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Pergunta Simples
Pergunta Simples
Author: Jorge Correia
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O Pergunta Simples é um podcast sobre comunicação. Sobre os dilemas da comunicação. Subscreva gratuitamente e ouça no seu telemóvel de forma automática: https://perguntasimples.com/subscrever/ Para todos os que querem aprender a comunicar melhor. Para si que quer aprender algo mais sobre quem pratica bem a arte de comunicar. Ouço pessoas falar do nosso mundo. De sociedade, política, economia, saúde e educação.
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Escuta, empatia , arte, polémica e comunicação
Porque é que ouvir se tornou tão difícil? No Pergunta Simples, a conversa com Rui Melo cruza teatro, polémica e criação artística para refletir sobre escuta, mudança de opinião e o lugar da arte na discussão pública.
No mais recente episódio do Pergunta Simples, Rui Melo passou pelos principais temas do seu trabalho artístico e pelas ideias que têm marcado a sua reflexão pública sobre comunicação, escuta e o papel da arte na sociedade contemporânea.
Ator, encenador, músico e argumentista, Rui Melo está atualmente em cena com a peça “Arte”, de Yasmina Reza, um texto centrado na amizade, no desacordo e na dificuldade de aceitar o ponto de vista do outro. A peça serviu como ponto de partida para uma conversa mais ampla sobre a forma como lidamos com opiniões divergentes, tanto no espaço público como nas relações pessoais.
Logo no início da conversa, Rui Melo afirmou que um dos maiores problemas do nosso tempo é a perda da capacidade de ouvir. Para o ator, ouvir não é apenas escutar palavras, mas estar genuinamente disponível para mudar de opinião quando confrontado com novos argumentos ou factos. Essa disponibilidade, defende, tornou-se rara numa sociedade cada vez mais rígida e polarizada.
A conversa passou depois para a forma como o debate público se transformou nos últimos anos. Rui Melo criticou a ideia de que todas as opiniões têm o mesmo peso, independentemente do conhecimento ou da experiência de quem as emite, e sublinhou que a proliferação dessa lógica dificulta o diálogo e a aprendizagem. As redes sociais, acrescentou, não criaram este fenómeno, mas amplificaram-no, dando visibilidade a discursos que antes ficavam circunscritos a espaços mais limitados.
No plano artístico, Rui Melo defendeu uma visão da arte como espaço de provocação e fricção. Para si, a função da arte não é confortar nem agradar, mas provocar um efeito emocional e intelectual, mesmo que isso implique desconforto ou polémica. É nesse enquadramento que surge a sua participação em projetos que suscitaram debate público.
Ao falar do trabalho em “O Arquiteto”, Rui Melo fez questão de sublinhar que se trata de uma obra de ficção e não de um documentário. O objetivo, explicou, nunca foi oferecer respostas fechadas, mas levantar questões e incentivar a discussão sobre temas sensíveis, como o abuso de poder, o assédio ou o silêncio coletivo em torno de determinados assuntos. As reações opostas ao projeto — críticas por ir longe demais e por não ir suficientemente longe — foram, para si, um sinal de que a discussão estava a acontecer.
A conversa abordou também os limites da escuta. Rui Melo reconheceu que nem todas as opiniões merecem diálogo e que existem fronteiras pessoais que não está disposto a ultrapassar, sobretudo quando o discurso do outro não procura diálogo ou aprendizagem, mas apenas provocação. Ainda assim, distinguiu essas situações do debate genuíno, que pressupõe escuta mútua e abertura.
No contexto profissional, o ator descreveu o trabalho artístico como um processo de afinação constante: de ritmo, de tom e de relação com o outro. A chamada “química” entre pessoas, afirmou, não é um dado fixo, mas algo que se constrói através da escuta, da atenção e da disponibilidade para ajustar.
Ao longo do episódio, Rui Melo regressou várias vezes à ideia de maturidade e dúvida. Citando uma canção que o marcou, afirmou sentir-se numa fase da vida em que as certezas caducam — não como sinal de fragilidade, mas como consequência natural de quem continua disponível para aprender.
A conversa terminou sem conclusões fechadas, mas com uma ideia transversal a todos os temas abordados: comunicar bem exige tempo, escuta e a capacidade de aceitar que o outro pode ter razão. Num contexto marcado por respostas rápidas e posições rígidas, essa atitude surge como um exercício cada vez mais raro – e cada vez mais necessário.
Uma conversa para ouvir devagar.
No Fim do Ano, Uma Conversa Sobre o Que Está em Causa
Com Rui Cardoso Martins, no Pergunta Simples
No último dia do ano, o Pergunta Simples oferece uma conversa que nos obriga a parar, escutar e pensar. Num tempo de urgências e distrações, Rui Cardoso Martins senta-se ao microfone para falar da única coisa que nunca sai de moda: a palavra — e tudo o que ela transporta.
Escritor, cronista, argumentista, dramaturgo, repórter de guerra e professor universitário. Rui é um dos mais versáteis criadores da língua portuguesa. Um faz-tudo da escrita, como diz de si mesmo, capaz de passar do teatro à televisão, da reportagem à literatura, do humor à tragédia — sem perder a integridade, nem a humanidade.
Esta conversa percorre décadas de jornalismo, atravessa fronteiras geográficas e morais, revisita tribunais e zonas de guerra, e detém-se naquelas perguntas que importam sempre: o que está em causa aqui? O que fazemos com o que vemos? Como escrevemos a memória?
A Escrita como Resistência
Rui começou no jornalismo nos anos 90, no nascimento do jornal Público. Foi repórter nos Balcãs durante o cerco de Sarajevo, embarcou no Lusitânia Expresso rumo a Timor, e cobriu as primeiras eleições livres na África do Sul. Testemunhou a História em carne viva — e sobreviveu a ela escrevendo. Um olhar atento, uma ironia serena, e uma linguagem afinada como um motor de avião: porque escrever mal, diz ele, pode ser mais perigoso do que um mecânico incompetente.
Do jornalismo passou para a ficção, sem nunca abandonar o rigor. As crónicas judiciais Levante-se o Réu revelaram o teatro trágico e grotesco da justiça portuguesa, num tom que une Fernando Namora e Monty Python. A sua literatura — premiada e traduzida — transporta o peso da experiência, mas também a leveza de quem sabe rir do absurdo.
Rui escreve como quem repara o mundo. De madrugada, antes que os Pokémons acordem, com uma folha branca como animal de companhia. O tempo da escrita é anterior ao ruído, à velocidade, à obrigação. É o momento em que a linguagem ainda não foi contaminada.
A Memória e o Corpo da Palavra
A entrevista percorre também o terreno íntimo da memória. Rui fala do papel dos cadernos, dos rituais, dos mestres como Cardoso Pires e Lobo Antunes — e da descoberta inesperada de que, sim, talvez seja mesmo um escritor. Há pudor, mas não pose. Há humor, mas não cinismo. Há sobretudo uma preocupação com a precisão: “tudo o que acontece no mundo passa pela linguagem”, diz ele. E acrescenta: quando a mentira tem o mesmo peso da verdade, estamos à beira da desgraça.
A sua voz não é a de um moralista, mas a de um observador treinado. Rui descreve Sarajevo como um lugar onde o vizinho passou a ser o inimigo. Fala de genocídio, da escolha de um lado — e da ilusão de neutralidade em tempos de barbárie. Fala da Avenida dos Snipers, dos campos de futebol transformados em cemitérios, da ausência de cães, de gatos, de calor. A sua literatura é feita dessa matéria: o choque entre o que era e o que se tornou.
Do Humor à Tragédia: a Responsabilidade de Dizer
Criador de frases como o célebre “Penso eu de que…”, Rui ajudou a moldar o humor político com Contra-Informação, Herman Enciclopédia e Conversa da Treta. Mas vê nessa sátira algo mais profundo do que entretenimento. O humor é uma forma de resistência. Uma forma de pensar por dentro da linguagem, de devolver o ridículo ao poder, de encontrar o ponto fraco do discurso dominante.
Fala da responsabilidade de quem escreve. De como se pode usar a palavra para curar ou para envenenar. De como a verdade se perde quando todas as versões da realidade parecem ter o mesmo valor. E de como o jornalismo, quando feito com rigor, ainda pode ser um antídoto para a manipulação.
O Mundo que Vem
A conversa fecha com uma pergunta que nos interpela a todos: a Europa está pronta para viver sozinha? Num tempo de guerras em curso, de democracias frágeis e de redes que amplificam o boato, Rui não tem ilusões: ou lutamos pela liberdade, pela educação, pela justiça, ou perdemos. A escrita, nesse contexto, é mais do que estética — é ética.
No fim do episódio, Rui confessa: só quer contar histórias úteis. Úteis no sentido mais profundo da palavra. Histórias que sirvam para entender o mundo e para não esquecer. Histórias que transformem o banal em universal, o pequeno em essencial. Porque, como diz, não há escritor sem memória. E não há futuro sem narrativa.
Este episódio foi originalmente publicado no Pergunta Simples, mas regressa agora como parte da nossa coleção Essencial. Uma conversa profunda, com valor reconhecido. Ouça ou reveja com tempo: continua atual, necessário e transformador.
LER A TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO
Esta transcrição foi gerada automaticamente. A sua exatidão pode variar.
0:12
Rui Cardoso Martins: Jornalista, Escritor e o Faz-Tudo da Palavra
Neste episódio, vamos aprender a contar uma boa história, a contar a vida, a usar as técnicas do jornalismo da ficção e a usar a memória esta conversa com Rui Cardoso Martins.
É uma daquelas que nunca se esquecem, porque não se limitou a falar sobre a escrita, falou sobre a vida, sobre o luto, sobre a escuta, sobre o silêncio, sobre como contar uma história sem ferir quem a viveu e sobre como dar palavras às dores que tantas vezes não têm.
0:38
Nome Rui Cardoso Martins é jornalista, cronista, argumentista e, agora, principalmente, escritor.
Mas está aqui, sobretudo como alguém que escuta, que observa, que transforma o caos em sentido, sem trair a realidade de uma testemunha profissional.
É uma conversa Serena, mas cheia.
0:53
Uma conversa para quem acredita que comunicar bem também é saber calar no tempo certo.
Este episódio regressa agora porque há silêncios que merecem ser visitados uma e outra vez.
E porque há histórias.
Que nos obrigam a que?
As contemos está disponível em todas as plataformas de podcast também no YouTube.
1:11
Em vídeo, todos os links estão em perguntasimples.com pode ser uma boa oportunidade para subscrever o canal, deixar um comentário ou partilhar este episódio com alguém que, como tu, sente que as boas histórias fazem sempre falta.
1:27
Viva Rui Cardoso Martins tens um comboio de funções, escritor, cronista, argumentista, derramaturgo, professor, jornalista.
Que és, Paulo?
O que é que és hoje?
1:38
Pessoa 2
Não faz tudo?
1:39
Pessoa 1
Não faz tudo, porque é que o que é que faz um faz?
1:41
Pessoa 2
Tudo não faz tudo na num, numa visão, uma visão, numa numa perspetiva geral de literatura, que é uma palavra que eu uso sempre no, no bom sentido, no sentido sem, sem, sem rodriguinhos, sem sem jogos florais.
2:00
Sou uma pessoa que que usa a linguagem, a língua portuguesa para para várias, digamos, artes da escrita, e, portanto, são.
Faz tudo no sentido.
Eu gosto muito, faz de tudo, aquelas pessoas que sabem resolver não sei quantos problemas e então está com os mesmos, às vezes com os com os mesmos instrumentos, o meu instrumento, enfim, OA minha maneira de trabalhar é.
2:24
É a língua que uso em em jornalismo, que uso em em literatura, enfim, em em romance, em conto e em em guiões de cinema e de televisão.
2:34
Os Tempos Heroicos do Público e a Influência dos Mestres
Mas há há frequências diferentes, porque quando tu és jornalista puro e duro e tens que dar a notícia é uma coisa, quando te permites fazer as maravilhosas crónicas como tu fazias do levantes, o réu no.
No caso do público, crónicas judiciais.
2:52
Ah, é diferente do que do que fazer depois?
Humor, como fizeste nas produções fictícias ou como fazes quando escreves um romance?
2:58
Pessoa 2
Sim, sim, a minha formação é de jornalista.
Porquê?
Porque tirei o curso de comunicação social na universidade nova EE, entrei imediatamente no.
Foi um tempo, um tempo histórico, heroico.
Interessante que foi quando apareceu as candidaturas para um novo jornal, que veio a ser o público e, portanto, entrei como estagiário no público depois de uma. 11.
3:22
Formação de enfim, de de uma seleção.
E aí aprendi tudo da da quase da chamada tarimba.
Ainda há uns vários meses, ainda antes do jornal sair.
Quem?
3:32
Pessoa 1
Quem foram os teus mestres?
3:33
Pessoa 2
Os meus mestres foram em grande parte, os meus mestres no Julio foram o Adelino Gomes, o Rogério Rodrigues, o pai do Tiago Rodrigues, do do teatro, que é um que é um amigo meu, foi o Rogério Vidigal, foi o.
3:50
Foi o Eduardo Rebelo, foi o torcato Sepúlveda e foi obviamente, em grande parte Oo vice Jorge Silva.
Portanto, tive, tive a sorte.
4:00
Pessoa 1
Tive a.
4:01
Pessoa 2
Trabalhar outro, seja a de Camacho.
Agora podia.
Podia continuar a lista.
Éramos uns jovens que estavam ali com com com mestres.
E, portanto, o que é que aprendi a fazer?
4:12
Pessoa 1
O que é que se aprende?
4:13
Pessoa 2
Desde as Breves às notícias e às reportagens, muito cedo começámos.
Eu tive a sorte de começar AA sair de Lisboa, ou ou ir a Lisboa aos bairros de Lisboa, ou ou ir para o estrangeiro escrever reportagem.
4:30
Portanto, tive ainda antes da internet, ainda antes dos computadores.
Hoje parece quase graça, mas eu não consigo escrever coisas à mão.
Não é porquê?
Porque fiz uma transição e uma aprendizagem.
4:41
Pessoa 1
Do analógico para o digital.
4:42
Pessoa 2
Sim, enfim, acho que somos AA última, somos nós, aqueles ali.
A última geração que passou por isso tudo?
4:50
Pessoa 1
Eu quando quando comecei a trabalhar na telefonia, era fita, era era bobines também.
4:54
Pessoa 2
Passei por isso, não havia.
4:55
Pessoa 1
Computadores.
4:56
Pessoa 2
Enfim, nós quando?
4:57
Pessoa 1
Não havia internet.
4:58
Pessoa 2
Tínhamos uns tijolos daquilo que seria depois AAA Macintosh eram os primeiros computadores, hoje são são são relíquias de de tecnologia, como as disquetes, as pessoas, enfim e.
Mas aprendi basicamente a escrever de tudo e.
5:16
Logo na primeira semana do público, tive que tratar 2 coisas diferentes, notícias, reportagens, como jornalista e também como jornalista fazer crónicas de tribunal.
Porquê?
Porque tinha feito uma.
5:32
Uma reportagem que que que o Vicente Jorge Silva achou graç
Escrever no escuro: Tânia Ganho, a linguagem e o dever de olhar
Há escritores que procuram a luz. Outros preferem começar no escuro.
Não por gosto do choque, mas porque sabem que há zonas da experiência humana que só se tornam visíveis quando se abdica do conforto.
A escrita de Tânia Ganho pertence claramente a este segundo grupo. Ao longo da conversa no Pergunta Simples, torna-se evidente que não se trata de uma escolha estética nem de uma estratégia narrativa. É uma posição ética: escrever é olhar para aquilo que existe, mesmo quando é incómodo, perturbador ou socialmente evitado.
Nos seus livros — e no modo como fala deles — a literatura não surge como refúgio, mas como instrumento de análise. Ganho escreve sobre violência, abuso, maternidade falhada, infância em risco, sistemas de justiça imperfeitos. Não para moralizar. Não para oferecer respostas simples. Mas para tornar visível uma complexidade que tende a ser empurrada para fora do discurso público.
A escrita como trabalho — e não como epifania
Um dos pontos mais consistentes da conversa é a recusa da ideia romântica do escritor inspirado. A escrita, diz Ganho, é trabalho. Trabalho disciplinado, solitário, muitas vezes árido. Há momentos de fluxo, mas são exceção. O essencial acontece sentado, a cortar, reescrever, eliminar palavras, escolher sinónimos, testar frases até ao limite.
Este rigor não é preciosismo. É resistência. Num tempo em que a linguagem se acelera, se empobrece e se uniformiza — em parte pela delegação crescente da escrita em ferramentas automáticas — insistir na escolha exata das palavras é um ato deliberado de diferenciação humana.
A preocupação com a inteligência artificial atravessa a conversa não como alarme tecnofóbico, mas como constatação prática. Na tradução literária, onde Ganho trabalha há décadas, as ferramentas automáticas já produzem resultados aceitáveis ao nível estrutural. O problema está noutro lugar: o vocabulário limitado, a previsibilidade sintática, a perda de nuance. A língua funciona, mas deixa de pensar.
Escrever, neste contexto, torna-se também um gesto de defesa da linguagem como espaço de liberdade e não apenas de eficiência.
Traduzir é recriar — e assumir a imperfeição
A tradução literária surge como um dos campos mais reveladores da conversa. Longe da ideia de equivalência perfeita, Ganho insiste num princípio clássico da teoria da tradução: toda a tradução é, por definição, imperfeita. E é precisamente por isso que exige criatividade.
Traduzir trocadilhos, humor, ambiguidades culturais implica reconstruir, adaptar, escolher. Às vezes, mudar nomes de personagens secundárias. Às vezes, sacrificar a literalidade para salvar o efeito. É um trabalho que combina técnica e intuição, fidelidade e traição controlada.
Esta visão coloca a tradução no centro da criação literária, e não na sua periferia. Tradutores não são mediadores invisíveis: são autores de segunda ordem, responsáveis por decisões que moldam profundamente a experiência de leitura.
Ler devagar num mundo rápido
A leitura ocupa um lugar central no pensamento de Tânia Ganho — não apenas como hábito pessoal, mas como prática social ameaçada. Ler exige tempo, concentração, disponibilidade emocional. Exige parar. E parar tornou-se uma raridade.
Ao longo da conversa, surge uma defesa clara do direito de abandonar livros, de mudar de leitura conforme a fase da vida, de aceitar que nem todos os textos servem todos os leitores em todos os momentos. Longe do moralismo cultural, esta abordagem devolve à leitura uma dimensão viva e plural.
Nesse contexto, livreiros, bibliotecários e clubes de leitura ganham uma importância renovada. São mediadores num mercado saturado, curadores num mar de títulos, guias num tempo de excesso de escolha e escassez de atenção.
Violência contra crianças: o que preferimos não ver
O momento mais duro da conversa surge quando Ganho fala de violência doméstica e sexual sobre crianças. Não como abstração, mas como realidade recorrente. A referência direta ao trabalho da Polícia Judiciária — e à frequência com que são detidos abusadores — desmonta a ilusão de excecionalidade.
A dificuldade social, sublinha, está em aceitar que o mal não se apresenta sempre como monstruoso. Pode ser bem-vestido, integrado, respeitável. Essa dissonância cognitiva leva muitas vezes à negação, ao silêncio, à recusa de olhar.
É aqui que a literatura assume, para Ganho, uma função insubstituível: obrigar à atenção prolongada. Não ao choque momentâneo, mas à compreensão lenta. Um romance não resolve o problema, mas pode criar consciência. Pode alterar comportamentos marginais — como a exposição excessiva de crianças nas redes sociais — e introduzir dúvida onde antes havia automatismo.
Imagem, verdade e desconfiança
A conversa cruza ainda fotografia, vídeo e tecnologia. Num mundo em que imagens podem ser manipuladas com facilidade crescente, a relação com a verdade visual degrada-se. Já não sabemos se uma fotografia documenta ou simula. Se um vídeo regista ou inventa.
Esta erosão da confiança tem consequências profundas, não apenas mediáticas, mas morais. Se tudo pode ser falso, tudo pode ser descartado. A resposta proposta não é paranoia, mas discernimento: parar, verificar, desconfiar com método.
Mais uma vez, a leitura surge como treino essencial. Ler ensina a lidar com ambiguidade, a sustentar atenção, a adiar julgamentos. Competências cada vez mais raras — e cada vez mais necessárias.
Escrever para não se afundar
No final da conversa, a escrita surge também como estratégia de sobrevivência. O livro dedicado ao pai, escrito após a sua morte, não é um exercício de luto terapêutico simplista. É uma tentativa de reorganizar o mundo depois da perda, de reconstruir camadas identitárias, de encontrar equilíbrio entre memória e continuidade.
Humor, dança, desporto, isolamento voluntário: são estratégias práticas para lidar com a carga emocional de quem passa a vida a investigar o sofrimento humano. Não há romantização da dor. Há gestão consciente da tensão.
A literatura como exercício de responsabilidade
O que atravessa toda a conversa com Tânia Ganho é uma ideia simples e exigente: a literatura não serve para nos proteger do mundo. Serve para nos preparar para ele.
Escrever, ler, traduzir, pensar — tudo isto exige tempo, atenção e coragem. Num espaço mediático dominado pela reação imediata e pela simplificação, essa exigência pode parecer anacrónica. Mas talvez seja precisamente por isso que se tornou indispensável.
No Pergunta Simples, esta conversa não oferece respostas fáceis. Oferece algo mais raro: ferramentas para pensar melhor. E, num tempo como o nosso, isso já é uma forma de resistência.
LER A TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO
Esta transcrição foi gerada automaticamente. Por isso, ela pode não estar totalmente precisa.
0:00
Tânia Ganho: Escrever sobre o Lado Sombrio da Vida
Eu escrevo sobre lugares muito sombrios e sobre situações muito cruéis, grotescas, macabras.
Interessa, me interessa, me interessa me analisar.
O ser humano e o ser humano tem uma capacidade enorme para a bondade, para o altruísmo, mas também tem uma capacidade enorme para a crueldade e para para uma violência muito pérfida.
0:20
E não há semana que passe em que a polícia judiciária portuguesa não apanhe 1234.
Pedocriminosos, portanto, pedófilos, como as pessoas lhes chamam.
0:30
Pessoa 2
Fala Tânia.
Ganho escritora e tradutora literária.
O que acabamos de ouvir não é uma metáfora, não é um exagero retórico.
