e ombros de lutador”, Alexandre de Moraes cultiva sua imagem pessoal com o mesmo rigor que aplica em suas decisões judiciais, observa Le Nouvel Obs. A revista relembra o episódio em que o ministro foi fotografado exibindo o dedo do meio durante uma partida de futebol — gesto que teria ocorrido pouco depois de o presidente Donald Trump revogar seu visto de entrada nos Estados Unidos. Aos 56 anos, Moraes tem mandato no Supremo Tribunal Federal até 2043, o que, segundo a publicação, garante-lhe “uma longa influência sobre a vida política brasileira”.  Figurinha carimbada na imprensa francesa Esta não é a primeira vez que Alexandre de Moraes vira manchete na imprensa francesa. No dia 10 de setembro, a revista Les Echos também traçou o seu perfil, dizendo que "o juiz que derrubou Bolsonaro afirma que 'houve, sim, um golpe de Estado' no Brasil". No dia 8 de setembro, o jornal Le Figaro titulou "Alexandre de Moraes, o todo-poderoso juiz brasileiro que liderou a batalha judicial contra Jair Bolsonaro". "Enquanto o ex-presidente brasileiro acaba de ser condenado a 27 anos de prisão em seu julgamento por tentativa de golpe de Estado perante a Suprema Corte, os olhos se voltam para um magistrado, conhecido por sua intransigência, que se tornou alvo de Donald Trump", publicou o diário francês.
€ 270 bilhões de apoio às empresas, sem contrapartida, e subsídios fiscais para os mais ricos: este é o valor total dos “presentes" do presidente Emmanuel Macron à elite econômica do país, conforme revelações de um livro de investigação publicado esta semana na França. Os autores, dois jornalistas da revista Le Nouvel Obs, afirmam que a política “pró-business” do presidente desestabilizou o modelo social e pesou sobre a dívida pública francesa, estopim de mais um capítulo da crise política no país. “O Grande Desvio – como milionários e multinacionais captam o dinheiro do Estado” é o título da obra (em tradução livre do original em francês). Baseados em relatórios de instituições como Tribunal de Contas e a OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), os autores, Matthieu Aron e Caroline Michel-Aguirre, analisam em detalhes “o buraco negro” da política de subvenções e subsídios fiscais que beneficiaram as grandes empresas e fortunas nos últimos oito anos, desde que Macron assumiu o poder. Redução dos impostos das sociedades e da produção, diminuição dos encargos sociais, teto da contribuição sobre a renda do capital e substituição do Imposto sobre a Fortuna por uma taxa focada apenas na "fortuna imobiliária” são algumas das medidas que favoreceram os ricos nos últimos anos – e sem que houvesse uma avaliação eficaz sobre os benefícios dessa política para a economia francesa, denuncia a obra. “O sistema de ajuda incondicional enriqueceu multinacionais que continuam a deslocar as linhas de produção para o exterior e entregam cada vez mais dividendos para seus acionários”, diz o livro, segundo resenha publicada na revista L’Obs. Entre os beneficiados, estão gigantes como Michelin e o império do luxo LVMH. Retorno da política pró-business é questionado Neste período, o desemprego baixou a 7%, mas a França não atingiu o pleno emprego, como prometeu Macron. As exonerações resultaram em € 80 bilhões a menos de arrecadação por ano, quase o dobro do valor previsto no plano de economias apresentado pelo ex-primeiro-ministro centrista François Bayrou, que acaba de deixar o cargo. Em paralelo, a edição desta semana da revista Le Point calcula quanto custa a instabilidade política na França, que acaba de conhecer o seu quarto chefe de governo em pouco mais de um ano. Segundo a publicação, a crise gerada pela dissolução da Assembleia Nacional por Macron, em junho de 2024, já gerou um prejuízo de € 12 bilhões para o país. Os juros para títulos do Estado francês agora estão no mesmo patamar da Itália, e a insegurança fez os investimentos desacelerarem, o consumo cair e o nível e a poupança subir. Resultado: a crise fez o país perder 0,1 ponto de PIB em 2024 e 0,3 neste ano, conforme os cálculos do Observatório Francês de Conjuntura Econômica (OFCE), citados pela Le Point.
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