Melhor fosse, é uma descrição fria de uma realidade que preferimos manter fora do campo de visão.
Uma espécie de não comunicação, de não inscrição.
0:47
É a linguagem da violência, sobretudo sobre os mais vulneráveis.
1:04
Vivam bem vindos ao pergunta simples, o vosso podcast sobre comunicação, Tânia ganho escreve a partir de lugares difíceis, não para chocar, mas para olhar de frente naquilo que a sociedade tende a empurrar para as margens.
Nesta conversa, falamos de violência sexual sobre as crianças, sobre violências várias, assumidas, escondidas, envergonhadas.
1:24
E não são atos só de violência física, do mal que vive entre nós, da dificuldade coletiva em aceitar que o mal não tem sempre cara de monstro, de forma como o discurso público fala de direitos.
Mas falhamos muitas vezes na proteção real.
1:40
Falamos também do papel da literatura nestes contextos, não como consolo, mas como instrumento de lucidez.
Como forma de dar tempo, espessura consciência a temas que exigem mais do que indignação rápida.
Mas esta também é uma conversa luminosa sobre leitura e leitores, sobre ler devagar no mundo acelerado, sobre quando existir num livro e quando o abandonar, sobre livreiros, bibliotecários e clubes de leitura como mediadores essenciais, num tempo de excesso de títulos e pouca atenção para responder à pergunta, afinal, que próximo livro é que eu vou ler?
2:15
Falamos ainda.
De linguagem, da escolha rigorosa das palavras, do empobrecimento do vocabulário da inteligência artificial e do risco de começarmos todos a escrever, a falar e a pensar da mesma maneira.
O pergunta simples existe para isso, para criar um espaço onde é possível pensar melhor, comunicar melhor e enfrentar dilemas reais sem simplificações.
2:37
Esta é uma dessas conversas.
2:42
O Trabalho Diário do Escritor, Longe da Epifania Romântica
Tânia, ganho tu auto defines te.
Como escritora eremita e leitura compulsiva, que é mais ou menos a mesma coisa, forges para ir ler, forges para ir escrever és escritora.
Tens 2 livros de que eu gosto muito.
2:58
Um deles que eu estou a ler agora é que me aflige que são os lobos.
Se calhar foi isso.
Tu pensaste exatamente nisso.
Falas muito sobre intimidade emocional, falas sobre sobre o corpo feminino, entre AA ferocidade e a ternura.
3:13
Como é que é a vida de um escritor?
Eu tenho sempre essa curiosidade.
Como é que é?
Como é que é a tua vida de escritor?
Levantas te fazes o pequeno almoço ou pegas logo, há ali uma emergência e tu precisas de escrever logo 3 frases antes que aconte
Quando a comunicação deixa de ser talento e passa a ser trabalho
Há pessoas que parecem ter nascido com presença.
Quando falam, o silêncio organiza-se à volta delas. Quando entram numa sala, sentimos qualquer coisa mudar. A tentação é chamar a isso carisma. Ou talento. Ou dom.
A conversa com Diogo Infante desmonta essa ideia logo à partida.
Antes da presença houve timidez.
Antes da voz segura houve dificuldade em falar.
Antes do palco houve desajuste, deslocação, a sensação de não pertencer completamente ao sítio onde se estava.
O teatro não surgiu como ambição, mas como solução. Uma forma de aprender a comunicar quando comunicar não era natural. Um lugar onde a palavra podia ser ensaiada, onde o corpo podia ganhar confiança, onde o erro não era um fim — era parte do processo.
Talvez por isso a noção de presença apareça nesta conversa de forma tão concreta. Não como algo abstrato, mas como um estado físico e relacional. Presença é perceber se o outro está connosco. Presença é sentir quando uma frase chega — ou quando cai no vazio. E esse vazio, quando acontece, dói. Não por vaidade. Mas porque revela uma falha de ligação.
Há um momento particularmente revelador: quando fala do silêncio do público. Não o silêncio atento, mas aquele silêncio inesperado, quando uma deixa cómica não provoca riso. “Aquilo dói na alma”, diz. E nessa frase está tudo o que importa saber sobre comunicação: falar é sempre um risco. O outro não é cenário. É parte ativa do que está a acontecer.
A conversa avança e entra na exposição pública. Aqui, Diogo Infante faz uma distinção interessante: entre a pessoa privada e a figura pública. Não como máscara, mas como responsabilidade. Há um “chip” que se ativa — uma disciplina interna que permite aguentar expectativas, projeções, rótulos. A maturidade está em não confundir esse papel com a verdade interior.
É uma ideia útil num tempo em que confundimos visibilidade com autenticidade.
Falamos também de televisão, cinema, teatro. Dos ritmos diferentes. Das exigências técnicas. Mas a ideia central mantém-se: a verdade não depende do meio. Depende da intenção. Comunicar para milhões não dispensa rigor. Simplificar não é empobrecer.
Outro ponto forte da conversa é a vulnerabilidade. Num espaço público cada vez mais dominado por certezas rápidas e discursos blindados, assumir fragilidade continua a ser um gesto arriscado. Mas aqui a vulnerabilidade surge como força tranquila. Como forma de aproximação. Como autoridade que não precisa de se impor.
Quando a conversa entra no território da família, tudo ganha outra densidade. Dizer “amo-te”. Pedir desculpa. Estar disponível. A comunicação íntima aparece como o verdadeiro teste. Se falhamos aí, o resto é técnica. E só técnica não chega.
No plano mais largo, surge a pergunta maior: para que serve a arte num tempo acelerado, ruidoso, polarizado? A resposta não vem em tom grandioso. Vem simples: para nos salvar. Não salvar o mundo. Salvar-nos a nós. Da pressa. Do cinismo. Da incapacidade de escutar.
No fim, fica uma conclusão exigente:
a presença não é talento — é trabalho.
A comunicação não é performance — é relação.
E a verdade, quando existe, dá sempre algum trabalho a dizer.
Talvez seja por isso que esta conversa não é apenas sobre teatro. É sobre como falamos, como ouvimos e como estamos uns com os outros. E isso, hoje, é tudo menos simples.
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Esta transcrição foi gerada automaticamente. A sua exatidão pode variar.
0:00
Abertura do Episódio e a Angústia do Impostor
Muitos de nós temos o síndroma de um impostor.
Achamos sempre que que somos uma fraude, que na verdade, estamos só a replicar uma mentira.
Não estamos a ser suficientemente verdadeiros ou estamos a repetir um padrão de comportamento que já fizemos.
Achamos sempre que não estamos à altura do desafio.
0:15
É muito doloroso.
É por isso que as pessoas acham que isso ser ator é.
É maravilhoso, mas é um processo de grande angústia, angústia criativa, porque estamos perante a expetativa.
Tu já estás a pensar aí, a peça do do clube dos poetas mortos, e eu e eu começo a pensar, AI, meu Deus, se aquilo for uma merda, o que é que eu faço, não é?
0:44
Pessoa 2
Ora, digam bem vindos ao pergunta simples, o vosso podcast sobre comunicação?
Hoje conversamos com alguém que encontrou no palco não apenas uma profissão, mas uma espécie de casa interior.
Diogo Infante contou me que na infância começou pela timidez e pelo desajuste, por aquela sensação de ser observado, de ser o lisboeta gozado no Algarve, de não ter ainda um lugar onde a voz encaixasse e que foi o teatro que lhe deu essa linguagem, a presença e, nas palavras dele, uma forma de se adaptar ao mundo.
1:13
À medida que foi crescendo como artista, veio uma outra descoberta.
É de que existe um chip, uma espécie de mecanismo, um parafuso que se ativa quando ele entra no modo figura pública.
Um mecanismo de responsabilidade, de expectativa e, às vezes, de peso.
1:30
Mas o mais interessante veio quando falou do silêncio do público, do que acontece quando diz uma frase que ele sabe que devia provocar o riso.
E ninguém reage.
Esta frase diz tudo sobre a comunicação.
O público não é cenário, é organismo vivo, é uma reação em tempo real, é a energia que mexe connosco.
1:48
E é essa conversão entre a técnica e a vida, palco, intimidade, presença e vulnerabilidade que atravessa a conversa de hoje.
Falamos do medo de falhar, daquele perfeccionismo que vive colado na pele dos artistas e que o Diogo conhece tão bem.
Falamos da comunicação dentro de casa, da importância de dizer.
2:06
Gosto de ti ao filho do valor de pedir desculpa do que se aprende ao representar os outros e do que se perde quando acreditamos demasiado na imagem que o público tem de nós.
E falamos dessa ideia luminosa que ele repete com ternura.
A arte no fim existe para nos salvar da dureza do mundo, da dureza dos outros e, às vezes, da dureza que guardamos para nós próprios.
2:28
Esta é, portanto, uma conversa sobre teatro, mas não só.
É, sobretudo uma conversa sobre.
Comunicação humana sobre como nos mostramos, como nos escondemos, como nos ouvimos e como nos reconstruímos.
Se eu gostar desta conversa, partilhe, deixe o comentário e volte na próxima semana.
2:44
E agora, minhas senhoras e meus senhores.
Diogo Infante, Diogo Infante, ponto.
Não tem mais nada para dizer.
UI é só isto, Diogo Infante.
2:56
Como a Timidez Moldou o Caminho para o Palco
Diogo Infante, ator, encenador.
Quando eu disse que que IA conversar contigo, que IA ter o privilégio de conversar contigo, uma minha amiga disse, Ah, diz lhe que eu gostei muito do do sirano de bergerak.
E eu pensei, mas isso já passou algum tempo?
Sim, sim, mas eu continuo.
Adorei aquela peça, deixar a marca das pessoas.
3:13
É isso que tu fazes todos os dias.
3:15
Pessoa 1
É isso que eu tento, se consigo umas vezes mais, outras vezes menos, antes mais.
Olá, como estás?
Muito obrigado por este convite.
Sim, eu, eu, eu tento comunicar.
Se é esse o tema.
Acho que percebi cedo que tinha dificuldade em comunicar.
3:35
Era muito tímido, tinha dificuldade em em em fazer me ouvir, tu sabes.
3:41
Pessoa 2
Que ninguém acredita nisso?
3:42
Pessoa 1
Mas é verdade, é verdade, é absolutamente verdade.
3:44
Pessoa 2
Como é que é isso?
Como é que tu tens?
Como é que tu tens?
3:47
Pessoa 1
Dificuldade porque era talvez filho único, porque fui muito cedo para o Algarve e era um meio que me era estranho com um.
Um linguajar diferente e eu sentia me deslocado.
Eu tinha para aí 11 anos e no início foi difícil e eles olhavam, achavam que eu era Beto e não era nada Beto.
4:03
E falava a lisboeta, e eles gozavam comigo e depois, à medida, fui crescendo.
Foi uma adaptação e percebi que representar era algo natural em mim, porque era uma forma de me adaptar ao meio e de conseguir encontrar plataformas de comunicação.
4:20
E quando finalmente expressei que queria ser ator, a minha mãe sorriu porque pensou, estás lixado e pronto.
E vim para o conservatório EE.
Foi.
Foi me natural representar, ou seja, esta ideia de eu assumir um Alter Ego que não sou eu é me fácil.
4:42
Às vezes é mais difícil ser eu própria.
4:45
Pessoa 2
Tu criaste uma capa no fundo que resolve o teu problema, que pelo menos que tu imaginavas como sendo 11 não comunicador, não era um mau comunicador, um não comunicador 11 alguém que tem timidez para para conseguir falar e então toca a pôr a capa de super herói e eu vou superar.
5:00
Todavia, quando eu vejo os teus trabalhos, a última coisa do mundo que o se me ocorre é que tu estás a fingir, porque é que ele tresanda à verdade?
Bom, esse é o truque.
5:11
Pessoa 1
Não é?
É acreditarmos tão tanto na mentira que ela se torna verdade.
Estou a brincar, claro, mas hoje em dia acho que já ultrapassei a minha timidez, mas sempre que tenho que estar aqui, por exemplo, ou tenho que assumir uma persona pública, eu meto um chip.
5:27
É o Diogo Infante que está a falar, não é o Diogo, é o Diogo Infante, é a figura, é pessoa com responsabilidade, com uma carreira, diretor de um teatro que tem.
Há uma expectativa, não é?
5:37
Pessoa 2
Isso pesa?
5:38
Pessoa 1
Claro que pesa, claro que pesa.
Eu quero dizer a coisa certa.
Quer?
Quer corresponder às expectativas?
Não quer desiludir?
Quer que gostem de mim?
Bem, isso parece uma terapia.
5:46
Pessoa 2
Estamos todos a fazer isso, não é um.
5:47
Pessoa 1
Bocadinho, acho que sim, então.
5:49
Pessoa 2
E quando é que tu és, Diogo?
Só Diogo.
5:51
Pessoa 1
Bom, olha, quando acordo, quando lá ando lá por casa e digo umas asneiras.
E quando me desanco com os cães e quando me desanco com o meu filho e não estou a brincar.
Ou seja, eu acho que sou eu quando baixo A guarda, quando estou muito à vontade, quando estou rodeado de pessoas que me querem bem, os amigos, a família.
6:08
Não quero com isto dizer que eu seja uma construção.
Eu digamos que tornei me uma versão mais polida de mim próprio, porque tenho que passar uma impressão.
Tenho que comunicar EE quero controlar o veículo da comunicação.
6:23
Pessoa
Comunicar a Guerra, Pensar a Paz: O Mundo Explicado sem Eufemismos
Num tempo em que a guerra voltou ao continente europeu e a ameaça nuclear regressou ao vocabulário político, comunicar tornou-se tão decisivo quanto negociar, tão estratégico quanto deter armamento. A forma como entendemos o conflito — e a forma como os líderes o explicam — determina a capacidade de uma sociedade se proteger, se posicionar e, sobretudo, de construir paz.
Nesta conversa profunda com um dos mais atentos analistas de geopolítica e segurança internacional, exploramos não apenas o que acontece nas frentes militares, mas aquilo que raramente chega ao espaço público: a lógica das decisões, o medo que move líderes, a propaganda que molda percepções e a fragilidade das democracias perante um mundo multipolar, competitivo e cada vez mais turbulento.
A Guerra Não Desapareceu — Apenas Mudou de Forma
A guerra do século XXI já não é apenas feita de tanques, artilharia ou drones. É feita de comunicação, de opinião pública, de gestos diplomáticos e de ameaças que pairam mais do que disparam.
O conflito na Ucrânia tornou visível uma realidade que muitos preferiam não ver: o regresso do imperialismo territorial, a competição entre grandes potências e a erosão lenta da ordem internacional construída após a Guerra Fria. E, como explica o especialista entrevistado, esta realidade é o resultado direto de um mundo onde já não existe uma potência única capaz de impor regras — e onde vários Estados procuram afirmar a sua posição, mesmo à força.
“Falamos Demasiado de Guerra e Demasiado Pouco de Paz”
Esta frase, dita logo no início da nossa conversa, resume uma das grandes preocupações: a paz tornou-se um bem adquirido, quase dado por garantido, e deixou de ser pensada como projeto político.
Hoje discutimos armamento, sanções, alianças, ofensivas e contra-ofensivas, mas muito raramente discutimos planos reais de paz.
A diplomacia parece muitas vezes refém de hesitações, cálculos eleitorais e receios de perder posição. Faltam líderes com visão e coragem para assumir compromissos difíceis. Falta clareza estratégica. Falta, em suma, o que sempre faltou antes dos grandes pontos de viragem da História: vontade de mudar o rumo.
Propaganda: A Arma que Já Não Precisa de Mentir
A propaganda moderna não opera através de falsidades grosseiras — opera com ângulos, omissões e narrativas cuidadosamente organizadas.
Divide sociedades, instala ruído, confunde consensos. E, como lembra o convidado, é um mecanismo estrategicamente desenhado, não um acidente.
Hoje, qualquer conflito é também uma batalha pelo centro emocional das populações. A pergunta já não é “quem dispara primeiro?”, mas sim “quem controla a interpretação do que acabou de acontecer?”. E esta disputa é tão séria como qualquer avanço militar.
Num ambiente onde autocracias investem fortemente em desinformação, países democráticos só sobrevivem se investirem tanto em educação mediática quanto investem em equipamento militar.
A Ameaça Nuclear: Entre a Política e o Medo
Há uma década, a maioria das sociedades ocidentais consideraria inaceitável ouvir líderes políticos falar com leveza sobre o uso de armas nucleares. Hoje, essa retórica tornou-se comum.
A ameaça nuclear voltou a ser utilizada como instrumento de coerção psicológica — não necessariamente para ser usada, mas para moldar decisões, atrasar apoios, dividir alianças e impor limites invisíveis.
E, como explica o analista, esta ameaça não é apenas militar: é emocional. Desestabiliza, silencia, intimida.
Perante isto, a resposta das democracias deve ser equilibrada, firme e prudente. Nem ceder ao medo, nem alimentar a escalada.
Europa: Entre a Vulnerabilidade e a Oportunidade
A União Europeia confronta-se com uma verdade desconfortável: não tem poder militar proporcional ao seu peso económico. E num mundo onde a força voltou a ser a linguagem dominante, esta assimetria torna-se perigosa.
Apesar disso, a Europa tem vantagens únicas:
capacidade económica para modernizar as suas defesas;
alianças históricas que multiplicam o efeito da sua ação;
e, sobretudo, uma rede de Estados democráticos cujo valor estratégico reside no coletivo e não no individual.
Mas falta ainda algo fundamental: coragem política para agir antes de ser tarde.
A Ética da Guerra: A Linha que Nos Define
No final, chegamos ao ponto mais difícil: a ética.
O que separa uma guerra justa de uma guerra injusta?
O que é aceitável negociar?
Que compromissos violam princípios fundamentais?
E como explicar a uma criança porque é que um país decidiu invadir outro?
A resposta do convidado é simples e trágica:
as guerras deixam sempre lições — mas as sociedades nem sempre as aprendem.
A história mostra que a Europa só foi corajosa em momentos de desespero. É urgente quebrar esse padrão.
Lições que Ficam
A paz não é natural — é construída.
A guerra renasce sempre que a coragem política desaparece.
A propaganda moderna vence pela dúvida, não pela mentira.
A ameaça nuclear é sobretudo psicológica e estratégica.
As democracias enfraquecem quando imitam autocracias.
Sem educação mediática, não há defesa possível.
A Europa precisa de visão — não apenas de verbas.
A ética não é luxo: é a fronteira que nos impede de nos tornarmos como os regimes que criticamos.
Porque Esta Conversa Importa
Num tempo de ruído, medo e incerteza, precisamos de vozes que consigam explicar, com clareza e rigor, como funciona o mundo — e o que depende de nós para que esse mundo não se torne mais perigoso.
É isso que esta entrevista oferece: contexto, profundidade e, acima de tudo, um convite à responsabilidade cívica.
Se este artigo o ajudou a compreender melhor o que está em jogo, partilhe-o.
Deixe o seu comentário, traga as suas dúvidas, participe na conversa.
Só uma sociedade informada consegue resistir ao medo — e escolher a paz.
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0:00
Como comunicar a guerra de hoje e a paz de amanhã?
A guerra é tão natural quanto a paz, faz parte da imperfeição da natureza humana.
0:19
Pessoa 2
Ora, vivam bem vindos ao pergunta simples, o vosso podcast sobre comunicação?
Hoje falamos de guerra, de paz e, acima de tudo, de como se comunica um mundo que já não é estável.
Um mundo onde a diplomacia hesita, onde a propaganda acelera e onde a ameaça militar, incluindo a ameaça nuclear.
0:39
Volta a moldar as decisões políticas.
O meu convidado é Manuel pués de Torres, analista geopolítico e investigador em segurança Internacional.
Alguém que conhece por dentro os bastidores da nato, a lógica da dissuasão, o Tabuleiro da diplomacia e aquilo que raramente se explica ao público.
0:57
Que a guerra não é apenas força, é também narrativa, psicologia e comunicação estratégica.
Nesta conversa, vamos tentar perceber o que está realmente a acontecer na Ucrânia, o que está em jogo nas negociações.
Porque é que falamos tão pouco de paz?
Como funciona a propaganda Moderna?
1:13
Que riscos esconde a ameaça nuclear?
E como é que tudo isto mexe com as democracias, com a opinião pública e com a vida de cada um de nós?
Se esta conversa vos fizer pensar e vai fazer, subscrevam o canal.
Deixem o vosso comentário.
E partilhem com quem precisa de ouvir estas explicações.
1:34
Manuel pues de Torres, posso apresentar te como um especialista em estratégia militar, em guerra híbrida, em diplomacia, em política Internacional, em comunicação também, porque a comunicação está aqui no meio disto tudo.
Longa experiência junto da nato.
1:50
Como é que nós conseguimos conversar e comunicar sobre um tema tão difícil?
Como a guerra, que é o sítio onde morrem pessoas.
2:01
Pessoa 1
É verdade, são tudo perguntas simples de resposta, muito complexa.
Mas acima de tudo e em primeiro lugar, um agradecimento pelo convite, por estar aqui contigo e para podermos falar de algo que é fundamental não apenas à política Moderna, mas também à forma de se fazer a paz no futuro.
2:18
E começo por dizer fazer a paz e não fazer a guerra, porque falamos muito de guerra e pouco de paz.
2:24
A imperfeição humana e a competição no sistema internacional
Porquê?
Porque a paz foi adquirida depois da queda do do muro de Berlim e a própria influência da paz Moderna Na Na nas relações diplomáticas.
2:39
Tornou a 11 bem garantido e, portanto, não se fala tanto da continuação da paz, mas da ausência da paz em prol daquilo que é naturalmente o conflito, o conflito das palavras, o conflito da política e, por último, contra tudo e contra todos, a ressurreição da do grande conflito convencional no continente europeu e, portanto, isto é um é um tema que preocupa qualquer governante.
3:06
É um tema que tem que preocupar qualquer estadista.
É um tema que tem que preocupar garantidamente as populações, as sociedades, aquelas que se dizem, aquelas que vivem e aquelas que pensam ser ainda sociedades democráticas e abertas.
3:22
Pessoa 2
Mas no tempo em que nós estamos, a ideia de guerra ainda faz sentido.
3:28
Pessoa 1
A ideia de guerra?
Faz sempre sentido.
3:30
Pessoa 2
Porque é que acontece a guerra, no fundo, é um bocadinho essa a pergunta que que eu tenho para te fazer?
3:34
Pessoa 1
A guerra é tão natural quanto a paz, faz parte da imperfeição da natureza humana.
E enquanto que o ser humano, enquanto o ser humano for um ser imperfeito que sempre seremos, nunca, nunca seremos divinos divinos, está no está em Deus, Deus nosso senhor, e portanto, enquanto existir essas incapacidades humanas.
3:55
A imperfeição vai nos levar sempre ao conflito.
E desse conflito nasce a guerra.
O problema é que no mundo que nós criámos, no mundo do século 21, que não é igual ao mundo do século 20, não é o mundo do século, historicamente do século 19, nem ao século 18.
4:11
A criação do direito Internacional e a criação da política Internacional, a criação das relações entre estados, a construção de um mundo que se defende do conflito.
É um mundo que está neste momento em risco e a guerra aparece.
Pre
O Corpo, o Erro e a Imaginação: Uma Conversa Aberta Sobre o Que Nos Torna Humanos
Há conversas que não vivem apenas na superfície; conversas que abrem espaço para respirar, repensar e reorganizar o que levamos por dentro. A conversa de Jorge Correia com um dos atores mais intensos e inquietos da ficção portuguesa é uma dessas. Ao longo de quase uma hora, falámos de corpo, erro, infância, imaginação, afeto, tecnologia, masculinidade e do que significa estar vivo com alguma atenção.
O episódio gira em torno de uma ideia simples, mas transformadora: a vida é uma negociação permanente entre o que sentimos e o que conseguimos colocar no mundo. E é isso que o convidado pratica — no teatro, no cinema, e na forma como se relaciona com os outros.
Essa reflexão nos leva a perguntar: O que nos torna ainda humanos num mundo de máquinas? Albano Jerónimo
O corpo como primeiro lugar de comunicação
Uma das ideias que atravessa toda a conversa é o papel do corpo — não como acessório do trabalho, mas como a sua raiz. É através da respiração, do gesto, da postura e do ritmo que se organiza a verdade de uma cena. Antes da palavra, antes da técnica, antes da intenção, está o corpo.
O que nos torna ainda humanos num mundo de máquinas? Albano Jerónimo
Fala-se disso com uma clareza rara: o corpo não mente, não adorna, não otimiza. O corpo não tem discurso — tem presença. E na era da comunicação acelerada, onde tudo é mediado por filtros, algoritmos e versões de nós mesmos, esta é uma ideia que nos devolve ao essencial.
Comunicar não é impressionar; é estar presente.
O erro como método e como espaço seguro
A segunda grande linha desta conversa é o erro — não como desgraça, mas como ferramenta.
E aqui há um ponto forte: ao contrário da ideia dominante de que falhar é perigoso ou condenável, o convidado assume o erro como ponto de partida. É no erro que se descobrem novas possibilidades, que se afinam gestos, que se encontra o tom certo. O erro é uma espécie de laboratório emocional.
E esta visão não se aplica só à arte. É também um modelo de liderança. No teatro e nas equipas, defende que o ensaio deve ser um lugar onde se pode falhar sem medo — porque a criatividade só existe quando não estamos a proteger-nos o tempo todo.
Criar espaço para o erro é criar espaço para a coragem.
Infância pobre, imaginação rica
A conversa revisita ainda as origens do convidado — um contexto de escassez que se transformou numa máquina de imaginação. Um tapete laranja, bonecos de bolo de anos, uma casa pequena que exigia inventar mundos alternativos.
“Há quem estude para aprender a imaginar. Há quem imagine para sobreviver.”
Esta frase resume bem o impacto da infância na sua forma de estar. A imaginação não é um escape — é uma estrutura vital.
E quando mais tarde se interpretam personagens duras, frágeis ou moralmente difíceis, não se parte de conceitos abstratos; parte-se dessa memória de observar o mundo com atenção e curiosidade. Entrar num personagem é entrar num corpo que podia ter sido o nosso.
A relação com a tecnologia e o palco: carne.exe e o confronto com a Inteligência Artificial
Uma das partes mais inesperadas e ricas da conversa é a reflexão sobre a peça carne.exe, em que o convidado contracena com um agente de inteligência artificial criado especificamente para o espetáculo. Uma “presença” que responde, improvisa e interage — mas que não sente, não cheira, não erra.
A conversa revela uma inquietação legítima: o que acontece ao humano quando se retira o corpo da equação? Quando a imaginação é substituída pela otimização? Quando a falha desaparece?
Há uma frase que se tornou icónica:
“Uma máquina pode descrever um cheiro… mas não o sente.”
É aqui que a arte se torna também crítica do seu tempo: o perigo não está na tecnologia em si, mas na possibilidade de nos esquecermos do que nos diferencia dela.
Masculinidade, vulnerabilidade e o lado feminino
O episódio toca ainda num tema essencial: as masculinidades contemporâneas.
Fala-se de dúvidas, fragilidades, contradições — de como fomos educados para esconder sentimentos e de como isso nos limita.
E há uma admissão honesta e importante: a presença de um lado feminino forte — não no sentido identitário, mas sensorial.
Esse lado que observa, que cuida, que escuta, que sente.
É talvez a parte mais desarmante da conversa: a vulnerabilidade não diminui; amplia.
A sensibilidade não fragiliza; afina.
A mãe, a sobrevivência e aquilo que nos organiza por dentro
Um dos momentos mais humanos surge quando se fala da mãe — do que ela ensinou, do que ficou, do que ainda ressoa.
A conversa entra aqui num registo íntimo, afetivo, não sentimentalista, mas cheio de verdade.
É um lembrete de que, por muito que avancemos na vida, há sempre uma pergunta que nos organiza:
como é que sobrevivi até aqui e quem me segurou?
Cuidar dos outros: uma ética para a vida e para o palco
A conversa termina com uma ideia simples e luminosa:
cuidar é uma forma de estar no mundo.
Cuidar do colega, da equipa, do público, de quem está ao nosso lado.
Não é um gesto heroico; é uma prática diária.
E é a base de qualquer comunicação que queira ser mais do que um conjunto de palavras.
Albano Jerónimo está em cena entre 12 e 14 de dezembro, no CAM – Gulbenkian, com o espetáculo carne.exe, de Carincur e João Pedro Fonseca, onde contracena com AROA, um agente de inteligência artificial desenvolvido especificamente para a peça.
O projeto explora as fronteiras entre corpo, tecnologia, imaginação e presença — um prolongamento direto dos temas que atravessam esta conversa.
LER A TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO
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0:12
Por vivam bem vindos ao pergunta simples, o vosso podcast sobre a comunicação hoje com o ator e encenador albane Jerónimo, alguém que procura o erro para se fertilizar, que acha que tudo começa no corpo, numa respiração, no momento.
0:29
Albano Jerónimo, que fala neste programa, não é só o ator, é uma pessoa que aparece ora com uma simplicidade radical, ora com uma complexidade e a profundidade que nos obriga a seguir atrás.
0:51
Hoje vamos falar do corpo, da imaginação, do erro, do cuidado, do afeto e dessa coisa difícil que é ser pessoa.
Porque, sejamos honestos, há dias em que não sabemos comunicar, não sabemos ouvir, não sabemos lidar, connosco e mesmo assim continuamos a tentar.
1:06
É isso que nos salva, é isso que nos torna humanos.
O convidado de hoje viu exatamente nesse território onde as palavras às vezes não chegam para ele.
Tudo começa numa frase, num gesto, num olhar, numa respiração, na forma como se ocupa um espaço, como se sente o chão.
1:22
Há quem passe anos a tentar treinar a dicção, mas ele comunica da maneira como está e isso, muitas vezes explica mais do que qualquer discurso.
Ao longo desta conversa, percebe que o trabalho dele não é só interpretar personagens, é observar o mundo como quem escuta.
1:37
É absorver o que acontece à volta e devolver sem couraça, sem esconder o que é frágil.
E no meio disto tudo, há ali sempre um cuidado discreto, uma preocupação em não ferir, em não atropelar, em não roubar espaço ao outro.
Ele fala muito de afeto, não como romantismo, mas como ética, e percebe se que para ele comunicar é isso, é cuidar.
1:58
E depois há o erro, o tema que atravessa toda a conversa.
Há quem fuja dele e ele corre na direção contrária.
Ele procura o erro.
Não porque queira provocar, mas porque percebeu que é no erro que acontece qualquer coisa.
O erro obriga nos a parar, a ajustar, a aprender outra vez.
2:15
É o momento em que a máscara cai e vemos quem somos e, no fundo, é o lugar onde ficamos mais próximos uns dos outros.
Ele diz isso como a simplicidade desarmante, falhar não é cair.
Falhar é encontrar.
Quer sempre experimentar coisas diferentes.
Agora, por exemplo, está a criar uma peça a carne ponto EXEA, peça onde contracena com uma inteligência artificial criada só para estar em palco com ele.
2:40
E aqui abre se uma porta grande, o que é a presença, o que é a relação, o que é que um corpo humano consegue fazer?
Ele disse uma frase que me ficou na cabeça, uma máquina pode escrever e bem, um cheiro, mas não o consegue sentir.
E percebemos que este confronto com a inteligência artificial.
2:55
Não é só teatro, é uma reflexão sobre o mundo que estamos a construir, onde tudo é rápido, mas muito pouco sentido.
Falamos também de masculinidade, não a do peito feito, mas a das dúvidas e contradições.
E aqui acontece uma coisa bonita.
E ela admite, sem qualquer agitação, que tem um lado feminino muito forte, que contracena quase a tal masculinidade e que a sensibilidade feminina e masculina é uma ferramenta.
3:18
Ainda é uma ameaça.
No fim, falamos deste tempo em que vivemos, da pressa da polarização.
Do cansaço e de empatia.
E eu aprendi 3 coisas principais.
A primeira é que comunicar começa no corpo, antes da palavra.
Há sempre uma respiração que diz tudo.
Um gesto aparece no corpo antes de aparecer dentro da nossa cabeça.
3:37
A segunda?
É que o erro não É o Fim, é o princípio, é o lugar onde crescemos e onde nos encontramos com os outros também da comunicação.
E a terceira é que a sensibilidade não é um luxo, é uma forma de sobreviver, sim, mas muitas vezes é a única forma de percebermos quem temos à frente.
3:54
Se esta conversa o fizer, aprendar um pouco ou simplesmente respirar fundo já valeu a pena.
Viva Albano Jerónimo.
Apresentar te é sempre um desafio ou fácil ator?
Canhoto, estamos aqui 2 canhotos, portanto já estamos aqui.
4:13
Como é que tu te apresentas?
Quando, quando, quando quando aparece alguém que não te que não te conhece, EE tu chegas lá e dizes.
Eu, eu sou o Albano.
Normalmente nós definimos sempre pela pela profissão, habitualmente não é?
Não sei com não sei se é da idade, mas digo o meu nome, Albano.
4:29
Digo que sou pai, sou irmão, sou amigo e que calha ser também ator e às vezes encenador.
E às vezes encenador, já gostas mais de ser ator ou encenador, imagino que.
São zonas diferentes, zonas de comunica
Há criadores que operam dentro das fronteiras técnicas do seu ofício. E há outros que as redesenham.
Manuel Pureza pertence à segunda categoria — a dos artistas que não apenas produzem obras, mas insinuam uma forma diferente de olhar para o mundo.
Ao longo da última década, Pureza foi aperfeiçoando um dialeto visual singular: um equilíbrio improvável entre humor e melancolia, entre disciplina e improviso, entre ironia e empatia. Cresceu no ritmo acelerado das novelas, onde se aprende a filmar com pressão, velocidade e um olho permanentemente aberto para a fragilidade humana. Dali trouxe algo raro: um olhar que recusa o cinismo fácil e que insiste que até o ridículo tem dignidade.
Na televisão e no cinema, a sua assinatura tornou-se evidente. Ele filma personagens como quem observa amigos de infância. Filma o quotidiano com a delicadeza de quem sabe que ali mora metade das grandes histórias. Filma o absurdo com a ternura de quem reconhece, nesse absurdo, o lado mais honesto do país que habita.
Um humor que pensa
Pureza não usa humor para fugir — usa humor para iluminar.
Em “Pôr do Sol”, o fenómeno que se transformou num caso sério de análise cultural, a comédia deixou de ser apenas entretenimento. Tornou-se catarse colectiva. Portugal riu-se de si próprio com uma frontalidade rara, quase terapêutica. Não era paródia para diminuir; era paródia para pertencer.
“O ridículo não é destrutivo”, explica Pureza. “É libertador.”
Essa frase, que poderia ser um manifesto, resume bem o seu trabalho: ele leva o humor a sério. Independentemente do género — seja melodrama acelerado ou ficção introspectiva — há sempre, no seu olhar, a ideia de que rir pode ser um acto de lucidez.
Num país onde o comentário público tantas vezes se esconde atrás da ironia amarga, Pureza faz o contrário: usa a ironia para abrir espaço, não para o fechar.
A ética do olhar
Filmar alguém é um exercício de confiança. Pureza opera com essa consciência.
Não acredita em neutralidade — acredita em honestidade. Assume que cada plano é uma escolha e que cada escolha implica responsabilidade. Entre atores, essa postura cria um ambiente invulgar: segurança suficiente para arriscar, liberdade suficiente para falhar, humanidade suficiente para recomeçar.
Num set regido pelo seu método, a escuta é tão importante quanto a técnica. E talvez por isso os seus actores falem de “estar em casa”, mesmo quando as cenas são emocionalmente densas. A câmara de Pureza não vigia: acompanha.
É aqui que a sua realização se distingue — não por uma estética rigorosa, mas por uma ética clara. Filmar é expor vulnerabilidades. E expor vulnerabilidades exige cuidado.
Portugal, esse laboratório emocional
O país que surge nas obras de Pureza não é apenas cenário: é personagem.
É o Portugal das contradições — pequeno mas exuberante, desconfiado mas carente de pertença, irónico mas sentimental, apaixonado mas contido. É um país onde a criatividade nasce da falta e onde o improviso se confunde com identidade.
Pureza conhece esse país por dentro. Viu-o nos sets frenéticos das novelas, nos estúdios apressados da televisão generalista, nas equipas improváveis de produções independentes. E filma-o com um olhar feito de amor e lucidez: nunca subserviente, nunca destructivo, sempre profundamente humano.
Há nele uma capacidade rara de observar sem desistir, de criticar sem amargar, de rir sem ferir.
Infância, imaginação e paternidade
Numa das passagens mais íntimas desta conversa, Pureza regressa à infância — não como nostalgia decorativa, mas como território de formação.
A infância, para ele, é o sítio onde nasce a imaginação, mas também o sítio onde se aprende a cair, a duvidar, a arriscar. Esse lugar continua a acompanhar o seu trabalho como uma espécie de bússola emocional.
Falar de infância leva inevitavelmente a falar de paternidade.
Pureza rejeita a figura do pai iluminado, perfeito, imune ao erro. Fala antes da paternidade real: aquela onde se erra, se tenta, se repara, se adia, se volta a tentar. A paternidade que implica fragilidade. A paternidade que obriga a abrandar num mundo que exige velocidade.
Talvez seja por isso que, quando dirige, recusa o automatismo: a vida, lembra, é sempre mais complexa do que aquilo que conseguimos filmar.
Escutar como acto político
Se há uma frase que atravessa toda a conversa, é esta:
“Nós ouvimos pouco.”
No contexto de Pureza, ouvir é um verbo político. Num país saturado de ruído, opiniões rápidas e indignações instantâneas, escutar tornou-se quase um acto contracultural. Ele trabalha nesse espaço de atenção — aquele que permite às pessoas serem pessoas, antes de serem personagens, headlines ou caricaturas.
É por isso que o seu trabalho ressoa: porque devolve humanidade ao que, tantas vezes, o discurso público reduz.
O que fica
No final, a impressão é clara: Manuel Pureza não realiza apenas obras.
Realiza ligações.
Realiza espelhos que não humilham.
Realiza pontes entre o ridículo e o sublime.
Realiza histórias que, ao invés de nos afastarem, nos devolvem uns aos outros.
Há artistas que acrescentam ao mundo um conjunto de imagens.
Pureza acrescenta uma forma de ver.
E num tempo em que olhar se tornou um acto cada vez mais acelerado — e cada vez menos profundo — isso não é apenas uma qualidade artística.
É um serviço público da imaginação.
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0:12
Ora, vivam bem vindos ao pergunta simples, o vosso podcast sobre comunicação?
Hoje recebemos alguém que não apenas realiza séries e filmes, mas realiza no sentido mais profundo do termo, a forma como olhamos para nós próprios, a maneira como nos espelhamos.
0:28
Manuel pureza é daqueles criadores que trabalham com rigor e com leveza, com inteligência, com humor, com disciplina e com um caos.
Ele cresceu nas novelas, aprendeu a filmar sob pressão, descobriu um olhar que combina ternura com ironia e tornou se uma das vozes mais originais da ficção portuguesa.
0:46
E é capaz de pegar no ridículo e transformá lo em verdade, de pegar no quotidiano e transformá lo em drama, de pegar no drama e transformá lo em riso.
Tudo sem perder a humanidade, o coração e a ética de quem sabe que filmar é escolher, ter um ponto de vista e que escolher é sempre um ato moral.
1:06
Neste episódio, abrimos as portas ao seu processo criativo, às dúvidas e às certezas, às dores e às gargalhadas, às memórias da infância e às inquietações da idade adultam.
Falamos de televisão como um espaço de comunhão.
Das novelas como um ginásio, do humor, como o pensamento crítico da arte de ouvir e de ser pai no mundo acelerado, da vulnerabilidade que existe por detrás de uma Câmara e, claro, de Portugal, este país pequeno, cheio de afetos e de feridas, onde tudo é simultaneamente muito absurdo e muito verdadeiro.
1:38
Pureza fala com profundidade e como honestidade às vezes.
Desconcertante é uma dessas conversas em que senti que estamos a ver para além do artista, estamos a ver a pessoa, a sensibilidade das dúvidas, a Esperança e a inquietação de alguém que pensa o mundo através das histórias que nos conta.
2:05
Ao longo desta conversa, percebemos como as histórias, para Manuel pureza, não são apenas entretenimento.
São uma estrutura emocional de uma forma de organizar o caos, uma linguagem antiga que herdamos mesmo antes de sabermos ler ou escrever.
Falamos do poder das narrativas para dar sentido à vida, mas também do seu lado perigoso, porque todas as histórias têm um ponto de vista, todas têm escolhas e omissões, todas moldam a forma como vemos o que é real.
2:33
E ele, pureza.
Assume isto sem medo.
Assume que filma com olhar assumidamente subjetivo e que essa subjetividade é precisamente a sua assinatura.
Não procura parecer neutro, procura ser honesto.
Também exploramos a sua relação com o humor.
2:49
O humor que nunca é cínico, nunca é cruel, nunca é gratuito.
O ridículo não é uma arma para diminuir os outros.
É uma maneira de libertar, de expor o que há de comum entre nós, de desmontar o que é pomposo e de aliviar o peso de viver.
3:04
Diz na própria conversa que tudo pode ser ridículo e isso é uma forma de Redenção.
O riso organiza o pensamento, afia o espírito, desarma o mundo e, talvez por isso, o pôr do sol.
A série tem sido mais do que um fenómeno cômico, foi um fenómeno emocional quase terapêutico.
3:20
Um espelho carinhoso onde Portugal se reviu e se perdoou, um bocadinho.
Falamos da ética, da ética, do olhar, de como se almar alguém.
É sempre um ato de intimidade.
De como se cria confiança dentro de um set de filmagens, como se dirige atores diferentes, como se acolhe fragilidades?
3:38
Várias.
E falamos da amizade e esse tema que atravessa todo o trabalho de pureza, porque para ele, realizar não é apenas uma técnica, é uma escuta, uma presença, um cuidado.
Ouvimos muitas vezes ao longo deste episódio, uma afirmação quase simples.
Nós ouvimos pouco.
3:55
E quando alguém é capaz de.
A olhar tanto e nos diz que ouvimos pouco.
Vale a pena parar para escutar.
E, claro, falamos de Portugal, um país pequeno, por vezes cínico, com uma profunda tendência para desconfiar do sucesso alheio.
Um país que pureza filma com ironia, amor e lucidez.
4:14
E da inveja.
Claro que falamos da inveja no país das novelas, do improviso, da criatividade teimosa, das personagens maiores que a vida.
O país que ele conhece por dentro e por fora, e que aprende a amar com o humor, mesmo quando o humor é a única forma de suportá lo.
Num dos momentos mais belos da conversa, falamos da infância, esse lugar de Liberdade, de curiosidade, de imaginação que pureza tenta manter vivo dentro de si.
4:39
E falamos também do que é ser pai, dos medos que isso acende, da responsabilidade que isso traz.
Da paternidade iluminada, mas da paternidade real, onde se falha, se tenta, se repara, se ama e se recomeça.
É um episódio cheio de emoções, pontos de vista e algumas surpresas.
5:01
Viva.
Manuel pureza, olá, nós encontramo nos e na realidade, temos que dizer às pessoas desde j
Hoje abrimos uma porta especial: a porta para o momento em que a comunicação ainda não tem palavras. É ali, naquele segundo primordial, que tudo aquilo que somos, sentimos e esperamos cabe num olhar, num ritmo, num gesto que ninguém nos ensinou — mas que todos reconhecemos. Antes de falarmos, já comunicamos. Antes de dizermos “mamã” ou “papá”, já perguntamos: “Estás aí para mim?”
Este é um dos territórios mais fascinantes e menos compreendidos da vida humana: a comunicação dos bebés. Intuímos muita coisa. A investigação ilumina ainda mais. Mas a cada novo estudo percebemos que a comunicação nos primeiros dias de vida é infinitamente mais complexa, sofisticada e decisiva do que imaginávamos.
Para nos guiar, contamos com o olhar de Pedro Caldeira da Silva, fundador da Unidade da Primeira Infância do Hospital D. Estefânia e pioneiro da psiquiatria dos bebés em Portugal. Um clínico que passou décadas a observar esta dança silenciosa entre bebés e adultos — e que nos ajuda a ver o que tantas vezes nos escapa.
Como é que os bebés comunicam quando ainda não têm palavras?
Um tema que merece reflexão é: Como é que os bebés comunicam antes das palavras? Pedro Caldeira da Silva
A comunicação de um bebé recém-nascido não é um acaso nem um reflexo automático. É intenção. É relação. É um corpo que chama o outro.
E há sinais claros dessa comunicação precoce:
A imitação involuntária de expressões faciais.
A procura insistente do rosto humano.
A preferência pela voz da mãe entre todos os sons.
A capacidade de criar padrões rítmicos e emocionais.
A repetição — o primeiro esboço de diálogo.
Antes de falar, o bebé já pergunta, já espera, já testa.
E, sobretudo, já organiza emocionalmente o mundo que o recebe.
E quando um bebé não comunica? O que significa o silêncio?
Se a comunicação precoce é natural, a sua ausência levanta perguntas.
Um bebé que não procura, não repara ou não repete, pode estar a emitir um sinal tão forte quanto o choro mais intenso.
Nem todo o silêncio é igual.
Há o silêncio que acalma — e há o silêncio que preocupa.
Pedro Caldeira da Silva ajuda a distinguir:
O silêncio protetor: o bebé recolhe-se, mas volta.
O silêncio sinal: o bebé não volta, não responde, não entra no jogo relacional.
E aqui entramos num dos temas mais sensíveis da atualidade:
o aumento dos diagnósticos do espetro do autismo.
O episódio não traz alarmismo — traz clareza. O que sabemos. O que ainda não sabemos. O que precisamos de observar com atenção genuína.
Da primeira infância à adolescência: o que muda na forma de comunicar?
A conversa leva-nos num arco completo: do recém-nascido ao adolescente.
E percebemos algo essencial: a comunicação humana é um contínuo, não um salto.
O bebé imita porque precisa de relação.
A criança repete porque precisa de segurança.
O adolescente contesta porque precisa de autonomia.
E nestas fases, pais, mães e cuidadores vivem um misto de responsabilidade, dúvida, exaustão e culpa.
É por isso que o episódio fala também dos “tutores de resiliência” — figuras decisivas que surgem quando a família não chega: professores, treinadores, amigos, adultos significativos que seguram o chão emocional de uma criança.
Os ecrãs fazem mal? Ou faz mal a ausência do adulto?
Este é um dos mitos mais persistentes. E a resposta surpreende.
O problema não é o ecrã.
É o bebé que passa horas a olhar para uma televisão que não o olha.
É a criança que perde ritmo, toque, olhar e reciprocidade.
É a relação que desaparece enquanto a tecnologia ocupa o espaço.
Um ecrã nunca é prejudicial por si só.
Prejudicial é a negligência, a ausência emocional do adulto, o vazio relacional.
O tédio também comunica
Vivemos uma infância hiperorganizada: horários, atividades, vigilância constante.
E, com isso, quase eliminámos um elemento crucial: o tédio.
O tédio é fértil.
É a matéria-prima da criatividade, da descoberta, da exploração.
É onde se inventa.
É onde se cresce.
Ao retirar o tédio, retiramos à criança uma das primeiras formas de autonomia interior.
A ausência emocional: o silêncio que fere
Talvez o ponto mais duro — e mais urgente — do episódio:
a indisponibilidade emocional.
Não é ausência física.
É presença sem vínculo.
É um adulto que está, mas não responde.
Que ouve, mas não devolve.
Que vê, mas não repara.
Esse silêncio cava um buraco na criança — e as marcas chegam muitas vezes à adolescência e à idade adulta.
Falar deste tema é desconfortável, mas necessário.
Porque só nomeando podemos reparar.
Podemos reparar aquilo que falhou?
Sim.
E é uma das mensagens mais luminosas da conversa.
Mesmo quando falhou vínculo, tempo ou atenção, nada está perdido.
A experiência molda-nos, mas não nos fixa para sempre.
Basta uma relação capaz, um adulto atento, alguém com disponibilidade emocional para realinhar o caminho.
Humanamente, isto é extraordinário.
E é profundamente esperançoso.
O que fica desta conversa?
Que os bebés dizem muito antes das palavras.
Que as crianças comunicam mesmo quando não explicam.
Que os adolescentes falam mesmo quando parecem calados.
E que comunicar continua a ser uma arte de observar, responder e reparar.
No fundo, a pergunta que atravessa toda a vida — da primeira infância à idade adulta — é sempre a mesma:
“O que precisas de mim agora?”
LER A TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO
Esta transcrição foi gerada automaticamente. Por isso, ela pode não estar totalmente precisa.
0:12
Ora, vivam bem vindos ao pergunta simples, o vosso podcast sobre comunicação?
Os abrimos uma porta rara, a porta para o momento em que a comunicação ainda não tem palavras.
Um instante em que tudo aquilo que somos, sentimos e esperamos.
Cabe num olhar, num ritmo, num gesto minúsculo que ninguém nos ensinou, mas que todos reconhecemos.
0:35
Antes de falarmos, já dizemos, muito antes de dizermos, mamã ou Papá, já perguntamos, estás aí?
Para mim, isto é um dos territórios mais fascinantes e talvez dos menos compreendidos da vida humana, a comunicação dos bebés.
0:51
Pelo menos para mim, todos intuímos algumas coisas.
Há muita investigação e há a cada passo.
Factos novos sobre a comunicação dos bebés não a fala, mas a intenção de comunicar a forma como um recém nascido convoca o adulto, cria padrões, imita expressões e constrói de forma surpreendentemente sofisticada, o seu primeiro mapa emocional do mundo.
1:13
E entramos acompanhados por alguém que passou décadas a observar esta dança invisível.
Pedro Caldeira da Silva, fundador da unidade da primeira infância do hospital dona Estefânia e pioneiro da psiquiatria dos bebés.
Ele ajuda nos.
A ver o que normalmente não vemos, o choro como mensagem, o sorriso como reforço, a imitação.
1:33
Como o pedido de relação mostra nos como um bebé antes de falar, já está a estabelecer expectativas, a construir memória e organizar o pensamento, testando se o mundo responde e porque.
A comunicação não é só técnica, é, sobretudo, vínculo.
1:50
Vamos também perceber como é que estas primeiras conversas deixam marcas.
Na forma como olhamos, na forma como escutamos, na forma como nos relacionamos mais tarde, já, adolescentes ou adultos.
Isto episódio é sobre bebés, mas também é sobre nós.
Sobre aquilo que herdamos, aquilo que aprendemos, aquilo que continuamos a tentar reparar.
2:19
É desconcertante perceber que um bebé de poucos dias já vem equipado com competências impressionantes, imitar expressões faciais, procurar um rosto, preferir a voz da mãe no meio de todos os solos do mundo, organizar padrões, criar uma espécie de música emocional interior que o ajuda a antecipar o que aí vem e, acima de tudo, comunicar ativamente antes de ter uma linguagem, uma linguagem, falar de bem entendido.
2:46
Mas.
Também é inquietante perceber o oposto, quando o bebé não procura, não repete, não repara, não responde.
O silêncio pode ser um pedido, pode ser um sinal, pode ser o início de algo que precisa de atenção.
Pedro Caldeira da Silva explica nos como distinguir o silêncio que protege do silêncio que preocupa e fala abertamente sobre o aumento dos diagnósticos do espectro do autismo, sobre o que sabemos, sobre o que suspeitamos e sobre aquilo que ainda estamos a tentar compreender ao longo desta conversa.
3:14
Viajamos da primeira infância até à adolescência, entre os bebés que imitam sem saber e os adolescentes que contestam.
Sabendo demasiado, falamos do não como o Marco da autonomia de tensão entre Pais e filhos, do peso da responsabilidade parental e da culpa permanente de quem acompanha e cuida.
3:32
Falamos do papel das mães e dos pais e de todos aqueles que, ao longo da vida, funcionam como tutores de resiliência.
Professores, treinadores, amigos, aquelas figuras que nos seguram quando a família não consegue e falamos dos ecrãs.
Mas aqui a resposta surpreendeu.
3:48
Me não é o ecrã que faz mal, é a negligência.
O problema não é a tecnologia, é a ausência do adulto, é o bebé que passa horas em frente a uma televisão que não vê, é a criança que perde a interação, o toque, o olhar ou o ritmo.
O ecrã não substitui em definitiva relação, a relação é o que mais conta.
4:07
Um outro tema central desta conversa é o tédio.
Hoje quase não deixamos as crianças entediar.
Se entre a escola, atividades, horários e vigilância constante, a infância perdeu o vazio fértil onde se inventava, explorava, construía e até se errava.
4:22
O tédio é uma forma de Liberdade e uma das matérias primas da criatividade recuperá lo.
Pode ser um dos maiores gestos educativos do nosso tempo.
Por fim, chegamos ao ponto que atravessa toda a conversa, a indisponibilidade emocional que é mais destrutiva que o abandono físico, é o estar presente no corpo, mas ausente no vínculo.
4:44
Uma presença que não responde, que não repara, que não devolve.
Uma espécie de silêncio que cava um buraco dentro da criança.
Um tema duro, sensível, mas absolutamente necessário.
Pedro Caldeira da Silva, pioneiros da psiquiatria da primeira infância em Portugal, conhecido como a psiquiatra dos bebés pode ser isto, posso apresentá lo assim?
5:06
Bom, já levou alguns antes de mi
Num tempo em que todos têm uma opinião, mas poucos têm dúvidas, o jornalismo continua a ser a ponte entre o poder e o cidadão. A pergunta que se coloca é: O jornalismo ainda importa? Margarida Davim.
Este episódio do Pergunta Simples é uma conversa sobre esse papel — o de quem traduz o complexo, interroga o evidente e devolve sentido à realidade.
A convidada é Margarida Davim, jornalista e comentadora política da CNN Portugal, com um percurso que passou por algumas das redações mais importantes do país — Visão, Sábado, Diário de Notícias e Observador.
Mais do que uma voz da atualidade, Margarida é uma defensora convicta do jornalismo como função social e serviço público.
“O único poder que um jornalista tem é perguntar”, diz. “E isso pode ser extraordinariamente incómodo.”
“O único poder que um jornalista tem é perguntar”, diz. “E isso pode ser extraordinariamente incómodo.”
“O único poder que um jornalista tem é perguntar”, diz. “E isso pode ser extraordinariamente incómodo.”
O jornalismo ainda importa? Margarida Davim
Na era da informação instantânea e da opinião viral, o jornalismo parece ter perdido poder. Mas é precisamente nesse aparente enfraquecimento que reside a sua força: a credibilidade.
Margarida Davim recorda que o jornalista continua a ser quem recolhe, confirma e explica — quem dá forma ao que, de outro modo, seria ruído.
Fazer jornalismo é editar o mundo: escolher o que é relevante, enquadrar o contexto, traduzir a linguagem do poder numa língua que todos possam compreender.
Esse gesto — aparentemente simples — é o que mantém viva a democracia informada.
O comentário político e a linguagem do poder
Margarida é também uma das comentadoras políticas mais respeitadas do país. Fala da televisão como nova ágora democrática, um espaço onde a política é explicada, interpretada e — por vezes — teatralizada.
Mas insiste: o comentário sério deve ser tradução e não espetáculo.
“Um bom comentário político tem de ser compreensível para qualquer pessoa.
“Um bom comentário político tem de ser compreensível para qualquer pessoa.
“Um bom comentário político tem de ser compreensível para qualquer pessoa.
Da linguagem dos políticos às palavras que suavizam decisões, Margarida mostra como a comunicação do poder se tornou cada vez mais técnica e defensiva — e como isso empobrece o debate público.
Falar claro, diz, é um ato político.
E compreender é um direito.
As novas linguagens do mundo moderno
O episódio estende-se à ideia de literacia — não apenas a dos media, mas também a política, administrativa e social.
Vivemos cercados por linguagens difíceis: comunicados, decretos, regulamentos, discursos e interfaces digitais que excluem quem não domina o código.
Defender o jornalismo é, por isso, defender o direito de todos a compreender.
A clareza é uma forma de inclusão.
E quando as palavras se tornam impenetráveis, o poder torna-se opaco.
Coragem e liberdade
Margarida fala também do lado sombrio da exposição mediática — especialmente para as mulheres.
As ameaças, o insulto gratuito, a tentativa de silenciar pela violência simbólica.
Mas recusa o medo: denuncia, reage, e continua a falar.
“Podem insultar, ameaçar, tentar intimidar.
Mas eu não abdico do meu espaço de liberdade.”
“Podem insultar, ameaçar, tentar intimidar.
Mas eu não abdico do meu espaço de liberdade.”
“Podem insultar, ameaçar, tentar intimidar.
Mas eu não abdico do meu espaço de liberdade.”
A liberdade de expressão não é apenas o direito de falar — é também o direito de continuar a fazê-lo, mesmo quando isso incomoda.
O futuro do jornalismo
A conversa passa ainda pelo colapso dos modelos de negócio e pela experiência da redação da Visão, que decidiu continuar a editar a revista mesmo depois de o grupo falir.
Foi um gesto de resistência cívica: provar que é possível fazer jornalismo sem estruturas megalómanas, com equipas pequenas e independentes.
O futuro, acredita Margarida, será um jornalismo mais seletivo, mais especializado e mais honesto — feito de proximidade, e não de volume.
A coragem de dizer que a capa é verde
O episódio encerra com uma metáfora que resume o espírito da conversa:
“O papel do jornalismo é dizer que a capa é verde, mesmo quando todos dizem que é vermelha.”
“O papel do jornalismo é dizer que a capa é verde, mesmo quando todos dizem que é vermelha.”
“O papel do jornalismo é dizer que a capa é verde, mesmo quando todos dizem que é vermelha.”
Num tempo em que a mentira se disfarça de opinião e a verdade se relativiza, o jornalismo continua a ser o último tradutor entre o real e o compreensível.
Sem essa tradução, não há comunidade — há apenas ruído.
O que se leva desta conversa
O episódio com Margarida Davim é uma defesa serena e apaixonada do jornalismo como ato de cidadania.
Uma reflexão sobre o poder das perguntas, a importância da clareza e a necessidade de continuarmos a compreender as linguagens que nos governam.
O jornalismo ainda importa — talvez mais do que nunca.
LER A TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO
Esta transcrição foi gerada automaticamente. Por isso, ela pode não estar totalmente precisa.
0:12
A Função Social do Jornalismo e o Poder da Pergunta
Ora, vivam bem vindos ao pergunta simples, o vosso podcast sobre comunicação.
Hoje falamos do poder da pergunta e da magia da descodificação dos discursos públicos.
Mais ou menos encriptados da maneira como o alinhamento dos factos, opiniões, perguntas e respostas nos sincronizam.
0:29
Enquanto cidadãos da polis, um programa com a jornalista Margarida David,
0:45
vivemos rodeados de palavras de palavras que muitas vezes não entendemos no seu verdadeiro sentido.
As palavras de política, as da economia, as da administração pública, da academia, das redes sociais e de todas as tecnocracias em geral, cada uma com o seu código, com o seu jargão, com a sua forma de afastar mais do que aproximar.
1:03
E no meio deste labirinto de linguagens, há uma profissão que tenta manter a ponte entre os poderes e o cidadão, o jornalismo.
Este episódio de pergunta sempre.
É sobre isso, sobre a função social do jornalismo, sobre o papel de quem pergunta, traduz e devolve sentido ao mundo cada vez mais difícil de decifrar.
1:21
É também sobre a coragem de continuar a fazê lo num tempo em que a desinformação é mais rápida, mais ruidosa e mais rentável do que a verdade.
A convidada é Margarida da vinho, jornalista e comentadora política.
Uma das vozes mais respeitadas do jornalismo português, reconhecida pela clareza, pela credibilidade e pela forma como explica a política sem a reduzir a um simples jogo que não é, porque a política e as suas decisões são muito importantes para todos nós.
1:48
Trabalhou em títulos como o diário de notícias, a sábado, a visão, o observador e é comentadora da CNN Portugal.
O único poder que o jornalista tem é o de perguntar, diz Margarida David.
Perguntar é o gesto mais simples da democracia.
Será?
2:03
Porque obriga a quem tem poder a responder e a quem ouve a pensar.
O jornalismo é, nesse sentido, um serviço público invisível.
Traduz o complexo, incompreensível o técnico em humano, o distante é irrelevante.
Nesta conversa, falamos do jornalismo como mediador entre mundos, entre a linguagem política e técnica e a linguagem comum, entre a lógica mediática e o quotidiano das pessoas, entre a informação e a compreensão.
2:28
O Colapso dos Modelos de Negócio e a Esperança da Visão
Falamos também.
Claro, do comentário televisivo que ela faz todas as semanas, essa nova praça pública onde a política e a sociedade se traduz, se interpreta e tantas vezes se teatraliza e discutimos o que significa ser comentador sem se transformar em personagem.
2:44
Em ator, Margarida fala da reinvenção, da visão do colapso dos grandes grupos do media, do jornalismo de nicho e da dificuldade de financiar projetos independentes, mas também da Esperança que renasce quando uma redação decide continuar.
Mesmo sem patrões, mesmo sem certezas.
3:02
É uma história sobre o valor da credibilidade, sobre o sentido cívico de quem acredita que a informação é um bem comum.
Há ainda espaço para refletir sobre o papel das mulheres no espaço mediático e político, sobre o ódio digital e sobre a resistência Serena de quem não desiste do debate público.
3:19
Margarida fala se sem raiva e sem medo, com o rigor de quem investiga e a lucidez de quem pensa todos os dias e em voz alta não procura a unanimidade, procura a compreensão.
Este é o ponto de partida do jornalismo, mas o que está em causa é bastante maior.
É o direito de todos compreendermos as línguas mais importantes do mundo moderno, a língua mediática, a língua política, a língua administrativa e a língua social.
3:43
São estas linguagens que determinam as nossas decisões, os nossos direitos, as nossas vidas e compreender estas línguas.
É um ato de cidadania num tempo de ruído, de tribalismo, de manipulação.
O jornalismo é um último espaço de tradução entre o real e o compreensível, e sem tradução num ato democracia.
4:01
Este episódio é um tributo à função social do jornalismo, à coragem tranquila de quem ainda acredita que compreender é um direito e perguntar uma obrigação, em particular dos jornalistas.
4:17
Pessoa 2
O único poder que um jornalista tem é perguntar.
Só que isso pode ser extraordinariamente incómodo se houver coisas que não se querem responder, se houver coisas que se querem esconder e se OAA.
Pergunta do jornalista e o trabalho do jornalista tiver força e credibilidade.
4:32
Ora, como é que se desarmadilha isso?
É tentando dar a ideia de que os jornalistas são todos uns vendidos, que estão todos comprados, que estão completamente enviesados.
E então cria se esta ideia dos comentadeiros EE do jornalismo.
4:49
Se pela única razão que essas pessoas fazem mossa, se essas pessoas ficam a fazer completamente irrelevantes.
4:55
Pessoa 1
Não contavam para o campeonato.
4:57
Pessoa 2
Não contavam pouca e não e não havia esta esta esta campanha que existe.
Não é porque é óbvio que hoje em dia, com as redes sociais, o poder do jornalismo diminu
Comunicar é expor-se. É escutar. É estar.
Nesta conversa intensa e delicada, a atriz e encenadora Cristina Carvalhal partilha o que aprendeu em décadas de palco sobre a arte de comunicar com o corpo inteiro — e sobre o que o teatro pode ensinar à vida.
“Comunicar é dar-se aos outros”, diz, com a serenidade de quem sabe que a voz é mais do que som: é presença.
Mas esta conversa vai muito além do teatro.
Fala de empatia, de atenção e da forma como o corpo, a respiração e o silêncio moldam tudo o que dizemos — e o que deixamos por dizer.
O silêncio como espelho
Vivemos num tempo em que o silêncio assusta.
Mas Cristina Carvalhal lembra que há silêncios que oprimem e silêncios que curam; silêncios que afastam e outros que aproximam.
Saber distingui-los é um ato de escuta profunda — e talvez uma das competências mais urgentes do nosso tempo.
O teatro ensina isso todos os dias.
O ator aprende a estar em cena sem falar, a ouvir o ar da sala, o rumor do público, o som dos próprios passos.
É essa escuta periférica, como Cristina lhe chama, que transforma o gesto em linguagem e o instante em presença.
O corpo que fala antes das palavras
Muito antes da frase, o corpo já disse tudo.
A postura, o olhar, a respiração, o movimento das mãos — cada detalhe é comunicação.
O corpo revela disponibilidade ou resistência, confiança ou medo.
Por isso, comunicar bem começa sempre por escutar o corpo: saber o que ele anuncia antes da voz.
Cristina lembra que, no palco, a voz é uma extensão da respiração.
Quem não respira, não comunica.
Quem fala sem escutar o ar que o rodeia, perde o compasso do outro.
E no mundo da pressa, essa consciência tornou-se rara.
A coragem de dizer “não sei”
Há momentos em que a melhor resposta é o silêncio.
Ou um simples “não sei”.
Para Cristina Carvalhal, essa honestidade é libertadora — em cena e na vida.
A vulnerabilidade é uma forma de verdade, e comunicar bem é aceitar o que somos, naquele instante, sem disfarces.
O nervosismo, diz ela, é só o corpo a lembrar-nos que o momento é importante.
Transformar o medo em presença é o primeiro passo para falar com autenticidade.
O erro como matéria-prima
“Em processo criativo não há erro”, diz Cristina.
No teatro, o erro é o ensaio da descoberta.
Na vida, devia ser igual.
O erro é um desvio que nos mostra novos caminhos, se houver espaço para a confiança e a escuta.
Uma boa comunicação — em palco, em equipa ou em família — nasce desse espaço de segurança onde o erro não humilha, mas ensina.
Cuidar do jardim comu
No final da conversa, surge uma metáfora luminosa: “cuidar do jardim”.
Cuidar do jardim interior — o lugar da atenção, da empatia, da escuta.
E cuidar do jardim comum — o espaço público, a convivência, a cidadania.
Num tempo em que o ruído domina e a agressividade parece regra, esta imagem é um apelo à responsabilidade coletiva:
a comunicação é também um ato político.
A forma como falamos uns com os outros define o mundo em que vivemos.
A lição do teatro para todos nós
Esta entrevista não é apenas sobre teatro — é sobre a vida.
Sobre a forma como podemos ser mais conscientes nas conversas, mais atentos aos sinais, mais humanos na forma como lideramos, ensinamos ou simplesmente convivemos.
Cristina Carvalhal mostra-nos que comunicar é cuidar: do corpo, da voz, do outro e do tempo.
E lembra-nos que a empatia não é um talento, é uma prática diária.
Lições essenciais de comunicação deste episódio
Escute com o corpo, não apenas com os ouvidos.
Aceite o nervosismo: é sinal de verdade, não de fraqueza.
Dê espaço ao erro — ele faz parte do diálogo.
Use o silêncio como aliado: é nele que o outro se reconhece.
Cure o seu jardim — o pessoal e o coletivo.
A arte de comunicar através do sabor
Hoje falamos sobre doces — mas, no fundo, falamos sobre emoções.
Falamos sobre a memória dos sabores, o prazer e a culpa, a criatividade que nasce do açúcar e a forma como a comida se transforma numa linguagem afetiva.
Neste episódio do Pergunta Simples, Rita Nascimento, mais conhecida como La Dolce Rita, mostra que uma sobremesa pode conter tudo: química e poesia, rigor e generosidade, técnica e amor.
O que nos ensina a doçura sobre comunicação? Rita Nascimento
Entre bolos, pastéis e gelados, há sempre uma forma de expressão — e também uma forma de relação.
A pastelaria como linguagem
Formada em pastelaria, Rita trabalhou em cozinhas de vários países e, há anos, dedica-se a ensinar, filmar e partilhar o que sabe sobre o mundo das sobremesas.
O seu canal de YouTube e os seus livros conquistaram milhares de seguidores — não apenas porque as receitas funcionam, mas porque comunicam verdade.
Para Rita, a pastelaria tem o seu próprio vocabulário — “uma pitadinha”, “um punhadinho” — e exige tradução: cada gesto, cada mistura, cada textura carrega uma intenção e uma memória.
Como em qualquer língua, é preciso saber interpretar e transmitir.
O equilíbrio entre prazer e culpa
Num tempo em que o açúcar é frequentemente visto como um inimigo, Rita Nascimento propõe outra forma de olhar para o prazer.
Não é o doce que está em causa, mas o excesso.
O problema começa quando o que era exceção passa a rotina.
Nesta conversa, fala-se de equilíbrio, de consciência e de liberdade: a capacidade de saborear sem culpa, de encontrar o ponto certo entre o prazer e a moderação.
Afinal, um doce não serve apenas para alimentar o corpo — serve para alimentar a alma.
Confiança e autenticidade
Rita construiu uma comunidade de pessoas que confiam nas suas receitas e acreditam na sua palavra.
Ensinar pastelaria, explica, é também ensinar clareza, paciência e precisão.
A confiança nasce da consistência — de partilhar conteúdos honestos, de responder com atenção e de manter o toque humano no meio da velocidade digital.
No fundo, a forma como Rita comunica ensina tanto quanto os seus bolos: que o essencial está na verdade, não na aparência; no afeto, não na performance.
As memórias que ficam no sabor
A conversa leva-nos à infância: à cozinha da mãe, ao arroz-doce da avó, ao ritual de “rapar o tacho”.
Essas pequenas cenas guardam uma ternura universal — a ideia de que cozinhar é, antes de mais, um ato de amor.
Os sabores tornam-se histórias, e as histórias, quando contadas com autenticidade, tornam-se pontes entre pessoas.
E é por isso que Rita é mais do que uma doceira: é uma contadora de histórias com açúcar.
As suas receitas ensinam-nos que comunicar bem é ouvir, cuidar, ajustar o tom e o tempo — como quem mexe um creme, devagar, até encontrar a textura certa.
A doçura como forma de comunicação
Fazer doces é um ato de comunicação: requer precisão, paciência e empatia — os mesmos ingredientes que fazem uma boa conversa.
A pastelaria é, afinal, uma forma de dizer “gosto de ti”, de cuidar e de criar beleza.
Mesmo num tempo de pressa, dietas e distrações, Rita Nascimento lembra-nos que ainda há espaço para saborear devagar — para fazer da doçura uma forma de presença e da comunicação uma forma de afeto.
Porque comunicar bem, como cozinhar bem, é isto mesmo: encontrar o equilíbrio certo entre rigor e ternura.
LER A TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO
Esta transcrição foi gerada automaticamente. Por isso, ela pode não estar totalmente precisa.
0:12
Ora, vivam bem vindos ao pergunta simples, o vosso podcast sobre comunicação.
Hoje falamos sobre doces e, sobretudo, aquilo que eles representam.
Falamos sobre a memória dos sabores, sobre o prazer.
E sobre a culpa?
E sobre a criatividade que nasce do açúcar quando a comida se transforma numa linguagem afetiva?
0:32
A convidada deste episódio é a Rita nascimento, mais conhecida no mundo digital como ladol Serrita pasteleira, autora e comunicadora que construiu uma das comunidades mais queridas do país à volta das sobremesas.
Nesta conversa, mergulhamos no universo dos doces como forma de expressão e descobrimos que, por detrás de cada receita, há uma mistura de química, de poesia, de rigor e generosidade, de técnica e de amor.
1:07
A pastelaria é também uma linguagem, tem o seu vocabulário, uma pitadinha, um punhadinho e sem os seus códigos e as suas emoções.
E como em qualquer outra língua, é preciso saber traduzir, compreender o gesto, a mistura, o tempo, a memória que o sabor desperta.
1:24
Com o Rita nascimento, falamos do equilíbrio entre prazer e saúde, da forma como o açúcar se tornou um demónio moderno e da importância de saborear sem culpa.
Falamos de.
Confiança com desconhecidos de comunicação digital e da arte de manter o toque humano quando se tem milhares de pessoas do outro lado do ecrã, Rita ensina pastelaria, mas também ensina outra coisa.
1:46
Ensina como comunicar com clareza, com paciência e com precisão.
As suas receitas funcionam e é daí que vem a conferência do público.
O sucesso dos seus vídeos não depende da luz ou da edição, mas da honestidade do conteúdo na conversa.
Voltamos também à cozinha da infância.
2:03
Ao arroz doce da avó, ao leite, creme queimado na hora, não há outra maneira de fazer claro ao cheiro.
Do forno ao domingo.
São sabores que contam histórias, memórias que sobrevivem a cada colherada.
E há.
Perguntas que ficam no ar porque é que os doces são uma forma de amor?
2:20
Como é que se constrói essa memória que nos ocupa o espaço mental de todos nós?
E o que é que perdemos como sociedade quando transformamos o prazer em pecado?
Rita nascimento é doceira, comunicadora, criadora de conteúdos, mas acima de tudo, uma contadora de histórias com açúcar.
2:36
E é esta esta conversa, uma lição sobre autenticidade, emoção e precisão. 3 ingredientes que, afinal, servem tanto para uma sobremesa perfeita.
Como para uma boa relação humana?
Viva Rita nascimento.
2:52
Há cá ladolce Rita.
Sim.
Como é?
Como é que tu te como é que tu te apresentas?
Como é que tu gostas de ser apresentada?
Rita, sou Rita.
Mas depois tem lá isto ladolce Rita a doce, a doce Rita, que és uma celebridade da das redes digitais também.
3:09
Toda a gente te te conhece.
Eu eu pensei muito quando quando nós temos uma amiga em comum que que que sugeriu e disse, olha, tens que falar com a Rita, a Rita, a Rita dá uma dá uma grande convidada.
E eu pensei assim, ena, que bom.
Vamos falar de açúcar do mundo que está toda a gente a falar de emagrecer.
3:26
Vamos contra a corrente como?
É que é como é que como é que.
Como é que tu sentes quando, quando pões essa narrativa?
No fundo, que o doce é bom.
Claro que o doce é bom, mas por outro lado, nós sentimos essa.
Quase esse pecado, não é quer?
Dizer, mas é um bocado é um bocado bom, não é?
3:41
É?
Um bocado aceitável.
Eu acho que sim.
Eu aqui há uns.
Acho que foi quando lancei Oo meu primeiro livro.
Tive 11 episódio muito engraçado e isto foi há já, há 10 anos.
Portanto, agora as coisas ainda estão piores e eu estou a fazer aspas assim no ar.
3:58
Eu passei por uma montra de uma livraria e estava lá o meu livro.
No meio e ao lado e ao redor do meu livro estavam todos outros livros eram sobre dietas, o que?
Faz sentido, não é eu.
Pensei, olha, está aqui uma representação do que pronto da minha vida, que é as pessoas à minha volta a fazer dieta e eu aqui, toda contente, a comer um geladinho.
4:21
Olha, quando é que tu te descobres como como doceira?
Tu tu és, tu és o quê tu és?
Eu sou pasteleira pasteleira, sim, sim, que.
Que é que é maravilhoso?
Logo, não é quer?
Dizer sim quando eu digo que sou pasteleira EE se alguém não me conhece, eu acho.
4:37
Fico a pensar que eu, se calhar, estou ali numa pastelaria a fazer bolas de Berlim e em.
Paz na realidade.
Não é, mas eu não trabalho propriamente como pasteleira, ou seja, eu não faço bolos para vender.
Tu trabalhas comunicação à volta da do?
Exato, sim, sim.
4:53
Mas o meu curso é pastelaria, portanto, eu estudei pastelaria.
Eu trabalhei efetivamente como pasteleira como chefe de pastelaria em vários sítios EE aqui há uns anos é que deixei de trabalhar ativamente a produzir para outras pessoas.
Lerem?
E hoje dedico me a ensinar em vários contextos, quer seja no YouTube, quer seja através de livros ou cursos.
5:16
Mas quando alguém me pergunta a minha profissão, como é tão complicado meter tudo no mesmo saco?
Tu pimba pasteleira pronto.
O Mestre pasteleira está coisas.
A resolver e.
Mas tu ao fazeres, as coisas que tu fazes.
Quem já agora, quem não te segue no Instagram ou no YouTube, vale a pena.
5:33
Basta procurar Rita nascimento ao lado da olça.
Rita vai encontrar te rapidamente.
Tu, de qualquer maneira, produzes muitas sobremesas, sim, e comes tudo.
Tu e a tua família, como é que?
É provavelmente a pergunta que mais me fazem.
Eu como bastante eu.
5:50
Eu não sou aquelas pessoas que fazem este conteúdo.
E que quando a Câmara acaba de gravar, quase que cospem o que estão AAA comer ou nunca aparecem a comer e depois até as coisas têm um fim mesmo.
6:07
Menos digno na no eu sou mesmo uma gulosa assumida.
Eu, antes de ser pasteleira, sou gulosa e, portanto, não consigo resistir agora.
Também tenho muito interesse em continuar a passar pelas portas e em viver muitos anos e, portanto, tens um equilíbrio.
6:26
Tem que haver aqui um equilíbrio.
E o que acontece é que eu quando acabo de fazer o que estou a fazer, seja.
Por exemplo, testes ou 11 vídeo para o YouTube.
Eu distribuo o por quem está ali perto ou se eu sei que há alguém que gosta do que eu fiz especificamente, ligo essa pessoa, dou aos vizinhos, dou ali Na Na vizinhança, à minha mãe, pronto e vai se distribuindo.
6:51
Está a explicar, não é?
Está explicada a tua, a tua popularidade.
Olha que emoções é que se consegue traduzir através das receitas.
Olha, eu acho que EE falando sobretudo na parte da pastelaria, porque a comida no geral e de astronomia, eu acho que tem um peso grande, emotivo, porque está muito ligado AA memórias da nossa inf
O poder de olhar: o que o fotojornalismo ensina sobre comunicar
Vivemos cercados de imagens.
Fotografias, vídeos, fragmentos de realidade que passam depressa demais.
Mas há uma diferença entre ver e olhar.
Entre registar e compreender.
Entre captar o instante — e perceber o que ele significa.
Como fotografar a emoção? José Sena Goulão.
Neste episódio do Pergunta Simples, a conversa é com José Sena Goulão, fotojornalista da Agência Lusa, autor de algumas das imagens mais marcantes da história recente de Portugal — como aquela, em pleno confinamento, de um homem sozinho a subir a Avenida da Liberdade com uma bandeira às costas.
Mais do que falar de técnica, esta conversa fala de sentido: do que o fotojornalismo nos ensina sobre comunicar com verdade, emoção e responsabilidade.
A fotografia como linguagem
Desde que existe, a fotografia é uma forma de comunicar.
De traduzir o mundo em luz.
De transformar o instante em memória.
Mas o mundo mudou.
Hoje, qualquer um de nós tem uma câmara no bolso.
E, com isso, o poder — e o risco — de publicar, manipular, distorcer.
A fotografia, que nasceu como prova, tornou-se um território de dúvida.
E é por isso que vale a pena ouvir quem continua a acreditar na imagem como linguagem de serviço público.
O enquadramento é uma escolha ética.
José Sena Goulão percorre há mais de quatro décadas o país e o mundo com uma câmara ao ombro: do Parlamento às bancadas do futebol, das cerimónias de Estado às praias de Carcavelos ao nascer do sol.
Para ele, o enquadramento é tudo.
É a linha que separa o que se mostra do que se omite.
E essa linha é sempre ética.
Na fotografia — como na comunicação — enquadrar é interpretar.
É decidir o que é essencial e o que fica fora de campo.
É escolher o foco, e com isso, construir um ponto de vista.
Toda a fotografia revela tanto de quem fotografa como de quem é fotografado.
E é nesse espelho — muitas vezes invisível — que se joga a honestidade do olhar.
A emoção é o centro da verdade
As fotografias que ficam não são as mais perfeitas.
São as que tremem, as que respiram, as que captam o que é humano.
Uma imagem pode ser tecnicamente irrepreensível e, ainda assim, vazia.
O contrário também é verdade: uma fotografia imperfeita pode ser comovente, memorável, real.
A emoção é o que transforma o registo em relato, e o relato em memória coletiva.
É o que liga o que acontece ao que sentimos.
E é também o que torna a comunicação — em qualquer contexto — profundamente humana.
A ética é inseparável do olhar.
Num tempo em que a inteligência artificial fabrica rostos que nunca existiram e paisagens que nunca aconteceram, o olhar humano torna-se um ato moral.
Fotografar — como comunicar — é assumir responsabilidade.
É compreender que há sempre uma fronteira entre mostrar e explorar, entre informar e invadir.
A credibilidade nasce precisamente daí:
da capacidade de respeitar quem está do outro lado da lente, do microfone ou da palavra.
O fotojornalismo, neste sentido, é mais do que uma profissão: é uma missão pública.
Ver, compreender e contar — antes que o ruído apague o essencial.
A verdade não é perfeita, mas é necessária.
A fotografia de José Sena Goulão no 25 de Abril de 2020 — um homem sozinho a subir a Avenida da Liberdade com a bandeira de Portugal às costas — tornou-se um símbolo desse compromisso.
Num país confinado, foi uma pergunta em forma de imagem:
o que é a liberdade, quando quase nada se pode ver?
Foi também uma prova de que a verdade não precisa de ser perfeita para ser poderosa.
Basta ser honesta.
E essa talvez seja a lição mais urgente sobre comunicação:
a verdade comove mais do que o filtro.
Comunicar é resistir à indiferença.
No fim desta conversa, uma ideia fica clara:
Comunicar bem é manter o foco quando tudo em volta distrai.
Ver, compreender e contar.
Três verbos simples.
Três verbos difíceis.
São os mesmos que sustentam o jornalismo — e que, nas mãos de José Sena Goulão, continuam a iluminar o país, um disparo de cada vez.
LER A TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO
Esta transcrição foi gerada automaticamente. Por isso, ela pode não estar totalmente precisa.
0:12
Ora, vivam bem vindos ao pergunta simples, o vosso podcast sobre a comunicação.
Hoje vamos falar sobre o olhar, sobre o poder que existe dentro de uma imagem e a responsabilidade de quem é a capta.
Vivemos rodeados de fotografias, de vídeos, de fragmentos de realidade que passam depressa.
0:30
Mais, mas há uma diferença entre vir e olhar, entre registar e compreender, entre captar um instante e perceber o que ele significa.
Neste episódio, olhamos para a fotografia como aquilo que ela sempre foi, uma forma de comunicar, de comunicar a verdade da emoção e a memória.
0:47
E para isso, convidamos alguém que há dezenas de anos está a transformar lusa em linguagem.
José cena golão, fotojornalista da agência lusa.
Autor de algumas das imagens mais marcantes da história recente de Portugal, como aquela em pleno confinamento de um homem sozinho num 25 de abril, a subir a avenida da Liberdade.
1:08
Com a Bandeira de Portugal às costas.
1:20
Há profissões que vivem do instante e há outras que vivem de o preservar.
O fotojornalismo é uma delas, um ofício de urgência e de memória, onde cada clique é uma tentativa de dizer, isto aconteceu.
Vivemos rodeados de imagens, milhares de imagens por dia.
1:37
Mas quantas destas imagens são verdadeiras, no verdadeiro sentido da palavra?
Quantas mostram, de facto, o mundo sem filtros, sem artifícios, sem a moldura da conveniência?
A fotografia que nasceu como prova tornou se hoje um território de dúvida.
E é por isso que precisamos de ouvir quem ainda acredita na imagem como uma linguagem de serviço público.
1:58
José Sara golão é fotojornalista da agência lusa e há dezenas de anos que percorre o país e o mundo como a Câmara a ombro do parlamento às bancadas do futebol das.
Dimónias de estado às praias de carcavelos ao nascer do sol no surf.
Pois, claro, é dele a imagem que marcou o 25/04/2020.
2:14
Um homem sozinho a subir à avenida da Liberdade com uma Bandeira às costas.
Nessa altura em que o país estava fechado em casa.
Aquela fotografia foi um gesto de resistência e também uma pergunta, o que é a Liberdade quando quase nada se pode ver este?
2:30
Episódio da pergunta simples é uma viagem ao interior desse olhar e uma reflexão sobre o poder da comunicação visual.
Porque uma fotografia é, no fundo, uma forma de falar.
E talvez o fotojornalismo seja uma forma mais direta, mais crua e mais honesta de comunicar o instante em que a emoção se torna informação.
2:50
Há 3 lições essenciais nesta conversa, pelo menos para mim.
A primeira é que o enquadramento é tudo.
Na fotografia e na vida, comunicar e decidir onde colocamos o foco, o que mostramos, o que deixamos de fora, o que consideramos essencial.
Cada escolha é uma interpretação do real.
A segunda é que a emoção é o centro da verdade.
3:09
As fotografias que ficam não são as mais perfeitas, são as que trem, são as que respiram, são aquelas que captam o que é humano.
A emoção é o que transforma o registo em relato e o relato em memória coletiva.
A terceira lição é que a ética.
É inseparável do olhar num tempo em que a inteligência artificial gera rostos que nunca existiram, sorrisos que nunca aconteceram.
3:31
A fotografia recorda antes que comunicar é um ato moral.
Há sempre uma Fronteira entre mostrar e explorar, entre informar e invadir.
E a credibilidade nasce precisamente daí, da responsabilidade de quem escolhe a imagem que representa os outros.
Este episódio é mais do que uma conversa sobre fotografia, é.
3:49
Uma medicação sobre a verdade, sobre o papel do olhar numa época em que tudo parece editável.
E é também uma homenagem a todos aqueles que, atrás da Câmara ou do microfone, tentam cumprir o velho dever do jornalista.
Ver, compreender e contar o que acontece antes que o ruído ou o silêncio o apague.
4:09
Porque comunicar, bem como fotografar, é resistir à indiferença.
É não virar a cara ao que importa e lembrar com luz.
O que o esquecimento tenta a pagar?
José Sena golão fotojornalista qual é a diferença entre um fotógrafo e um fotojornalista?
4:28
Alguma.
Ah, Ah, acho que o fotógrafo, antes de mais obrigado pelo convite entrar já aqui Na Na resposta, acho que sim.
Acho que o fotógrafo.
A primeira coisa que procura acho que é a beleza.
É a beleza em em tudo.
4:44
Ou tentar fazer a fotografia mais bonita e mais esteticamente mais apelativa a alguém no fotojornalismo é mostrar a realidade pura e dura, conseguindo fazer a imagem que lá está, com a maior beleza possível e com com os elementos que nos estão, nos estão disponíveis no momento que nunca são, nunca são da nossa escolha.
5:05
É, é o que está a acontecer no momento, no sítio, à hora que for, com a luz que for e desse momento conseguir antecipar, antecipar aquilo que vai acontecer.
EE mostrar a realidade da melhor maneira possível, sendo que de umas vezes mostramos a realidade num conjunto de imagens, outras vezes 11 só imagem consegue resumir exatamente aquilo que estamos temos à nossa frente.
5:27
Tu vais à procura da da história já agora nasceste em em 1979, começaste no fotojornalismo No No Algarve e agora trabalhas Na Na agência lusa.
Não.
Então conta, me conta, me conta me tudo.
Então eu sou professor de educação física, de formação.
5:44
Comecei a fotografar muito tarde, às 25, já já depois de de estar a dar aulas, então.
Qual foi o clique?
O clique foi mesmo foi exatamente um clique com uma numa viagem com amigos a Itália e já tinha acontecido bastantes vezes a ver o curso de de fotografia do IPF em Faro, onde eu vivia ainda em Rolo em fotografia analógica e revelação e alguns amigos meus.
6:09
Tinham conseguido fazer o curso e eu nunca consegui entrar por agenda, por outras coisas que fazia também ao mesmo tempo.
E nunca consegui fazer o curso.
E no verão desse meu segundo ano já a trabalhar como professor de educação física, fui fazer uma viagem com um desses amigos e outro e outro a Itália, que é o Ricardo Ricardo barradas.
6:29
E nessa v
Por que amamos quem amamos?
Porque é que, mesmo amando, desejamos outro?
E porque é que, tantas vezes, aquilo que devia aproximar-nos acaba por nos separar?
Quis saber tudo com o psiquiatra José Gameiro e especialista em amores e casos mau parados, separações e ressurreições relacionais
A comunicação é o fio invisível que sustenta o amor — e também o primeiro a romper-se quando a relação se gasta.
Triângulos amorosos: por que nos metemos nisso? José Gameiro
O tom muda, as palavras rareiam, o silêncio instala-se.
E, no entanto, é aí, nesse vazio, que o coração humano tenta reinventar o diálogo — consigo próprio e com o outro.
O episódio de hoje mergulha nesse território onde razão e emoção se confundem.
O nosso convidado é José Gameiro, psiquiatra, especialista em relações de casal e autor do romance O Outro — uma história que fala do desejo, da culpa e da busca impossível por completude.
Um romance sobre o que acontece quando o amor não chega, quando o quotidiano se torna demasiado previsível e o coração, insatisfeito, decide procurar sentido fora de casa.
Mas “O Outro” não é apenas uma narrativa sobre infidelidade.
É uma reflexão sobre o ser humano moderno — fragmentado, dividido entre o que sente e o que deve sentir.
E, sobretudo, sobre a forma como comunicamos dentro das nossas contradições: o que dizemos e o que calamos, o que confessamos e o que escondemos.
Porque os triângulos amorosos, no fundo, são também triângulos de comunicação.
Há sempre três vozes em conflito: a da verdade, a do desejo e a do medo.
Uma pede liberdade, outra pede pertença, a terceira tenta salvar a imagem que temos de nós próprios.
E é nesse campo minado que o amor contemporâneo tenta sobreviver.
Há quem pense que comunicar é escolher as palavras certas.
Mas comunicar é, acima de tudo, ter coragem para expor as nossas incoerências.
É suportar a nudez emocional de dizer “já não sei o que sinto”, e ficar ali — em silêncio — à espera que o outro não fuja.
Primeira lição:
O amor é uma língua que se fala com hesitação.
Não há gramática perfeita, nem tradução fiel.
As palavras envelhecem, os gestos mudam de sentido.
O que ontem significava amor, hoje pode soar a tédio.
Comunicar bem é aceitar que o idioma da intimidade tem de ser reaprendido todos os dias.
Segunda lição:
As relações não se quebram por causa do conflito, mas por falta de diálogo.
O não-dito é o verdadeiro veneno.
A omissão, o silêncio, a ausência emocional: são eles que corroem a ligação entre duas pessoas.
Gameiro recorda que não há pior solidão do que a de quem vive acompanhado, mas deixou de ser ouvido.
Terceira lição:
Amar não é possuir, é compreender.
Cuidar do outro é compreender o seu medo, a sua fadiga, a sua necessidade de espaço.
É saber rir no meio do caos, escutar sem interromper, aceitar que o amor também precisa de ar.
No fundo, esta conversa é sobre os dilemas universais da comunicação: o que acontece quando o discurso íntimo se esgota, quando o desejo se transforma em culpa, quando o humor desaparece e o silêncio se instala.
E é também sobre a redenção possível — o reencontro entre dois seres que aprendem a falar de novo, com menos certezas e mais ternura.
Porque o amor, como a linguagem, só existe enquanto é praticado.
Não há manual de instruções, mas há uma ética: a de tentar compreender o outro antes de se defender de si próprio.
E talvez seja essa a lição maior do episódio de hoje:
que comunicar é, sempre, um ato de amor.
E que o amor, quando se comunica mal, transforma-se num espelho estilhaçado — onde cada pedaço reflete uma parte de nós que ainda não aprendemos a escutar.
Neste episódio do Pergunta Simples, José Gameiro — psiquiatra, especialista em relações de casal e autor de O Outro — ajuda-nos a decifrar o amor, o desejo e o silêncio.
Falamos de triângulos amorosos, de empatia e das palavras que podem salvar uma relação.
Uma conversa sobre o que nos une, o que nos separa e o que ainda vale a pena tentar compreender.
LER A TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO
0:13
Ora, vivam bem vindos ao pergunta simples, o vosso podcast sobre comunicação.
Há perguntas que atravessam séculos e resistem às respostas mais fáceis.
Porque amamos quem amamos?
Porque é que mesmo amando, desejamos outro?
E porque é que tantas vezes aquilo que deveria aproximar nos acaba, afinal, por nos separar?
0:32
Quis saber tudo sobre isto com o psiquiatra José gameiro, um especialista em amores e casos malparados, em separações e em ressurreições relacionais.
É tudo isto que vai poder ouvir uma pergunta simples desta semana, a comunicação é o fio invisível que sustenta o amor e também o primeiro a romper.
1:00
Se quando a relação se gasta, o tom muda, as palavras rareiam, o silêncio instala se.
E, no entanto, é aí.
Nesse vazio que o coração humano tenta reinventar o diálogo consigo próprio e com o outro.
O episódio de hoje mergulha nesse território onde a razão e a emoção se confundem.
1:17
O nosso convidado é José gameiro, psiquiatra especialista em relações de casal, autor do romance o outro, o seu novo livro, uma história que fala do desejo, da culpa e da busca impossível.
Pela completude, um romance sobre o que acontece quando o amor não chega, quando o quotidiano se torna demasiado previsível e o coração insatisfeito decide procurar um sentido fora de casa.
1:40
Mas o outro, o título do livro, não é apenas uma narrativa sobre infidelidade.
É muito mais do que isso.
É uma reflexão sobre o ser humano moderno, fragmentado, dividido entre o que sente e o que deveria sentir e, sobretudo.
Sobre a forma como comunicamos, dentro das nossas contradições, o que dizemos e o que calamos, o que confessamos e o que escondemos.
2:01
Porque os triângulos amorosos, no fundo, são também triângulos de comunicação.
Há sempre 3 vozes em conflito, a da verdade, a do desejo e a do medo.
Uma pede Liberdade, outra pede pertença e a terceira tenta salvar a imagem que temos de nós próprios.
2:19
E é nesse campo minado que o amor contemporâneo tenta sobreviver.
Há quem pense que comunicar é escolher as palavras certas, mas comunicar é, acima de tudo, ter coragem para expor as nossas incoerências é suportar a nudez emocional de dizer já não sei o que sinto e ficar ali em silêncio, à espera que o outro não fuja.
2:41
Tenho por isso 3 lições que aprendi ao longo desta conversa.
À primeira é que o amor é uma língua que se fala com hesitação.
Não há gramática perfeita, não há tradução fiel.
As palavras envelhecem, os gestos mudam de sentido.
O que ontem significava amor hoje pode soar a tédio.
2:58
Comunicar bem é aceitar que o idioma da intimidade tem de ser reaprendido todos os dias.
A segunda lição é que as relações não se quebram por causa do conflito, mas por falta de diálogo.
O não dito é o verdadeiro veneno ou emissão, o silêncio, a ausência emocional.
3:14
São eles que corroem a ligação entre 2 pessoas.
José gameiro recorda que não há pior solidão do que aquela de quem vive acompanhado, mas deixou de ser ouvido.
A terceira lição é que amar não é possuir, é compreender.
Cuidar do outro, é compreender o seu medo, a sua fadiga, a sua necessidade de espaço.
3:32
É saber rir no meio do caos, escutar sem interromper, aceitar que o amor também precisa de ar, de oxigénio no fundo.
Esta conversa é sobre os dilemas universais da comunicação.
O que acontece quando o discurso íntimo se esgota, quando o desejo se transforma em culpa, quando o humor desaparece e o silêncio se instala.
3:51
E é também sobre a Redenção possível, o reencontro entre 2 seres que aprendem a falar de novo, com menos certezas e mais ternura.
Porque o amor como linguagem só existe quando é praticado.
Não há manual de instruções.
Mas há uma ética, a ética de tentar compreender o outro antes de se defender a si próprio.
4:09
E talvez esta seja a lição maior deste episódio, que comunicar é sempre um ato de amor, que o amor, quando se comunica mal, transforma se num espelho estilhaçado, onde cada pedaço.
Reflete uma parte de nós que ainda não aprendemos a escutar, psiquiatra, psicólogo, agora escritor, romancista.
4:29
Sou psiquiatra ou sou psicólogo?
Psiquiatra, mas mas é doutorado em psicologia.
Sou doutorado em psicologia, mas sou psicólogo, sou psiquiatra, sou médico.
E agora, como é que se meteu AA escrever um livro a escrever um a escrever um romance?
Eu acho que não quer dizer.
A editora chama lhe um romance formalmente.
É porque não é um livro técnico, quer dizer, quando com o juíz, com o outro.
4:46
Descobri até agora sobre casais.
Tinham muita técnica, de trapeia de casal, o que é que acontecia, como é que era, como é que não era, como é que ele fazia, como é que os casais faziam?
Este não tem nada de técnico, rigorosamente nada.
Isto são 3 personagens que se cruzam ao longo da vida e é uma história de um diário.
São 3 diários íntimos de 3 pessoas, um casal EE uma terceira pessoa, que é o outro, que é.
5:06
O que é o título ao livro, não é?
Que é o outro não é uma outra não.
É o outro de propósito, é o outro, porque a gente está muito habituados à outra e eu achei é pá.
Temos um preconceito de lavar a cabeça.
Temos algum preconceito?
Não é um outro, é um outro.
É um homem que está sozinho e que ainda na altura se apaixona por uma mulher que é casada.
5:24
E é muito típico no.
Por um lado, não é técnico, não tem nenhuma intervenção técnica e é típico no sentido em vários sentidos, no sentido em que ela entra e sai de casa várias vezes, como é habitual, não é?
O marido tem uma aceitação na medida do possível, como é evidente, não é porque não fica, para mim satisfeito, não é, mas em relação a entrar e o marido.
5:48
Mantém se e os filhos mantêm se a níveis de tensão aceitáveis, apesar do que está a acontecer.
E depois é uma altura em que eu vou contar a história, não é?
Há uma altura.
Isto decorre ao longo para aí de 1 ano, não decorre mais tempo que isso.
E há uma altura em que ela ela nunca se sentiu muito confortável na relação fora do casamento, não provavelmente por razões éticas que que as tinha também, como é evidente, não é, mas não pro
Imagina um mundo onde as cores não se distinguem.Onde o vermelho e o verde se confundem, o azul é um rumor distante, e o laranja — aquele que te faz lembrar o verão — é apenas um tom indecifrável.É esse o mundo de 350 milhões de pessoas no planeta: o mundo dos daltónicos.Mas este episódio não é sobre visão. É sobre comunicação — sobre como o modo como representamos o mundo pode incluir ou excluir milhões de pessoas. O que as cores nos ensinam sobre comunicação? um tema essencial para entendermos melhor a diversidade na percepção das cores.
A cor, afinal, é linguagem.E quando uma linguagem não é compreendida, o resultado é o mesmo de qualquer conversa mal traduzida: ruído, frustração, isolamento.Foi ao reparar nesse ruído que um ‘designer’ português, Miguel Neiva, decidiu criar o ColorADD: um código visual que permite a quem não distingue cores… distinguir o mundo. O que as cores nos ensinam sobre comunicação? Miguel Neiva é uma reflexão que merece ser partilhada.
Parece uma ideia simples — e é precisamente aí que está o génio.Porque comunicar bem é quase sempre isto: traduzir o complexo em claro, o técnico em humano, o invisível em visível.O ColorADD nasceu no cruzamento entre design e empatia — e tornou-se uma nova forma de linguagem.Mas esta conversa vai muito além do código. É sobre o que significa comunicar com propósito.E sobre o que o design, a ciência e o ensino podem aprender uns com os outros quando o objetivo é servir o ser humano. O que as cores nos ensinam sobre comunicação? Miguel Neiva deve ser uma parte vital de nosso entendimento sobre as relações humanas.
Num tempo em que tanto se fala de inovação, o que distingue uma boa ideia de um simples artifício é a capacidade de resolver um problema real de forma compreensível a todos.É isso que Miguel Neiva nos ensina: que o design é, no fundo, uma forma de tradução — a arte de dar forma visível às necessidades invisíveis.
Ao longo da conversa, há três grandes lições de comunicação que ficam:1. A clareza é uma forma de respeito.Quando simplificamos uma mensagem, não a empobrecemos: tornamo-la acessível.E isso é um ato ético, não estético.2. Uma boa ideia só existe quando é compreendida.É fácil criar símbolos, difícil é criar significado.A comunicação verdadeira exige empatia — ver o mundo com os olhos dos outros, mesmo quando esses olhos não veem as mesmas cores.3. O design é linguagem.Cada forma, cor, símbolo ou ausência deles comunica.O segredo está em desenhar para todos, e não apenas para quem já entende o código.
Há, portanto, algo de profundamente político e humano nesta conversa.Falamos de um sistema de cores, mas também de como nos vemos e ouvimos uns aos outros.De como o ruído, o preconceito e o ego são as verdadeiras “cores trocadas” da comunicação humana.
No fundo, esta é uma história sobre o poder da simplicidade.Sobre como uma linguagem clara pode tornar o mundo mais habitável, mais justo — e mais bonito.E talvez seja esse o papel de quem comunica, ensina ou lidera: transformar o invisível em compreensão.Como Miguel Neiva fez com as cores, também nós podemos fazer com as palavras.
LER A TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO
00:00:00:00 – 00:00:06:10
Desconhecido
Viva Miguel Neiva, designer conhecido por ser o criador do Colorado.
00:00:06:13 – 00:00:37:07
Desconhecido
Vamos já falar sobre isso. Um código de cores que ajuda as pessoas daltónicos a saber que cor é aquela que ali está. Quem não é daltónico provavelmente nem sequer entende bem a dificuldade de disrupção que pode significar no mundo dessas pessoas. Viva Miguel, Tens uma cor favorita? Tenho uma coisa favorita e é muito curioso. Eu visto sempre de preto e se me perguntares como que preto não, confesso que não sei, mas a minha cor favorita é o laranja.
00:00:37:09 – 00:01:10:24
Desconhecido
Isso é muito engraçado porque. Memórias de infância O laranja era a cor sempre desprezada pelos meus amigos quando jogávamos jogos. E pior que o amarelo, era porque o laranja não havia nenhum clube de futebol laranja. Por isso o vermelho porque era dois ficam no Porto, um criou o verde e o laranja ficava sempre por último lugar. E eu criei uma relação muito engraçada com o laranja e o laranja e o azul são as minhas cores de eleição, embora não exista más, mas são as minhas cores de eleição.
00:01:10:26 – 00:01:35:27
Desconhecido
As cores dizem nos coisas, dizem nos e é muito engraçado e não sei se estou a antecipar aquilo que vamos falar lá à frente. Mas nós temos duas relações com a cor e além de cada um de nós, é uma racional e todos nós nos relacionamos, afinal, cada um tem uma relação.
00:01:35:29 – 00:02:07:23
Desconhecido
De partidos e até questões culturais. O nosso grupo é preto e branco, mas essa relação com cada um de nós, cada um de nós, tem com a cor da questão emocional. E muita tem a questão da psicologia, da cor. As pessoas, a maior calma de um bandeira, mas mostrando o meu trabalho em toda a minha relação com a cor, transportou me muito para a vertente racional da economia.
00:02:07:23 – 00:02:11:02
Desconhecido
Pois não é só.
00:02:11:05 – 00:02:31:09
Desconhecido
A desigualdade efetivamente entendida por todos da mesma forma. Portanto, sabemos que um vermelho e um vermelho sabemos que um azul é um azul. E o que é que ele significa? Um exemplo dos semáforos aí, é claro, não é? Estava de manhã para parar e, portanto, convém que a gente saiba porque é que não vermelho, se inícios foram conversações que se foram criando.
00:02:31:11 – 00:02:53:24
Desconhecido
Curiosamente mostra o quanto a sociedade se esqueceu que havia pessoas que não os viam corretamente, porque a ligação do verde e a maioria da confusão que um daltónico faz. E é precisamente sobre essas duas cores, exactamente entre o vermelho e o verde e que é o mais frequente grau de daltonismo. Tem incidências sobre a confusão de grandes, vermelhos, laranjas e dá a volta.
00:02:53:26 – 00:03:15:22
Desconhecido
Então significa que um condutor daltónico que olhe para um semáforo, eles estão na mesma ordem. Lá está o vermelho em cima, o amarelo e verde. Todos sabemos disso. Em princípio, fotograficamente, ele não recebe, não entende o vermelho como um vermelho. Ele não vê o vermelho, se tiver, se for daltónico. Isso é o que eu já estou perdido. O que é que.
00:03:15:24 – 00:03:37:05
Desconhecido
O que quer dizer esses temas todos, todas essas palavras todas que tu acabaste de nos colocar aqui? Há vários graus de daltonismo. Sendo que o mais frequente chama se ele transmitem experiências. Sobre a confusão, tem a.
00:03:37:08 – 00:04:17:24
Desconhecido
Para aí com muito pouca informação. É uma informação muito. Técnica ou científica? E relativamente àquilo. Que nós, o comum, tem que trocar as cores ou. Não, não é nada disso. E até me confunde cor com incidência muito grande sobre os vermelhos e os verdes, naturalmente, porque de outra mais pequena para os graus de incidência são de diferentes cores que tem a ver com os vários.
00:04:17:26 – 00:04:36:13
Desconhecido
E por isso a questão dos semáforos. Como falavas a orientação verde. Em baixo vai ver o vermelho verde, mas vai confundir mas a intensidade da luz que é escolhida por.
00:04:36:15 – 00:04:41:05
Desconhecido
Ter mais tempo, inclusivamente na frente.
00:04:41:07 – 00:05:01:25
Desconhecido
De. Estando no trânsito, já que falamos disso, não tem a ver só com os mapas, tem a ver com os sinais de estar sentado da frente. É uma luz, muito pouco. É uma cor que estava muito pouco dada. Por isso os laboratórios.
00:05:01:27 – 00:05:31:15
Desconhecido
E por isso não projectaram muito a luminosidade de mais tempo para ter a certeza que também está em exposição é porque precisa de mais tempo para reagir. Estou a pensar mais tempo para olhar. Então. E haveria uma cor, uma certa alternativa que pudéssemos colocar ao lado dos vermelhos, dos dos sinais de stop do carro para nós sabermos, para os daltónicos conseguirem perceber que está a travar os brancos, os amarelos, Não faço a mínima ideia.
00:05:31:15 – 00:05:43:07
Desconhecido
Seria uma exceção. Trouxeram nos o vermelho no para e o verde porque é norma, porque é uma norma, uma norma, uma composição de.
00:05:43:09 – 00:05:53:15
Desconhecido
Um dos autores não está entre os interesses de toda a gente ser discriminada precisamente por isso.
00:05:53:17 – 00:06:21:28
Desconhecido
Porque são tudo isso por causa dos partidos vermelhos que são as grandes, as grandes. Olha o que o design te ensinou sobre o processo de comunicação entre seres humanos. É muito engraçado. Eu costumo dizer que eu sou designer de formação e de paixão e não posso dizer O design é o seu conceito. Aquilo que hoje se fala de design é muito da mitologia, do design.
00:06:21:28 – 00:06:57:19
Desconhecido
Nós temos no nosso dia a dia uma decisão de como agora está na moda. Agora está na moda perceber o nome das coisas, mas sempre, sempre foi assim. Mas. Mas eu sempre acreditei que o design é muito mais do que criar bonito. Gente, sempre acreditei que tinha a competência e a missão de poder fazer um mundo melhor. E esta questão do daltonismo enquanto designer não daltónico, porque fez com que eu conseguisse trazer todo aquele conceito do design de forma adequada à função simplicidade de toda a gente.
00:06:57:19 – 00:07:19:12
Desconhecido
Não consigo entender. Então é dizer não é aquilo que é bonito. Quando nós olhamos para uma cadeira e para quando nós olhamos para um prédio e quando nós olhamos para uma mesa e dizemos Olha, bonito, Design não é o que não é ou é funcionalidade, Acho que é um bocado redutor, entende? Se isso e eu entendo isso naquela ideia de que as pessoas associam o design, a estética, ao belo.
00:07:19:14 – 00:07:53:10
Desconhecido
A função também é função. E esse equilíbrio faz com que o design possa chegar a todos e temos uma participação importante. Temos aquela ideia. É muito relevante isso. A informação tem que ser simplificada, ao ponto de toda a gente, independentemente da sua cultura visual, da sua formação, aqui e em qualquer lado do mundo, consigam
Há histórias que parecem começar com um silêncio absoluto.
Um silêncio que não é apenas a ausência de som — é a ausência de luz, de perspetiva, de chão.
O que acontece quando a vida apaga o ecrã que julgávamos indispensável para nos orientarmos?
Como se comunica quando os olhos já não podem dizer o que o corpo sente?
Este episódio do Pergunta Simples é sobre um desses pontos de viragem. E é também sobre a força de uma voz que se recusa a ser reduzida a uma condição.
Ricardo Miguel Teixeira perdeu a visão na passagem da adolescência para a idade adulta. Tinha 18 anos, uma vida por desenhar e uma expectativa de normalidade igual à de qualquer jovem da sua geração. Subitamente, foi confrontado com a escuridão e com o peso do preconceito. Não apenas o preconceito social — das alcunhas, do paternalismo, da exclusão — mas sobretudo o preconceito linguístico. As palavras com que a sociedade olha para a diferença: “coitadinho”, “inclusão”, “tolerância”. Palavras que parecem bondosas, mas escondem distâncias e barreiras invisíveis.
Ao longo desta conversa, emergem três grandes lições sobre comunicação:
Primeira lição: a linguagem não é neutra.
Aquilo que dizemos molda como percebemos os outros. Ao chamar “coitadinho” a alguém, não descrevemos apenas uma condição; inscrevemos essa pessoa num lugar de subalternidade. A comunicação, aqui, torna-se uma ferramenta de poder. Ricardo lembra-nos que é possível inverter essa lógica com humor — usando a comédia como contranarrativa, desmontando estereótipos e criando espaço para uma relação mais verdadeira.
Segunda lição: comunicar é também aprender a ler o corpo.
Numa sociedade visual, esquecemo-nos de que a comunicação não passa apenas pela vista. Ricardo, que trabalha com bailarinos e artistas, mostra como os gestos, o ritmo, a respiração e a ocupação do espaço são formas de linguagem tão ricas quanto a palavra. Ensinar de olhos vendados, como faz nos seus workshops, é ensinar a escutar o corpo. É perceber que comunicar não é só falar, é também sentir e interpretar sinais invisíveis.
Terceira lição: comunicar é criar redes.
A comunicação não existe sem eco. Ninguém constrói um percurso sozinho. Amigos, família, colegas de trabalho — todos formam a teia que sustenta as histórias individuais. Ao longo da vida, Ricardo aprendeu que pedir ajuda não é um gesto de fraqueza, mas de inteligência comunicacional. Reconhecer a interdependência é reconhecer que o diálogo é sempre um exercício coletivo.
Este episódio não é apenas sobre a cegueira ou sobre a superação pessoal. É sobre a forma como olhamos — e falamos — uns com os outros. É sobre o risco de transformar a diferença em rótulo e a necessidade de a integrar como normalidade. É sobre como as palavras que escolhemos podem abrir portas ou fechar mundos.
Na tradição das grandes crónicas radiofónicas, esta é uma conversa que não se limita a narrar uma biografia. É um ensaio vivo sobre linguagem, sociedade e comunicação. É um convite a pensar até que ponto cada um de nós, no quotidiano, contribui para a exclusão ou para a aceitação.
Ricardo Miguel Teixeira traz-nos, em registo cru e sem filtros, a memória da dor, mas também a ironia que salva. Usa o humor como ferramenta crítica e pedagógica, recusa o conforto do politicamente correto e insiste na urgência de aceitarmos a diversidade sem diminutivos, sem piedade, sem paternalismo.
No fundo, este episódio responde a uma pergunta central:
como comunicar melhor num mundo onde a diferença ainda é olhada de lado?
Fique connosco. Vais descobrir que, às vezes, é preciso fechar os olhos para aprender a ver — e a comunicar — de forma mais humana, mais justa e mais verdadeira.
Este episódio do Pergunta Simples mostra como a linguagem e o humor podem mudar a forma como olhamos a diferença. A missão do programa é simples: aprender a comunicar melhor. Partilhe a sua opinião, deixa comentários e ajuda-nos a levar estas conversas mais longe.
LER A TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO
Viva Ricardo Miguel Teixeira, muito bom dia. Humorista, és argumentista e recuperas,
recuperas e lesões, lesões de performers, de artistas, de
pessoas que precisam de dançar. Trabalho com bailarinos, precisamente com bailarinos. Não trabalho só com bailarinos, mas
maioritariamente. Sim. E eles são difíceis quando pessoas ou pacientes? com pacientes são impacientes.
Não são impacientes, são persistentes no trabalho deles. Podem ter uma fratura,
uma rotura, vão para palco na mesma. Não interessa. Eh, raramente aparece um bailarino a dizer: “E pá, não quero
trabalhar por causa disto”. O objeto muitas das vezes o trabalho é fazê-los, é convencê-los de que têm que estar
parados a parar, porque não podes fazer isso. Tá quieto. É muito, mas é muito difícil isso. É
muito difícil porque eles ficam frustrados. Já quero falar desta parte do teu trabalho. Tu usas a ferramenta humor no fundo para
afastar os teus fantasmas, imagino, para te recuperares, porque há um acaso, um
acidente ou um duplo acidente na tua vida que te retira a visão. Queres-me contar essa história desde o início? Eu
eu nasci sem problemas oftalmológicos, mas com 7 anos perdi a visão do olho esquerdo porque pronto, parti a cabeça.
Um foi um um embate muito forte para com descamenteo retina no olho esquerdo. Ainda muito ainda ainda fiz cirurgias
ainda tentaram recuperar não foi recuperável na altura. Eh, portanto, aos 7 anos fiquei fiquei cego do olho
esquerdo. Depois o que é que te lembras dessa altura? Ah, dessa altura não tenho assim grandes
memórias. Eu eu eu descobri, eu percebi que tinha que não estava a ver do olho
esquerdo a brincar porque estava a espreitar por um tubo e
punha-me a espreitar por um por um olho e pelo outro e e reparei que quandoitava pelo olho esquerdo não via. Hum.
É assim, era um miúdo perfeitamente normal. Era um miúdo que, pronto, fazia, era um miúdo de 7 anos normal. Pronto,
andava sempre lá para outro, sempre a correr, sempre aquelas coisas normais. Depois, hã, comecei a ter alguns
problemas mais tarde no olho direito, h, que começaram a surgir também devido a
esse, a esse pancadão que dei na altura. Hum, começaram a surgir uma série de
outros problemas. Tive um desculamento de retina, também comecei a ter problemas de tensão ocular, portanto
glaucoma e tive que ser operado também ao olho direito. Aí correu tudo bem,
fiquei fiquei a ver bem. Eh, fiquei com marcas muito visíveis no olho, que que
foi foi ótimo para a adolescência, né? Hum. Para a tua autoestima também, imagino.
Para tudo, para a autoestima. E porque é pá, adolescentes, principalmente ali entre os 13 e os 15, 16, são aquilo que
são, não é? Portanto, eu na escola durante todo esse período, eu até aos meus 18 anos, hum, em três escolas,
portanto primária e no secundário do quinto ao nonº fiz numa escola, depois ao 10º fui para outra.
O que é que acontecia? Era por causa dessas marcas. Neste caso era uma marca, o olho direito estava visivelmente saliente devido ao glaucoma. Eh, e pá,
bocas e nomes, alcunhas, era todos os dias. Isso era certinho. Pronto, desde
manhã à tarde, desde que entrava na escola, praticamente até que saía. Isso era de maltrato. Sim, sim, sim. Eh, era o olho morto, o
olho vivo, sei lá. Era, pronto, era todo um todo um dicionário de de nomes
e a linguagem pesa, obviamente. Eh, sim, mas pesavam mais às vezes a questão física, porque também acontecia.
HH de vez em quando vinham assim carícias a alta velocidade, bati-te, chegou a acontecer. Chegou, cheguei a
ser agredido por causa disso na escola e na rua. Portanto, sim, portanto, sem sem nenhum
motivo, não era aquele, é aquele era aquele h uma lógica quase social
daquela comunidade de de bater naquilo que é mais fraco. É um bocadinho, é um bocadinho porque depois eu isolava-me também, não é? e
não não repostava, não não respondia, não depois passei a responder e houve
uma vez ou outra que que que respondi fisicamente, mas já assim para aí com 17
anos, 16, 17, começou assim a ferver um bocadinho, não é? E a paciência começou-se a a esfumar.
E o círculo dos teus amigos, lá está, tinha um um núcleo pequeno, mas forte.
Normalmente é sempre assim, né? são são núcleos pequeninos. Tinha e tenho ainda um um dos meus melhores amigos, um
grande amigo meu que pá conhecemos desde os 5 anos, desde a prim, desde a pré-primária, 5 se anos.
H, que sempre se manteve comigo, eh, sempre se manteve perto de mim, sempre
me ajudou tremendamente. Depois, mais tarde, conheci uma amiga minha com 17 anos. Aos 17 anos
tínhamos os dois, que ficou uma irmã até hoje. Hã, e ela apanhou precisamente,
ela conheceu-me e poucos meses depois eu perdi a visão, portanto ela apanhou ali aquela transição. Hum.
E e um outro amigo meu que eh vive agora tá a viver na Alemanha já há uns bons anos fomos colegas, conhecem-nos no 10º
ano quando mudei de escola. Hum. Hum, foram assim naquela altura, foram assim,
eram assim os três fortes, eram assim os três e fora
amigos, eram assim aqueles três fortes. Os meus pais tiveram sempre presentes, sempre, sempre, sempre, sempre. Eh,
deram-me sempre toda a ajuda, todo o apoio que que podiam dar, que que conseguiam dar. Hum,
mas lá está, o meu período de escola eh foi,
eu não quer dizer traumático, porque não guardo traumas dessa altura, não guardo rancores dessa altura. Eh, mas foi foi
puxadote, porque assim, vontade de ir à escola depois era nenhuma, não é? E isso chegou-se a refletir nas notas,
obviamente, não é? Eh, porque vontade de estudar era, n, eu sempre fui
um miúdo de apanhar muito de ouvido. Eu não sabia estudar, eu próprio dizia que não sabia estudar. Eu era muito de
apanhar ouvido. Tudo o que apanhasse ficava. HH Só que depois, lá está, para já era
altamente seletivo nas disciplinas. as minhas a pauta das minhas notas ou a minha pauta parecia sempre uma montanha
russa de um bêbado porque disciplinas que eu gostasse era tinha notas
altíssimas e nas outras queridas lá as outras era um abismo desgraçado e por ali abaixo com uma pinta que tipo nem se
via aquilo nem estava no negativo aquilo estava menos ne
Todos os meses chega a mesma carta. O extrato, a fatura, o débito direto. E todos os meses repetimos o mesmo ritual: abrimos o envelope, olhamos para os números, franzimos o sobrolho — e seguimos em frente. Como se o dinheiro fosse somente uma rotina inevitável. Mas não é. O dinheiro é linguagem. E como qualquer linguagem, precisa de ser aprendida, dominada, comunicada. Hoje em dia, compreender como gerenciar o dinheiro: gastar, poupar e investir, especialmente no que se refere ao Dinheiro: gastar, é essencial.
A literacia financeira não é uma disciplina de economia. É uma forma de comunicar melhor connosco próprios e com quem nos rodeia. Quando dizemos “não posso comprar”, não estamos apenas a recusar um consumo — estamos a dizer ao futuro: “dou prioridade à tua segurança”. Quando dizemos “eu mereço”, estamos a enviar uma mensagem ao presente: “preciso deste conforto agora, mesmo que o preço seja amanhã”. O dilema financeiro é, sempre, um dilema de comunicação e, por isso, o Dinheiro: gastar é uma habilidade que todos devemos desenvolver.
E a verdade é dura: a maioria de nós fala mal esta língua. Ganhamos salários inteiros, mas pouco sobra. Temos dívidas que não sabemos explicar. Somos enganados em pequenas taxas, juros invisíveis, contratos de letra miúda. Chamamos-lhe azar, chamamos-lhe crise, mas dizemos raramente o que é: falta de literacia.
Dominar o dinheiro: gastar de forma consciente pode transformar nossa relação com a economia e com nossas finanças pessoais.
É aqui que entra o jornalismo — não apenas para relatar, mas para capacitar. Transformar números em histórias compreensíveis, transformar relatórios em escolhas práticas. Foi isso que o Pedro Andersson, jornalista da SIC percebeu: que um jornalista não tem só a missão de informar, tem também a de ajudar a viver melhor. Daí nasceu uma rubrica televisiva que se tornou referência nacional: o contas-poupança .
Ao longo desta conversa, extraímos três lições simples e universais:
A primeira é a pergunta certa:
Para onde está a ir o nosso dinheiro?A segunda é o poder da escolha: cada “não” que dizemos hoje é uma mensagem de futuro.E a terceira é a liberdade: não é ser rico, é poder decidir.
Falamos de casas a preços impossíveis, de carros que não precisamos de ter, de supermercados onde a inflação parece duplicar a conta. Mas também falamos de estratégias concretas: renegociar contratos, comparar preços, cortar despesas inúteis. Comunicação pura, aplicada à vida real.
Este episódio não traz fórmulas mágicas. Mas deixa um espelho. E nesse espelho, cada resposta é uma pergunta que se devolve a quem ouve: sabemos explicar as nossas prioridades à família? Sabemos falar com os bancos? Sabemos ouvir os sinais que estão escondidos num extrato?
A maior riqueza não é o dinheiro em si. É a capacidade de escolher — sem medo, sem pressa, sem ilusões. Porque comunicar bem com o nosso dinheiro é, no fundo, comunicar melhor com a nossa própria vida.
LER A TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO
0:12
Ora, vivam bem vindos ao pergunta simples, o vosso podcast sobre a comunicação.
A pergunta do dia é, sonham em ser ricos algum dia, ganhar o euromilhões, investir na bolsa e ter sorte ou mudar para um emprego das arábias com um salário de futebolista?
0:29
Só que a maioria de nós lida com rendimentos mais modestos e com as pequenas despesas que parecem furos no nosso tanque dos rendimentos.
Este programa é sobre isso, sobre o que sabemos sobre o dinheiro e o que fazemos com isso.
0:54
Todos os meses chega à mesma carta, ou OE mail, o extrato, a fatura, o débito direto.
E todos os meses repetimos o mesmo ritual, abrimos o envelope ou OE mail, olhamos para os números, trazemos o sobrolho e seguimos em frente e pagamos a conta.
Claro, como se o dinheiro fosse apenas uma rotina inevitável.
1:13
Mas não é.
O dinheiro é uma linguagem e, como qualquer linguagem, precisa de ser aprendida, dominada e comunicada a literacia financeira.
Não é uma disciplina da economia, é uma forma de comunicar melhor, connosco próprios e com quem nos rodeia.
1:28
Quando dizemos não posso comprar, não estamos apenas a recusar um consumo, estamos a dizer ao futuro, dou prioridade à tua segurança, dou prioridade ao futuro quando dizemos eu mereço, estamos a enviar uma mensagem ao presente, eu preciso agora, deste bem, deste conforto, mesmo que o preço venha depois, venha amanhã, é.
1:50
No fundo, o dilema dos créditos.
O dilema financeiro é sempre um dilema de comunicação.
E a verdade é dura, a maioria de nós fala mal esta língua, a língua do dinheiro.
Ganhamos salários inteiros, mas pouco sobra.
Temos dívidas que não sabemos explicar.
2:06
Somos enganados em pequenas taxas, juros invisíveis, contratos de letra miúda e afins, e chamamos lhe azar, chamamos lhe crise, mas raramente dizemos que é falta de literacia.
Falta de saber?
Ignorância no fundo.
2:22
E é aqui que entra o jornalismo.
Não apenas para relatar, mas para capacitar, de transformar números em histórias compreensíveis, transformar relatórios em escolhas práticas.
Foi isso que Pedro andresen, jornalista da sic, percebeu muito cedo, que um jornalista não tem só a missão de informar, mas também tenha de ajudar a viver melhor.
2:41
Daí nasceu uma rubrica televisiva que se tornou referência nacional, o contas poupança.
Ao longo desta conversa, eu retirei 3 lições simples e universais.
A primeira é uma pergunta, para onde está a ir o nosso dinheiro?
A segunda é sobre o poder da escolha.
Cada não que dizemos hoje é uma mensagem de futuro, uma espécie de investimento para os dias que hão de vir.
3:02
E a terceira é a Liberdade, não é ser rico, o importante é o poder de decidir.
Nesta conversa, falamos de casas a preços impossíveis, de carros que não precisamos de ter, de supermercados, onde a inflação parece duplicar a conta.
Mas também falamos das estratégias concretas, renegociar contratos, comparar preços, cortar despesas inúteis, comunicação pura aplicada à vida real e ao dinheiro.
3:27
Este episódio não traz fórmulas mágicas.
Mas deixam o espelho e nesse espelho, cada resposta é uma pergunta que se devolve a quem ouve.
Sabemos explicar as nossas prioridades à nossa família, sabemos falar com os bancos, sabemos ouvir os sinais que estão escondidos num extrato.
A maior Riqueza, afinal, não é o dinheiro em si, é a capacidade de escolher sem medo, sem pressa, sem ilusões e com exigência, porque comunicar bem com o nosso dinheiro é, no fundo, comunicar melhor com a nossa própria vida.
3:57
A de agora.
E a do futuro, Pedro, tu vens, tu vens a telefonia?
Venho da TSFO.
Sítio onde tu tu nasceste profissionalmente foi?
Rádio Clube da colher.
Primeiro.
Primeiro sim, ainda estava No No secundário e depois apaixonei.
4:15
Me a primeira vez que entrei na rádio, não.
Não quis saber dos dos gira discos, nem da música, nem nada.
Havia lá uma salinha ao lado em que havia gente.
A escrever à máquina na altura, escrever à máquina era absolutamente normal.
4:31
Haverá pessoas que estão a ouvir este podcast e que não fazem a mínima ideia do que é escrever à máquina.
Portanto, era.
Não havia computadores, portanto, era 11 teclado em que batemos como se fosse um piano, e as letras batiam numa tinta e escreviam numa folha de papel, onde estavam a escrever notícias que depois iam ler às 6 da tarde, ao microfone, e eu disse, eu posso escrever uma notícia, podes?
4:55
Então vamos lá, eu escrevi a notícia.
E eu achei aquilo fabuloso, explicar às pessoas o que estava a acontecer no mundo, neste caso, na nossa Terra, na covilhã.
E nunca mais parei.
Portanto, depois.
Aí o meu sonho era fazer notícias e ser jornalista da rádio.
Hum.
Portanto, tu és o filho.
5:10
O filho.
Aliás, eu também sou filho, filho das da rádio pirata.
Não era pirata, já não era pirata, já não era pirata, mas havia rádios pirata, ou pelo menos nessa fase de transição.
Estamos a falar de muito antes de 97, portanto, eu só comecei mesmo profissionalmente, a ganhar dinheiro já depois de acabar o curso de comunicação social.
5:33
Tirei na universidade da beira interior já em 97, portanto, foi para aí 5 anos antes disso, 567 anos, portanto, nos anos 90.
Como todos os jornalistas.
Toda a gente faz tudo.
É preciso ir fazer todas as coisas, ir cobrir todas as reportagens, ir fazer todos os assuntos, os que a gente entende e os que a gente não entende.
5:52
Lá está.
Depois isso funciona e vais se calhar ao dinheiro.
Porquê?
O que é que te aconteceu?
Uma desgraça.
O que aconteceu foi uma desgraça.
Sabes que isto depois serve de lição de vida?
Não é que.
Se posso ensinar isto às pessoas?
6:09
Mas às vezes, as piores coisas que nos acontecem na vida são as melhores coisas que nos acontecem na vida.
Não se aplica a todos os caras, não.
É?
Claro que não é óbvio.
Então eu queria ser jornalista.
Fui jornalista numa rádio concorrente da tua.
Na TSF, podemos dizer?
6:26
Pronto, OK.
Que era o meu sonho.
Um dia, quando eu fosse muito velhinho e muito bom profissional, depois de ter dado provas de tudo e mais alguma coisa, talvez um dia eu conseguisse chegar à à TSFE, conhecer os meus ídolos, entre aspas, radiofónicos o Fernando Alves na altura, portanto toda aquela gente.
6:47
Alguns desses meus colegas estão agora aqui ainda Na Na antena 1, e passei há bocadinho por eles.
EE vou cumprimentá Los agora quando quando sair.
E portanto, consegui começar logo na TSF.
Portanto, eu pedi estágio AA 30 empresas e só houve uma, que me respondeu que foi à TSF.
7:07
Pronto, mas isto só para agora.
Para simplificar, cheguei à TSFE, fazia tudo, manifestações, greves, desporto, economia, política, tudo e mais alguma coisa.
E era isso o meu objetivo, contar histórias e da da melhor forma possível.
Era esse o meu objetivo.
7:22
Portanto, na altura em 97 eu fui ganhar 700, o equivalente a 700 EUR.
O que era para um rapazito, uma Fortuna, eram 3 salários mínimos nacionais, portanto, à data.
Lá se se regressarmos ao passado, portanto, ganhava bem até o meu futuro sogro.
7:42
Quando lhe disse quanto é que eu ganhava, ele disse, não está mal.
Já podes, j
E se o amor fosse, ao mesmo tempo, a maior bênção e a maior armadilha da nossa vida? Se a infância que tivemos, as presenças ou ausências que sentimos, moldassem para sempre a forma como comunicamos no amor, nas amizades e até na vida profissional? Porque nos sabotamos no amor e na comunicação? Andreia Vieira
A comunicação começa antes das palavras. Começa no olhar de uma mãe, no colo de um pai, no toque de quem nos cuida. É nesse silêncio inicial que se constrói o alicerce invisível da confiança. Quando esse chão falta, todo o diálogo futuro treme — e às vezes passamos a vida a repetir padrões, a sabotar relações, a confundir cuidado com controlo, presença com posse, amor com medo.
Porque nos sabotamos no amor e na comunicação? É uma questão central que muitos enfrentam ao longo da vida.
O episódio de hoje mergulha nesse território íntimo e universal: a comunicação nos afetos. E lembra-nos que comunicar não é apenas falar ou trocar mensagens rápidas num ecrã. É saber ouvir, dar espaço ao silêncio, ler gestos, interpretar olhares. É aceitar que também comunicamos quando não dizemos nada.
Mas como se aprende isso? Como se evita a autossabotagem que destrói tantas relações? E será possível amar sem medo?
A psicologia mostra-nos que as nossas histórias de infância deixam marcas invisíveis que moldam a forma como confiamos — ou desconfiamos. Quando não nos sentimos validados em crianças, arriscamos crescer a procurar provas de amor em cada gesto do outro, testando até à exaustão, muitas vezes afastando quem mais gostaríamos de manter perto. É uma espécie de profecia auto-realizável: “eu sabia que isto não ia correr bem”.
E o que fazer? É aqui que a comunicação volta a ser chave. Comunicar não é apenas falar — é reconhecer emoções, nomear medos, negociar limites. É ter a maturidade de dizer: “hoje não consigo conversar, amanhã retomamos”. É assumir responsabilidade emocional: eu sei que estou em baixo, mas isso não me dá direito a despejar no outro.
Neste episódio aprendemos pelo menos três lições fundamentais sobre comunicação:
Primeira: os vínculos constroem-se na autenticidade. Falar é importante, mas ouvir é ainda mais. Dar espaço ao silêncio é, muitas vezes, o gesto mais humano de todos.
Segunda: as emoções — mesmo as difíceis, como a raiva — podem ser transformadas em energia de proximidade, se forem comunicadas com clareza em vez de usadas como arma.
Terceira: numa era de amores líquidos, de relações descartáveis e ‘apps’ que prometem tudo em segundos, comunicar exige desacelerar. Requer tempo, presença e coragem para enfrentar os medos que carregamos.
O episódio abre também uma reflexão cultural sobre o papel dos homens e das mulheres no século XXI. Entre o peso dos papéis tradicionais e a sedução de discursos radicais que circulam online, muitos homens sentem-se perdidos. E muitas mulheres oscilam entre a autonomia conquistada e a tentação de repetir velhos padrões. Como comunicar nesse novo terreno? Como encontrar equilíbrio entre vulnerabilidade e força, entre presença e liberdade?
Não há receitas mágicas. Há consciência, reflexão e diálogo. Há o trabalho de olhar para dentro e de, em vez de procurar mudar o outro, perceber o que em nós precisa de cuidado.
Este episódio é um convite a revisitar a forma como comunicamos nos afetos, nas relações e até connosco mesmos. Porque comunicar melhor é, afinal, amar melhor — e amar melhor é, sem dúvida, viver melhor.
Vale a pena ser bom? Ou, num mundo cada vez mais polarizado, ser bom é quase um luxo ingénuo?Vale a pena parar, ouvir, acolher a diferença, quando tudo à nossa volta parece empurrar-nos para trincheiras de preto e branco, de certezas absolutas, de opiniões gritadas sem tempo para reflexão?É a velha questão da comunicação: comunicar é conquistar? Ou comunicar é escutar, é abrir espaço, é criar pontes?
Neste episódio do Pergunta Simples viajamos pelo território onde a comunicação se encontra com a liderança, com a vida em equipa, com as nossas escolhas pessoais e até com a forma como a sociedade se organiza. Não é apenas uma conversa sobre empresas ou carreiras — é uma reflexão sobre como nos podemos relacionar melhor uns com os outros. Porque comunicar é isso: um exercício constante de traduzir complexidades em algo que faça sentido, que crie entendimento, que nos permita avançar juntos.
Falamos de como a bondade, longe de ser fraqueza, pode ser uma das mais poderosas ferramentas de comunicação. Num mundo em que agressividade gera agressividade, insistir na gentileza é uma forma de resistência. E aqui surge a primeira lição clara desta conversa: comunicar com generosidade abre espaço para que o outro se revele. Não se trata de convencer, de impor, mas de criar condições para que as diferentes vozes se sintam seguras para participar. Quantas vezes o mais inteligente da sala é precisamente quem está calado? Quantas vezes falhamos por não saber ouvir?
A segunda lição está ligada à liderança. Durante décadas acreditámos que o líder tinha de ter todas as respostas, que era quem decidia sozinho o rumo de uma organização. Mas hoje sabemos que não é assim. Liderar é criar o espaço certo para que os talentos floresçam, para que as diferenças se transformem em riqueza coletiva. É perceber que nem todos têm o mesmo perfil — há os criativos, os analíticos, os voluntariosos, os pragmáticos. O desafio da comunicação está em conseguir juntar tudo isto sem deixar que as diferenças se transformem em guerra. Liderar é sobretudo comunicar com clareza, com humildade e com sentido de propósito.
A terceira lição desta conversa leva-nos ao campo mais pessoal: a comunicação começa em nós. O sucesso não é apenas a carreira, os títulos, os lugares conquistados. O sucesso é a forma como alinhamos a nossa vida com os nossos valores e como conseguimos comunicar esse alinhamento ao mundo. É saber parar para pensar, redefinir o caminho, mudar de opinião quando necessário. É ter a coragem de arriscar, mesmo com medo, e de partilhar histórias que toquem os outros. Porque comunicar não é despejar conteúdos — é ressoar no coração de quem ouve.
No fundo, este episódio é um convite a repensar o que significa comunicar num tempo em que as redes sociais alimentam a polarização, em que os algoritmos reforçam bolhas e em que a pressa parece ter substituído a escuta. Mas também é uma janela de esperança: se acreditarmos na inteligência coletiva, se soubermos envolver todos — dos chefes aos “índios”, dos entusiastas aos críticos — podemos criar um verdadeiro sentimento de pertença, uma cultura de colaboração que faz nascer soluções mais fortes, mais rápidas e mais humanas.
Ao longo desta conversa, fica claro que comunicar é muito mais do que falar. É criar condições para que os outros possam falar. É abrir espaço para a diversidade de perspetivas. É ter a humildade de admitir que não temos todas as respostas. E é, acima de tudo, não esquecer que por trás de cada cargo, de cada função, de cada etiqueta, há sempre uma pessoa — com medos, com sonhos, com valores, com a sua própria história para contar.
Se quisermos resumir: comunicar melhor passa por três gestos simples mas transformadores — ouvir mais do que falar, explicar sempre o porquê e alinhar a nossa vida com o que realmente tem significado. É isso que dá credibilidade, é isso que dá força à palavra, é isso que distingue um comunicador de alguém que apenas emite sons.
É sobre tudo isto que falamos neste episódio do Pergunta Simples, com Susana Coerver. Uma conversa sobre comunicação que é também uma lição de vida.
Ouça até ao fim. Partilhe connosco o que ressoou em si. Subscreva o canal para não perder nenhum episódio e visite perguntasimples.com, onde encontra mais conversas, mais ideias e mais caminhos para comunicar melhor.
No fundo, esta conversa deixou-nos três pistas essenciais: comunicar melhor começa pela gentileza, porque só ela abre espaço para a diferença; exige humildade na liderança, para ouvir e integrar talentos diversos; e pede um alinhamento com os nossos valores, para que as palavras tenham peso e verdade. Talvez não possamos mudar o mundo inteiro, mas podemos mudar a forma como olhamos para o outro — e isso já é uma revolução silenciosa.
O Pergunta Simples é isso mesmo: um espaço para pensar a comunicação como arte de viver. Se esta conversa lhe abriu perguntas ou lhe deu ideias, partilhe connosco. Pode ver ou ouvir todos os episódios no YouTube, Spotify, Apple Podcasts, RTP Play e em perguntasimples.com. E já sabe: subscreva, ative o sino e acompanhe-nos todas as semanas. Porque comunicar melhor é viver melhor.
LER A TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO
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Viva Susana Curver, Mark Tier, comunicadora. Sente-se o quê hoje?
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Muitas coisas. Hoje tenho dificuldade em descrever-me. Eh, talvez assim a coisa que eu me
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identifico mais é uma tradutora de complexidade, talvez. Então, e como é
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que neste mundo, cada vez mais complexo, cada vez mais difícil, como é que nós pegamos nessa complexidade eh que parece
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cada vez acelerar mais e torná-la inteligível para para quem tem muita
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coisa para fazer e e muito para correr? Com kindness, com kindness.
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Podemos, consigo dizer em português, não peça para dizer isso em português. Então eu vou arriscar bondade e eh
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generosidade em relação aos outros. eh traduziria como gentileza gera
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gentileza, que é um lema do Rio de Janeiro. Gentileza gera gentileza.
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Há aí umas raízes familiares seguramente do do Rio de Janeiro também. Eh, quer dizer, o meu pai era americano,
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eh, e dos 30 países onde viveu, o que gostava mais era o Brasil e acabou por decidir ficar no Rio de Janeiro.
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E sente brasileiro. Então, a generosidade gera generosidade. Dá-me a ideia que o mundo hoje em dia, eh, até
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na maneira como como comunica nessa agressividade, pelo contrário, parece
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que estamos no caminho contrário, que é agressividade gera agressividade.
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Então, como é que como é que conseguimos criar esse conceito e pegar essa doença
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às pessoas que é da generosidade, da bondade, da do ser simpático com os
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outros? Eu tenho a certeza que o Jorge não leu o meu post do LinkedIn, mas era
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precisamente sobre isso e gerou-se até uma conversa bastante interessante
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que era eh sobre parece que só temos duas cores, agora é o branco e o preto.
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Parece que independentemente do tema que se tem em cima da mesa, nós temos que escolher um polo, como se não existissem
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outras outras cores pelo meio. Acabaram os cisentos, acabaram os amarelos, acabaram as cores laranjas, temos só
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branco e preto, não? E eu tento todas as todos os dias fazer
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com que existam mais cores. Aliás, no domingo é o meu aniversário e a minha festa vai ser color block, precisamente
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inspirado para que não haja só preto e branco. Hum, mas houve houve comentários
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muito interessantes e houve outras pessoas que que partilham da mesma ideia e esta ideia é de que é também de uma
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máxima que trouxe do Brasil. que eu trouxe lá da minha vida lá trouxe várias e uma delas é: “Prefiro ser uma
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metamorfose ambulante do que ter uma velha opinião formada sobre tudo que é de Raul Seixas, que é nós abrirmos-nos
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para mudar de opinião e não termos só certezas absolutas.
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A a certeza às vezes é um dá-nos coragem, é por aqui que vou seguir. Mas a humildade de perceber que há outras
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formas de pensar eh é o que nos traz a oportunidade de sermos mais kinds. Isso
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obriga-nos a ouvir, obriga-nos a parar e num ritmo a que nós estamos, como
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dizias, eh tá cada vez mais desafiante este desafio de pedir às pessoas para
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parar e pensar um bocadinho no que estamos a fazer. Como é que tu estimulas as pessoas para que elas tenham primeiro consciência
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disso e depois que sejam mais generosas? Então, numa das das perguntas, houve um
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dos comentários que dizia: “Sim, concordo com isso. Há vários, há vários
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tons, mas eh aquilo que sinto é que quando falo com as pessoas, as pessoas
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só ficam muito agarradas à sua ideia e nós não conseguimos trazê-las.
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O facto de nós apresentarmos outras cores não significa que nós temos que impor. Nós só estamos a dar a nossa
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opinião e não temos que dizer com que o outro fazer com que o outro concorde com ela. Tens ideia de onde é que pode vir a
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resistência? Porque em princípio a ideia de eh ser bom, no fundo, apetece-me perguntar-te,
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vale a pena ser-se bom? Eu acho que vale a pena ser-se bom todos os dias e nós todos os dias temos a
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oportunidade de de o fazer. Eh, e vout-e dar um exemplo que é eh às vezes eu em
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alguns encontros ou ou em alguns momentos, porque eu de repente comecei a pensar como é que eu podia pôr isto em prática e o ano passado organizei alguns
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eventos que que eram organizados por mim. De repente, um dia, eh, num sábado,
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numa sexta, decidi, olha, no próximo fim de semana vou organizar um pequeno almoço que é à mesa com a mudança. Isso
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é um momento de reflexão. E desafiei e de repente apareceram 30 pessoas e nós fomos falar sobre,
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ficamos a a debater ideias e parar e refletir sobre aquilo que andamos a fazer. Hum. E e um dos h
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dos tópicos era precisamente esta capacidade que nós temos de de parar e
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de pensar, mas também de ouvir o outro e perceber que sobre um mesmo tema
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apresentamos um vídeo e sobre o mesmo tema há não sei quantas opiniões diferentes. Mas em princípio isso não é mau.
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Vem é em
A ciência começa sempre por uma pergunta.
Vida eterna: Podemos reverter o envelhecimento?
Porquê? Como? Para quê? Podem escolher a melhor.
Perguntas que parecem simples, mas que abrem mundos inteiros de investigação. Maria Manuel Mota gosta de lembrar que a boa ciência nasce assim: não de respostas imediatas, mas da capacidade de formular perguntas certas, no momento certo, com os olhos bem abertos para o que ainda não sabemos.
É a partir desta ideia que nasce o GIMM Fest, um novo encontro internacional em Lisboa que, na sua primeira edição, é dedicado ao envelhecimento e à longevidade. Durante três dias, especialistas de todo o mundo juntaram-se para discutir um tema que nos toca a todos: como vivemos mais tempo e melhor. Em Portugal, a esperança média de vida subiu de 60 anos, nos anos 70, para mais de 80 hoje. Não tarda e estamos nos 90, ou 100.
Mas a questão já não é somente quantos anos acrescentamos à vida. É como garantir que esses anos são vividos com saúde, qualidade e propósito.
Dirigir um festival científico é apenas uma pequena parte do que Maria Manuel Mota faz. Todos os dias lidera uma comunidade de mais de 500 cientistas na Fundação GIMM, instituição criada a partir da fusão do Instituto de Medicina Molecular com o Instituto Gulbenkian de Ciência. O seu trabalho é recrutar talento, abrir espaço para novas ideias e garantir que cada investigador tem as condições necessárias para formular as suas perguntas e procurar respostas. Um retrato de liderança que junta ciência de ponta e gestão humana, num ambiente onde a colaboração conta tanto como a competição.
Mas Maria Manuel Mota é, antes de tudo, investigadora. O seu nome está associado ao estudo da malária, uma doença que continua a matar centenas de milhares de pessoas todos os anos. Passou por Londres e por Nova Iorque, trabalhou com alguns dos nomes maiores da biologia do parasita Plasmodium e ajudou a desvendar como este organismo microscópico invade o fígado humano e se espalha pelo sangue.
Nesta conversa ouvi Maria Manuel Mota falar da importância da intuição e até do acaso na investigação, sem nunca perder o rigor científico. Ouvimos histórias de como uma descoberta pode nascer de um detalhe esquecido ou de uma conversa inesperada. E percebemos como o trabalho de laboratório se cruza com temas que dizem respeito a todos: envelhecer, viver mais tempo, viver melhor.
Tópicos falados
00:12 Abertura — Perguntas, respostas e o espaço entreBoas-vindas e missão do Pergunta Simples: comunicar melhor através de boas perguntas.00:29 Quem é a convidada e o GIMMApresentação da cientista e do centro com +500 investigadores em Lisboa.01:29 GIMM Festival: envelhecimento e longevidadeO que é o festival, por que começa neste tema e o foco em viver mais e melhor.02:14 Liderar 500 cientistasRecrutar talento, criar cultura de colaboração e dar condições para investigar.02:54 Malária em focoPercurso internacional, o Plasmodium e o fígado como palco da infeção.03:09 Intuição, acaso e rigorComo detalhes e conversas inesperadas disparam descobertas científicas sólidas.15:46 Mentores e o “velcro” das celulas na viagem até ao fígadoA influência de Victor Nussenzweig e a experiência que explicou a viagem do Plasmodium até ao fígado.23:24 Perfuração celular: do filme à provaDo registo em vídeo à demonstração de que o parasita perfura células para chegar ao fígado.30:21 Como funciona o Fest (cientistas → público)Dois dias à porta fechada, síntese para a sociedade e perguntas-chave para orientar a investigação.35:26 Propósito, liderança e perguntas finaisViver com sentido, desafios de género na ciência e questões em aberto (inclui memória imunitária).
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Ora, vivam bem vindos ao pergunta simples, o vosso podcast sobre comunicação.
As férias deverão acabaram e estamos de volta para uma nova série de programas, sempre à volta das perguntas e das respostas e de tudo aquilo que está no meio delas, entre as perguntas e as respostas hoje.
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Ouvimos uma cientista que agora dirige um dos maiores centros de investigação portugueses, o gime.
São mais de 500 cientistas em busca de respostas, ora dos grandes problemas fundamentais, ora daqueles pequenos problemas que todos nós padecemos todos os dias.
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É hora de conhecer as perguntas, as grandes perguntas e as pequenas perguntas.
E as perguntas que os cientistas fazem lá entre eles, chamam lhe.
Hipóteses a ciência começa sempre por uma pergunta, porquê compra quê?
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Podem escolher a melhor.
Perguntas que parecem símbolos, mas que abrem mundos inteiros de investigação.
Maria Manuel Mota gosta de lembrar que a boa ciência nasce assim, não de respostas imediatas, mas da capacidade de formular as perguntas certas no momento certo, com os olhos bem abertos para o que ainda não sabemos.
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É a partir desta ideia que nasce o gimfest.
É um novo encontro Internacional em Lisboa, esta semana, que na sua primeira edição é dedicado ao envelhecimento.
E à longevidade.
Durante 3 dias, especialistas de todo o mundo juntam se para discutir um tema que nos toca a todos, como vivemos mais tempo e melhor em Portugal, a Esperança média de vida subiu rapidamente dos 60 para os 70 anos.
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Agora mais de 80.
E não tarda, estamos nos 90 ou 100 anos.
Mas a questão já não é só.
Quantos anos acrescentamos à vida?
É como garantir que esses anos são vividos com saúde, qualidade e propósito.
Criar e dirigir a um festival científico é apenas uma pequena parte do trabalho que Maria Manuel Mota tem de realizar.
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Todos os dias, ela lidera uma comunidade de mais de 500 cientistas na fundação guin, uma instituição criada a partir da fusão do instituto de medicina molecular com o instituto gulbenkian de ciência.
O seu trabalho é recrutar talento, abrir espaço para ideias novas e garantir que cada investigador tem as condições necessárias para formular as suas perguntas e procurar respostas.
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Um retrato da liderança que junta ciência de ponta e gestão humana num ambiente onde a colaboração conta tanto como a competição.
Mas.
Maria Manuel Mota é, antes de tudo, uma investigadora e o seu nome está associado ao estudo da malária, uma doença que continua a matar centenas de milhares de pessoas todos os anos em todo o mundo.
2:54
Passou por Londres, passou por Nova Iorque, trabalhou com alguns dos nomes maiores da biologia do parasita Plasmodium e ajudou a desvendar como este organismo microscópico invade o nosso corpo, chega ao nosso fígado e se espalha pelo sangue.
3:09
Ouvia falar da importância da intuição e até do acaso na investigação.
Sem nunca perder o rigor científico, ouvimos histórias de como uma descoberta pode nascer de um detalhe esquecido ou até de uma conversa inesperada.
E como percebemos como o trabalho de laboratório se cruza com os temas que dizem respeito a todos, envelhecer, viver mais tempo, viver melhor.
3:35
Maria Manuel Mota, cientista.
Hum, Hum, chega para te apresentar.
Claro que sim.
Bióloga na vida, na vida real, agora até mais administradora de cientistas.
Ou eu tenho 11.
Ideia errada.
O que é que tu?
O que é que tu fazes hoje em dia?
Ainda estás lá nos nos nos tubos de ensaio e nos microscópios e.
3:52
Nas grandes impostos ou não, já não faço eu as experiências, mas ainda tenho uma equipa que trabalha diretamente comigo, que faz experiências sobre a área que estamos interessados, que é a malária e o Plasmodium, que é o parasita que causa malária.
E portanto, eu ainda me considero que digamos o que eu sou, eu sou cientista, porque cientista é uma forma de estar e portanto, que eu sou sou cientista, tenho.
4:15
Esta equipa, mesmo antes de de ser, digamos, a administradora da da fundação gimmy EE, ser CEO ou como agora lhe queiram chamar diretor ou o que quiserem.
Eu já não fazia eu própria as minhas experiências, mas tenho uma equipa que ou no qual eu converso.
4:34
Discutimos o que experiências têm que ser feitas quando os resultados surgem, discutimos os resultados que surgiram e, portanto, somos uma equipa que trabalha em conjunto para resolver questões sobre o parasita da malária.
Dizendo isto, é verdade que desde que a fundação game foi criada e eu fiquei à frente, o tempo é menor para a ciência e, portanto, tem uma parte de criação de uma nova instituição que o.
5:02
Que é que é o game para as pessoas que não sabem, porque é 11, instituição muito nova.
Que muito nova, ainda não tenho um ano sequer mesmo ou de operação.
É uma nova fundação, portanto, chama se fundação gim, e o gim vem do inglês, o gulbenkian Institute for molecular Medicine.
5:20
E apesar de ser uma instituição muito nova, tem 11 lado muito antigo, porque no fundo criou se foi uma.
É uma instituição nova, criada do do zero.
Mas sobre o legado do instituto de medicina molecular e o instituto de gulbenkian de ciência, o instituto de gulbenkian de ciência, para os que nos ouvem é é o instituto.
5:41
Mais antigos de investigação do país, foi criado em 1961.
Então vale a pergunta, porque é que 2 institutos que têm tradição de investigação em Portugal, nomeadamente o instituto gulbenkian, se decidem juntar e criar 1 MB, 1 MB?
Estrutura não estamos no tempo de fazer coisas mais ágeis e ligeiras?
5:59
Claro, sem dúvida.
Mas nós não somos 1 MB estrutura.
A fundação que não é 1 MB estrutura, não foi para criar 1 MB estrutura.
Foi para criar uma estrutura diferente, extremamente ágil, ou seja, muito mais ágil.
Esperamos nós de que as 2 estruturas anteriores, porque as estruturas em si, quando começam a ter um certo tempo, et cetera, começam obviamente também a sofrer de estagnação dos vícios do meio da outra e, portanto, isto foi, digamos, um refrescar a razão porque as 2 se juntaram, podia se ter refrescado as 2, obviamente, e não era preciso haver a fusão.
6:33
A razão porque se fundiram as 2 é porque os fundadores do uma e da outra.
A fundação calouste gulbenkian, por um lado, e por outro lado, os fundadores da do instituto de medicina molecular, que eram a universidade de Lisboa, a faculdade de medicina, o hospital
A psicóloga e investigadora Tânia Gaspar tem dedicado a sua vida ao estudo do desenvolvimento infantil e juvenil. No episódio [ESSENCIAL] revisitamos uma conversa urgente: como falar com os adolescentes de hoje, num tempo em que a escola, a família e a própria sociedade parecem falhar no apoio de que mais precisam? Como comunicar com os adolescentes hoje? Tânia Gaspar [ESSENCIAL]
Gaspar traça um paralelo revelador: no sistema de saúde, quanto mais grave é a doença, mais investimento é feito no doente. No sistema educativo, acontece o contrário — quanto maiores são as dificuldades, mais o aluno é deixado para trás. O insucesso escolar em Matemática, com turmas inteiras a reprovar, é apenas um sintoma. Não se trata de falta de inteligência ou empenho, defende a psicóloga, mas de falhas estruturais que não resgatam os alunos a tempo.
A escola, que deveria alimentar a curiosidade natural das crianças, transforma muitas vezes a aprendizagem em frustração. O resultado é um ataque à autoeficácia — a confiança em si próprio. “Todas as crianças conseguem aprender, desde que saibamos identificar onde está o bloqueio”, sublinha. A pandemia agravou este cenário, sobretudo entre os que entraram no 1.º ciclo durante confinamentos, sem contacto humano e sem estímulo social.
Mas o problema vai além da escola. Crianças e adolescentes lidam com inseguranças emocionais que se manifestam ora em agitação e agressividade, ora em retraimento silencioso. Em ambos os casos, são frequentemente ignorados ou rotulados. Gaspar insiste na necessidade de olhar para o que está por trás do comportamento, em articulação entre pais e professores.
E em casa? A psicóloga chama a atenção para a “vinculação” — o vínculo afetivo construído nos primeiros anos de vida. O uso excessivo de ecrãs, desde cedo, pode corroer esse laço, substituindo o olhar e o colo por distrações digitais. A ausência de uma “literacia parental”, que prepare os pais para as etapas previsíveis do desenvolvimento, deixa-os sem ferramentas para lidar com as crises de cada idade.
Na adolescência, comunicar é um exercício de equilíbrio: não impor, mas estar presente; não julgar, mas ouvir. Muitas das conversas mais importantes, lembra Gaspar, surgem em momentos informais — no carro, na cozinha, no fim do dia. Transformar cada partilha numa reprimenda só gera silêncio e afastamento. Se os jovens deixam de confiar, passam a esconder.
A psicóloga lembra ainda a coincidência entre a crise da adolescência dos filhos e a “meia-idade” dos pais, muitas vezes em turbulência pessoal. Esta “tempestade perfeita” pode fragmentar famílias, mas também pode ser uma oportunidade para reinventar relações e prioridades.
No fim, a mensagem é clara: os adolescentes não são o problema. O problema é a falta de condições, tempo e escuta que lhes oferecemos. “Eles têm uma enorme capacidade de reflexão e consciência”, afirma Tânia Gaspar. “Precisam apenas de espaços seguros para o mostrar



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Não consegui parar de ouvir e quando acabei comecei outra vez.